Capítulo 81 – Testes contra o medo, parte 2
Capítulo 81 – Testes contra o medo, parte 2
Entre os dois jovens ajoelhados frente a frente no centro do dojo escurecido, a última pergunta era formulada.
Hiromi fechou os olhos, respirou fundo, e quando os abriu de novo, seu rosto gentil perdeu as emoções gradualmente, mergulhando nas sombras que as tochas criavam, e a voz ganhou o peso de algo antigo e calafriante.
— Terceira e última pergunta. Akemi… imagine-se em uma sala fechada. Enquanto sons de botas se aproximam, o cheiro de sangue arrepia o interior de suas narinas, pois diante de si, estirada no piso, a pessoa que significa tudo para você, que você ama, soluça o próprio líquido carmesim da vida. Ela está respirando devagar, chamando por sua presença como se fossem as últimas palavras que teria a chance de dizer. O sangue escorre pelo chão. Você vê aquela vida escapando, e no fundo, sabe que não tem mais volta.
A mente de Akemi conjurou uma imagem imediata: seu avô deitado no chão, sangue espalhado por todos os lados.
O rapaz apertou os punhos. A existência daquela cena, mesmo que imaginária, causava transtornos internos que embaralhavam seus pensamentos, misturando o medo da perda, a dor da tragédia, e a tranquilidade frágil de que tudo aquilo era falso. “Não sei por quanto tempo consigo manter esse cenário. O que ela planeja com isso?”
Hiromi prosseguiu: — Nesse instante, você sente duas rotas. O afeto puxa você pra perto de quem ama… mas ao mesmo tempo, o dever empurra você pra encarar o causador de toda aquela dor, aquele que tirou o sangue de quem você ama.
— Miya… do jeito que você fala… esse sentimento de “dever” seria… vingança?
O silêncio da garota insinuava que uma ferida antiga foi descoberta, mas o outro não sacou.
— Miya?
Os olhos esmeraldas atravessavam Akemi, vendo algo que Akemi não enxergava; algo que aconteceu há muito tempo.
— Pense como quiser — Hiromi balançou a cabeça, afastando pensamentos e retomando o foco. — Continuando… o causador está logo atrás de você. Aquele som de botas vem dos passos lentos dele, pronto pra desaparecer de vista sem sequer reconhecer que feriu fatalmente o que você mais amava.
Akemi sentiu náusea subindo; o cheiro de sangue, o som das botas, a sensação de desespero absoluto, o cenário em sua cabeça era tão vívido que parecia real.
Aquele pesadelo estava longe do fim: havia mais história, e a cada relato, a apreensão aumentava.
— De repente, a voz enfraquecida da pessoa caída pede que você não reaja, que não tente alcançar quem provocou aquilo — a pausa deixou a voz rachada pelo sentimento amargurado. — Mas mesmo com o pedido de calma, a adrenalina te consome: seus olhos ganham foco, seus dentes travam, e o sangue sobe. A fúria te convence de que pode fazer qualquer coisa. O calor sobe pelo peito, o coração dispara, e seus ouvidos descartam qualquer súplica, como se o mundo se calasse de uma vez!
— Miya, você-
— E aí surge aquela vontade absurda de interromper aquele monstro… custe o que custar. Independente do modo, eliminando-o, queimando-o, decepando-o, mutilando-o ! Tudo seria melhor se aquele covarde simplesmente não existisse !
O choque tirou a fala de Akemi.
Apenas se escutava a respiração pesada de ambos.
E sorrateiramente, viu-se lágrimas rasas nas bordas dos olhos esverdeados.
— Então… me diga, Akemi. Se tudo em você pede vingança… ao mesmo tempo em que a pessoa que você ama clama pela sua calma… o que você… faria?
Hiromi não estava mais dando um exercício teórico: estava revivendo algo. Suas palavras claramente vinham de um lugar profundo, de uma cicatriz que nunca se fechou direito, de uma escolha tomada como incerta que ainda a assombrava.
Akemi finalmente percebeu, e apesar do contexto misterioso, pensou na sua resposta à pergunta. “O que eu… faria?” A resposta não vinha fácil. Aquela era diferente das outras duas perguntas, parecia pessoal, feita exclusivamente para a jovem com o desespero mal contido.
Enfrentando o clima delicado, uma alternativa foi selecionada.
— Eu ficaria com a pessoa que amo, bem ao lado dela — disse o rapaz, convicto — eu seguraria sua mão, ouviria suas últimas palavras. Porque… se aqueles são os últimos momentos que terei com ela, deixar isso escapar pra correr atrás de vingança seria… seria desperdiçar o que resta.
Após segundos calada e de cabeça baixa, Hiromi enrijeceu de indignação. — Desperdiçar? E quem causou aquela dor simplesmente… escapa?
Akemi escolhia as palavras com cuidado. — Pra mim, acho que ele deixaria de ter qualquer importância naquele momento, principalmente por estar indo embora. Eu abriria mão da fuga dele temporariamente, só pra permanecer nos últimos instantes com quem realmente significa algo pra mim. Perder tudo de uma vez, inclusive a mim mesmo, seria um risco inconsequente. Faz sentido, não faz?
A feição da garota caiu na tristeza e repulsa.
— Você realmente acha que é tão fácil assim?
— Miya, eu-
— Esqueceu que você sequer escuta o que dizem!? — A irritação apontou com o dedo trêmulo. A respiração acelerou junto às palavras que saíam cada vez mais descontroladas. — Seu coração já decidiu: tudo em você implora pra ir atrás daquele monstro! A raiva já tomou conta, lembra!? É isso mesmo que você faria? Fingiria estar bem? Fingiria que consegue se controlar? Fingiria que pode simplesmente desistir de ir atrás daquele desgraçado evadindo pelas suas costas!?
— Miya, se acalma-
— NÃO ME PEÇA CALMA! — O autocontrole se despedaçou como vidro em um grito do fundo da alma. Chocada, Miya percebeu sua falha no mesmo instante… porém, já era tarde demais.
As lágrimas caíram de vez, escorrendo sem contenção pelas bochechas. A jovem levou as mãos ao rosto, escondendo-as, segurando-as, mas o choro havia tomado conta, enfraquecendo seus ombros e entrecortando sua respiração. — Por favor… — murmurou ela, remoendo o pedido de calma — não de novo…
Aquela dor antiga esperava anos para que um dia desse as caras para alguém, e o momento chegou.
No meio daquele dojo escuro, Hiromi Miyazaki, candidata ao matriarcado, mestra marcial e justiceira de personalidade forte, choramingava feito uma criança entre sussurros estrangulados. — Sabe o que é sentir isso? Sabe o que é falhar em defender quem te protege? Sentir incapaz de demonstrar sua força e ter que escolher entre amparar alguém que você ama ou… ou… — A comparação morreu na garganta.
De peito apertado, Akemi ficou paralisado, sem que soubesse o que faria com aquela figura desmoronando diante de fantasmas passados que ele ainda não conhecia.
Era estranho vê-la naquele estado, e embora não fosse a primeira vez que aqueles sentimentos exagerados eram vistos, a intensidade do descontrole estava mais evidente do que nunca.
Estava claro que ela necessitava de ajuda.
— Miya… eu… sinto muito-
— Não peça desculpas — ela limpou os olhos rapidamente com as costas da mão, mas as lágrimas continuavam caindo. A angústia cresceu tanto que as palavras quase não saíam. — Só… só me diga a verdade. O que você faria? De verdade. Essa resposta óbvia… essa resposta bonita de simplesmente “manter a calma e ficar com quem amo”… ela não existe… nunca existiu… principalmente naquela situação.
“Tá, ela não quer uma resposta perfeita… com certeza ela quer que eu entenda… mas entender o quê? Que às vezes a escolha certa é impossível? Que às vezes você perde de qualquer jeito?”
Akemi fechou os olhos e lembrou das duas primeiras perguntas.
A cobra: controle ao invés da destruição.
O oponente: criação de saídas em meio ao impossível.
E depois: escolha entre amor e vingança.
Finalmente, surgiu uma resposta.
Não em palavras:
Em ação.
Akemi deu um forte abraço em Hiromi.
Totalmente rodeada, a garota travou. Seus olhos, surpresos sobre o ombro alheio, se assustaram. — O-o que você-
— Eu não sei a resposta — confessou Akemi, sereno, de olhos bem apertados para que absorvesse toda a dor que a outra sentia. — Sou só um garoto que cresceu numa área tranquila. Minha vida inteira foi ajudar meu avô no trabalho, imaginar coisas, sonhar com algo maior. Este último cenário dito por você… de magnitude tão complexa e tão caótica… seria insolucionável pra mim.
Hiromi seguia quieta e estatelada, sua atenção estava nítida embora o estresse emocional.
— A resposta de manter a calma e permanecer com a pessoa que você ama parece óbvia, mas entendi que ela é a opção mais complicada a ser escolhida. Talvez impossível àqueles que possuem um coração valente. Quando tudo está desabando, as emoções vencem… sempre vencem… e eu sei bem disso.
Akemi respirou fundo, convencido de que seguia a linha correta de raciocínio. Mas ainda faltava a parte mais difícil: a conclusão.
— Entretanto, mesmo que eu tenha passado por algumas experiências complicadas, nunca vivenciei uma encruzilhada que envolve pessoas que você ama e pessoas que você odeia cegamente, ainda mais quando se trata de vida ou morte. Ninguém nasce como o gênio do controle emocional. Então… a resposta não está no que fazer naquele cenário, e sim, no que fazer antes pra evitar a dor.
O abraço apertado ganhou força.
— Devemos ter força, coragem, e sabedoria. Se formos poderosos o bastante pra defendermos tudo o que amamos, nunca sofreremos com traumas incuráveis… Esse é o meu objetivo, Miya, e espero que você me ajude a ser dessa forma. Você é claramente mais forte do que eu, mas assim como já mostrou querer me proteger, também quero te proteger por tudo o que fez por mim até aqui…
Durante o abraço, Akemi esperava por uma reação, palavra, ou qualquer coisa.
Segundos passaram, e sutilmente, houve uma mudança no corpo da garota.
“Ela tá tremendo?”
— Miya!? — Akemi a soltou imediatamente, afastando-se e escondendo o rosto vermelho. — Desculpa! Desculpa mesmo! Eu… eu não devia ter feito isso! Foi invasivo, foi estranho! Mas eu senti que você tava estressada e… achei que talvez um abraço ajudasse a te acalmar, mas eu fui um idiota e-
Ele se calou quando viu o rosto de lágrimas secas. Hiromi o encarava, assimilando em silêncio o que acabara de ouvir.
— Miya…?
A garota piscou uma vez, duas, e finalmente acordou do transe. — Ah… Desculpa! — Suas mãos subiram aos olhos e secaram as lágrimas com pressa; observações e toques confusos em si mesma denunciavam que seu próprio corpo fizera reações estranhas. — Céus, isso foi… inesperado.
— Você tá bem? — indagou Akemi, receoso.
— Estou!… Estou sim — a voz voltou ao controle com um sorriso aliviado.
— É que… você…
— Sua resposta foi perfeita, Akemi.
— … Foi?
Com resquícios da dor sentida, a confirmação veio com alegria e orgulho:
— Foi, snif , realmente perfeita.
— Ah… então fico feliz! Hehe.
— Porém — Hiromi juntou as mãos e baixou o olhar, repensando sobre suas verdadeiras capacidades como mestra — não sei se serei realmente hábil à te fazer alcançar o patamar que deseja. Agora, eu mesma entendo plenamente que estou longe de ter o controle perfeito. Eu ainda… ainda carrego muita coisa. Muito medo. Muita dúvida. Muita raiva… — Terminado o desabafo, ela ergueu o rosto com uma determinação vulnerável — mesmo assim, prometo que farei de tudo pra continuar compartilhando tudo que sei.
— Então tá decidido! — Akemi devolveu a energia positiva. Mas no fundo, uma pergunta o martelava na cabeça: que tipo de ferida Hiromi carregava ao ponto que escondesse tamanha angústia sob um semblante de gentileza? Perguntas foram cogitadas, mas a ideia se desfez sozinha. “Se for pra saber… vai chegar até mim do jeito certo.”
— Akemi.
— Sim?
— Acho que… tá na hora de você saber melhor sobre quem realmente sou. Sobre minha verdadeira origem.
Com a revelação, Akemi notou que finalmente entenderia o que Hiromi Miyazaki escondia por trás da máscara…