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Capítulo 105.5 – Travessia (in)comum

Shihais: Remanescentes Da Aura — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 105.5 – Travessia (in)comum

O dia avançou da única forma que dias longos avançam: devagar até que de repente não estivesse mais de manhã.

A turma atravessou córregos com água na cintura. Os mais altos e fortes passaram primeiro e ajudaram os demais.

Em outro trecho, a turma subiu pedras e barrancos. Yura ficou no alto.

— SE EU CONSEGUI SUBIR SEM CAMISA, VOCÊS CONSEGUE SUBIR COM CAMISA! E NÃO ME FAÇAM TER QUE DAR SENTIDO À ESSA MATEMÁTICA!

Akemi chegou ao topo com os braços quase sem força. Hiromi, que o esperava, deu duas pisadas no chão, indicando que ele ainda tinha pernas. — Usa.

— Obrigado pela aula de anatomia, professora — satirizou…

Durante as travessias, Hiromi e Akemi avaliavam alguns alunos:

Toda vez que alguém reduzia o ritmo, Nihara passava reto. Seu único interesse estava no Major sem camisa que não demonstrava sinal algum de cansaço.

A animação de Nikko durava mais do que qualquer aposta razoável, mas se reduzia em porções menores conforme o peso da mochila trazia as contas. Os discursos animados encurtaram.

Embora o egoísmo constante, Kentaro não abandonava um colega em perigo real, mas também não desperdiçava disposição por gentileza quando sua mochila pesava o suficiente para que tornasse gentileza um custo.

No meio da tarde, numa área de terreno mais plano, foi decretada a parada de almoço.

Problema: não existia almoço… pelo menos não pronto.

O Major apontou para a mata e deixou o restante por conta da turma. Entre arbustos e raízes, pequenos coelhos de pelagem acinzentada surgiam aos montes, mas a aparência inofensiva escondia uma peculiaridade irritante. No menor sinal de perigo, desapareciam num pequeno estalo e reapareciam alguns metros adiante.

Com habilidades áuricas proibidas, a caça transformou-se numa disputa de paciência contra animais que trapaceavam por natureza.

Aya e Hikaru tiveram os melhores resultados individuais. Os dois possuíam agilidade e velocidade muito acima do restante da turma mesmo sem habilidades áuricas; quando um coelho sumia, ambos já calculavam pela direção do corpo onde ele provavelmente reapareceria. Hikaru alcançava os animais em arrancadas tão rápidas que muitos mal completavam o segundo salto, já Aya se guiava pelos ruídos entre as folhas e fechava os espaços antes que percebessem sua aproximação.

Kinyoku adotou outro método: avanços lentos e silenciosos o bastante para que os coelhos continuassem suas atividades até que suas mãos surgissem sobre eles e os agarrassem.

Hiromi e Akemi preferiram o trabalho em dupla. Depois de duas tentativas fracassadas, Akemi percebeu que os coelhos quase sempre reapareciam na direção oposta ao perigo que os assustava. Miya passou então a pressioná-los por um lado enquanto ele aguardava do outro. O plano funcionou tão bem que, após entenderem o padrão, a dupla reuniu mais presas em poucos minutos do que durante toda a perseguição anterior.

O restante se dividiu entre os lentos demais; os desinteressados; e as duas recusas absolutas.

A negação extrapolou quando os coelhos estavam cozidos em mãos.

Nikko chegou ao seu limite filosófico. — Não.

Aruni ficou pior. Os olhos presos no animal como alimento denunciavam que nenhuma explicação sobre sobrevivência venceria a discussão dentro de sua cabeça. — Ele era tão pequeno…

— PEQUENO É O ESTÔMAGO DE VOCÊS DEPOIS DE HORAS SEM COMER!

Nikko reuniu forças para que argumentasse. — Não podíamos comer frutas?!

Sho, mesmo incomodado com a situação, manteve o compromisso com os fatos. — Ã, ã — negou — frutos desconhecidos nesta região sem identificação adequada apresentam grandes perigos. Você sabe disso.

Nikko o encarou como se tivesse sido traída. — Sho!

— Desculpa, mas é a verdade.

— COMA, ZERO DOIS!

Nikko levantou a cabeça com a dignidade ferida. — Eu estou respeitando o luto!

— RESPEITE COM PROTEÍNA!

Aruni tentou uma mordida minúscula. Yura aprovou. — ISSO! A NATUREZA ACABA DE AGRADECER POR VOCÊ NÃO A TER DESPERDIÇADO!

Quando as sombras cresceram entre as árvores e a temperatura caiu, as reclamações diminuíram. Os alunos não tinham mais energia para conversas longas. A fadiga produziu um silêncio funcional ao progresso.

Sho verificava a vegetação ocasionalmente; a mudança confirmava que se aproximavam, mas as paradas impostas pelo próprio Major — exercícios inesperados, desvios no terreno, demonstrações de técnicas que ninguém havia solicitado — empurravam a duração real da travessia para muito além das horas calculadas…

Muito depois da meia-noite, uma área relativamente plana foi alcançada. A esperança coletiva e não declarada era de que aquele lugar significasse um descanso.

Porém era óbvio que não.

O Major entregou a cada aluno uma taca de madeira improvisada…

Ele continuava sem camisa, mas a diferença estava no comportamento. Yura normalmente quebrava qualquer prescrição de laudos médicos; todavia, naquela madrugada, o mesmo alcançou uma categoria própria.

Embora todos soubessem que aquela voz estridente e imperativa se afinava em momentos aleatórios, o olhar estatelado e o diálogo atenciosamente calmo nunca antes vistos pela turma alegavam que o instrutor tomou caminhos mais “particulares”.

— São três horas da manhã, já, já, vai começar os fogos de Matsuri, pois é — anunciou para ninguém em específico, ou para todos, ou para o universo — então, vamos fazer um exercício tão suave como bater de asas de uma borboleta, e tão bruto como um ataque de rinocerontes. Vamos exercitar Postura e Nobreza.

Nikko sussurrou perto de Aruni. — O Major não parece bem.

— Ele comeu um Cogumelo Capadócio.

— Han! Aquele que muda o humor?

Aruni caiu na expressão traumática. — E-eu tentei alertá-lo sobre os efeitos colaterais, mas ele comeu mesmo assim. E… e… e ele ainda disse: “O QUE EU COMI DESSE COGUMELO VOCÊ NÃO CEOU NA VIDA!”… Ai, eu acho que ele me chamou de gorda… — choramingou, massageando a própria barriga, que ironicamente, estava bem menor do que fora.

Rodando um cepo, Yura procurava o melhor ângulo para um golpe. — A postura é sempre… elevar todas as suas energias e descer de uma única só vez!

Prac!

A taca se partiu no golpe.

Kentaro coçava a testa. — Que cara nóia.

Kyoko bufou para o alto, sem forças para comentários elaborados. — Se desse pra comer meu próprio tédio eu matava minha fome com um banquete.

Confuso, Akemi examinou a taca em mãos e chamou o instrutor. — Major Yura… isso realmente vai ajudar em alguma coisa quando a gente entrar na Floresta?

Yura surgiu diante dele com aquela mesma proximidade não solicitada. — Você sabe por que as pessoas não confiam em você? Você pode ser um assassino, pode ser o que for. Por ser dessa personalidade heterogênea, você não tem firmeza. Então, você precisa o quê? Exercitar da pontinha do pé até o fio do cabelo e descer em uma única só vez — Yura pegou a taca do aluno e, após repetir o ritual em volta do cepo, repetiu o golpe. — São três horas da manhã, um gesto altamente grotesco, sem incomodar ninguém. Isto é Postura, isto é Nobreza.

Akemi olhou de soslaio à Hiromi, que também não tinha resposta para aquela loucura.

No meio da “sessão de Postura e Nobreza”, Nihara estava sentado no pé de um pinheiro.

O ígneo havia passado o dia inteiro com os olhos no Major como ponto de referência fixo, mas na escuridão da madrugada, sem aquele ponto de ancoragem, a floresta começou a produzir ruídos que seu treinamento marcial não o havia preparado. Ele virava a cabeça rápido demais para cada estalo, ventania ou uivo. A testa suava de um jeito que o frio da madrugada não afetava.

Kentaro aproximou-se sem nenhum aviso de delicadeza. — Ei.

Nihara assustou-se violentamente e levantou-se em guarda.

Kentaro segurou o riso com um esforço considerável. — Aí, você precisa ver esse negócio de medo do escuro.

— Vai se ferrar, eu só quero um segundo de paz.

Uma voz fina surgiu atrás dos dois. — Meu amigo.

— Aaahai! — Recuou o ígneo açoitado.

Quem chamou foi Yura, que de forma estranhamente culta, unia a palma das mãos como numa oração. — Na escuridão que se encontra a paz. Se você tem medo do escuro, está perdendo sua única oportunidade de descansar nesse mundo claro repleto de coisas — gesticulou para todos os lados.

Os alunos se entreolharam. Nenhum dos dois entendeu.

Yura agarrou dois troncos caídos ao lado dos pés e os ergueu como longos halteres improvisados. — São três horas. Vamos mandar um pássaro sem asas três horas da manhã! Nós dominamos toda a noite. Antes que acordem, vamos voar! — Ele abriu os braços numa elevação lateral e iniciou as repetições na língua antiga asahiana. — Ichi, ni, san, shi, go, roku, nana…

O esforço na voz atraiu Minoru. — Que que tá pegando aqui?

O militar largou os “halteres” no chão e, com golpes da lateral da mão reta, partiu a madeira em vários pedaços. De um deles, aproveitou um galho firme como haste, atravessado pelo centro de uma única e espessa anilha de madeira, cujo peso repousava contra a própria mão que sustentava o conjunto. A engenhoca lembrava mais um espeto desproporcional do que um equipamento de academia.

— Nossa situação é a seguinte, a garotada aqui, não vou chamar de vagabundos , tá quase um dia sem comer. Sem nenhuma proteína. Fazer o quê? Churrasco! — Ele apontou para o “espetinho”, risonho. — É! Churrasco de anilha, meu irmão! Se tu tá na mesma situação que nós, está convidado, pode vir para o churrasco! Eu só não sei se isso aqui vai quebrar os dentes, entendeu? Rha rha rha rha — riu com pigarro.

Yura encostou os dentes na anilha e ensaiou uma mordida, mas desistiu e estendeu o improviso a Minoru.

— Você come primeiro, dá um pedaço aí, rhaha!

— … Eu prefiro passar fome.

A marcha chegava ao fim pouco antes do amanhecer.

O último trecho era uma descida íngreme e obscura. O morro tinha uma inclinação cruel, árvores tortas, raízes, pedras, e praticamente nenhuma iluminação além do que os alunos conseguiam com lanternas pequenas. O alcance visual ficava em torno de seis metros. Ninguém enxergava onde o declive terminaria.

Àquela altura, o cansaço havia mudado a turma de formas que o esforço do dia inteiro não fez.

Os alunos conservavam a firmeza, os sinais das muitas horas de marcha apareciam na economia de palavras…

Entretanto, existia um detalhe que dificultava o silêncio de todos devido a espontaneidade:

Yura carregava um bebê feito de terra nos braços. O objetivo era provar à Turma 1F que ele conseguiria completar a travessia mesmo sob a responsabilidade parental de uma criança de argila. — Voltando aqui do treino no inferno. O medo ancestral de tomar-lhe uma banda com essa criança aqui no colo. E estamos aqui, nas escadas do inferno. É, meus camaradas. Rapadura é doce, mas não é mole não…

Hikaru, que já ignorava a tudo e todos, avistou de repente uma claridade fraca entre as folhas.

O verde escuro ganhou cor. As sombras perderam força de forma gradual.

Mayumi percebeu que o terreno abaixo começava a nivelar. — Estamos chegando.

— Arh! Finalmente! — agradeceu Kentaro, irritadamente aliviado.

A notícia se espalhou pela formação. Nikko recuperou uma fração milagrosa de energia. Kyoko respirou fundo e decidiu que comemoraria depois, quando tivesse certeza…