Capítulo 8
Capítulo 8
— Foi um alívio o Zack ter vindo comigo — murmurrou Ares, depois de deixarmos a vila e caminharmos um bom trech.
— Mas será que realmente foi o melhor eu ter vindo? Não teria sido melhor um adulto de verdade?
Eu falei o que vinha pensando há muito tempo. É que eu achava que enviar dois garotos de 14 anos para a capital real era um pouco imprudente.
Ao enviar Ares para a capital, decidiu-se que alguém da aldeia deveria acompanhá-lo. Inicialmente, alguns jovens solteiros da aldeia foram sugeridos como candidatos, mas Ares acabou me escolhendo.
No entanto, curiosamente, ninguém contestou essa decisão.
— Se um adulto com quem não tenho muita familiaridade viesse, só ficaria mais difícil. Além disso, são todos do tipo que ficam me exaltando como “herói” e tentam me fazer lutar contra monstros, mas não têm a menor intenção de correr perigo.
Ares proferiu uma crítica aos aldeões, algo que ele normalmente não fazia. Ao ouvir isso, eu me assustei.
De fato, entre os aldeões que haviam sido candidatos a acompanhar Ares na viagem, havia quem estivesse abertamente feliz por não ter sido escolhido. Isso porque sabiam que seria uma jornada perigosa.
Ares raramente fala mal das pessoas, mas, no fundo, provavelmente estava insatisfeito com a atitude dos aldeões.
— Bem, os monstros são fortes mesmo. Meus pais também foram mortos, então ninguém quer lutar contra eles.
Meus pais eram ambos aventureiros e pareciam ter feito da luta contra monstros seu ganha-pão, mas perderam a vida no meio de uma grande batalha contra o exército do rei demônio.
— Mas, se eu me tornar o Herói, terei que lutar contra esses monstros. E ainda por cima, terei que derrotar até mesmo o rei demônio. O que será que é um herói? Eu não queria me tornar nada disso. Mas dizem que, se eu não fizer isso, o mundo vai acabar. É uma história terrível.
Ares soltou uma risada seca.
— … Às vezes, quando eu acordava à noite, minha mãe estava chorando. Na verdade, ela não queria que eu me tornasse um herói.
Eu também sabia disso. Os pais de Ares, que também foram meus pais adotivos, duvidavam da veracidade da profecia. Parecia que, se possível, eles também não queriam que Ares se tornasse o herói.
Mas o avô de Ares, que era o chefe da aldeia, ficou muito feliz e elogiou Ares, e a maioria das pessoas da aldeia acabou aclamando-o como o herói.
— Tudo bem! O Ares consegue! Ele sabe usar espadas, magia arcana e até milagres! Já derrotou vários monstros. Nem mesmo na capital há alguém assim! — Esforcei-me um pouco para falar com voz animada.
— Será mesmo? Na vila de Taliz não há guerreiros, magos ou clérigos profissionais. Resumindo, são todos leigos. Mesmo que alguém se gabe de ser forte nesse meio, não dá para saber como seria na prática.
— Ares…
Fiquei pasmo ao ouvir as palavras de Ares. Apesar de ter estado ao lado dele o tempo todo, eu não fazia ideia de que ele pensava dessa forma.
— Ah, desculpa. Saí um pouco da vila e acabei deixando escapar o que estava pensando. Mesmo tendo decidido seguir como herói, parece que estava ficando desanimado.
A partir daquele momento, Ares deixou de fazer comentários pessimistas. Mas essa conversa ficou gravada na minha memória para sempre.
A viagem transcorreu sem percalços. Nas aldeias por onde passamos, Ares negociava com seriedade, como um adulto, e conseguia água e comida em troca de uma pequena quantia de dinheiro.
Mesmo quando encontrávamos monstros, evitávamos lutar sempre que possível, e só entrávamos em combate quando era absolutamente inevitável.
Mesmo nas lutas, ele garantia minha segurança antes de prosseguir com a batalha de forma calma e firme. Usando com precisão magias de ataque e de cura, e dando o golpe final com a espada, aquela figura realmente só podia ser a de um herói.
Então, estávamos caminhando por uma estrada que atravessava uma floresta densa.
O céu deveria estar azul e limpo, mas as árvores que se estendiam por ambos os lados da estrada eram tão altas que bloqueavam a visão do céu, o que me deixou tomado por uma ansiedade vaga.
Originalmente, era uma estrada que ligava à capital real e tinha tráfego intenso, mas, desde o surgimento do rei demônio, tornou-se uma floresta onde as criaturas mágicas reinavam, e não havia mais ninguém por aqui. De fato, mesmo depois de caminhar meio dia, não cruzei com ninguém.
Por outro lado, o número de monstros era realmente grande; já os encontramos várias vezes, mas Ares derrotava a todos sem exceção.
— Você é mesmo incrível, Ares. Acho que você daria conta sozinho, não é?
Eu também tinha uma espada para me defender, mas não tive nenhuma oportunidade de usá-la. Durante a viagem, servia apenas como parceiro de treino para o Ares.
— Zack, você me superestima demais. É difícil continuar fazendo algo sozinho. É por você estar aqui que consigo seguir em frente. Foi assim quando aprendi a lutar com a espada, quando estudei magia e quando aprendi milagres de cura. No começo, todos os companheiros começam juntos, mas, quando percebem que não está dando certo, vão desistindo, um por um. E, no final, sempre resta só eu e você.
— Mas eu não consegui dominar nem a magia nem os milagres divinos — respondi rindo.
— Foi uma pena, mas você ficou ao meu lado até o fim. Isso já é incrível. É difícil continuar fazendo algo que não dá certo. Para mim deu tudo certo porque sou habilidoso em várias coisas, mas se tivesse dado o mínimo de errado, não sei como teria sido. Talvez eu tivesse desistido no meio do caminho, como todo mundo.
— Não consigo imaginar algo que o Ares não consiga fazer. Mas eu também queria ter aprendido pelo menos uma coisa.
Aquilo era o que eu realmente sentia. Eu me esforcei desesperadamente para, pelo menos, alcançar meu primo em alguma coisa, mas nunca dava certo.
— Até para mim há coisas que não dão certo…
Ao começar a dizer isso, Ares parou. Eu também percebi que algo estava acontecendo, parei e observei os arredores.
Estava silencioso demais. Nem mesmo os sons dos animais da floresta podiam ser ouvidos.
— Ora, você percebeu? Não é à toa que dizem que você é um herói.
Lentamente, alguém surgiu da sombra de uma grande árvore à nossa frente. Era uma pessoa… Mas com pele roxa, corpo musculoso, orelhas que pareciam ter o dobro do comprimento das de um humano e olhos vermelhos como o fogo.
— Fuja! É um demônio! — gritou Ares. Ao ouvir isso, comecei a correr imediatamente para trás.
Demônios. Sendo servos do rei demônio, eles têm uma aparência semelhante à dos humanos, mas sua força e magia são esmagadoramente superiores às dos humanos.
Fugi imediatamente não só por medo dos demônios, mas também porque não queria atrapalhar Ares.
Logo ouvi o som de espadas se chocando. Ares havia começado a lutar contra o demônio.
Eu me joguei para dentro da floresta, mantive uma distância segura e observei a luta por entre as árvores.
O demônio empunhava com as duas mãos uma espada gigantesca, como eu nunca tinha visto antes. E com uma força semelhante a um vendaval.
— Hahaha, ouvi dizer que a profetisa havia encontrado o herói, mas, no fim das contas, ele ainda é apenas um pirralho. Se eu o matar enquanto ele ainda está crescendo, não será nada demais.
Diante dos ataques do demônio, que demonstrava total confiança, Ares se limitava a se defender.
Ares desviava com calma dos ataques que, se acertassem, não só o feririam, mas poderiam realmente matá-lo; e aqueles que não conseguia desviar, ele bloqueava com a espada.
Ares continuava resistindo, enquanto o tempo passava lentamente.
Inicialmente, o demônio demonstrava confiança diante de Ares, que não contra-atacava, mas logo pareceu ficar incomodado.
— Parece que você sabe se defender muito bem, não é? Mas e quanto à magia?
Irritado por não conseguir acertar nenhum golpe, o demônio interrompeu os ataques com a espada, estendeu a mão esquerda para a frente e tentou lançar uma magia.
Ares não deixou isso passar despercebido.
— Ha!
Como se estivesse liberando toda a força acumulada até então, ele avançou com a velocidade de uma flecha e desferiu um golpe rápido na mão estendida do demônio.
Vários dedos do demônio voaram pelo ar.
— Gyaaaah!! Seu pirralho!
Ferido na mão, o demônio imediatamente segurou a espada grande com as duas mãos e tentou contra-atacar Ares.
Mas a espada já não tinha o mesmo efeito de antes. Por ter perdido os dedos ele não conseguia segurar a espada direito!)
Será que Ares estava esperando por isso? Se estava, era incrível!
A partir daí, a situação se inverteu: Ares passou à ofensiva, e o demônio foi forçado a se defender.
Ares nunca tentou desferir um golpe forte, mas aproveitou as brechas do adversário para causar danos contínuos.
— Droga, esse…!
Com inúmeros pequenos ferimentos, o demônio começou a enfraquecer gradualmente, o que era visível até mesmo para quem observava de fora.
A vitória estava ao alcance das mãos, mas, mesmo assim, Ares continuou a lutar com cautela.
E então, ao não conseguir se defender de um golpe certeiro de Ares, o demônio finalmente deixou a espada cair.
Com um estrondo, a espada do demônio caiu no chão.
Sem perder essa oportunidade, Ares brandiu a espada na direção da nuca do demônio.
No entanto, o demônio defendeu o golpe com a mão esquerda, que estava desarmada. A lâmina cravou-se no braço, mas não chegou a cortá-lo completamente ao meio. Pelo contrário, ao tensionar os músculos do braço, o demônio parecia ter engolido a espada.
— Não consigo tirar!?
Pela primeira vez nessa luta, Ares gritou.
— Vou te dar a mão esquerda.
O demônio sorriu maliciosamente, fez uma garra gigantesca crescer na mão direita e atacou Ares.
Ares soltou a espada para tentar se esquivar desse golpe, mas teve o abdômen levemente cortado.
Diante do demônio que continuava avançando, Ares entoou uma magia arcana.
— Vento!
Ele lançou uma magia de vento mirando nos olhos do demônio.
— Tch!
O demônio conseguiu se esquivar da magia, e nesse intervalo, Ares recuou para aumentar a distância.
O demônio retirou a espada que estava cravada em sua mão esquerda e a jogou na floresta atrás dele. Sua mão esquerda estava pendurada, sem força. Provavelmente, ele não conseguia movê-la direito.
Ares estava murmurando algo. Provavelmente, era o encantamento de uma magia. No entanto, as magias que Ares conhecia eram apenas básicos, e eu não achava que fossem surtir efeito algum contra o demônio.
“Isso não vai dar certo!”
Pensando nisso, saí correndo da floresta em direção a Ares. Na mão, segurava minha própria espada.
O demônio começou a se mover. Ares esperou até atraí-lo o suficiente e então lançou uma magia de fogo.
O fogo envolveu a cabeça do demônio, mas ele não se importou e continuou avançando.
Ares conseguiu se esquivar, mas seus movimentos estavam lentos. Será que o ferimento no abdômen que ele sofreu há pouco ainda o estava prejudicando?
— Ares, pegue isso!
Joguei minha espada na direção de Ares.
O demônio ergueu a garra da mão direita.
Ares, com destreza, pegou a espada que girava no ar e, em seguida, mergulhou no peito do demônio, que se preparava para desferir um golpe com a garra, e a cravou profundamente em seu abdômen.
— Consegui!
Sem querer, soltei um grito.
Mas…
— …Você pode ter tomado a minha vida… Mas você vai junto comigo…
Ainda perfurado pela espada, o demônio usou as grandes presas que se projetavam de sua boca para cravar-se na nuca de Ares.
Sangue jorrou com força do pescoço de Ares.
— Ares!!
Meu grito ecoou pela floresta.