Capítulo 150: Brisa do Alívio
Capítulo 150: Brisa do Alívio
O som de nossos passos continuava ecoando pelos corredores que já se encontravam praticamente vazios. O sol descia cada vez mais no horizonte, e logo o tom alaranjado iria deixar o céu, dando espaço para as cores azuladas.
Eu seguia Yuki, levemente atrás dela, completamente confuso e curioso, e a mente girando.
“Ainda tem mais uma coisa que precisamos fazer. Vem comigo!”
— Que coisa será…? — murmurei baixo.
Pensei que, depois de entregarmos as coisas na sala dos professores, estaríamos livres para ir para a casa. Ela não segurava mais nada na mão, e nem eu. Então o que faltava fazermos?
Yuki virou o corredor… e parou na frente da porta da nossa sala de aula.
— Hm?
Ela deslizou a porta devagar, mostrando o espaço vazio quando entramos lá dentro.
O vento frio entrava pelas janelas, fazendo com que as cortinas subissem e descessem, enquanto a sala ainda tinha aquela cor laranja do sol que continuava descendo.
— O que… a gente veio fazer aqui? — perguntei, andando mais pra frente e observando a sala. — Achava que a gente já tinha terminado tudo lá na sala dos professores…
Esperei por alguma resposta direta, mas ela caminhou, com as mãos atrás das costas, calma até a janela da última fileira. Ela apoiou a mão sobre a janela, e deixou o vento frio balançar a cortina e seus cabelos.
Era uma vista… bela, mas curiosa.
Sério, qual era daquilo tudo?
Eu não sabia, mas ver ela agir daquele jeito me deixou nervoso.
— Shin… — Ela finalmente falou, mas sem virar o rosto pra mim. A voz dela era tão doce e suave que me hipnotizou imediatamente. — Você se lembra do que eu te falei naquele dia? Quando comemos crepes juntos?
Eu congelei no mesmo segundo.
Quando comemos crepes…?
— Uhm… É… você disse… — murmurei com a mão na nuca, com o olhar desviado enquanto tentava lembrar do que quer que fosse que ela havia dito.
Mas afinal de contas, que pergunta era aquela? E por que justamente naquele lugar?
Minha memória era uma névoa, até eu me lembrar do exato dia e do que fizemos.
Aquele dia.
Sim, eu me lembrava dele.
Quando senti o calor dela nas minhas costas. O seu sorriso suave e bobo quando viu a barraca de crepes. A vergonha que sentimos quando ela reparou que tirou a sujeira do meu rosto.
Sim, eu me lembrava. Mas não das palavras.
Meu cérebro, que já estava cheio de coisas e dores pelo dia, parou por completo.
— Eu sabia — ela disse meia sorridente, balançando a cabeça para mim enquanto o vento soprava o cabelo dela. — Sabia que você tinha esquecido… mas tudo bem, vou refrescar a sua memória.
Ela deu alguns passos na minha direção, parando à duas mesas na minha frente. O vento soprou mais forte, não só balançando o cabelo dela como as cortinas também. O sol ainda continuava com seu tom alaranjado por mais alguns minutos.
— Você se lembra do Festival Esportivo? — Ela começou, com um certo ar de saudade no seu olhar.
— O que eu acabei caindo na frente de todos…?
— Sim, esse mesmo. — Ela riu com a mão na boca. — Nesse dia, uma pessoa especial notou o que ninguém mais viu. Algo que eu não partilharia com ninguém.
“…..”
Uma pessoa especial?
Eu apenas assenti.
— E da nossa viagem escolar?
Conforme ela falava, as memórias começaram a fluir na minha mente.
Mas ainda não entendia o ponto dela. Não deveríamos nos apressar logo antes que a escola fechasse…?
— Quando eu me perdi, a mesma pessoa especial veio ao meu encontro, e me salvou — Ela disse, com um sorriso no rosto enquanto o olhar dela era coberto pelos cabelos.
— A pessoa especial de novo… — murmurei.
Ela riu, enquanto eu continuava com a mão na nuca.
— E da minha competição de atletismo? Você se lembra?
No mesmo momento, eu travei de leve.
Sim, eu me lembrava. E me lembrava bem da dor que senti ao ver ela caída no chão enquanto a ambulância chegava. De como todo o esforço dela tinha sido para nada.
— Sim. Eu me lembro disso.
— Ainda bem — Ela riu de alívio. — Nesse mesmo dia, tudo que eu tinha trabalhado foi em vão. Desapontei não só minha família, mas essa pessoa especial também.
Eu apenas assenti, enquanto algumas peças começavam a se encaixar.
Especial?
— Mas o melhor de tudo? Foi quando essa pessoa me levou da escola até o rio em suas costas… mesmo sabendo que eu era pesada. — Ela deu um passo para a frente, enquanto me mostrava um pequeno sorriso doce. — Lá, ele me deixou colocar tudo para fora, e me abraçou forte… enquanto eu molhava a roupa dele de lágrimas.
Yuki riu novamente, provavelmente lembrando da camisa molhada.
Eu apenas continuei ali, com o coração batendo rápido.
No início, cheguei a me perguntar quem seria essa pessoa especial que ela falava de uma forma tão amorosa. Mas logo ficou impossível não saber quem era ele.
A caminhada até a beira do rio. O vento na margem suave. O choro dela alto. O meu abraço atrapalhado quando eu não sabia mais o que poderia fazer.
Yuki deu mais um passo, parando bem na minha frente.
Ela olhou bem no fundo dos meus olhos e disse algo que eu nunca mais iria me esquecer.
— Essa pessoa especial… é você, Shin.
O vento soprou com mais força, as cortinas voaram, e ela segurou o cabelo enquanto ele era jogado ao ar.
Meus olhos ficaram meio arregalados e embaçados, enquanto sentia meu corpo arder. A emoção tomava conta de mim sem controle algum.
A pessoa especial dela… era eu.
Eu!?
Yuki abriu um sorriso largo, tão lindo que parecia iluminar ainda mais aquela sala alaranjada.
Ela então deu mais um passo na minha direção.
— E quando você me levou até a porta da minha casa naquele mesmo dia… você se lembra da promessa que fizemos? — ela perguntou, mantendo o olhar firme no meu. — Eu disse que, se chegasse a hora em que você estivesse carregando coisas demais e não soubesse o que fazer… você me chamaria.
Era certo.
Eu me lembrava perfeitamente.
— Você passou o dia inteiro de cabeça baixa, Shin — Yuki disse com a voz cheia de um carinho de mais para mim — Você pode desabafar comigo. Pode me contar qualquer coisa que esteja te machucando ou te preocupando. Eu vou escutar tudinho… do início ao fim!
Hah…
Ela realmente era incrível.
Yuki via tudo em mim enquanto eu não via nada. Através de todas as barreiras, ela observava.
Toda a dor de cabeça sobre os boatos e perguntas de Shihei foram embora conforme eu era fisgado pelo seu doce olhar e sorriso.
“Eu realmente te amo, Yuki.”
Deixei um sorriso calmo surgir no canto dos meu lábios, sentindo um alívio gigante.
— Tudo bem, Yuki… — suspirei, olhando para ela com um sorriso leve. — Obrigado.