Capítulo 88 – A Traição
Capítulo 88 – A Traição
O convés branco queimava.
As chamas que envolviam por completo a figura humanoide alertavam os cerca de cem Soldados de Fogo que invadiam a fragata asahiana.
Todos a encaravam com expressões de curiosidade e receio. Alguns reconheciam a silhueta, outros apenas viam o perigo.
— É a Princesa Imperial? — analisou um deles.
— Haha, veio nos ajudar! — comemorou outro, erguendo a alabarda. — Mal posso esperar para vê-la finalizando esses-
— NÃO! — cortou um veterano de cicatrizes profundas e rosto empalidecido — O NAVIO! OLHEM!
A fragata meiliana estava devastada. Corpos caídos, madeira queimada, mastros quebrados. A fumaça subia em colunas negras, e soldados inconscientes boiavam no mar.
A compreensão chegou rápido.
— Ela… destruiu nosso navio… — murmurou um invasor, desacreditado.
— A PRINCESA MATOU NOSSOS IRMÃOS! — alertou o veterano. — A TERRA DO FOGO FOI TRAÍDA!
Huo’ying esperava os soldados meilianos; o brilho caloroso de seu corpo se intensificou com uma fúria calada que traduzia emoções negativas além das palavras.
— MATEM ELA! — ordenaram.
Shihais ígneos atacaram ao mesmo tempo, mãos acesas dispararam rajadas flamejantes em direção à traidora.
Bolas de fogo voaram, mas quando atingiram a figura humanoide, simplesmente se fundiram ao corpo dela, absorvidas pelo mesmo organismo.
A princesa permaneceu intacta.
Alguns soldados travaram.
— Não funciona — resmungou um deles, apavorado.
“Alcançamos o objetivo… Ela se tornou um com a própria técnica de fogo…”, concluiu o veterano, com a convicção de que cumpriu a missão que lhe fora confiada. — NOCAUTEIEM A PRINCESA E LEVEM-NA AOS BOTES! QUANTO MAIS RÁPIDO, MELHOR! PRECISAMOS BATER EM RETIRAD-!
Huo’ying moveu-se. Ganhando características penosas de uma ave, a chama viva posicionou os braços como asas protetivas, inclinou o corpo e efetuou uma investida rasante pelo convés. O ataque ultrapassou entre as lâminas de fogo que a miravam, derrubando os adversários enquanto queimava as fardas negras.
Na breve pausa da princesa, um soldado avançou com uma Dao 1 flamejante, objetivando um corte; a lâmina que atravessou o braço ardente não surtiu dano, e no mesmo instante, o militar recebeu a palma ardente contra o peito. O impacto o jogou contra a base do mastro e o deixou no chão.
Outro homem que atacou de punho em chamas passou direto; seu braço foi agarrado pela traidora e quebrado nos ossos, ajoelhando-o no chão.
Cinco meilianos cercaram, atacando de todos os lados. Rajadas e socos ígneos convergiram para o centro. O fogo aviário se abaixou, girou, e com um único voo impulsionado às alturas, desviou-se dos ataques simultâneos. No ar, as chamas vivas reagruparam-se em silhueta de ave e prepararam o contra-ataque:
“Não posso matá-los,” a mente de Huo’ying, lúcida apesar da fúria, lutava contra o próprio descontrole dentro das chamas enquanto descia. “São apenas ferramentas, assim como eu era.”
Na aterrissagem que dispersou os adversários, uma sequência de movimentos marciais mudou a forma animal para o tigre de rosnados ofensivos.
Soldados meilianos viam o medo primitivo superando o treinamento, mas não havia tempo para fuga.
Alternando entre a silhueta humana e a feroz, socos explosivos mandavam homens à amurada enquanto garras rasgavam uniformes e jogavam corpos contra caixas de suprimentos.
A transmutação em pantera cruzou o convés em um traço tão rápido que os soldados atingidos sequer sentiram a queda; os poucos que surgiram nas proximidades reagiram, mas a precisão selvagem do felino os neutralizava entre bloqueios e nocautes. Cada movimento era parte de um golpe contínuo, e nenhum meiliano decifrava o padrão sem que terminassem no chão.
Três coronéis em uniformes escuros sob predominância dourada ergueram suas armas e fecharam um triângulo ao redor da traidora. Lâminas flamejantes, chicotes de brasas e uma lança ígnea avançaram em desespero, focadas na eliminação da ameaça.
No instante do impacto, o corpo de fogo se alongou, tornando-se fino, fluido e cilíndrico. Os padrões sinuosos destacados definiram o comportamento da serpente.
Os ataques vieram de todos os lados, mas a forma deslizou entre as armas com frieza e travou-as.
Os militares forçaram para que fossem soltas. Inútil.
A pressão do aperto cresceu e rompeu os equipamentos.
A forma humana retornou, mãos em golpes de bote acertaram pontos vitais para incapacitação sem morte.
Os três veteranos caíram rígidos um por um. Na queda do último, a forma de serpente se ergueu lentamente, e enfim, a transformação final:
As chamas explodiram ao dragão de rugido tão poderoso que tremeu o mar à luz do dia. Os olhos flamejantes brilharam como sóis em miniatura. A mandíbula se abriu com presas incandescentes que gotejavam faíscas, e as garras, maiores que um homem, ergueram-se ao ataque.
Os soldados iniciaram a retirada em pânico. Alguns correram para a lateral do navio, outros se curvaram rendidos. Tarde demais.
O dragão voou com uma baforada de chamas que se espalhou pelo convés como uma tsunami de fogo. Alguns saltaram no mar, poucos criaram escudos ígneos, mas a intensidade das chamas superou as defesas. Os que ficaram caíram inconscientes, queimados mas vivos, seus corpos exaustos jamais continuariam o combate.
Todos os invasores meilianos foram derrotados, e na aterrissagem do dragão, as chamas se enfraqueceram.
Retraindo todas as chamas que consumiam as madeiras brancas, o monstro encolheu e retornou à humana de antes: uma jovem de dezesseis anos.
Huo’ying caiu de joelhos no centro do convés branco, seu corpo tremia, e o suor escorria pelo rosto coberto de fuligem. Sua respiração saía em ofegantes irregulares, e os olhos verdes estavam chocados, vidrados na inquietude das próprias mãos. “O que… o que foi isso?” pensou ela “eu nunca… nunca consegui fazer aquilo antes. A forma de fogo… em corpo inteiro… Como…?”
As memórias voltaram fragmentadas: o medo, a raiva, o desespero, e a partir da explosão, eio a transformação em chamas de pouco controle consciente.
“Cataclisma áurico,” uma voz distante ecoou em sua mente, palavras de um mestre há anos atrás, durante um treinamento guiado por um papel de registros sobre uma mesa. “Este é um evento ocasionado quando emoções extremas despertam poderes que ainda dormem. O estrago é perigoso, incontrolável, e extremamente poderoso.”
O jovem coração descompassou.
— Eu… traí meu país — a fala escapava com lágrimas que ardiam mais do que o fogo. — Ataquei nossos próprios soldados. Minha mãe… O-o que ela vai fazer?
Ela agarrou a lateral do ombro, bem no brasão de folha dourada do Exército Meiliano sujo de sangue e traição e o arrancou da farda por conta do medo e desprezo por si mesma. A consciência do que fez estava clara na mente, e a única dúvida temerária era sobre o que aconteceria depois.
Entretanto, no fundo, o futuro foi ignorado.
— Não, eu não sou filha dela, ela não me trata como — Huo’ying apertou a cabeça e deixou as lágrimas caindo livremente. — Não sou uma princesa, nunca fui… Não sou mais… nada . Não sirvo àquele país manchado em desgraça !
O silêncio em seus ouvidos ficou forte, mas seus sentidos a avisaram que estava sendo observada.
A garota ergueu a cabeça lentamente.
Todos os sobreviventes asahianos: soldados mulheres, estudantes e jovens cientistas, a encaravam. Cerca de cinquenta pessoas espalhadas mantendo distância segura pelo navio.
Eles olhavam com horror, confusão, e outros, com sentimentos mais profundos: gratidão velada. Aquela jovem havia salvado suas vidas, afinal. Também existia aqueles com suspeita absoluta, por que não esqueceram que era meiliana, inimiga por definição.
Alguns poucos com algo próximo à compaixão, viam apenas uma garota perdida destruída pela própria escolha.
Uma soldado asahiana de cabelos rubros curtos e cicatriz cruzando o rosto, deu um passo à frente. A mão segurava com firmeza o cabo da katana embainhada, e os olhos castanhos estudavam Huo’ying com a frieza de sua decisão como veterana. — Segurem-a, é uma meiliana. Não importa o que fez, não podemos confiar.
Outros cinco soldados jovens se levantaram.
A garota seguia ajoelhada e de cabeça baixa, exausta demais para mais lutas. “Vão me matar,” pensou, resignada, “e talvez… eu mereça.”
Durante o avanço calmo dos soldados, uma jovem voz masculina exclamou sem agressividade: — Esperem!
Um rapaz de dezenove anos destacou-se entre os estudantes. Cabelos pretos médios e desalinhados caíam sobre os óculos redondos que, mesmo rachados e opacos, preservavam um ar de inteligência e determinação. O uniforme de estagiário científico da ASA trazia fuligem e manchas de sangue espalhadas pelo tecido, mas sua postura íntegra não cedia ao desgaste evidente.
Naquela presença, uma determinação indicava até onde iria; ele entregaria tudo que tinha para que garantisse a proteção da meiliana perdida…
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- espada de um único fio e lâmina levemente curva. ↩