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Capítulo 105 – A primeira mata

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Capítulo 105 – A primeira mata

[ 31 de maio de 1922, floresta de aproximação da Floresta Estelar, 07h30 ]

Após tantos rumores, os alunos da Turma 1F esperavam encontrar o extraordinário.

Mas o que encontraram foi uma floresta comum.

Pinheiros comuns, terra úmida, insetos irritantes, raízes salientes e folhagens que dificultavam a passagem. Não se via nenhuma luz sobrenatural ou névoa mística, apenas o sol da manhã entrava por entre os galhos e folhas no alto.

Se houvesse algum aluno que imaginasse que a entrada na Floresta Estelar viria acompanhada de cerimônias, estaria devidamente decepcionado; diferente do guia.

Na frente de toda a formação, de calça camuflada e sem camisa, o Major Yujiro Yura subia uma elevação íngreme lotada de árvores tortas e vinhas traiçoeiras. Pinturas de guerra cobriam o torso, e a postura remetia a um passeio empolgante. — QUERO ESSAS PERNAS SUBINDO! SE A MOCHILA ESTÁ PESADA, AGRADEÇAM! É SINAL DE QUE AINDA TEM COISA DENTRO!

Vestidos no uniforme de treino da ASA e com o peso de enormes mochilas militares nas costas, os quinze alunos acompanhavam o trajeto.

Nihara tratava aquela marcha como uma questão pessoal, e seguia o Major com um empenho obsessivo.

Nenhum aluno recebeu permissão para uso de aura durante o percurso, quem tivesse velocidade, força, fogo, vento ou qualquer outra forma de poder sobrenatural carregaria a mochila do mesmo jeito que todos os demais. A turma inteira entendia que os métodos de Yura serviam para alguma coisa, porém isso não significava que gostavam deles.

Kyoko subia com os punhos apertados contra as alças da mochila. — Juro que se eu escutar mais um “a” saindo da boca desse homem, farei coisas inimagináveis.

Mayumi, logo ao lado, manteve a tranquilidade habitual. — Sem o Major, provavelmente metade da turma já teria se perdido.

— Arg, eu aceitaria o risco.

Nikko surgiu atrás das duas com um animado soco no ar. — Discordo! Este é o momento no qual nossas almas se unem contra as adversidades da natureza — brincou com um tom macabro.

Minoru concordou: — É, mesmo que a missão nem tenha começado, cada gota de suor representa um novo passo rumo à vitória!

Kentaro saltou por trás dele e acertou um pescotapa na nuca. — Como não começou, panaca?! Olha em volta! A gente já tá numa floresta!

Minoru levou a mão à nuca e pensou se sua resposta valeria o esforço. — Essa é a floresta do caminho. A missão acontece na Floresta Estelar.

— E falta quanto?

— Vinte horas — respondeu Sho, acompanhado da atenção de sua irmã aos arredores desconhecidos.

Kentaro parou no meio da subida. — Não brinca comigo.

Nikko se interessou mais pela certeza de Sho do que pelo choque de Kentaro. — Como você sabe de tudo isso?

— Pela distância informada nos mapas internos da academia, relevo dessa elevação e mudança gradual da vegetação conforme avançamos, ainda temos aproximadamente um dia de ida…

Na retaguarda da formação, por escolha direta de Yura, Kinyoku Shinkai e Hikaru Sasaki caminhava próximo de Rin, Teruo e Aya.

O Major havia distribuído os “problemáticos” com sua lógica específica que previa exatamente quem precisaria de supervisão.

Rin demonstrava um desinteresse intenso demais para que fosse confiável sem alguém por perto. Ela cogitava ativamente largar tudo e simplesmente sentar.

Teruo gerava um problema diferente: a inteligência não lhe faltava, mas a quantidade de tempo que gastava antes de cada decisão transformava qualquer trecho num gargalo. Ele parava para análise do solo e escolhia cuidadosamente onde pisava enquanto a formação seguia.

Aya pouco trabalho dava. Mesmo com sua limitação visual, a mascarada caminhava melhor do que a avaliação inicial de Yura sugeria, e Kinyoku sabia que ela nunca dependeu de ajuda.

Rin pisou em falso numa camada de folhas e perdeu o chão. Kinyoku segurou seu braço e a puxou de volta.

— Preste atenção.

— Tira a mão de mim. Eu tava prestando — a aborrecida largou do guia e seguiu de cara fechada.

— Da próxima vez deixo você cair.

Mais à frente, Teruo parou diante de uma raiz razoavelmente grande e avaliou qual lado apresentava menor probabilidade estatística de escorregão.

Hikaru simplesmente passou direto e continuou. — Pensando demais — avisou.

Teruo observou os passos dele. — Sempre será melhor do que pensar de menos.

Atrás da formação principal da turma, Hiromi caminhava séria. Seus olhos ignoravam a floresta e acompanhavam os alunos: quem demonstrava cansaço, quem saía da formação, quem ajudava os outros, quem só pensava em si mesmo. Os nomes da lista circulavam na cabeça dela junto aos corpos que os representavam.

Akemi também permanecia calado, mas por outro motivo.

Miya percebeu. — Você tá quieto demais.

— Estou pensando.

— O quê?

— Se der problema lá dentro, quero ser capaz de ajudar antes que alguém peça.

O orgulho que tomou Hiromi veio simples e evidente. Durante dias, ela o corrigiu, pressionou e inclusive agrediu até que parasse de se enxergar como um peso morto. Pela forma como Akemi se portava naquele momento, os primeiros resultados pareciam maiores do que ela esperava.

— Trinta dias atrás você mal sabia onde colocar os pés numa luta. Será que tá mesmo pronto pra ir lá bancar o herói? — alfinetou, esperando a melhor resposta.

Akemi contemplava para a trilha. — Trinta dias atrás eu também achava que você era uma pessoa mais delicada.

A sobrancelha dela subiu. — Cuidado com o que fala, garoto.

— A culpa não é minha, é você que me treina assim.

Ela soltou um sorriso reservado e bateu a própria mochila na dele. — Não joga toda a responsabilidade pra mim não, hein. Com certeza vamos encontrar coisas muito piores do que aqueles documentos.

A lembrança dos riscos trouxe outro à mente, um que a Miyazaki conhecia melhor que qualquer um:

Ela mesma.

A breve animação desapareceu e o rosto abaixou em preocupação.

— Nem sei o que posso fazer se eu perder a cabeça lá dentro…

— Eu te puxo de volta.

Miya o encarou, duvidando. — Mesmo se eu mandar você ficar longe?

— Principalmente.

— Hmm, você já foi menos corajoso.

A personalidade receosa ressurgiu.

— Tô falando sério! Aliás, também não posso ser egoísta de achar que vou conseguir a todo momento. E se eu travar?

— … Eu te empurro.

A resposta subiu a confiança.

— Hehe, viu só? Formamos uma excelente dupla!

— Hihi! É, funciona até hoje.

Akemi respirou fundo e seguiu pela trilha. — Vamos até onde der, Miya. No fim, quero que todo mundo saia bem de lá.

— Então não fica pra trás! — Hiromi acelerou os passos.

Akemi surpreendeu-se com a súbita disposição e tratou de acompanhá-la. — Você também não, viu!

O próximo capítulo: “ Capítulo 105.5 – Travessia (in)comum “, é a continuação deste! (ah, vá, jura? 🙄)

A leitura não é obrigatória, mas ela acrescenta detalhes importantes sobre como ocorreu a travessia e aprofunda as interações entre os personagens!