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Capítulo 7 — Danificado

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Capítulo 7 — Danificado

O céu estava mais escuro do que o normal, a neve caindo em quantidades cada vez maiores e anunciando a tempestade iminente. O quarteto seguia adiante; Darian, Kayla e Aurelyn montados em seus cavalos, que não pareciam ter tanta dificuldade em atravessar o terreno.

Ti’metios, no entanto, estava tendo problemas com o chão liso, seus pés escorregando constantemente por conta das botas de tamanho errado, além das mangas que ele precisava ajustar a cada poucos minutos por passarem um pouco de seus pulsos.

— A gente vai ter que procurar um abrigo logo, a tempestade está próxima e o vampiro está ficando pra trás — disse o cavaleiro, olhando de soslaio para o mais velho, que caminhava com certo esforço.

A morena, apesar de suas roupas e da temperatura congelante, parecia não se incomodar. Montada em cima de Moeda, que mastigava a neve, perguntou:

— Senhorita Kayla, tem algum lugar para nos abrigarmos na região?

Kayla estava tremendo levemente; pareceu murmurar um xingamento quando um floco de neve conseguiu invadir seu casaco e atingir sua nuca.

— Uh? Ah, deve ter uma caverna, mas ainda restam alguns minutos até chegarmos lá.

— Pessoal, uma pergunta. Por que a gente é tão colorido? — Darian questionou de repente.

As mulheres voltaram o olhar para ele, trocando olhares entre si; não haviam reparado na variedade de cores do grupo. Nenhuma delas, no entanto, tinha uma resposta concreta para isso.

— Coincidência, eu acho — Aurelyn deu sua teoria.

Alheio à conversa, Ti’metios observava a estrada que seguiam. Uma sensação estranha sondava sua mente: era definitivamente o mesmo local de sua época, mas mudado o suficiente para parecer outro lugar. Como ver uma imagem sutilmente errada, mas não saber apontar o que está incorreto.

E, então, uma presença incômoda atingiu seus sentidos: um cheiro de besta selvagem e um sutil rosnado que se aproximava rapidamente.

— Atenção, tem algo… — Mas ele não conseguiu terminar a frase, pois um enorme vulto surgiu das árvores em sua direção. Em um instante, revelou-se a aparência da presença que sentira: uma bizarra mistura de humano e lobo, com grandes presas. Um autêntico licantropo.

O lobisomem colidiu com o vampiro, arrastando-o para a floresta. Os três que ficaram rapidamente voltaram sua atenção para trás, avistando apenas um vislumbre dos dois sumindo de vista.

— Ti’metios! — Aurelyn exclamou. Ela pretendia ir com Moeda atrás dele, mas o licantropo havia atravessado entre as árvores densas e a neve funda; a égua não passaria por ali. A mulher desceu da montaria e ordenou aos dois: — Sigam adiante com os cavalos, eu vou atrás deles!

E, simples assim, ela correu atrás do rastro deixado na neve.

— Vamos antes que fique impossível atravessar a estrada — Kayla falou enquanto seguia adiante. Moeda a seguiu com hesitação. Darian permaneceu ao seu lado.

— Acha que eles vão ficar bem?

— Provavelmente.

O farfalhar de folhas era escutado por Ti’metios, que ainda processava sua situação atual, sendo empurrado floresta adentro por um lobisomem que mantinha seu braço esquerdo preso entre os dentes afiados fincados em sua carne.

Ergueu a mão direita e golpeou os olhos do licantropo, que ficou desnorteado por um instante. Foi o suficiente para o vampiro soltar seu braço das presas e se afastar da criatura. Sentiu a neve encostar em seus pés; as botas haviam sido perdidas em algum trecho da floresta.

Havia algo naquela situação que incomodava profundamente Ti’metios e o seu conhecimento sobre seres amaldiçoados como aquele. Lobisomens, quando caçam, atacam o alvo que consideram mais fraco.

— Você é muito ousado. — O pequeno mostrou suas garras para o licantropo, sentindo seu peito pulsar com um estranho ardor. — Vou dar cabo de você rápido.

A criatura rosnou, a baba escorrendo dos cantos de sua boca. Sem sequer hesitar, avançou contra o vampiro, balançando seus braços com a velocidade sobrenatural vinda de sua maldição. As garras ameaçavam partir Ti’metios em pedaços, golpes dos quais ele desviava sem dificuldade aparente enquanto esperava apenas uma boa oportunidade de contra-ataque.

Mas, aos poucos, o ardor em seu peito começou a incomodar; ele sentiu seu corpo responder com menos eficiência a cada desvio que fazia. Em um ato arriscado, defletiu um golpe com suas garras e chutou o lobisomem para longe, cravando a marca de seu pé no estômago da besta, mas isso não impediu que a criatura rasgasse seu braço direito antes de ser lançada contra uma árvore.

— O que… está acontecendo? — Ti’metios cambaleou, com a mão esquerda agarrando o peito com força. O ardor logo se tornou reconhecível: um efeito colateral das chamas douradas. Sua respiração ficou fora de ritmo mesmo que ele tentasse tomar o controle de si, e suas pernas cederam, fazendo-o ajoelhar-se. Sua visão estava escurecendo; não tinha muito tempo até perder a consciência.

O licantropo se recuperava da pancada contra a árvore, vendo sua presa enfraquecida. Saltou contra o ruivo, as garras mirando seu pescoço para uma finalização rápida. A última visão que o pequeno teve foi de pequenas chamas negras que entraram na sua frente.

— Delling? — A palavra escapou, e então ele apagou.

O som de sangue atingindo a neve era sutil, quase inaudível. As garras do licantropo pairaram no ar por um instante até que abaixaram sem forças. Posta entre os dois amaldiçoados estava Aurelyn, com sua lança atravessando o coração do lobisomem; fagulhas negras saíam da ferida aberta.

Ela retirou a lança com cuidado e colocou o licantropo deitado na neve. Sua atenção se voltou para o vampiro largado no chão; seus ferimentos se fechavam rapidamente, até não deixarem sequer uma cicatriz.

— Desde quando você perde pra esse tipo de coisa, Metios? — A morena se abaixou e cutucou a bochecha dele com o indicador. A ausência de resposta por parte do vampiro não era bom sinal. Recolheu-o com cuidado e o apoiou em seu ombro. — Vamos, a Moedinha deve estar preocupada com você.

Seguindo o caminho de volta para a estrada principal, Aurelyn foi adiante acompanhando o rastro deixado pelos cavalos, que aos poucos era apagado pela tempestade. Apenas conseguiu identificar onde estavam quando avistou a luz de uma fogueira dentro de uma caverna, onde Darian e Kayla aguardavam, aquecendo-se. Os cavalos estavam perto da entrada. Moeda andava em círculos curtos sem parar, inquieta, até sentir o cheiro de seu mestre e correr para recebê-lo.

— O que foi que aconteceu com ele? Achei que ele não dormia — o cavaleiro indagou, aproximando as mãos do fogo enquanto analisava os rasgos na roupa do vampiro.

— Ele decidiu tirar um cochilo no meio da luta — Aurelyn respondeu, colocando Ti’metios no chão. A respiração dele permanecia em um ritmo descontrolado, ofegante. Moeda se aproximou e o cheirou, sem demonstrar sua usual alegria.

— Sério?

— Claro que não — Kayla interrompeu. — Então por que ele está assim?

— Não sei não, mas definitivamente não é por conta do lobisomem. Quando consegui alcançar, só vi o Metios desmaiar. — Aurelyn colocou sua mão no centro do peito do vampiro, e uma fraca luz branca surgiu em sua palma. Os outros a observaram em silêncio enquanto terminava o que estava fazendo. Ti’metios, por um momento, debateu-se de forma violenta logo antes da morena retirar a mão. — Credo.

— E então?

— Não tenho teoria alguma sobre o que o deixou assim, mas o problema é definitivamente mágico. — A morena sentou-se próxima da fogueira. — Amanhã acho que chegamos à capital; ele pode descansar direito lá.

O silêncio instaurou-se por alguns segundos enquanto o trio encarava Ti’metios em seu estado lamentável. Darian puxou a respiração e, então, perguntou:

— Ele é mesmo tudo o que diz ser? Não me levem a mal, mas não parece que ele comandava exércitos e enfrentava Santos. Eu nunca ouvi falar nele. — O cavaleiro olhou para Aurelyn, curioso, porém ainda descrente da história do vampiro.

— Eu também não, e Lorde Vaedhion supostamente serviu diretamente a ele — a elfa adicionou, igualmente curiosa.

— Bom, é uma história muito, muito longa e bem mais velha que vocês. — Ela apoiou o rosto na mão, suspirando fundo. — Não é surpresa não terem ouvido falar se nunca foi necessário falar sobre ele. Ele não é lembrado por reinos humanos, mas os reinos élficos e o Império Felstari definitivamente se lembram dele. Só… que ele costumava ser bem mais forte antigamente.

— Ainda acho difícil de acreditar — Darian falou. O vampiro já havia demonstrado habilidade, mas nada que o fizesse crer naquilo.

— E nem precisa acreditar. Conheça-o e forme suas próprias opiniões. O passado é história. — Aurelyn deitou-se ali, com os olhos já fechados. — Eu vou dormir, essa tempestade tá me dando um soninho.

Os outros dois se encararam, pensando sobre a mesma coisa.

— Pedra, papel e tesoura pra quem fica de guarda primeiro? — o cavaleiro sugeriu.

— Tô dentro. — Kayla colocou o punho à frente.

E, após uma curta partida de três rodadas, Darian foi quem pegou o turno de vigia primeiro. A noite passou tranquila após o fim da tempestade, com Ti’metios ainda desacordado e inquieto, e Moeda ao seu lado.

Mas a viagem segue, com o vampiro colocado no lombo de sua fiel égua. O trio logo chegaria a Medéia, onde a jornada continuaria.