Capítulo 103 – Acordo entre cinco
Capítulo 103 – Acordo entre cinco
Em sonhos, o mundo era exatamente como deveria.
Nikko saltitava num campo aberto sob um céu laranja e rosa, a brisa nos cabelos soltos e os pés descalços na grama fresca lhe davam a sensação de paz. Ao lado, uma figura borrada sorria, transformando o sonho em um mar de felicidade.
Mas na realidade, o sorriso também não saía do rosto dela:
Sentada com as costas em uma parede branca, Nikko dormia com um aconchego que demonstrava que ela não pretendia acordar tão cedo.
O ombro dela foi empurrado levemente por uma mão. Era Akemi agachado. — Nikko, acorda.
Nikko riu baixinho, desviando com um gesto preguiçoso.
O passar do tempo crescia o desespero do garoto. As sacudidas aceleravam por urgência, mas Nikko simplesmente virava o ombro.
Nada. Tarde demais.
A falta de paciência superou a sutileza.
Hiromi tomou a frente e agachou-se diante de Nikko, sua mão pressionou firmemente o ombro da dorminhoca contra a parede.
O tranco foi suficiente.
Nikko abriu os olhos e, com o reflexo treinado de anos dormindo com “irmãos” ladrões de comida, avançou a mão com a intenção de canalizar vento.
Mas Hiromi foi mais rápida: agarrou o pulso da recém-acordada antes que as correntes de ar tomassem forma.
Nikko paralisou-se.
O rosto de Hiromi estava a poucos centímetros, com os olhos verdes e afiados absolutamente impassíveis. Certamente, a Miyazaki controlava uma situação na qual já havia tomado todas as decisões necessárias. — Guarde seus ventos para os inimigos reais, tagarela — ela soltou o pulso e recuou dois passos.
O campo de visão de Nikko se abriu.
A sala era branca de um jeito que machucava. Prateleiras organizadas com frascos e caixas etiquetadas revelavam um sistema que apenas médicos entendiam por completo.
Akemi levantou-se à esquerda, aliviado de vê-la acordada, e ansioso pelo o que viria depois.
Kurori estava à direita num banquinho, as pernas cruzadas e o sorriso de canto que usava quando as coisas evoluíam conforme esperava seguiam como sempre.
Masaru permanecia a alguns metros, de costas parcialmente voltadas para o grupo. Suas mãos repassavam uma pilha de revelações fotográficas que ele examinava e memorizava atenciosamente.
Hiromi permanecia imponente adiante.
— O que… — confusa e sonolenta, Nikko procurava por respostas — o que tá acontecendo? Como vim parar aqui?
— Você passou por alterações moleculares temporárias — revelou Kurori — entorpecimento seletivo, camuflagem corporal, levitação de massa. Você foi bastante fácil de transportar, embora deva admitir que é incrivelmente mais pesada do que aquele garoto, mesmo que só um pouquinho.
— “Garoto…” — repetiu, relembrando — O Suzu! Onde ele tá!? — A pergunta foi tão automática que ela mesma surpreendeu-se pela frase formulada.
Masaru virou uma revelação fotográfica. — Sua curiosidade é perigosa, Ichikawa. Já te adverti durante as aulas que seu jeito indiscreto a colocaria em situações que não conseguiria resolver sozinha.
— Onde está o Minoru? — exigiu Nikko.
Akemi colocou-se na altura dos olhos dela. — Ele está bem. Só queremos fazer algumas perguntas para a proteção sua e de todos da academia — ele olhou de soslaio para a postura fechada de Hiromi e completou: — Bem… pelo menos foi isso que me disseram.
Hiromi ignorou a ressalva e interrogou: — O que você sabe sobre a operação na Floresta Estelar?
Embora tonteada, Nikko levantou-se e permaneceu de pé no segundo esforço. O medo em seu rosto percebeu que estava numa sala onde todos sabiam de algo que ela não notava. — Eu não sei muito… A Hisako disse que os detalhes ficam com os instrutores de campo, e que é segredo total até o início pra garantir a melhor experiência dos novatos. Eu só sei o nome e a data, juro!
Hiromi apertou os olhos, avaliando a informação e intimidando no silêncio.
Kurori descruzou os braços e deu um tapinha no próprio joelho. — Abaixe as garras, Miyazaki — satirizou — sei que o coração dessa garota está quase saindo pela boca, mas ela fala a mais pura verdade.
A ira de Hiromi chegava por baixo, silenciosa e vertical, como uma pressão que se acumulava antes da explosão. Ela vira documentos que listavam alunos como descartáveis, vira nomes que conhecia naquela lista, e via Nikko genuinamente desinformada, assustada, prestes a ser mandada para aquela floresta sem que soubesse o que a aguardava.
A injustiça a trazia reações físicas quando se manifestava em rostos conhecidos.
Hiromi deu dois passos firmes em direção a Nikko. O tom subiu uma camada. — Preciso que seja honesta comigo. Como sabia daquela escotilha nos túneis? Foi Jin Ichikawa quem te mostrou esse caminho?
Akemi colocou a voz entre as duas — Miya, pega leve. Ela não é inimiga aqui.
Nikko não esperou por mais. O rosto cabisbaixo subiu devagar. A expressão extrovertida que surgia independente do ambiente caiu.
A reação que tomou seu rosto era quieta e embargada, demonstrando um sentimento oculto que raramente saía à luz porque aprendera desde cedo que exibi-lo complicaria relações.
— Meu avô me mostrou aquela escotilha pouco antes de eu entrar na academia. Ele disse que… se um dia eu me sentisse sozinha demais, ou sufocada com tudo isso… eu podia descer lá e ficar um tempo no escuro sem que ninguém no mundo me perturbasse.
Ninguém esperava o peso daquele relato. Aquela garota, que tratava qualquer situação como oportunidade de se divertir, tinha um refúgio no escuro preparado somente para ela… Mas qual seria o real motivo?
Masaru deixou a pilha de revelações sobre a bancada e viu na filha uma relutância nos ombros. Algo a irritava.
Nikko olhou para os próprios dedos entrelaçados, e então, percebendo que mostrou mais do que planejava, negou desesperadamente com as mãos. — Ah! Mas nunca precisei usar! — O desconforto mal disfarçado ficou no suor da testa — e-eu tô bem! Sou forte, e se tiver um jeito de ajudar vocês com o que precisam, podem contar comigo!
Masaru colocou as revelações sobre a mesa lateral e encarou o grupo pela primeira vez desde que Nikko acordara. — Jin Ichikawa abandonou o cargo de Diretor da ASA sem nenhum comunicado oficial. A versão divulgada é uma licença por questões pessoais, mas a mentira é óbvia. Os instrutores de campo tiveram acesso aos protocolos em reuniões das quais não participei. Pelo que consegui descobrir nesses registros, a Floresta Estelar não será uma operação de aprendizado totalmente supervisionada.
— Será um filtro — acrescentou Hiromi, vasculhando a pilha de revelações.
— Um… filtro? — repetiu Nikko.
Quando a Miyazaki pegou uma prova específica, entregou-a à Nikko. — Isso deixará mais claro.
A análise do documento bagunçou ainda mais a mente da sonolenta. — Então… O que a gente faz?
O acordo firmado nos trinta minutos seguintes não teve nome formal, nenhum documento o registrou. Ele existia apenas na mente de cinco pessoas, um pacto de intenções que cada presente construiu com o que tinha à oferecer.
Hiromi e Akemi entrariam na Floresta com as turmas iniciais. Dentro, fariam de tudo necessário para que os alunos da lista não fossem eliminados por falta de cobertura. Nikko se juntaria ao esforço interno, da sua forma.
Masaru ficaria nos bastidores com acesso aos registros médicos e protocolos de campo interceptados por Kurori através de canais que eles preferiam não detalhar em voz alta.
— Estamos decididos? — perguntou Akemi ao grupo, confiante.
— Mais do que nunca — confirmou Hiromi.
Nikko abriu as revelações em leque diante do rosto e assumiu uma pose artística. — Hum, pobrezinhos. Eles pedem por problema, mas esquecem que sou especialista nisso.
Encerrando a sessão, Masaru foi à porta interna da clínica e parou por ali. — Hiromi — chamou, sem virar. A garota ergueu os olhos para as costas do pai. — Você sabe que o que vem pela frente irá exigir muito mais do que apenas a sua determinação.
— … Sei disso.
— Fique atenta às suas escolhas, jovem. Dependendo do que decidir fazer, pode colocar pessoas em risco outra vez por confiar demais nesse seu suposto bom senso — Masaru saiu pela porta.
Kurori o acompanhou sem comentário, somente um tchauzinho provocante que realçou o sermão paterno.
Akemi e Nikko esperavam uma reação da Miyazaki.
Hiromi virou-se e olhou para os dois. A frieza que usava por protocolo em reuniões sérias afrouxou-se num sorriso que, apesar de gentil, escondia mal os sentimentos negativos. — Vai dar tudo certo…
Os portões da ASA para a Floresta Estelar, embora ainda a quatro dias de distância, parecia imediato o suficiente para que todos na sala sentissem o mistério que os esperava do outro lado da academia…