Capítulo 7
Capítulo 7
Aquela vila não era nem grande nem pequena, era apenas mais uma das muitas vilas comuns nas montanhas.
Ficava bem distante da capital, levava dez dias até lá, mesmo a cavalo. Lá, as pessoas cultivavam seus campos e levavam uma vida bucólica.
A vila de Taliz. Uma vila que ficou famosa por ter dado origem a um herói.
— Se eu conheço o Ares? Claro! Eu era amigo dele!
Se ele ainda estivesse vivo, eu procuraria alguém da mesma idade de Ares e perguntaria sobre ele.
— Ares sabia fazer tudo desde pequeno. Era forte, rápido e bom nos estudos. Além disso, era bonito e todas as garotas da mesma idade gostavam dele.
Talvez por estar acostumado a responder a perguntas ou a falar sobre o assunto, aquele homem começou a falar sobre Ares com fluência.
— Enfim, ele era incrível. Bastava colocar uma espada nas mãos dele que, num piscar de olhos, ficava melhor do que um adulto; além disso, aprendeu com o padre da igreja e passou a saber usar milagres divinos. E não é só isso, sabe? Ele leu um livro de magia todo surrado que estava na casa do chefe da aldeia e até aprendeu a usar magia arcana. Deixa eu te dizer uma coisa: nem eu, nem mesmo o chefe da aldeia conseguíamos ler o que estava escrito naquele livro. Esses livros são escritos com caracteres especiais, né? Ele estudou e conseguiu ler esses caracteres especiais. Claro que viria a ser um herói!
— O herói já sabia usar a espada, lançar magia arcana e fazer milagres divinos quando estava nesta vila?
— Claro. Você também deve saber, não é? O herói Ares é famoso por saber usar a espada, a magia arcana e até mesmo milagres divinos. Foi por ser uma pessoa tão especial que se tornou herói, não é?
— Por que uma pessoa tão especial se deu ao trabalho de entrar na Academia Falum?
— Por que… Para ser reconhecido como herói, ele não precisava entrar lá? Ou será que foi procurar companheiros? Eu não sei bem. Provavelmente, a vidente deve ter dito para ele ir à capital, não é?
— Vidente? Você está se referindo à profetisa?
— Isso mesmo, é ela. Um dia, de repente, ela apareceu na vila e disse: “Desta vila surgirá o herói que salvará o mundo”. Todo mundo percebeu na hora: “Ah, com certeza, ela está falando do Ares”. “Afinal, ele era mesmo uma pessoa especial”.
A profetisa era conhecida por aparecer em momentos decisivos para o mundo e anunciar suas profecias. Bem, como seu período de atividade ultrapassa mil anos, é duvidoso que seja humana. Também há quem sugira que talvez não se trate da mesma pessoa.
— Ares e a profetisa se encontraram pessoalmente?
— Como foi mesmo? Aquela vidente sumiu logo. Era uma pessoa estranha só de olhar, ou talvez tivesse uma certa imponência… Enfim, era alguém misterioso.
— Após receber essa profecia, Ares partiu para a capital?
— Isso mesmo. Foi mais ou menos assim. Eu pensei: “Ares é realmente incrível”.
— Incrível?
— Bem, hoje em dia já está tudo em paz, mas naquela época os monstros causavam estragos por toda parte, então a jornada até a capital era perigosa. Por causa disso, o comércio ficava interrompido com frequência, e meus pais me contaram que a vida na aldeia era bem difícil.
— Um garoto de 14 anos percorreu sozinho essa jornada perigosa?
— Sim. Bem, acho que ele deve ter pensado que, mesmo que um adulto fosse junto, só serviria de peso. Mas ele chegou lá sozinho. É mesmo um cara incrível.
Despedi-me daquele aldeão de fala mansa e segui para a casa onde Ares nasceu. É a casa do atual chefe da aldeia. Ares era filho do atual chefe da aldeia e neto do chefe que estava no cargo quando ele partiu em viagem.
— Muito obrigada por ter vindo até aqui. Parece que você tem algumas perguntas para fazer sobre o meu filho, Ares.
Talvez por termos combinado o encontro com antecedência por carta, a senhora Shela, esposa do chefe da aldeia e mãe de Ares, me recebeu calorosamente. Ela parecia ter cerca de 50 anos, mas tinha uma postura elegante, e dava para imaginar que, na juventude, tivesse sido uma beldade.
— Como era Ares quando criança?
— Era uma criança exemplar. Desde pequeno, era inteligente e não dava trabalho. Ajudava ativamente nas tarefas domésticas. Era realmente… uma criança maravilhosa.
Shela falou lentamente, com um tom de saudade.
— Dizem que ele era capaz de fazer qualquer coisa, não é?
— Mais do que fazer qualquer coisa, ele era um menino habilidoso. Mas não achava que fosse tão excepcional quanto todos diziam. É verdade que ele se saía razoavelmente bem com a espada, conseguia realizar pequenos milagres divinos e sabia usar magia, mas não era nada de um nível tão alto assim. Como esta é uma vila pequena, ele se destacava, mas se fosse para um lugar com mais gente, acho que seria avaliado apenas como “um menino talentoso que consegue fazer coisas um pouco diferentes”.
— Por acaso, você não é natural desta vila?
— Não sou, você percebeu bem. Sou da capital real, não desta vila. Conheci meu marido na escola quando ele foi para a capital estudar, e vim para cá depois que nos casamos. Na verdade, tanto meu marido quanto eu éramos alunos exemplares na escola da capital, bons nos estudos e nos esportes, então aquela criança não era nada de especial. Mas eu nunca falei muito sobre isso.
— É só um pouco de orgulho — disse Shela, sorrindo.
— No entanto, Ares foi escolhido como herói
— Foi estranho. Ele era meu orgulho, mas não era um garoto tão excepcional assim. As pessoas da vila ficavam dizendo que “a profecia certamente se referia a Ares”, mas nem eu nem meu marido conseguíamos acreditar nisso.
— Vocês não acreditavam na profecia?
— …Não. Mais do que não acreditar, eu simplesmente não conseguia imaginar que fosse o Ares. Além disso, quem é que gostaria de ver o próprio filho lutando contra o rei demônio? Nenhum pai ou mãe gostaria que seu filho fizesse algo tão perigoso assim. Mais do que não acreditar, talvez eu simplesmente não quisesse acreditar. Se fosse possível, eu preferia que outra pessoa fosse o herói.
— Mesmo assim, você o enviou como herói?
— Meu sogro, que era o chefe da aldeia, estava muito animado. O pessoal da aldeia também. Eles estavam felizes por ter um herói vindo da nossa própria aldeia. Naquela época, com o surgimento do rei demônio, o mundo estava envolto em uma atmosfera opressiva. Esta vila não era exceção. Com o surgimento repentino de um herói, toda a vila ficou em júbilo. Não dava para negar que era algo muito diferente. Por isso, pelo menos para que ele ganhasse mais força e encontrasse companheiros para viajar junto, eu o enviei para a Academia Falum.
— Foi por sua vontade que ele entrou na Academia Falum?
— Foi decisão minha e do meu marido. Sabíamos que a Academia Falum era uma instituição dedicada à formação de heróis. No entanto, como também sabíamos que era uma escola frequentada apenas por nobres, eu disse que não havia necessidade de forçar a entrada. O objetivo era que ele ganhasse força e encontrasse companheiros; por isso, achava que qualquer lugar onde esse objetivo pudesse ser alcançado seria bom. Como ele era um menino capaz de pensar com flexibilidade, achei que, se dissesse isso, ele daria um jeito, mas, no fim das contas, parece que ele acabou entrando na Academia Falum.
— E o próprio Ares, o que achava de ter sido escolhido como herói?
— Ele era um menino inteligente, então percebia o clima da vila e agia da maneira que todos esperavam. Mas, no fundo, acho que ele estava ansioso. Afinal, ele era quem mais sabia que não era uma pessoa tão excepcional assim. Certa vez, quando acordei de repente à noite, vi ele lá fora, brandindo a espada sem pensar em nada. Ele não conseguia dormir de tanta ansiedade e acabava fazendo isso.
— No entanto, ele derrotou o rei demônio.
— …E acabou morrendo também. Como o mundo foi salvo, eu deveria estar feliz, mas nem eu nem meu marido conseguimos nos alegrar. Por que ele teve que morrer? Ainda hoje penso nisso. Havia tantas outras pessoas talentosas, por que, justamente ele…?
Shela enxugou as lágrimas que escorriam pelo rosto.
Desviando o olhar dela e olhando ao redor da sala, vi uma espada em exposição. Estava bem cuidada, mas bastante desgastada.
— O que é aquilo?
— É a espada do meu garoto. Só a espada voltou. Essa espada era uma herança que passava de geração em geração nesta casa. Não sei sua história, mas ela lutou ao lado dele até o fim. Deve ter sido uma boa espada. O fato de, pelo menos, ela ter voltado é meu único consolo. Afinal, esse é o único objeto que restou dele.
— Os companheiros do herói trouxeram essa espada?
— Nunca conheci os companheiros de Ares. Quem a trouxe foi Zack.
— Quem é Zack?
— É o primo de Ares, da mesma idade. É filho da irmã do meu marido, mas os pais dele eram ambos aventureiros. O pai era natural do Reino de Marika e, quando o Reino de Marika sofreu a invasão do rei demônio, o casal partiu em missão de socorro e perdeu a vida naquela batalha. Zack foi confiado aos nossos cuidados antes de os dois partirem em viagem.
— Por que Zack conseguiu trazer a espada de volta?
— Porque ele foi para a capital junto com com o meu fiilho. Então, depois que o menino faleceu, ele disse que recebeu a espada por intermédio de alguém lá. E foi assim que ele a trouxe de volta para esta vila.
— Mas os moradores da vila disseram que Ares partiu sozinho, não foi?
— Ele tinha bagagem e, obviamente, não dava para deixá-lo ir sozinho. Além disso, como os dois cresceram juntos, eram muito próximos, sabe? Acho que, como Zack estava com ele, Ares conseguiu partir um pouco mais tranquilo.
“Os moradores da vila exageram ao falar dos feitos de Ares, por isso não mencionam Zack. …Talvez eles tenham realmente esquecido. Ele era um menino que não chamava muita atenção.”
— Onde Zack está agora?
— Depois que chegou aqui, ele disse que “partiria em viagem imediatamente” e nunca mais se ouviu falar dele. Eu o incentivei a ficar morando nesta vila, mas ele recusou categoricamente. “Desculpe por ter deixado o Ares morrer, desculpe”, disse ele. Mas aquele garoto não tem absolutamente nada pelo que se desculpar…
— Zack estava viajando junto com o Ares?
— Ele apenas o acompanhou até a capital. Zack era um garoto comum, então não poderia embarcar naquela jornada para lutar contra o rei demônio. Ele era um garoto que se esforçava ao máximo em tudo, mas, para ser sincera, era um pouco desajeitado. Mas era um garoto muito bom, sabe? Acho que foi graças ao Zack que o Ares conseguiu aprender tantas coisas. Quando o Ares começava alguma coisa, o Zack o acompanhava até o fim. Você sabe? É muito difícil continuar aprendendo sozinho, sabe? Só conseguimos continuar porque temos alguém que faz isso junto conosco.
— O que você acha das imagens do herói que estão espalhadas por aí?
— Elas se parecem bastante com aquele garoto. Nós também compramos um quadro grande e o colocamos em destaque, sabe?
De fato, havia um quadro grande retratando a figura imponente do herói exposto em um local de destaque daquela casa.
— O Ares e o Zack são parecidos?
— Como são primos, são bem parecidos. Mas o Ares tem os olhos um pouco maiores e o nariz mais alto. São detalhes pequenos, mas mudam bastante a impressão que causam. O Ares era sempre elogiado pela aparência, enquanto diziam que o Zack era um garoto sem características marcantes. É estranho, né? Afinal, são apenas pequenas diferenças.