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Capítulo Único

Sete Para Três — www.spiritfanfiction.com · All chapters

Capítulo Único

Todos os dias, Kento Nanami fazia contas.

Não eram cálculos do trabalho ou formatação de planilhas – esses terminavam antes mesmo de deixar o escritório. Eram contas silenciosas feitas enquanto escovava os dentes, enquanto o trem balançava, enquanto observava seu reflexo escurecido no vidro.

Sete para três.

Setenta por cento para o trabalho; trinta por cento para viver.

Uma divisão imperfeita, mas aceitável. Afinal, ninguém vivia apenas para si. Era preciso pagar contas, cumprir horários, vestir um sorriso discreto para pessoas que sequer lembrariam seu nome no dia seguinte.

Era uma troca: entregava o tempo em troca de estabilidade. Pelo menos, era isso que repetia a si mesmo.

No entanto, o cálculo começou a falhar.

Um jantar era substituído por uma refeição apressada, um livro permanecia aberto na mesma página durante semanas, o café da manhã era engolido a caminho do escritório, e quando finalmente surgia algum tempo livre, ele era consumido pela necessidade de recuperar forças para o dia seguinte.

Então refez a conta.

Noventa para dez.

Sorriu, mas sem humor. Talvez fosse até menos.

Todas as manhãs, observava as pessoas no metrô. Rostos cansados, olhares vazios, corpos que pareciam seguir automaticamente o mesmo caminho todos os dias. Ninguém ali parecia trabalhar por paixão – e sim porque precisavam.

Perguntou-se quantas delas também faziam contas. Quantas diziam a si mesmas que viveriam depois da próxima promoção, depois que tudo finalmente se estabilizasse.

Certo dia, encontrou um colega adormecido sobre a mesa. Ninguém comentou sobre. Alguém apenas colocou uma xícara de café ao lado dele e continuou trabalhando.

Aquilo o perturbou mais do que deveria.

Quando exatamente a sobrevivência substituiu a vida?

Os dias passaram a ser medidos pela chegada das sextas-feiras. Cada semana era uma longa subida em direção a uma pequena recompensa que desaparecia antes mesmo do domingo terminar.

Chamavam aquilo de equilíbrio, porém Nanami nunca aceitou essa palavra. Equilíbrio pressupunha pesos similares, mas como equilibrar uma balança quando quase toda a vida era entregue para garantir a própria sobrevivência?

Percebera então que o erro nunca esteve na conta, e sim na tentativa de transformar a própria vida em uma.

O tempo não desaparecia de vez – era levado em parcelas tão pequenas que pareciam insignificantes. Um almoço apressado, uma noite mal dormida, um domingo gasto pensando na segunda-feira. Quando percebeu, anos haviam sido deixados para trás e convertidos em rotina.

Mais tarde, pisaria novamente em um mundo que julgava ter abandonado. Nada ali era mais fácil. O trabalho era igualmente exaustivo, o descanso continuava sendo um privilégio raro e a morte permanecia próxima demais para permitir qualquer ilusão de tranquilidade.

Ainda assim, havia uma diferença.

Ambos os mundos exigiam escolhas e sacrifícios, no entanto, em um deles, conseguia enxergar quem era salvo por esse sacrifício.

Pela primeira vez, compreendeu que nunca buscara uma vida sem sofrimento, e sim um sofrimento que tivesse significado Não existia um equilíbrio perfeito. Apenas escolhas. Sete para três não era uma fórmula para viver, e sim uma tentativa de medir algo que jamais poderia caber em números.