Capítulo 82 – A Terra do Fogo
Capítulo 82 – A Terra do Fogo
No apagar do século XIX, a tarde se desfazia sobre colossos milenares que expeliam seu vapor cálido por rachaduras tão antigas quanto a própria terra:
O complexo vulcânico de Meilí.
Alí, a aura do fogo trouxe a herança amplificada de um povo formado entre fuligem e clarões desde o primeiro choro da vida até o último sopro da morte. Sangue, quando corria, vinha quente demais, mas jamais deixava queimaduras no corpo calejado de um meiliano.
No coração urbano, por entre sete vulcões vigilantes que resguardavam uma bandeira carmim hasteada à altura do sol poente, HuoZhong, a Capital Vermelha, protegia suas construções de telhados curvos alternadas entre o ébano e o pinho com muralhas de pedra fundida.
Monges de olhares ausentes e vendedores gritando números se misturavam a moradores de túnicas elegantes e crianças alegres de punhos em brasa. Contudo, entre risos e preces, existiam portas jamais cruzadas por meros civis. Em salões de basalto polido e aroma de pólvora, o império discutia a própria ruína.
Embora as cerimônias religiosas e poemas sobre harmonia, Meilí ouvia os tambores da guerra que vinham do norte e leste.
Naquele fim de tarde, os generais e o Império Meiliano descobriram que o Rio Dourado entregava mais que espelhos do céu: trazia rumores, e paz não era pauta.
Eles falavam de Asahi.
Falavam de Medved.
Falavam sobre o que lhes restava contra aquelas forças crescentes.
A produção de carvão fora dobrada. O salitre 1 abastecia os armamentos recém-projetados. Em campos abertos, oficiais áuricos treinavam o controle de explosões de olhos vendados. Até os monges antes pacíficos guerreavam e sujavam os corredores dos monastérios com pegadas de fogo.
Ordens levaram caravanas ao movimento, soldados à marcha, e o brasão da folha flamejante ao peito de cada uniforme bordado à mão…
Nas fronteiras, superiores observavam o horizonte dourado do mar.
Meilí sentia a aproximação, não do início de uma guerra qualquer: do fim de uma era.
Nos salões laterais da Corte Celestial, um conselho se reunia em silêncio na Mesa Redonda tomada por pergaminhos e mapas riscados em vermelho. O clima entre aqueles que vestiam túnicas de cores variadas era outro: menos marcial, e mais paranoico.
Uma dos acadêmicos disfarçava a ira. — Asahi se moderniza com velocidade. Indigna… Suas escolas adotam saberes ocidentais, seus exércitos seguem táticas europeias, e com todas essas características, seus olhos agora miram Seorim.
A informação era de conhecimento dos presentes. A dúvida era sobre o que seria feito.
— Seorim, a península ao lado… — ponderou um senhor robusto de rosto marcado por longas cicatrizes — estamos falando da nossa irmã de sangue desde os tempos antigos e protetorada por afinidade… se é que isso ainda existe. Devemos interferir?
Outro tomou a palavra com autoritarismo. — Além de melhorarem as suas técnicas e seu destaque em habilidades áuricas inovadoras, os asahianos aumentaram o número de combatentes e pretendem cruzar o mar em poucos dias. Quando o fizerem, não teremos sequer metade da força para pará-los se não respondermos à altura.
— Por sorte, eles ainda estão em menor número — salientou um sábio idoso, a referência — tomaremos nossas fragatas e conquistaremos território nos mares. Se mantivermos as batalhas sobre as águas infinitas, conseguiremos preservar a paz entre o nosso povo… mesmo que nos coloquemos em desvantagem contra um adversário tão qualificado em alto mar.
O breve silêncio determinou o fim do tópico.
Ao norte do mapa, mordendo o flanco das fronteiras de Meilí com suas presas congeladas sob o manto da diplomacia, Medved já havia tomado terras o bastante para que fossem conhecidos como o maior território do mundo. Tratados? Cuspidos com ameaças. Acordos? Quebrados após guerras patrocinadas por nações que nem falavam a língua do povo.
O sentimento de humilhação assolava a Mesa Redonda, terras haviam escorregado pelos dedos imperiais sem um único combate.
Silencioso até então, um monge, remoendo a perda de lugares sagrados, desprendeu a sua voz embargada pela dor espiritual. — Não se esqueçam que Os Lobos da Neve já erguem fortalezas em nossas margens e trazem consigo uma enxurrada de estrangeiros… Eles continuam chegando e fincando suas bandeiras onde antes orávamos. Nossas origens não podem ser descartadas a troco de nada que a preserve!
As palavras do monge, embora roucas, bateram como martelo sobre as sinetes de cera que selavam a omissão do conselho.
Um general envolto em medalhas que há muito não viam batalhas esbanjou covardia no próprio pigarro. — Fincam bandeiras… — repetiu para si — hu hu hu… fique tranquilo, respeitável monge, pois nós fincaremos estacas! Assim talvez possam sentir o gosto amargo de atravessar a Terra das Chamas com as botas sujas de neve.
Um escrivão acompanhava realizando anotações sobre os rumos que o discurso tomava. A atmosfera ganhava cor durante o espelhar da tinta sobre a seda molhada. Pela primeira vez em décadas, a ideia de “resposta” parecia mais real que os mantos amarelos da diplomacia meiliana.
Todavia, mesmo dentro das muralhas, a lealdade oscilava.
Cortesãos vacilavam entre reforma e tradição, rebeliões internas seguiam assombrando a população, a Revolta TaiPing 2 deixara feridas profundas demais, e na província de YunNan, já floresciam comunidades devotadas à cultura nogluniana, desenvolvendo pessoas que jamais se curvariam à qualquer corte de sua terra natal.
A década parecia um ponto de ruptura à soberania meiliana que, de pouco em pouco, sangrava, e mesmo cercada por nações que abandonaram suas tradições em nome do progresso militar, não era ingênua, pois sabia que Asahi preparava um império próprio — um novo tipo de império, um que unia honra com sangue, espírito com aura, assim como ela fazia, porém, aprendendo mais… e respeitando menos.
Também era de conhecimento que Medved não invadiria correndo; invadiria aos poucos, ao passo de pequenos caminhos, acordos e enganos, tomando terras por debaixo do nariz de generais e monges…
Mas os vulcões ainda respiravam, a memória da chama mantinha a Terra do Fogo em pé. O império ferido procurava a cura, e perante tal busca, seria necessário força para que quando o mundo tentasse apagá-los de novo, não houvesse diplomacia que segurasse o ímpeto ígneo.
Entretanto, tornara-se evidente que apenas força jamais resolveria os problemas de uma nação inteira; talvez um governador experiente, um sábio antigo, um herói ou uma heroína… ninguém sabia a resposta definitiva, mas uma coisa era clara: se o salvador existisse, seria crucial que sua lealdade permanecesse ao lado da terra natal, o que, naquele momento de tensão contra Asahi e Medved, não aconteceu…
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- nitrato de potássio ou nitrato de sódio, mineral historicamente fundamental como matéria-prima na fabricação de pólvora e explosivos. ↩
- revolta em que um líder religioso reuniu milhões de camponeses e quase derrubou o Império Meiliano, criando um reino próprio em NanJing. No mundo áurico, acredita-se que os TaiPing foram influenciados por usuários de aura que manipularam massas e desestabilizaram o governo, facilitando a expansão militar estrangeira. Há mais detalhes no conto áurico: A Revolta TaiPing. ↩