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Capítulo 4 — A Égua e a Elfa

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Capítulo 4 — A Égua e a Elfa

Medéia, Capital de Grande Griffin.

Atrás de uma mesa, lendo e assinando papéis com uma expressão entediada estava um elfo. De cabelos claros como o sol e compridos o bastante para alcançarem seus ombros, os olhos verde-musgo parecendo cansados com a leitura. Largou a pena que usava para escrever, e encarou a adaga colocada em exibição na parede.

Era uma bela adaga, de lâmina prateada que parecia emitir brilho próprio, couro preto envolvendo seu cabo com firmeza e pequenas gravuras estavam na guarda e lâmina, mas o elfo nunca conseguiu entender o que eram as gravuras. O elfo suspirou pesadamente.

— Senhor Vaedhion! Alteza! — Exclamou um serviçal que se aproximava com urgência em seus passos. — Moeda escapou mais uma vez!

Vaedhion olhou para o serviçal, pensou por um curto momento o que dizer.

— Mande Kayla buscar ela, não posso deixar Moeda muito tempo fora nesse inverno.

— Alteza…se me permite, Moeda é só uma égua. Por que não só comprar outra ao invés de ter que lidar com as fugas constantes dela?

O olhar do elfo ficou mais firme, até mesmo um tanto bravo com a fala do serviçal. Ele se levantou da cadeira, Vaedhion era um homem alto, fisicamente imponente também.

— Aquela égua esteve comigo por anos, cresci junto à ela. Não fale mais besteiras desse tipo, não vou abandonar ela por isso.

O serviçal engoliu em seco, e se curvou para seu mestre.

— Sinto muito, Alteza. Vou avisar Kayla.

— E então, como ficou? — indagou Ti’metios, observando sua mais recente criação, a muleta de Frederick.

Frederick estava com o ombro esquerdo apoiado na muleta de madeira, aprendendo a usar ela. Darian observava logo atrás do vampiro. Eles estavam do lado de fora da casa, com outros aldeões “espiando” o que estava acontecendo, já estavam mais acostumados à presença de Ti’metios no local.

— Bem mais confortável que a primeira! — Essa já era a terceira muleta que Ti’metios teve que esculpir e lixar, um processo que tomou oito dias de trabalho. Frederick andava de um lado para o outro, um tanto rígido e lento mas melhor do que saltitar em uma só perna.

— Finalmente! — Ti’metios agitou o punho em uma curta comemoração. Chutou a neve que estava acumulada no chão, mandando uma nuvem gelada em Darian. — Toma essa! Eu falei que não ia ter que fazer uma quarta muleta!

Darian deu um simples passo para o lado, e de repente havia uma bola de neve no rosto do vampiro. Os aldeões riram levemente da cena enquanto Ti’metios limpava o rosto.

— Está muito ousado para alguém dentro do meu alcance.

— Não fiz nada.

Essas estranhas discussões entre os dois também se tornaram parte da rotina no feudo, Darian ganha a maioria delas. Ti’metios abriu a sua boca para falar, mas parou de repente, encarando o portão da vila.

— Acho que ouvi alguma coisa — afirmou o vampiro, em estado de alerta.

— Ei, espera aí-Luke, sai da frente! — Lloyd e Luke estavam na guarda mais uma vez, protegendo do lado de fora dos muros. O portão foi aberto à força por um cavalo.

A criatura não era de forma alguma um cavalo convencional. Apesar de seu tamanho ser convencional para um cavalo de guerra, seu físico parecia muito superior à qualquer cavalo nos estábulos de Valerius. Sua pelagem era negra, refletindo um brilho metálico azul com a luz natural. A besta corria como se não houvesse amanhã.

Os aldeões saíram da rua e do caminho do animal que deixou um rastro poderoso na neve. Darian preparou sua espada, mas foi surpreendido vendo o vampiro correr em direção ao animal e saltar nas costas do cavalo.

— Moeda! Se acalme! — exclamou Ti’metios, segurando na crina da égua que logo parou seu avanço. O vampiro desceu de Moeda, que esfregou o focinho no peito dele com carinho e começou a saltitar com as pernas de trás por animação. — Por Zygfrid, esteve me procurando esse tempo todo?

Os espectadores observavam confusos a cena, o Vampiro não havia demonstrado suas habilidades dessa forma antes. Como conhecia a égua? Porquê ela obedeceu na mesma hora?

Moeda mordeu a gola de Ti’metios, tentando puxar ele para subir em suas costas novamente. O vampiro montou na égua.

—Já entendi, conversamos depois. Mostre o que precisa da minha atenção, garota. — Ele olhou Darian. — Já volto. — A dupla saiu disparada do local, deixando os aldeões e a confusão para trás.

O Cavaleiro rangeu os dentes ao ver Ti’metios sair sem mais nem menos, correndo até os estábulos e subindo em um dos cavalos ele partiu atrás do vampiro e a égua misteriosa, seguindo o caminho deixado por eles na neve.

O vampiro e a égua estavam na frente, o homem olhando adiante buscando o que Moeda desejava mostrar. Não demorou para se revelar, o cheiro de sangue invadiu suas narinas. Não era sangue humano, era sangue élfico que vinha de uma única fonte, atrás da pedra.

Um semicírculo de homens equipados em armaduras leves e bestas cercavam uma grande pedra, se aproximando com passos pequenos de seja lá quem se escondia atrás dela. Duas figuras se destacavam para o vampiro.

Um deles usava equipamento de alta qualidade, mas sua armadura era composta por peças de conjuntos diferentes em um estranho “frankestein” de aço. A sua arma, uma espada curva com lâmina fosca, quase branca que intrigou Ti’metios. De cabelos acinzentados, pele morena e presença forte, ele era sem dúvida o mais perigoso ali.

O outro era um homem enorme, não tanto quanto o falecido Santo da Lança, mas ainda muito maior do que a média. Sua armadura era pesada, e em suas mãos carrega um machado de duas mãos que esmagaria sem muita dificuldade um crânio.

— Moeda, sabe o que fazer. — Ti’metios se levantou nas costas da égua, ficando com os pés em cima dela. Enquanto Moeda colidia com os mercenários causando caos, ele deu um salto em direção ao maior dos homens.

Foi surpreendido ao se encontrar de repente tendo que chutar a lâmina branca para não ser atingido, viu uma fina camada de gelo se formar na ponta de seu sapato. O de cabelo cinza havia interrompido seu ataque surpresa, e quase acertou o vampiro, que mesmo enfraquecido não era algo que ele esperava acontecer.

— Não está prestando atenção nos arredores, Colosso. — Disse o homem para Colosso, que Ti’metios achou ser um nome ridículo. O da espada observou o vampiro com surpresa por defletir seu ataque em pleno ar.

— Eu estava prestes a partir ele em dois! Você me atrapalhou, Voron! — Respondeu o do machado, erguendo sua arma e se preparando.

Ti’metios ergueu suas mãos, ficando com elas abertas em uma postura desconhecida para os dois combatentes. Os outros mercenários estavam distraídos com Moeda que estava os derrubando e chamando a atenção deles para longe dos três.

Colosso exibia um sorriso sádico de frente para Ti’metios, enquanto Voron parecia apreensivo, uma inquietação sobre aquele pequeno homem ocupava o fundo de sua mente.

O som de cascos de cavalo, não vindos de Moeda, se aproximou rapidamente da cena. Darian desceu do cavalo com urgência carregando sua espada longa e ficando ao lado de Ti’metios.

— O que pensa que está fazendo saindo assim?! E que pose é essa?! — Exclamou o de cabelos prateados, irritado de sair apressado no inverno atrás de um problema que nem era dele.

— Foco no que está na sua frente, pivete. — Respondeu o vampiro.

Voron avançou em direção à dupla, um corte horizontal fez o dois se afastarem um do outro, não muito mas suficiente para que começasse a atacar Darian com velocidade. Ti’metios tentou interromper mas foi impedido pelo machado de Colosso que partia em direção à sua cabeça.

O vampiro guiou o ataque para longe com sua mão aberta, e chutou o estômago de Colosso com força suficiente para fazer com que fosse lançado alguns metros para trás.

— Hah! Achei que você já teria morrido com essa! — O grande homem pareceu entretido, sua armadura dissipou parte do golpe, mas ele definitivamente sentiu a força vampírica de Ti’metios.

Os olhos atentos do Campeão estudaram por um breve momento Colosso, cada pequena abertura que podia enxergar, cada ponto mais frágil da armadura que poderia acertar. Não queria levar tempo demais com alguém tão fraco.

— Me divirta então, fracote! — disse o vampiro. Surpreendentemente sendo ele que avançou contra Colosso em um impulso poderoso que assustou o maior. As mãos de Ti’metios se tornando em um instante poderosas armas mesmo sem as garras, forçando aquele brutamontes a ficar na defensiva.

Darian se defendia dos golpes de Voron com dificuldade, sua espada com cada contato parecia ser coberta em uma fina camada de gelo onde a lâmina branca acertava. Suas mãos ficavam mais frias e cada vez mais dormentes, a sua defesa iria ceder para a rigidez muscular se continuasse assim.

Os olhos do cavaleiro se acenderam em dourado de repente, forçou a lâmina do de cabelos cinza para fora do caminho e se afastou o suficiente para respirar um pouco. A ponta de sua espada apontada para seu inimigo.

— Você é só uma criança — Voron afirmou, andando em círculos ao redor do cavaleiro como se a qualquer instante fosse atacar. — Mas é um cavaleiro, deve acreditar em coisas como honra e carma. Saia daqui e descarte essas ideias enquanto tem tempo.

— Que presunçoso. — O jovem manteve sua defesa firme, uma sensação estranha sobre o homem à sua frente. Foi ele quem investiu dessa vez, uma rajada de cortes que estavam sendo defletidos pelo mais velho sem muita dificuldade. Mesmo enquanto Darian parecia ficar mais veloz e seus olhos brilhavam com mais fervor, Voron permanecia na vantagem.

O grisalho saltou para trás e chutou a neve, tal qual Ti’metios havia feito mais cedo, mas essa não formou uma nuvem pequena de neve apenas para brincar, atrapalhando completamente a visão de Darian como se fosse uma bomba de fumaça.

No canto de sua visão, o cavaleiro percebeu a lâmina branca indo como uma serpente em direção ao seu pescoço. Se lançou para trás em um movimento desesperado para se esquivar.

O embate de Ti’metios estava desigual, cada tentativa de contra ataque de Colosso era meramente desviada como se não fosse mais do que uma criança empunhando um graveto enquanto o menor seguia atacando. E de fato era assim que o vampiro via aquilo, muita força mas pouca mente por trás de cada golpe. Mas ainda assim a armadura seguia protegendo Colosso, e Ti’metios não tinha como fazer muito para anular a defesa.

— Moeda! — Ele recuou e chamou pela égua que passou entre os dois enquanto Colosso estava confuso, mas assim que a égua parou de tampar a visão não havia sinal do vampiro.

— Mas como- — Colosso não teve tempo de terminar sua frase, sentindo algo segurando seu queixo e empurrando sua cabeça para cima. Em suas costas estava o Campeão, com as afiadas presas brancas apontadas para o pescoço do brutamontes. Os dentes cravaram no pescoço, o sangue extraído de forma rápida alimentando Ti’metios que logo se soltou do cadáver.

Sua atenção se voltou para Darian e Voron, mas ele percebeu algo urgente.

— Precipitado! — exclamou o grisalho com sua espada indo em direção ao peito do cavaleiro. Darian estava com sua base sem firmeza e sua guarda fraca naquele momento, Ti’metios começou a correr em direção à Voron para tentar o impedir, mas estava longe demais para fazer isso a tempo.

Uma luz azul irrompeu, Ti’metios sentiu o cheiro de sangue élfico ficar um pouco mais intenso e então um raio atingiu Voron. A origem desse raio não foi o céu no entanto.

— Não é tão arrogante agora, não é?! — Exclamou uma voz que diferente da maioria ali, não era de um homem. Revelada de trás da pedra onde se escondia, com cortes de aparência congelada e ferimentos de flechas que provavelmente arrancou pouco tempo atrás, estava uma elfa. Seus cabelos púrpura e olhos cinzas eram completamente fora do comum. Mas não que alguém se importasse com isso naquele instante.

Voron estava de pé, seu braço parcialmente queimado mas ainda totalmente funcional. Darian já estava de volta em sua base firme, os outros mercenários haviam fugido por medo de Moeda e Ti’metios que eles puderam ver sugar o sangue de Colosso, Ti’metios estava se aproximando e agora a elfa também estava presente. Desvantagem total para ele.

Ele ergueu a lâmina branca, que brilhou por um momento e então a neve do local se levantou como uma tempestade. A visão de todos foi obstruída e então…ele não estava mais lá, sequer deixando pegadas de onde havia ido.

Os três se encararam, sem saber que palavras usar. Moeda se juntou à eles, e foi imediatamente para perto da mulher ferida, como se conferisse como ela estava.

— Moeda! Você está bem garota? — A elfa acariciou a égua que relinchou alegre em resposta, bateu seus cascos de leve no chão. — Que ótimo!

Moeda então se afastou dela e ficou ao lado de Ti’metios, a elfa parecia confusa com o que via. Darian em particular parecia bem mais confuso, porque ele não entendia nem de onde veio Moeda.

— Era isso que queria que eu visse, Moeda? — questionou o vampiro.

Moeda abaixou a cabeça e cutucou ele com o focinho, como quem dá uma ordem.

— Preciso mesmo?

A égua bufou, e bateu o casco de forma imperativa. Darian observava um tanto impressionado de ver um cavalo dando ordens sem falar nada.

— Eu me chamo Ti’metios, sou o dono de Moeda. — Ele se apresentou, a elfa ficou boquiaberta. O cavaleiro, de escanteio naquela conversa, apenas ficava mais confuso e aos poucos desistia de entender até que alguém explicasse toda aquela situação.

— Dono da Moeda?! Você não parece velho o suficiente para sequer ter visto ela antes!

— A aparência engana.

A égua se aproximou da elfa, e cutucou ela com o focinho também. A mulher respirou fundo por um momento e então começou a falar.

— Eu sou Kayla, e sou…

O silêncio de repente tomou conta daquela conversa, Moeda, Ti’metios e Darian observaram Kayla completamente estática e então…ela caiu, desacordada.

— Ah é, as feridas. — O vampiro tornou a olhar Darian. — Vamos levar ela para a vila, tratar disso.

— Imaginei que sim — disse o cavaleiro. Vendo Ti’metios colocar Kayla no lombo de Moeda. Ele foi até sua própria montaria. — Conhece ela?

— Nunca vi.

— Vai me explicar o que foi tudo isso?

— Quando chegarmos.

Assim eles retornaram, Darian com uma série de perguntas para fazer ao vampiro. E o vampiro com uma série de perguntas para fazer à elfa.