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Capítulo 144: Parar ou Continuar?

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Capítulo 144: Parar ou Continuar?

As luzes da cidade passavam rápido através do vidro da janela do veículo. O pouco vento frio, vindo da pequena fresta que eu havia deixado aberto, batia na minha testa, enquanto o motorista do táxi andava pela cidade noturna movimentada.

Depois do nosso brinde final, Shihei havia insistido para que eu pegasse um táxi. Tinha dito que era a própria editora que iria pagar, e que também estava bem frio.

Não tive muita chance de recusar, claro. Então apenas acabei aceitando relutantemente.

Ali, dentro do carro, apoiei o cotovelo na porta e coloquei o queixo na mão, observando o lado de fora.

Eu deveria estar feliz, certo?

Digo, eu fui oferecido um contrato. Para um livro de verdade. Um livro com meu nome.

E eu até fiquei alegre, completamente sem acreditar. Mas depois que a euforia tinha passado, eu senti algo dentro de mim querer sair.

Eu precisava falar aquilo para ele antes que a noite terminasse. Mesmo sem saber se eu realmente deveria.

Especialmente… depois de ele me oferecer aquilo.

— É… Shihei. Eu… tem algo que anda me incomodando um pouco… — murmurei, sem encarar ele.

Ele, ainda parecendo sob efeito do álcool, piscou os olhos e inclinou a cabeça.

— Hm? Que foi, garoto?

Eu parei por um momento. Alguns segundos sem saber se eu realmente deveria falar aquilo.

Não iria estragar tudo?

Ele iria revogar o contrato?

Não era certo, né?

Seria o fim?

O que seria de mim?

“Que seja.”

Se eu não falasse, o que eu esperaria que fosse acontecer?

— Sabe, nessa nova história… eu me sinto estranho com ela — Enfim confessei, meio baixo. — Tem momentos em que sinto uma vontade tão grande de escrever nela, mas outros em que eu sinto nada. C-como se eu tivesse perdido o interesse… e fosse escrever só por obrigação.

Ele não respondeu nada, enquanto eu estava de cabeça curvada e de mãos nos joelhos.

Honestamente, eu esperava uma bronca. Algo como…

“Isso é inaceitável!”

“Logo agora!?”

Mas então escutei ele pousar a bebida na mesa calmamente, e então levantei de leve o rosto. Um pequeno sorriso no canto de seus lábios se formava na sua cara avermelhada.

— Finalmente… — ele murmurou.

“Hã?”

Pisquei, totalmente confuso.

Finalmente?

Finalmente tinha chegado o meu fim? Ele já sabia que aquilo aconteceria?

Não.

Se ele já soubesse, ele não teria me oferecido o contrato.

Então…?

— Eu já andava me perguntando se você era uma pessoa normal, Shin — Ele começou a rir. — Relaxa, garoto. Isso é completamente normal, todo escritor enfrenta isso alguma hora.

Eu… eu meio que acabei soltando o ar que tinha prendido.

Então… era normal?

Era normal enfrentar aquela linha de escrever por querer e por obrigação?

Eu não conseguia acreditar, fiquei genuinamente surpreso.

— Sério…!? — olhei para ele com um pouco mais de leveza.

— Mas é claro que sim! Nunca na vida que existe um autor que acorde todos os dias com uma vontade absurda de sentar e escrever! — ele disse enquanto ria alto. — E você disse que, às vezes, parece uma obrigação, né?

Eu assenti.

— E o que tem? Não há nada de errado com isso.

— Hein?

Nada de errado?

Nada?

Como assim não havia nada de errado em escrever por obrigação!?

No mesmo instante, palavras do Arata entraram na minha mente.

Aquelas lembranças de… seu passado doloroso, me confrontavam ali naquele instante.

“Quando escrever vira só mais uma tarefa… quando a paixão se perde, tudo desmorona.”

Ele falou aquilo com muita convicção. E eu ouvi atentamente sobre seu passado.

Sobre como ele até gostava de escrever, mas depois que tudo virou obrigação, ele perdeu interesse. E depois… sua família perdeu interesse nele.

E então, ouvir aquelas palavras faladas com tanta naturalidade, colidindo com as palavras de Arata…

Nada fazia sentido.

Shihei no mesmo instante parecia ter notado o meu estado, e então cruzou as mãos sobre a mesa e diminuiu o tom brincalhão dele.

— Sabe qual a diferença entre um escritor amador e um profissional? — Ele perguntou, fixando os olhos em mim. — É o que eles fazem justamente no dia em que não têm vontade de escrever.

Ali, naquele momento, algo parecia ter acendido em mim.

Aquelas palavras ecoavam ainda na minha mente, enquanto o táxi se aproximava da minha casa.

— Deixa eu te perguntar uma coisa, garoto… por que você escreve?

“Hm?”

Aquela pergunta tinha vindo do nada… e eu travei com o garfo ainda no ar.

— Por quê? Bem… eu escrevo porque…

Eu tentei buscar algo rapidamente na minha cabeça. Qualquer coisa mesmo. Mas antes de eu sequer ter a chance de responder, ele continuou.

— Para quem você escreve?

“Para quem…?”

Aquilo era uma pergunta simples.

Uma que eu conseguia responder facilmente.

Mas ali, sob o olhar atento de Shihei, minha mente ficou vazia.

“Para quem eu escrevo?”

Quem?

Era para mim?

Para meus amigos do clube de literatura?

Para provar algo ao Ryuuji?

Leitores da revista da Editora Kousei?

Provar algo para alguém?

Quem?

Quem…?

Eu sentia que sabia a resposta. Elas estavam em algum lugar no fundo da minha cabeça, mas naquele momento, parecia ter fugido de mim.

Ele me observou com um pequeno sorriso no rosto, se recostando na cadeira.

— Quando você entender o motivo de escrever e para quem você escrever, tudo vai mudar pra você, garoto.

O táxi parou abruptamente na frente da minha casa, me puxando de volta para a realidade. Saí, e agradeci, e então o som do carro foi se afastando, até que eu não o escutasse mais.

A rua estava silenciosa, com algumas luzes das casas ainda acesas. E eu… continuei apenas ali por algum tempo, parado em frente da minha casa, enquanto o vento envolvia minha cara.

Ergui o rosto para o céu, levemente nublado, sem qualquer estrela visível no instante.

Tudo havia mudado para mim em apenas algumas horas.

Eu tinha um contrato para publicar um livro de verdade, algo que sempre sonhei desde que participei naquele primeiro concurso.

Ainda que eu me sentisse um pouco alegre com aquilo, minha mente ainda girava sem parar, na procura das respostas.

Durante todo aquele tempo, eu estava indo em direção a uma linha de chegada sem nem saber o motivo de ter começado a correr.

— O que eu estive fazendo até agora…?