Capítulo 101 – De volta ao subterrâneo
Capítulo 101 – De volta ao subterrâneo
[ 28 de maio de 1922, túneis subterrâneos da ASA, 18h12 ]
Luminárias fracas em paredes cilíndricas e cheiro de mofo: os túneis subterrâneos da Academia Shihai de Asahi seguiam esquecidos e propositalmente secretos.
Vestido no uniforme de treino, Akemi descia cautelosamente pelas escadas de mão enquanto ignorava a leve dor nos ossos desgastados. Alcançado o chão, o rapaz parou ao lado de Hiromi, que nas mesmas vestes coladas, observava o caminho escuro à frente em uma postura confiante e animada.
O som de água pingando ecoava da única porta à direita, a mesma no qual escutaram conversas de Katsuro, Jin e uma mediadora.
— Nossa missão é alí — informou a garota.
— Ei, não deveríamos falar mais baixo!?
— Katsuro está longe de ter a mesma onipresença de Jin. Ele é tão displicente que sequer se preocupou em reforçar a segurança da academia nos setores que mais lhe importa. Estamos completamente isolados aqui.
“Como ela tem tanta certeza?” Akemi suspirou. — Enfim, é por isso que às vezes desaparece dos treinos? Fica por aí procurando pistas de conspirações?
— Idem, foca na missão — Hiromi partiu impaciente até a porta.
Internamente conturbado, Akemi remoía acontecimentos do passado. O medo de rever aquela intriga em consequências maiores apertava seu peito. A dúvida o consumia, fazendo-o imaginar como Hiromi pretendia garantir a segurança deles caso tudo fugisse do controle.
— Se precisa escolher entre o instinto de um homem e a convicção de uma mulher, a resposta deveria ser óbvia — comentou uma mulher presunçosa.
Akemi visualizou Kurori de braços cruzados e escorada na parede côncava do túnel; as vestes pretas a camuflavam nas sombras, revelando apenas a pele branca do rosto.
— Desde quando tá aqui!?
— Eu nem precisaria das minhas habilidades pra passar despercebida de você, garotinho. E antes que pergunte, Masaru me pediu para vigiá-los. Conquanto, huhu … não imaginei que vocês tivessem outros planos além de treinar. Quanta ousadia~ — Kurori empurrou-se da parede com as costas e rumou à garota na porta.
— Vai nos ajudar? — perguntou Akemi à mulher.
Acompanhando o olhar analítico de Hiromi perante a fechadura da porta, Kurori retirou uma gazua 1 do bolso do jaleco preto. — Farei mais que isso, os deixarei entrar aonde jamais conseguiriam sozinhos.
Quando a tentativa de arrombamento começou, Akemi duvidou. — Por quê diabos uma médica saberia burlar fechaduras!?
Focada na porta, Kurori demonstrava anos de prática em suas habilidades. — O passado me ensinou muito, e sinceramente, nem tudo na minha vida se baseou em medicina.
Num breve esforço final, a entrada se abriu.
A doutora foi primeiro, Hiromi a seguiu.
Akemi esperou alguns segundos. À sua frente, a sala misteriosa saltava aos olhos.
O local escuro sob o brilho natural de um lustre cristalizado intimidava no luxo: piso de mármore branco, paredes revestidas de detalhes geométricos, cadeiras estofadas em torno de uma grande mesa oval ao centro, e nas extremidades, estantes abarrotadas de livros e caixas lacradas. Na parede oposta à entrada, quadros emoldurados exibiam mapas; ao lado, quatro de hastes verticais suportavam bandeiras de nações, respectivamente: Freedom, Asahi, Dagorion, e Valmont.
— Uma sala parlamentar? — indagou-se Akemi, adentrando devagar. — Não, é muito pequena pra isso — concluiu fechando a porta.
Na mesa redonda, Hiromi vasculhava documentos espalhados. — Vamos nos separar. Akemi, vasculhe as gavetas da direita. A Senhorita Kurosawa toma conta das estantes. Eu fico com a mesa — destacou.
No armário lateral, Akemi abriu a primeira gaveta. Foram encontrados papéis, relatórios e correspondências. Pego o primeiro documento, a ansiedade cresceu, mas não superou o foco.
“‘Tratado Secreto de Partilha.’” O folheto destacava o mapa de Seorim com duas cores distintas, demarcando o território dividido em dois setores. Medved ficava com uma parte mínima ao norte; Asahi tomava o resto. No mar, pontos vermelhos denominavam o interesse de tropas meilianas em ilhas e ilhotas.
Por outro lado, enquanto Hiromi intrigava-se com as letras ilegíveis de um papel velho, Kurori vasculhava uma estante baixa, onde um dossiê ganhava sua atenção. Escolhido o primeiro documento, ela apertou os olhos para uma leitura minuciosa. “‘Oficiais de Recebimento:’” Sua mente lia e gravava. “‘General Katsuro Miyazaki e Coronel Kaichi Kobayashi.’ E aqui… ‘Oficiais Estrangeiros: Capitão John Pershinger; Emissária de Hawthorne III; Coronela Severa Lini e Oradora Erika Heiss.’”
Próximo, Akemi também acompanhava a leitura discretamente. — Quem são esses estrangeiros?
— Desconheço. Mas pelo visto são do alto escalão militar.
— Encontrei essa carta aqui, achei melhor que você a abrisse.
— Deixe-me ver.

— Uma carta fascista… — concluiu Akemi.
— Pior, há uma ideologia de caos por dominação poetizada na língua antiga dos soveranos: “ Distruggere, costruire.”
— A carta vem do líder deles — afirmou Hiromi, revirando a estante do outro lado da sala. — Estão planejando genocídio em Seorim para uma partilha territorial… Estamos diante de crimes de guerra documentados e assinados por múltiplas nações.
Kurori retirou outro papel do dossiê. — Vocês realmente são astutos por se meterem num “covil” como este… — e finalizada a rápida leitura, alertou: — Olha só! Acho que esse documento merece seu interesse, rapazinho.
Akemi pegou o registro. — “‘Operação Floresta Estelar’… ‘Lista de Descartáveis’”!? Peraí… Meu nome tá aqui!?

— Querem… que eu morra…?
Hiromi pousou a mão sobre o ombro do garoto que encarava o papel com descrença, espiando o documento por cima dele. — Na verdade eles pretendem se livrar daqueles que consideram fracos, seja por morte ou despache… mas isso não vai acontecer, pois nós faremos você e todos os outros saírem vivos daquela floresta — convenceu.
Embora motivado, Akemi se incomodava com um detalhe. — Tem asteriscos em alguns nomes. O que isso significa?
— Hm. Teruo Kenzo é filho de alguém importante na academia.
— O Shihai do Tempo.
— Exato. Suponho que o marcaram para não deixá-lo morrer facilmente. As outras marcações devem seguir um propósito parecido.
— Mas se querem evitar a morte de alunos específicos, por que os deixariam ir pra floresta?
— Para respondermos isso precisamos encontrar um jeito de levar o máximo possível de documentos para melhor análise.
— Levar os documentos!? Você endoidou!?
— Dãã , claro que não roubaremos registros legítimos, ô, cabeção.
— Então como pretende agir, espertona?
— Chega de ironia os dois. Usaremos isto aqui — Kurori sacou uma pequena câmera fotográfica de madeira escurecida. As ferragens em latão, o fole de couro e a lente espesso de vidro fosco uniam estética à mecânica.
O rapaz brilhou os olhos. — Maneeeiro… Consegue tirar fotos aqui?
— A iluminação é suficiente. Me dêem 5 minutos.
A médica retirou papéis das gavetas e espalhou-os sobre a mesa; a sequência de fotografias capturavam palavras e separavam revelações.
— Senhorita Kurosawa — chamou Akemi — tem certeza desse empenho todo em nos ajudar? Suas consequências podem ser piores como funcionária, não?.
— Odeio que me escondam segredos. Além do mais, sei muito bem o que acontece quando pessoas poderosas conspiram por debaixo dos panos. Eu vivi isso na pele.
O silêncio dos jovens esperava por mais.
Enquanto deixava as revelações suspensas no ar utilizando levitação, Kurori fotografava os documentos e, ao mesmo tempo, contava sua história. — Como Kurosawa, sou parte de uma família influente em Asahi. Médicos inovadores, cirurgiões da alma e especialistas em aura. Mas também, torturadores, vivisseccionistas 2 sem pudor e fabricantes de armas humanas… Huhu! Vocês acreditam que ninguém admite isso em voz alta? O governo e a sociedade até hoje nos tratam como tesouro nacional, fomos transformados em pecadores perfeitos…! Isso não é belo?
Akemi suspeitou da entonação eufórica. Hiromi cruzou os braços e debochou: — Dá pra ver a amargura do seu sorriso. Saiba que não precisa esconder nada da gente.
Expressões nostálgicas diminuíram o ritmo das fotografias. — Cresci cercada por bisturis, fórmulas e cobaias. Eu era curiosa demais. Amava o estranho, o diferente, e principalmente, o proibido. Tanto que aos vinte anos me envolvi com o chefe do maior sindicato de crime-organizado de Asahi.
— Os “Sem Valor”!?
— Como chegou até eles? — interrogou Hiromi.
— Eles trabalhavam secretamente para os Kurosawa. Um dia, apareceram na minha casa quando eu tinha dezesseis anos e me ofereceram em troca de um espécime de pescado.
— Te trocaram por um peixe!?
— Akemi, menos! Perdão, Senhorita Kurosawa, poderia dizer o motivo dessa troca?
— Era uma carpa rara com poderes de preservação vital, meu criador estava com um câncer degenerativo e precisava de um tratamento que não lhe custasse longos períodos. Aquela oportunidade era perfeita.
— Não sente remorso por isso? — indagou o garoto.
— Não… Meu sonho era ficar longe daqueles laboratórios.
— E como exatamente os Sem Valor ajudavam os Kurosawa? — questionou Hiromi.
— Transporte de minérios, dinheiro, espécimes raros, e tudo o que vive fora do alcance da população civil por questões burocráticas.
— Participou disso quando juntou-se a eles?
— Huhu, não se preocupe, Miyazaki. Estive ali apenas pra receber a benção de viver no luxo. Eles apreciavam a minha beleza com amor verdadeiro em troca de diagnósticos precisos sobre seus defeitos e doenças. Finalmente senti-me parte de um lugar que me agradava, e hoje, sou grata por essa linda tatuagem em meu pescoço.
Hiromi fechou a cara. — Acredita que foi amada por criminosos?
— Eu só estava cansada de ser uma mera ferramenta em meio a tantas cobaias sem receber nada. Você entenderá quando passar anos em salas excessivamente iluminadas, ouvindo súplicas por piedade e gritos pré-morte.
O peso do relato mergulhou o ambiente no silêncio. Incomodado com a tensão, Akemi coçou a nuca. — Éér… consegue contar como acabou vindo parar nesta academia?
— Uma noite, uma Guarda Shihai invadiu a mansão do Chefe Sem Valor e levaram todos presos, inclusive eu.
— Quanto tempo de cárcere? — indagou Hiromi.
— Difícil dizer… mais de década. Porém não fiquei parada. Mesmo algemada, eu servia à guarda: diagnosticava internos, desarmava bombas, abria cofres… Nada de graça. Recebi regalias, comidas de primeira e conforto na cela até o dia da minha liberdade aos trinta anos de idade. Dalí, decidi mudar de nome e vida, e por sorte o destino colaborou. A ASA buscava um novo mestre em medicina áurica. Me candidatei, avaliaram minhas habilidades, e agora completo dois anos e meio de serviço nesta academia.
— Você realmente é uma ex-criminosa — supôs Akemi.
— Não… Sou uma sobrevivente , e agora estou do lado de vocês.
O som do manuseio de papéis e flashes tornou-se o único ruído após tantas histórias e controvérsias. Numa espiada, Akemi viu cautela no semblante reflexivo de Hiromi, detalhe que dizia o quão a garota ainda desconfiava de Kurori.
Inibida dos problemas do passado, a médica gentilmente ajeitou a mecha atrás da própria orelha, afinal, sua mente sabia que tudo aquilo não passava de uma simples lembrança.
Mais uma foto, mais uma revelação.
Faltavam poucos documentos para o fim dos registros…
— Shh! — Hiromi pediu silêncio — ouviram isso?
Tap, tap, tap, tap…
Passos ecoavam no corredor.
O som aumentava a cada segundo…
Kurori agiu rápido e agarrou um dos ombro de ambos os jovens. O toque sequenciou a ocultação do corpo dos três, deixando-os transparecidos.
Quanto mais os passos se aproximavam, mais o trio se afastava cautelosamente da mesa principal, onde os papéis espalhados e a câmera largada escancararam uma cena suspeita.
A porta foi aberta, e o que surgiu dela certamente não estava na expectativa dos camuflados.
Nikko e Minoru chegaram no recinto…

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- ferramenta multifunção de arrombamento usado para forçar fechaduras e cadeado. ↩
- que pratica a vivissecção, ou seja, realiza dissecações anatômicas ou qualquer operação congênere em seres vivos com propósitos científicos, cirúrgicos ou didáticos. ↩