Capítulo único
Capítulo único
— Oh, vejam bem, eu faço perguntas o tempo todo e sou um pouquinho lerda. Principalmente para uma roseira É o que dizem por aí...
Às vezes eu reclamo... Não, reclamo não. Eu digo que o mundo poderia ser melhor. Enumero todas as coisas que deveriam acontecer e que, estranhamente, todos parecem concordar... mas fazem exatamente o contrário.
Fico pensando nisso e geralmente pergunto ao jardineiro, a única pessoa que conheci nesses três anos de existência que parece compreender o que nós, plantas, sentimos.
Pergunto a ele:
— As pessoas não fazem o que dizem ser o certo porque acham no fundo que é errado... ou porque não querem fazer o certo? Ou será que simplesmente fazem sem pensar? Não sei se é possível fazer alguma coisa sem pensar. Eu, planta, nunca consegui. Talvez os humanos sejam diferentes. A verdade é que não sei um montão de coisas, e simplesmente ignorá-las nunca me pareceu uma boa ideia.
Foi o outro dia que ouvi o carpinteiro dizer:
— Ora, não sei o que essa planta tem José, você passa tempo demais conversando com ela.
O jardineiro respondeu:
— Ela é curiosa.
— Isso é coisa de brotinho. Planta adulta como ela,não deve ser tão curiosa e faladeira! Só fica aí te incomodando!
— É que você não entende o que ela diz. Ela é sensível, é verdade... e fala rápido como um trem, mas, de vez em quando, faz sentido.
— Se você diz... Sei não. Você me parece um pouco...Deixe pra lá... Deixe pra lá... ( Louco)
Louco? Ora, vejam só!
O jardineiro é o homem mais lúcido que já conheci. Sujeito inconveniente... nem sabe do que estou falando e, mesmo assim, vive cheio de opiniões.
Será que o jardineiro acha que eu incomodo? Ou será que não?
Aí…
Ah, não se preocupem. Eu sinto dor desde botão. Sou uma planta meio doída, mas não é perigoso. O jardineiro me garantiu.
Sempre me entristeço com alguma coisa que minhas companheiras dizem, ou quando a lua passa tão longe que nem esticando o pescoço consigo vê-la. Mas hoje... não sei por quê... estou dolorida.
Ui...
Não se importem.
Lá vem o jardineiro.
— Ai... ui... ai... ui...
— O que foi, roseira? O que tem hoje?
— Estou um pouco... esquisita. Começou de repente. Lembrei do carpinteiro e do que ele disse aquele dia. Acho que fiquei com aquele sentimento... enrubecedor... Sabe? Aquele que deixa as faces vermelhas (se as minhas já não fossem) Como de... raiva. Isso. Mas a raiva não costuma doer assim.
— Ora essa! Não deveria sentir raiva. Você nasceu para encantar, precisa crescer e isso aperta as raízes. Se continuar assim, na primavera não vai dar flor.
Pensei um pouco.
— Então eu precisaria crescer muito. Crescer bastante. Crescer tanto que pudesse entrar pela janela do carpinteiro enquanto ele dorme... e, bem de mansinho, espetar um espinho bem no dedo indicador direito dele.
O jardineiro sorriu.
— Dá para ver que você está muito chateada.
— Chateada? Não sei bem... Sim. Acho que estou.
— Um espinho bem no indicador direito dói bastante.
— É bom que doa!
— Pode até infeccionar.
— O que é infeccionar?
— Fica grandão, parecendo um repolho, e cheio de pus.
— Eca! Que nojo!
— Pois é. E quando infecciona não tem jeito: dói muito.
— Dói muito?
— Ih... demais. Tem que tomar remédio. Pode dar até febre.
— Oh, febre não... Febre, não.
De repente, meu coração apertou.
— Coitado do carpinteiro... Coitado dele. Jogado numa cama, com febre alta, delirando... Quem vai cuidar do pequeno Arthur? Quem vai colocar ração para o bichano?
— Sim... quem vai?
— E tudo por minha causa. Por causa do meu espinho...
— Mas não chore tanto.
— Eu choro, sim. Se é triste, é natural que os vivos chorem.
O jardineiro sorriu de canto.
— Você é muito sentimental.
— Ui... ui...
— E agora?
— Agora estou doída por outra coisa.
— Por quê?
— Porque você disse que sou sentimental. Não gosto quando dizem isso.
— Ora, mas você é.
— Ai... ui...
— Tudo bem. Desculpe.
Respirei fundo.
— Está desculpado. O carpinteiro também. Ele não tem culpa de pensar aquilo de mim. Nem entende o que eu digo.
Suspirei.
— Mas minhas raízes ainda doem...
— Você parece muito bem.
— É que a dor fica debaixo da terra. Veja aí.
— Tudo bem... deixe-me olhar.
— Pegue uma lupa. Veja mais de perto.
Ele aproximou a lente.
— Ora... é verdade.
Meu caule estremeceu.
— O quê?
— Seu coração de roseira está começando a inflamar.
— Já sinto. Já estou me sentindo fraca... Acho que estou quente.
— Não é para tanto. Só precisa tomar cuidado.
— Mas eu sou cuidadosa. Sempre sou...
Pensei por um instante.
— Ah, não... Foi o sereno! O sereno de ontem à noite. O céu estava tão bonito, todo cintilante... Não achei que fosse fazer mal. Mas agora estou sentindo. Oh... estou zonza...
O jardineiro riu:
— Boba. Não foi o sereno coisa nenhuma.
— Como?
— A inflamação no coração das plantas é rara, mas acontece. Chama-se sentimentalização crônica.
Arregalei as folhas.
— Tão grave assim? Pelo nome parece terrível... Quanto tempo eu tenho?
Ele sorriu.
— Não se apavore. Já sei a causa... e também sei como resolver.
— Sabe?
— Suas veias precisam ficar mais fortes. Veja só como são fininhas...
Ele ajustou a lupa.
— E como faço isso?
— Pare de criar espinhos por dentro.
— Espinhos... por dentro?
— Sim. Sentimentos espinhosos infeccionam. Basta tomar cuidado com eles. Um dia você vai aprender a não se importar tanto com aquilo que não merece ocupar seu coração.
Fiquei em silêncio por um instante:
— Vou aprender.
Desde aquele dia... tenho tentado seguir o conselho dele.