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Capítulo 146: Interrogatório

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Capítulo 146: Interrogatório

A única coisa que eu conseguia escutar era o som do giz batendo no quadro da sala de aula. A voz do professor era algo que eu ouvia por um segundo, mas logo me esquecia de tudo que ele falava.

Era impossível eu me concentrar.

Meu caderno, na minha frente, deveria estar cheio de anotações e coisas que estavam escritas no quadro, mas não tinha nada mais que frases com começo e sem metade nem fim.

“Para quem?”

— Shin.

“Por quê?”

Não importava o que eu pensasse, aquelas palavras iriam continuar ecoando na minha mente.

— Shin!

Por que motivo era tão difícil de pensar em uma resposta se eu tinha quase a certeza que eu já as conhecia?

Não conseguia entender.

— Shin Yamamoto! — a voz do professor me chamando me puxou de volta pra realidade.

Pisquei rapidamente, enquanto um pouco do foco voltava.

— Finalmente… poderia nos dizer a resposta da pergunta quatro? — O professor perguntou, ajustando os óculos enquanto algumas pessoas me encaravam.

— Ah, sim. É… — encarei o livro, na pergunta quatro, mas eu não conseguia ler.

Novamente, eu sequer conseguia me concentrar o suficiente para entender a pergunta.

Minha mente travou por completo, e, por hábito, virei a cabeça para o meu lado, buscando ajuda nela.

A única pessoa que me salvava em momentos como aquele.

“…..”

Quando virei a cabeça, eu me lembrei.

Yuki não estava mais do meu lado.

Não havia mais socorro durante mo

— Alguém sabe a resposta da pergunta quatro? — O professor provavelmente notou que eu não sabia a resposta.

Sentei, soltando um longo suspiro. Minha cabeça não parava de girar, e aquilo me incomodava profundamente.

Abanei a cabeça de leve, querendo me concentrar e olhei para a frente da sala, escutando a resposta.

Quando fiz isso, acabei sentindo um olhar na minha direção.

Dela.

“…..?”

Yuki olhava para trás, por cima de seu ombro. Seu olhar continha algo que eu não sabia explicar.

Era preocupação? Curiosidade?

Não, eu não sabia.

Desviei o olhar rapidamente para o meu caderno rabiscado, e apoiei a cabeça entre as duas mãos.

O que tinha de errado comigo?

No intervalo, o corredor da escola tinha o mesmo ar de sempre, movimentado. Mas eu também notei que havia algo estranho nele.

— Cara, eu só quero ir pra casa logo…! Que frio! — Seiji murmurou, enquanto andávamos.

Caminhando entre ele e Rintarou em direção das máquinas de vendas para comprar uma bebida, eu comecei a notar.

Alguns alunos encostados nas janelas olhavam de canto. Garotas cochichavam e riam com a mão escondendo a boca.

Olhares.

— Ei. Isso é impressão minha ou…? — murmurei para os dois, encolhendo de leve os ombros.

Seiji deu uma olhada ao redor, junto de Rintarou.

— Oh, isso? Deve que finalmente notaram o quão lindo eu sou! — Ele estufou o peito, sorridente. — Ou talvez seja o meu novo perfume que…

— Claro que sim, Seiji — Rintarou murmurou, depois de suspirar.

Não.

Realmente tinha algo de errado.

Minha cabeça dizia que todos os olhares estavam em mim.

“Mas que…?”

Depois de chegarmos na máquina de vendas e Seiji e Rintarou pegarem suas bebidas, chegou a minha vez.

Mas no mesmo instante, notei alguém chegar perto de mim por trás.

Três veteranos do terceiro ano se aproximaram de mim, e logo me apressei para pegar a bebida e dar o lugar da máquina.

Quando peguei a bebida, acenei com a cabeça e fui para onde Seiji e Rintarou estavam, mas eles me interromperam.

— Ah, pera aí… Shin, né? — o garoto do meio me chamou, com um sorriso confiante e amigável no rosto.

— Uh, sim…?

Reconheci ele de leve. Vi-o na reunião de equipamentos para o festival esportivo do ano passado.

Sota.

O capitão do Clube de Basquete e uma das pessoas mais populares da escola.

Atrás dele, conseguia ver algumas garotas rindo e cochichando, e eu só podia me perguntar o que ele queria comigo…

— Precisa de algo?

Ele pareceu me olhar de cima a baixo, como se tivesse me julgando.

“Huh?”

“Deve ser coisa da minha cabeça.”

— Sabe, fiquei me perguntando se é verdade a fofoca que tá rolando nos corredores — Fofoca? Como eu iria saber o que tava acontecendo? — Você tá realmente namorando a Yuki?

…..

Hein?

Fofoca?

Eu… e a Yuki? Namorando?

O que esse cara tava falando?

De onde sequer tiraram essa ideia?

“…..!”

Alguém nos viu de mãos dadas no Ano Novo!?

Droga.

— N-não! Claro que não! — falei rapidamente, levantando os braços em negação. — Nós somos… só amigos.

Falar aquilo deu uma pontada em mim, sendo sincero.

“…..?”

Mas piorou quando vi Sota segurando uma risada e depois soltando-a.

— Eu não falei pra vocês? — Ele riu ainda mais, e os outros dois começaram a rir também. E então sussurrou, mas alto o suficiente para que eu escutasse. — Eu disse que era impossível ela ficar com um moleque assim.

Os outros dois concordaram, rindo de mim com desdém.

— Falou aí, Shin! — ele deu um tapa nas minhas costas, com aquele sorriso nojento no rosto. — Obrigado, de verdade!

Meu humor mudou na hora.

Mas que merda?

Que direito eles tinham de falar aquilo sobre mim?

Me lembrei.

Eles eram o tipo de pessoa que eu costumava odiar.

O grupo voltou a andar pelo corredor, e as garotas continuaram cochichando. Sota parecia até mais leve.

— Coitado dele. Esses rumores devem ter feito pensar que conseguia ficar com a Yuki de verdade — Foi a última coisa, seguida das risadas, que escutei daquele grupo.

Eu suspirei.

O pior de tudo era saber que aquelas palavras não foram faladas com ódio ou coisa do tipo. Era com sinceridade, nada mais que um fato.

Algo tão… óbvio.

Que merda.

Que merda.

Só consegui ficar parado, em frente a máquina de vendas, observando eles desaparecerem entre a multidão.

A ferida que Shihei já tinha deixado em mim com aquelas perguntas tinha acabado de aumentar ainda mais com aquelas falas.

O pior era o que eu sentia em mim.

Sequer conseguia ficar irritado com eles.

Afinal de contas, no fundo de mim mesmo e da minha mente, uma parte concordava exatamente com o que eles tinham acabado de falar.

Ah, ah…

Que droga.

— Minha cabeça dói.