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Capítulo 102 – Retratos do passado

Shihais: Remanescentes Da Aura — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 102 – Retratos do passado

[ 28 de maio de 1922, sala oculta nos túneis da ASA, 18h14 ]

Passos leves, alegria destacada, olhos brilhantes: assim Nikko cruzou a soleira, dando ao ambiente escuro o brilho contagiante de sua chegada.

Atrás dela, Minoru parou entre o batente da porta, observando cada canto daquele lugar estranho. — Que sala é essa? — perguntou, com a voz quase engolida pelo teto.

— Ah, eu sei lá — Nikko passou os dedos na estante coberta de livros e caixas. Sua preocupação não existia. — Mas parece perfeito pra guardar segredos, né?

Minoru adentrava devagar. — Haah — suspirou — você ainda brinca numa hora dessas. Aliás, como sabia daquela escotilha escondida no meio de tantas folhas? Foi suspeito pra cara-

O comentário do garoto foi interrompido por um gritinho agudo de empolgação. Perto da mesa central, Nikko erguia nas mãos a câmera fotográfica de acabamento reluzente. — Olha, Suzu! Que coisinha mais linda! Deve ser de última geração, com certeza! — Ela girava o objeto, examinando a lente com um fascínio infantil. — Gente, meu sonho era ter uma dessas! Como será que funciona?

Um clique. Um flash. Nikko ria sozinha enquanto disparava fotos pelos quatro cantos da sala.

— Você ainda não respondeu minha pergunta — insistiu Minoru, cada vez mais próximo da mesa. Seus olhos alcançaram o amontoado de papéis espalhados sob a luz baixa do lustre;  os documentos com carimbos oficiais e as revelações fotográficas mudaram seu foco por completo. A postura desconfiada entrou em alerta. — Nikko, precisamos sair daqui já. Esse lugar não é bem-vindo à gente.

Descontraída, a fotógrafa jogou-se no assento de uma das cadeiras ao redor da mesa. — He hii, olha só quem fala. Se acha o mais convencido e corajoso entre a turma, mas quando se depara com uma aventurinha de nada fica todo engomadinho.

— Querer evitar problemas não tem nada a ver com ser “engomadinho” — protestou, com uma veia saltando.

Nikko derrubou o amontoado de documentos e revelações da mesa, puxou a cadeira ao lado com o pé e deu dois tapinhas sobre o estofado. — Vem cá, senta aqui, vamos tirar umas fotos!

Minoru franziu o cenho aos documentos jogados e cedeu ao convite.

Nikko o puxou pelo braço, aproximou os rostos, e disparou flashs repetidas vezes.

Em contrapartida às variadas poses da garota, o rapaz amargava o sorriso nas fotos. Uma dúvida o assombrava. — Não vai me dizer por que me trouxe até aqui? — cobrou.

Nikko baixou a câmera no colo, e enquanto separava as novas revelações sobre a mesa, relembrava: — Ora, se esqueceu do Shogi que jogamos no intervalo? Você disse que tinha um segredo pra me contar, mas só revelaria se eu ganhasse.

— Você roubou tudo que dava naquela partida! — acusou, indignado — eu só deixei passar porque você vivia esquecendo o movimento das peças.

— Ah, ah — negou — foi dito “se eu ganhasse ou não”. Você nunca detalhou “como eu deveria vencer”. As regras foram todas suas, compadre.

Minoru resignou a derrota. — Tsc, você não vale nada mesmo.

Nikko largou a câmera sobre a mesa. — Tá, chega de enrolar. Anda, fala logo o que você prometeu. Tô ficando ansiosa, he hii!

O rapaz respirou fundo. — Então… é uma coisa que tô tentando entender faz um tempo… e achei que talvez você pudesse…

— Ajudar!? Claro que posso! Manda aí, é dica de luta? De dinheiro? De moda…? Ou será que é sobre namoro ? ~ — zombou.

— Quero falar de coisas que vivi — revelou, direto e reto.

— Aah… então é papo sério.

— Sim, e tudo começa há uns anos atrás… Eu cresci num lugar bem distante, um pequeno monastério no alto do monte Furōhō.

— Pera, minha avó já me contou histórias sobre esse monte!

Minoru achou uma leve graça da reação. — É o templo das auras terrestres. Lá tinham três monges veteranos que cuidavam de mim. Eram rígidos, mas foram como uma família. Eles me ensinaram disciplina, responsabilidade, espiritualidade, autodefesa e… também me ensinaram sobre o amor.

— Monges falam de amor? — duvidou.

— O tempo todo. Eles diziam que amar era colocar a felicidade do outro acima da própria. Que era cuidar, compreender, perdoar e aceitar partir quando fosse necessário. Diziam que quanto menos nós nos prendermos às pessoas, mais livres seríamos para amá-las de verdade.

— Então… por que eles fazem celibato?

— Porque acreditam que o apego pode cegar. Um monge faz votos para dedicar a própria vida igualmente a todas as pessoas, sem colocar uma acima das outras. Quando se constrói uma família, surgem prioridades, medos e desejos que podem desviá-lo desse caminho. Foi assim que meus mestres me ensinaram, e jamais pensei que estivessem errados. Mas…

— Maaas?

— Sempre que eu via famílias passando pelas trilhas da montanha… casais caminhando juntos, pais carregando os filhos… eu sentia um vazio que nunca consegui explicar. Não era inveja. Também não era desejo. Era… curiosidade. Eu conhecia o amor pelas palavras dos meus mestres, pelo zelo que eles tinham uns pelos outros e por mim. Só que existia um tipo de sentimento que eu apenas observava de longe. Eu via pessoas sorrindo, brigando, fazendo as pazes, criando filhos, e começava a pensar se existia alguma parte da vida que eu jamais entenderia permanecendo naquele lugar.

Nikko já não demonstrava qualquer traço de brincadeira.

— Você nunca falou disso com eles?

— Não. Eu tinha medo de parecer ingrato. Eles me deram tudo, um lar, um propósito, uma família, então eu enterrava esse sentimento e fingia que ele não existia.

À medida que as lembranças afloravam, o rapaz encontrava firmeza. Ele contou de um velho amigo que sempre aparecia com novidades e propostas; falou dos planos mirabolantes de pular o muro do monastério, das noites em que o arrastava para escapadas secretas. Todavia, Minoru jamais encontrou coragem ou sequer vontade de acompanhá-lo. O respeito pelos monges que o acolheram somado ao receio de punição caso fosse flagrado sempre falou mais alto.

— Mas um dia eu entendi o que ele queria de verdade. Ele queria me mostrar o que era o “amor” e… compartilhar disso.

Nikko levou a mão à boca. — Suzu… isso foi muito mais romântico do que eu esperava.

— O quê? Não!

— Então vocês… Hãn! Por favor, deixa eu contar pra Aruni — sussurrou.

— NÃO! Você interpretou errado! Deixa eu terminar!

Ela segurou o riso. — Okaaay. Continua…

— Ele dizia que eu precisava conhecer o mundo antes de decidir qualquer coisa.

— E esse “mundo” tinha nome e gênero, né?

— Sim. Ele queria me apresentar às mulheres que admiravam os monges. Diziam que disciplina, força e calma eram qualidades de um marido ideal.

— Não acredito que você foi.

Minoru assentiu.

— Suzu! — reprovou.

— Sei, sei, fui um cara de pau. Mas eu era muito curioso.

O sorriso desapareceu de ambos.

— Você realmente fugiu?

— Um dia os monges precisaram sair por alguns dias e deixaram o monastério aos meus cuidados. Foi a primeira vez que fiquei completamente sozinho, e aquele vazio falou mais alto.

— O que você esperava encontrar?

— Respostas. Achei que sair um pouco dali me faria descobrir o que naquele mundo fazia tanta gente abrir mão da paz do isolamento.

— E encontrou?

Minoru baixou a cabeça.

— Não. Eu procurei no lugar errado. Tudo pareceu superficial, forçado… como se ninguém ali estivesse buscando o que eu procurava. Voltei naquela mesma noite sentindo que tinha traído a confiança das únicas pessoas que realmente me amavam. Troquei um dever que prometi cumprir por uma resposta que sequer encontrei.

Nikko permaneceu calada.

— As semanas passaram, e a culpa só piorava. Num momento, cheguei a pensar que não merecia mais estar no monastério, então pedi pra sair. Falei pros monges que ia seguir uma nova vida, mas que manteria contato… Foi assim que vim parar aqui.

Nikko inclinou a cabeça. — Mas espera… se era isso que você sentia… por que um quartel?

— Eu queria um lugar que me mantivesse disciplinado. Sempre fui um garoto complicado: dormia tarde, deixava tudo pela metade… mas sabia que precisava mudar. E, ao mesmo tempo, também queria descobrir o que era o tal “amor”. Não no significado que os monges ou o meu velho amigo me ensinaram, eu queria encontrar o meu significado… Como a ASA reúne pessoas de todos os cantos de Asahi e até de outros países, imaginei que conviver com tanta gente talvez me ajudasse a encontrar respostas… eu só não imaginava que relacionamentos aqui também fossem proibidos, haha… — riu sem jeito.

Nikko abaixou o pescoço e cobriu a lateral da boca para um sussurro. — E aí… encontrou o que procurava?

Minoru deu um sorriso breve porém verdadeiro. — Depois da prova no Castelo de Gelo, comecei a perceber umas coisas — ele apoiou o cotovelo sobre a mesa e relembrou momentos do passado recente. — Nos treinos… no refeitório… andando pelos corredores… até durante as aulas… aquele vazio que eu carregava desde o monastério foi diminuindo sem eu perceber. Tudo por causa de uma nova companhia.

Nikko tentou manter uma expressão neutra. — A-ah, é?

— É. Uma pessoa tão competitiva quanto eu, e que também consegue melhorar meu dia só com o seu sorriso.

Ela entendeu na mesma hora. Mesmo assim, desviou o olhar para a câmera em cima da mesa, fingindo pensamentos enquanto seus dedos distraídos se tocavam. — Hmm… — As pontas das orelhas avermelharam.

— Hahahaha, que engraçado.

— Quê foi!? — Ela encarou.

— Vive dizendo que fico todo engomadinho quando erro, mas agora quem travou foi você.

— Ah, cala a boca — bufou, desviando o rosto envergonhado.

As risadas continuavam.

A garota queria ignorar, mas não se segurou e acabou compartilhando do riso, mesmo que de forma raramente contida.

Quando o silêncio enfim retomou a sala, nada parecia constrangedor: tudo tornou-se leve e acolhedor.

Minoru observava Nikko, então, com uma delicadeza incomum, estendeu a mão e tocou o braço dela.

A jovem assustou-se de supetão, aquele gesto inesperado atravessou todas as brincadeiras que costumavam dividir.

Já o rosto de Minoru falava com seriedade. — Nikko… me deixaria aprender com você o verdadeiro significado de amar alguém?

Ela piscou uma, duas vezes. Suas palavras pareciam ter desaparecido do mundo. — … E-eu…

Sem tirar os olhos, Minoru aproximou o rosto lentamente. O gesto não tinha pressa nem imposição; era apenas um pedido silencioso por mais uma resposta que buscava. Contudo, ele continuava encurtando a distância, rumo à boca da garota.

Nikko disparou o coração, e o calor subiu de uma vez em seu rosto. Ela queria dizer alguma coisa, fazê-lo parar ou ao menos entender o que estava acontecendo, mas a voz se desfazia antes. — S-Su… Suzu…

Ele continuou se aproximando, devagar e silencioso.

— E-espera… — A garota tentava impedir com a mão, mas não tinha coragem de empurrá-lo. — Eu… eu tô… — engoliu em seco — eu tô me sentindo estranha…

A sala ficou muda.

Os lábios estavam a poucos centímetros um do outro.

Definitivamente, um beijo estava prestes a ser roubado…

Entretanto, algo invisível interrompeu os atos. Ambos travaram no mesmo instante. Os ombros endureceram, os dentes se apertaram e os olhos se estatelaram. A rigidez durou apenas um instante.

Os corpos tombaram juntos num desmaio sincronizado sobre a mesa redonda. A câmera fotográfica escorregou centímetros com o esbarro de Nikko.

O lustre cristalizado permaneceu iluminando, em absoluto silêncio, acima dos dois jovens desacordados.

Então, Akemi e Hiromi levantaram-se à frente das estantes, recuperando cor e forma enquanto a camuflagem áurica se desfazia. O rapaz mirava Kurori, que rematerializou-se atrás dos desacordados enquanto puxava o latéx negro da luva.

— Você apagou eles!? — exclamou ele, indignado e de braços abertos.

Hiromi cruzou os braços. — Era isso ou continuar assistindo esse melô de quinta categoria.

— Admito que achei ousado da parte deles, mas eu até gostaria de ver mais — amenizou Kurori, observando com orgulho aos desacordados.

— Eles vão ficar bem? — Preocupou-se Akemi.

— Estarão acordados dentro de algumas horas. Apenas a memória dos últimos cinco minutos será perdida. Talvez esqueçam da conversa, mas dessa sala, acho bem difícil, o que pode ser um problema.

Akemi coçou a nuca, assimilando. — Então… o que a gente faz? Não podemos simplesmente deixá-los aqui.

Hiromi iniciou o trajeto rumo à porta enquanto recomendava: — Senhorita Kurosawa, leve esses dois a um lugar reservado. Certifique-se de que seus poderes os passem despercebidos pelo caminho até lá.

Kurori arqueou uma sobrancelha. — Imagino que tenha um plano.

Hiromi colocou a mão na maçaneta e lançou um olhar julgativo aos colegas desacordados. — Quando acordarem, teremos assuntos bem sérios à resolver…