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Capítulo 104 – Conclave dos tiranos

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Capítulo 104 – Conclave dos tiranos

[ 30 de maio de 1922, auditório da Academia Shihai de Asahi, 00h04 ]

O auditório era o mesmo; as pessoas não.

A escuridão do teto negro era cortada apenas pela luz de dois grandes holofotes que acompanhavam o declive da arquibancada. Ao fundo, o palco de madeira era visto à frente das pesadas cortinas vermelhas fechadas.

À primeira vista, os assentos se mostravam vazios…

Os holofotes trouxeram à tona o palco, onde Katsuro Miyazaki, General e Diretor da ASA, surgiu sozinho pelas cortinas e parou no centro do palco. O microfone foi levado à boca sem pressa.

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— Agradeço a presença de todos. As últimas semanas provaram que o mundo não saiu das guerras, apenas mudou a forma de lutar.

Na primeira fileira, duas figuras ocupavam assentos distanciados propositalmente.

Largado na poltrona, o Fuzileiro John Pershinger, conforme indicava o sutache, captou a metáfora com um humor frio. Na casa dos trinta, seu cabelo castanho curto pouco importava diante da máscara metálica de bulldog que deixava expostos apenas os olhos entediados. A farda azul-acinzentada de corte simples trazia detalhes vermelhos, dourados e o emblema da águia de Freedom no braço. As mãos totalmente metálicas também eram marcas evidentes de um militar fundido ao material.

Dois assentos ao lado, a Emissária de Hawthorne III escondia a metade superior do rosto sob um extravagante chapéu pontudo de aba circular rodeada por candelabros. A longa e pesada túnica de pano marrom e bordados esverdeados da gola até os tornozelos definia os traços de uma jovem adulta, onde em ambas as mãos, segurava um grande cajado de madeira escura que completava o traje de outro século.

Ela escutava o ambiente com clareza, sem necessidade de espiadas.

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Esses eram os únicos presentes…

Com a situação de cada nação estrangeira em mente, Katsuro iniciou: — Era de praxe que a conferência em Soverato não resolveria nenhum dos nossos problemas, esta é a razão pela qual vos convoquei. Dagorion busca preservar uma cultura que ao próprio continente já não apetece, Reichsland se sufoca em dívidas impagáveis, e Valmont não confia mais em promessas assinadas por governos que um dia considerou inimigos… já Freedom… — a breve pausa levou o olhar a Pershinger — hm, a “Terra da Liberdade” continua observando de longe, sempre evitando comprometimentos que possam custar mais do que o benefício.

Pershinger ergueu a mão metálica, sua postura desleixada o deixava confortável. — General — chamou, com a voz presunçosa abafada pela máscara — está descrevendo o mundo ou se referindo àqueles que estão neste auditório?

— Ambos, afinal a conclusão é a mesma. Os tratados públicos são lentos demais para acompanhar o crescimento dos poderosos, e reuniões como esta existem pois os governos não esperam que o ritmo dos tratados os alcance… Mal sabem eles que os subordinados já estão tão fortes quanto os superiores.

KABOMMM!!! Uma explosão estremeceu o lado direito do palco. O balanço das cortinas e o ranger da madeira comprovaram que apesar do estrondo nada foi destruído.

Em sons de salto alto, alguém se aproximava dali com o forte sotaque de uma jovem soverana. — Katsuro, Katsuro… spero que nostro incontro valha a viagem. Soverato non perde tempo con promessas vazias.

— Teu nome se encaixa muito bem a sua entonação, senhorita. Seu pai é um homem de bom gosto — ironizou.

Do canto escuro de onde viera a explosão, surgiu uma jovem alta trajada em elegância austera. Seu título: Coronela Severa Lini.

A farda carbono com placas protetivas no abdômen ajustava-se perfeitamente à silhueta esguia. Os cabelos loiros presos em uma longa trança caída à frente do corpo emolduravam o rosto sádico parcialmente tampado por um fedora inclinado. No sorriso de dentes cerrados, um corte diagonal cicatrizado lhe atravessava dos lábios à bochecha, e na mão destra, um moderno bastão de camadas retráteis requintava a indumentária.

Quando o único olho visível mirava alguém, o castanho-escuro febril enxergava o alvo como uma alma moldável.

— Você parecia mais descontraído quando nos visitou.

— E a senhorita continua com o péssimo hábito de explodir portas… Sabe, eu temia que o tempo tivesse lhe ensinado sobre a paciência, mas vejo que me preocupei em vão.

— Ahh haha , ao menos seu bom humor ainda está conservado. Só tome cuidado pra não confundir de novo minha impaciência com essa sua stupida falta de urgência, se non …! — alertou, apontando a ponta do bastão.

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— Esses jovens… Fique à vontade para escolher um assento. Temos muito o que conversar nesta madrugada.

Isolado no palco, Katsuro apresentou Seorim como o primeiro impasse da reunião. Por muito tempo, o País da Manhã Calma era visto como terra valiosa para o domínio do Mar do Poente. A península seguia sob domínio asahiano desde 1910, mas já produzia resistências que ultrapassavam o controle da colônia.

Movimentos independentistas que meses antes existiam apenas em panfletos organizaram estruturas com fortes ambições políticas, e de tal modo, a península adquiriu força suficiente para que não fosse mais menosprezada.

— Uma população que deseja independência não precisa vencer uma guerra, basta sobreviver tempo suficiente para que sua resistência vire símbolo. Símbolos são mais difíceis de conter do que um amontoado de pessoas — apontou o General.

A Emissária ergueu o cajado. — Isso significa que Asahi pretende reforçar a presença em Seorim?

— “Reforçar” é uma palavra que só usamos em documentos. O objetivo é garantir que nenhum movimento externo transforme a península em um ponto de tensão às nossas tropas. As palavras escolhidas para descrever isso dependem de quem escreve o relatório.

A Emissária analisava a diferença entre o que Katsuro dissera e o que desejava dizer. No fim, percebeu-se um alerta a quem enfrentasse a soberania asahiana.

Pershinger inclinou-se adiante. — Freedom não tem interesse em assistir uma única potência controlar todas as rotas do Mar do Poente. Se aquilo virar monopólio, o resto do mundo não vai querer pagar o preço.

— Alguma contra-medida? — intimidou Katsuro.

— Nah — negou, desdenhando — Freedom raramente anuncia os próprios passos. Dependendo de como a situação evolui, nós agimos antes do cantar do galo — o Fuzileiro acomodou ambas as mãos metálicas sobre o braço da poltrona, certas lembranças lhe devolviam um estresse saudável que jamais viveria sem. — Minha esposa provavelmente faria um discurso completo sobre o que Valmont aprendeu em Soverato pra justificar; eu prefiro resumir: reuniões atrasam, acordos se enfraquecem, e no fim, cada nação age pelo próprio interesse. Se Asahi apertar demais essa região, não espere que as outras potências simplesmente assistam.

Sentada numa poltrona isolada, Severa lentamente tamborilava os dedos no bastão. — Que tristezza . Sua esposa costuma colocar mais charme nas ameaças.

— E multiplicar em três vezes a quantidade de palavras — acrescentou Pershinger.

A Emissária ergueu a cabeça e ganhou a atenção do palco em seus olhos de girassol. — Posso trazer uma questão que estão evitando nomear? — solicitou formalmente.

Katsuro permitiu.

— Por que insistem em medir poder pelo que ele destrói?

A questão provocou reações distintas. Pershinger permaneceu escorado e pouco convencido; Severa soltou um suspiro pelo nariz. — Tss , deveria rir di una cosa dessas?

Katsuro observava a emissária dagoriana; a pergunta lhe atingiu no ponto certo, mas não abalou sua convicção. Restou a troca de assunto. — A República de Reichsland informou que a Oradora Solene não compareceria.

— Ah, serio !? Nhag — Severa torceu a boca no resmungo, no entanto existia admiração por trás da indignação — típico de líderes partidários. Enfim, quando a voz tudo risolve , pra quê sujar as mãos?

— Lamento a ausência, porém não podemos fazer desta madrugada uma nova espera. Seguiremos ao assunto que realmente importa a todos vocês: a Operação Floresta Estelar.

A postura de Severa ganhou interesse. Pershinger retirou as costas da poltrona.

Até a Emissária, antes imóvel, elevou um pouco o rosto.

— A Operação Floresta Estelar não será apenas uma missão de campo para alunos da ASA. Será uma avaliação internacional de potencial áurico. Os desempenhos serão registrados, comparados e colocados à disposição das potências aqui representadas. Os melhores podem receber propostas, bolsas militares, integração a regimentos estrangeiros e vários outros benefícios que bem os caber. Já os que apresentarem desempenho abaixo das expectativas serão classificados como investimento de baixo retorno.

Pershinger pensava consigo mesmo no rumo que aquela ideia tomava. — Os alunos sabem dos detalhes?

— São soldados em formação. Só ainda não aprenderam que todo soldado pertence a alguém — ridicularizou Katsuro.

A Emissária ergueu-se completamente. — Podem chamar de oportunidade, intercâmbio, mérito ou até de proteção… mas uma instituição decidir o destino dos alunos antes que eles possam escolhê-lo praticamente anula a diferença entre formar soldados e criar propriedades.

Severa apoiou o queixo na mão. — É curioso como dagorianos tratam escolhas individuais con una belissima devoção. Pena que o universo aurico non pergunta se o destino satisfaz ao combattente .

— Por isso mesmo deveríamos perguntar antes.

Estava nítido que existiam preocupações individuais entre os representantes. Pershinger queria mais informações, Severa mal continha a expectativa pela primeira impressão dos alunos, enquanto a Emissária temia até onde aquela operação levaria.

Em contrapartida, Katsuro apenas desejava que todos aceitassem a proposta. — Quanto a capacidade dos meus recrutas, não vejo razão para balbúrdia. As instruções que tiveram nesses últimos trinta dias são o bastante para que operem lá dentro.

A curta resposta confirmou parte das suspeitas de Pershinger, mas ainda deixava o principal escondido.

Katsuro retomou a apresentação: — Também não posso negar que a operação é inclusive uma vitrine para Asahi. A ASA quer demonstrar à comunidade internacional que sua academia produz talentos merecedores da atenção e respeito dos grandes líderes.

Escorado no assento, Pershinger entendeu que as potências presentes teriam acesso privilegiado aos alunos, mas não enxergou sentido na proposta. “Se Asahi possui jovens capazes de interessar a outras potências, pra quê entregá-los para que elas saibam exatamente quem são?” A oferta parecia generosa demais para uma mera iniciativa diplomática.

O freedoniano cruzou os braços e guardou a desconfiança consigo…

A reunião prosseguiu, e Katsuro mencionou alguns jovens promissores sem que os citasse diretamente. Falou de evoluções incomuns, habilidades que superavam classificações esperadas, e personalidades sobressalentes que virariam ícone dentre as figuras militares futuras.

Severa aumentou o interesse. — Um áurico elétrico de crescimento acelerado… — imaginou.

— Os dados estão nos arquivos de desempenho — informou Katsuro — seus números se tornaram incrivelmente consistentes nas últimas semanas, e levando em conta o início desastroso dele na academia, talvez estejamos diante de uma grande referência futura, assim como Asahi um dia teve.

Pershinger apoiou um dos dedos metálicos contra a máscara. — E você planeja que cada um nós tire essas joias dos asahianos?

— Impérios que não são sustentados pelos homens que governam hoje serão reconstruídos pelos jovens que prepararam. Espero que façam boas escolhas.

Severa atraíu-se pela possibilidade citada. A Emissária, por outro lado, voltou ao assento e baixou os olhos para o cajado em mãos. Embora o receio, os pensamentos seguiram por outra direção: o futuro. “Talvez esta oportunidade possa nos servir de alguma forma. Se encontrarmos os corações certos, poderemos finalmente formar alguém capaz de pôr fim ao caos e à ganância que assola a região das Mil Ilhas.”

O destino dos alunos fora decidido sem que nenhum deles soubesse. Nomes foram registrados, interesses foram definidos, e olhos estrangeiros passaram a almejar jovens que sequer imaginavam os acontecimentos dos bastidores.

Enquanto as potências discutiam o futuro, os alunos da ASA aguardavam pela manhã seguinte sem a noção do verdadeiro propósito da missão. Mas a pergunta era: o que será que encontrariam além dos limites da Floresta Estelar? Uma simples avaliação, ou o primeiro passo para que o mundo descobrisse quem realmente eram?