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Capítulo 9 — Herdeira da Fênix

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Capítulo 9 — Herdeira da Fênix

Em uma pequena sala de reuniões, Kayla estava ao lado de Vaedhion, que se encontrava sentado em uma poltrona de couro, de frente para as duas companhias trazidas por Ti’metios e Kayla. Aurelyn estava com suas pernas cruzadas, enquanto Darian estava tenso. Ti’metios havia sido colocado em um quarto separado após a comoção, para que repousasse direito.

— Bom, acredito que devo agradecer a vocês por trazerem Kayla e meu pai até aqui em segurança.

— Eu não fiz parte do resgate dela, é crédito do jovem aqui! — Aurelyn bagunçou o cabelo de Darian, que demorou um pouco para processar e responder.

— Não foi nada! Sério, nem precisa agradecer!

— Não precisa ficar nervoso, e eu insisto em agradecer. Vou mandar uma recompensa para seu senhor pelos serviços prestados e pelo cavalo. — Vaedhion observou que havia uma pergunta na mente de Darian e Kayla, sem dúvida a mesma: — Vão em frente, perguntem.

Os dois se encararam por um momento, e Kayla falou:

— O vampiro… digo, o Senhor Ti’metios é seu pai mesmo?

— Não por sangue, se é essa a dúvida. Ele me criou desde que eu era pequeno. Bem, ele, o falecido Duncan e vários dos nossos soldados da época. Mas principalmente ele. — Seu olhar voltou-se para Aurelyn, que não parecia surpresa com aquilo. — Ainda não sei quem é você, no entanto.

— Aurelyn, uma humilde andarilha ao seu dispor! Fui eu quem impedi que o Metios virasse papa de lobisomem.

Vaedhion examinou a morena com atenção; sua curiosidade havia sido acendida pela desconfiança daquela mulher em sua frente.

— Senhor, é uma honra conhecê-lo pessoalmente! Sempre ouvi histórias do Sentinela e me inspirei em ser um protetor dos mais fracos como você! — Darian falou sem pensar muito, seu rosto sendo tomado por vermelhidão logo em seguida. Mas o comentário foi respondido com um sorriso gentil de Vaedhion.

— É bom saber que a geração atual ainda se inspira em mim para crescer fazendo o bem. Você parece um garoto com um futuro brilhante, ficarei atento a notícias suas. — Ele se levantou da poltrona e olhou para Kayla. — Poderia, por favor, levá-lo a um dos quartos de visita? Acredito precisar de uma conversa a sós com a senhorita Aurelyn.

— Certamente. Darian, por favor, me acompanhe. — Kayla abriu a porta, saindo do recinto com o cavaleiro.

Restando Aurelyn e Vaedhion na sala, o olhar do elfo se estreitou. Não entendia a confiança dela, nem como parecia saber demais para uma andarilha.

— Esperava mesmo me convencer com a história de andarilha?

— Valeu a tentativa. — Aurelyn se levantou, andando pela sala, despreocupada.

— Quem é você?

A morena estava observando uma pintura que demonstrava um meio-elfo de cabelos grisalhos curtos: o Tenente-General Duncan, a mão direita de Ti’metios.

— Não menti sobre nada do que eu disse. Me chamo Aurelyn, e eu sou mesmo uma andarilha.

— Seja direta ou assumirei que é um risco para a vida de meu pai. — Os punhos de Vaedhion se fecharam com firmeza, uma ameaça clara.

Ela fez bico olhando para o elfo.

— Se fosse de sangue, você não tinha puxado tanto o Metios. — Aurelyn abriu sua mão, a palma virada para cima, e em cima dela um pequeno amontoado de chamas negras se formou. — Reconhece isso?

Os olhos do elfo ficaram arregalados, encarando o fogo negro que ele reconhecia de vagas memórias de um amigo de Ti’metios.

— Chamas negras?! Você absorveu a Fênix Negra?! — Com um passo pesado dele, a mansão inteira sentiu um leve tremor.

— Espera aí! Deixa eu explicar! — Ela apagou as chamas, olhando para Vaedhion. — Eu não absorvi o Delling, longe disso. Nós éramos amigos!

— Amigos? — A pressão exercida pelo elfo diminuiu levemente.

Aurelyn soltou a respiração; não desejava ter que enfrentar Vaedhion por conta de um mal-entendido.

— Isso foi bem depois do fim da Guerra Santa. Eu sou originária de Vizema. Encontrei Delling quando eu era criança em um bosque perto do meu vilarejo, nós viramos amigos e eu o visitei durante vinte anos. Ouvi histórias sobre o passado e tudo o mais. A velha fênix estava contente em ter companhia depois que o Ti’metios havia morrido.

Vaedhion deslizou a mão pelos cabelos. A quantidade de informações que estava tendo que processar em um mesmo dia era… no mínimo, preocupante.

— Quando a guerra civil de Vizema se iniciou, minha vila acabou virando alvo de saque do exército republicano. No caos, eu fui atingida por uma flecha bem aqui. — Aurelyn apontou para sua costela esquerda; a flecha teria atravessado seu pulmão. — Me arrastei o mais próximo que pude do bosque, Delling expulsou o exército de lá e depois…

— Ele cedeu sua essência para te salvar da morte — o elfo completou.

— Exatamente. Desde então eu carrego pedaços dele comigo, às vezes suas memórias se mesclam com as minhas.

— Você já tem mais de trezentos anos, então… Meu pai sabe disso?

Aurelyn assentiu negativamente.

— Não queria simplesmente jogar isso nele sem pensar. Ele já tem coisa o suficiente para lidar só de ter acordado.

— Sabia que ele estava vivo?

— Não, eu estava apenas indo visitar o local da última batalha. Foi sorte eu tê-lo achado na estrada.

O elfo se sentou novamente, a mão esfregando o queixo como se aquilo ajudasse a processar os acontecimentos daquela manhã.

Aurelyn ficou olhando para Vaedhion, e comentou:

— Pelo que sei dele, vai querer te ajudar com a situação do pessoal que quer te atacar.

— O que tem de errado com ele, afinal?

Ela encolheu os ombros, sem uma resposta concreta para aquela pergunta.

— Só sei que é um problema originado de magia.

— Ele não está em condições de fazer qualquer coisa além de se cuidar no momento — Vaedhion afirmou. Sua mente se voltou para o vampiro adormecido a apenas alguns cômodos de distância.

— Consigo imaginar onde podemos achar ajuda para ele, mas acho que ele não vai curtir as ideias. — A morena se inclinou levemente para frente. — O Império Felstari pode ter alguém que entenda disso, a segunda opção seria a maga da Torre de Villin.

Vaedhion coçou a nuca um pouco antes de falar.

— Vamos esperar ele acordar antes de falarmos disso. Vou providenciar um quarto na mansão pelo tempo que ficar.

Aurelyn sorriu, agradecida.

— Obrigada. Agora que já resolvemos quem sou, eu vou sair para fazer umas comprinhas enquanto dá tempo! Com licença. — Ela rapidamente saiu da sala, deixando Vaedhion sozinho.

O elfo olhou para o quadro de Duncan; talvez, se estivesse ali, teria uma ideia melhor do que fazer para ajudar Ti’metios. Os conselhos do meio-elfo faziam mais falta do que ele se lembrava.

— Será que eu estou fazendo certo confiando nela? — Vaedhion inclinou a cabeça para trás, encarando o teto claro da sala. — Melhor manter segredo de que ele voltou por enquanto.