Eu sei que dia é hoje
Eu sei que dia é hoje
Brinco de Princesa. Não sei como chegaram a essa conclusão, mas sempre achei um exagero o nome que me deram. Como se eu fosse uma dama frágil, feita apenas para enfeitar jardins e suspirar ao vento. Mas a verdade é que eu vivo pendurada, e ainda de cabeça para baixo.
Espera. Esse é meu nome biológico, mas meu nome social é Bela, o que prefiro muito mais. Bela com um sotaque italiano, em francês. Oui Oui. Muy Bela. Consegue ouvir? Pois eu consigo. E Bela combina com minhas pétalas pink e violeta, cores da realeza. Sou linda! O que tenho para reclamar? O lugar que moro. Um apartamento. Pior, apertamento. Não tenho espaço, divido o Canto das Flores com mais dez plantas e flores de diferentes cores, tipos, origens, nomes e tamanhos. Isso parece um ônibus cheio em uma segunda-feira de final de ano. Eu quero um lugar só pra mim! Como uma princesa, eu exigo! Não, eu mereço!
Pelo menos a vista é adorável. Um imenso, longo parque cheio de árvores onde os passarinhos cantam todos os dias, onde plantas e flores esticam suas folhas... e eu aqui. Não posso esticar minhas folhinhas verdinhas porque posso bater na Tulipa à minha esquerda ou na Espada de São Jorge à minha direita. A metida da Samambaia tem um pedestal só pra ela e essa Trepadeira se enrosca em todos os cantos, inclusive atrás de mim! Não, não, calma que eu recebo água, não passo calor nem frio, minha terra é constantemente afofada. Porém o espaço...
Mas eu sei que dia é hoje. Como não esquecer o dia em que minha dona me leva para passear no parque que eu amo? Os humanos chamam de Dia de Levar as Plantas para Passear, eu chamo de Liberdade. Observei minha dona fazer as mesmas coisas de sempre: acordar, ir para a cozinha, preparar o café, mexer no celular, fazer ioga na sala, ir tomar banho. Nada. Nem um bom dia. Nem um sinal de quando vamos sair. Nada.
Eu já estava ficando brava quando ela se aproximou, mas foi em direção daquele mimado do Lírio, dizendo que ele estava muito tristenho e mudou ele de lugar. Eu quero ir passear! Horas e horas se passaram, o sol da manhã virou sol do meio-dia, depois sol da tarde. O barulho e a movimentação lá fora diminuiram, foi quando cheguei a conclusão que não haveria passeio. Fiquei desanimada até que senti duas mãos pegarem meu vasinho e me colocarem na bolsinha de renda de passeio. Eba! Liberdade!
O cachorrinho preto de pernas longas se aproximou, abanando aquele rabo dele, os olhos brilhando.
— Thor, fica! — Minha dona diz. Isso, Thor fica. — Amanhã eu levo você, hoje é o dia da Bela.
O Dia da Bela. Uma frase tão curta, mas tão linda - assim como eu - que quase floresci de novo.
Quando passamos pela portaria e senti o ar de fora em minhas folhas, tive vontade de rir e cantar - se fosse possível. Do portão do prédio eu já podia sentir o frescor das sombras que as árvores faziam, o cheiro das outras flores, a suavidade do vento, a água escorrendo na lagoa. Conforme adentramos o parque foi possível ver outros humanos passeando com seus cachorros, gatos, crianças. Livres como eu. Minha dona caminhava com a bolsinha nas mãos, e eu balançava suavemente a cada passo.
Estava tão imersa e concentrada no mundo encantado ao meu redor que quase não percebi quando minha dona diminuiu o passo. E ouvi uma voz masculina dizer, bem perto, num tom doce que fez até minhas pétalas estremecerem:
— Oi.
Minha dona respondeu de volta com a voz num tom mais doce ainda.
— Oi.
Ahn?
Ah?
Ah!
Então era isso! Não sei o que é isso, mas por causa disso que ela demorou tanto para me trazer aqui.
A caminhada continuou mais um pouco, agora com uma companhia e a conversa dos dois. Até que se aproximaram de um banco e se sentaram, minha dona me deixando ao lado dela. Finalmente pude ver quem era. Ele tem olhos escuros, profundos. O sorriso mais lindo. E ela... ela estava agindo diferente. Derrubando a cabeça para o lado do mesmo jeito que ela faz quando vê um filhote de cachorro.
E então ele ergueu a mão devagar, afastou uma mecha do cabelo dela do rosto. Ela deixou um sorriso tímido escapar, o que fez ele sorrir de canto. A mão dele desceu até o pescoço dela e ele inclinou levemente o corpo. Os dois aproximaram seus rostos, e colaram os lábios um no outro em um beijo lento, com toda a calma do mundo.
No fim das contas, eu tinha saído do apartamento. Consegui minha liberdade. E minha dona encontrou seu amor.