Capítulo 106 – O horizonte vivo
Capítulo 106 – O horizonte vivo
[ 1 de junho de 1922, limite da Floresta Estelar, 05h41 ]
A turma alcançava o fim da descida. As árvores comuns finalmente se abriam, e a luz alaranjada do amanhecer atravessava a última camada de folhas sobre os quinze rostos.
O terreno nivelado devolvia o descanso às pernas, embora os alunos ainda pagassem o preço da travessia: botas cobertas de lama, ombros marcados pelas alças, braços pesados e uma economia de palavras que nem mesmo as provocações de Yura venciam.
Guiando pelo novo terreno plano e sem árvores, o Major parou poucos metros adiante com o bebê de argila encaixado no braço e ergueu o queixo para a claridade. — Chegamos nos Portais. Agora sim, agora sim finalizamos.
O anúncio espalhou um alívio coletivo. Kentaro pendeu o corpo e Nikko recuperou parte do sorriso perdido durante a madrugada. Kyoko até preparou uma reclamação comemorativa, mas faltou disposição.
As reações morreram juntas quando todos perceberam o que existia adiante.
O verde familiar acabou de vez. Poucos passos separavam Yura da borda de um precipício tão vasto que o fundo desaparecia sob camadas de nuvens. A mata comum terminava naquele corte rochoso, e além dele, três grandes formas ovais translúcidas flutuavam lado a lado diante do mundo desconhecido que ocupava todo o horizonte:
Copas multicolores cobriam vales profundos; gramados densos tomavam montanhas; rios enormes refletiam o sol nascente e desciam em cataratas. Algumas árvores superavam as demais por centenas de metros, com troncos tão largos que sustentavam florestas próprias sobre os galhos.
Acima de tudo, auroras embelezavam o céu dourado.
Akemi ficou boquiaberto, e o desafio que aquele lugar traria aumentou a concentração de Hiromi.
Um canto grave atravessou quilômetros e chegou enfraquecido à turma; outro som respondeu de algum ponto distante. Sobre as copas distantes, criaturas enormes com corpos largos de mamíferos aquáticos nadavam entre aves e nuvens.
Nikko empolgou-se. — Aquilo são Iolacos?! Eu não sabia que alguns podiam voar!
Inconformada, Kyoko apertou a ponte do nariz. — Já comecei a odiar esse lugar.
Aruni segurou o sorriso e puxou um pequeno caderno do bolso lateral da mochila. O intuito era um rabisco rápido, mas a ponta do lápis ficou parada sobre a página lisa. Por onde começasse, metade da paisagem ficaria de fora, então o desenho foi momentaneamente deixado para depois, até porque o detalhe principal levaria horas para que fosse representado:
No centro distante daquela vastidão, uma massa alta e escura se destacava. Akemi inicialmente acreditou que fossem várias montanhas sobrepostas, porém a luz crescente revelou uma continuidade entre as encostas.
Tratava-se de um vulcão inativo que tomava boa parte do horizonte.
A base desaparecia sob quilômetros de mata e nuvens; diferentes cores subiam pelas laterais e grandes cicatrizes negras marcavam antigas descidas de lava.
Akemi associou aquela estrutura aos diferentes biomas que enxergava, a quantidade de mistérios o acendeu por dentro. Seu núcleo áurico respondeu com um formigamento tênue nas cicatrizes do pescoço, mas foi fraco demais para que se identificasse a origem.
O rapaz massageou a cervical lateral. Hiromi percebeu o gesto e guardou a observação.
A Miyazaki vigiava os colegas, principalmente aqueles cujos nomes apareceram na lista secreta dos túneis 1 . A beleza da paisagem pouco alterava o problema descoberto dias antes; por baixo dos panos, a ASA aceitava perdas entre estudantes classificados como descartáveis, enquanto representantes estrangeiros aguardavam resultados que a turma desconhecia.
Akemi e Hiromi localizaram Nikko e Minoru, bastou uma rápida troca de olhares entre eles para que os quatro se lembrassem do problema. Se os alunos se separassem de forma inconveniente, a proteção planejada perderia alcance, e Yura agia com tanta imprevisibilidade que qualquer formação grupal jamais garantiria segurança.
O Major escorou o bebê de argila numa pedra. A escultura tombou e perdeu a perna rachada. Yura encarou a queda durante alguns segundos, franziu o cenho e pareceu finalmente compreender as consequências da madrugada.
Os efeitos do Cogumelo Capadócio acabaram. O bebê levou uma bicuda.
— POR QUE INFERNOS EU ESTAVA CARREGANDO UMA CRIANÇA DE TEEERRA???!!! — O berro ecoou pelo precipício e tirou a sonolência de Rin. — EEENFIIIM!!! TODOS, UM PASSO À FRENTE! CHEGAAAMOS NOS PORTAAAIS!!! — O militar abriu os braços diante das três estruturas ovais translúcidas antes do fim do precipício.
Teruo sentiu uma familiaridade íntima e se aproximou da estrutura central. Uma pedra pisada por sua bota produziu um ruído que ultrapassou a superfície transparente com um pequeno atraso. — Portais de coordenadas temporais… Que técnica inusitada, pai. Mas pra onde eles vão?
— SE EU CONTAR ACABA A SURPRESA, ZERO CINCO! — Yura bateu duas palmas — SENHORES! MATERIAIS PRINCIPAIS! — solicitou — TODO MUNDO SABE O QUE ESCOLHEU! UM ITEM! AQUELE QUE JULGARAM MAIS IMPORTANTE QUANDO AINDA TINHAM CONFORTO E SANIDADE NA ACADEMIA! VAMOS DESCOBRIR QUEM FEZ ESCOLHAS INTELIGENTES E QUEM MERECE PASSAR FOME COM ESTILO!
Zíperes se abriram. Hikaru e Mayumi retiraram suas katanas e prenderam as bainhas junto ao quadril. A extravagância das duas armas durou até que Nikko puxou seu objeto: um longo e cravejado ancinho branco com um diamante verde-amarelo na base.
Minoru desviou a atenção da própria mochila. — Vai fazer o quê com isso aí? Catar folhas?
Orgulhosa, Nikko manuseou e girou o ancinho com a intimidade de anos de costume. — Algumas pessoas carregam armas, eu carrego a minha alma gêmea!
Aruni segurou o caderno. Um compartimento preso à capa guardava sementes, gazes, lâminas pequenas e instrumentos médicos. Sho avaliou o material da irmã, mas logo percebeu a demora de Akemi, que finalmente retirou uma pequena panela de metal escurecida pelo uso.
— Uma panela é uma escolha sensata — elogiou Hiromi.
Akemi passou o polegar pela lateral marcada. — Meu avô dizia que estar vivo e com fome é só uma maneira mais lenta de morrer.
Os demais revelaram escolhas simples e práticas: bússolas 2 , facas 3 , ataduras 4 , cantis 5 , cordas 6 , fósforos 7 , lanternas 8 e armas específicas 9 .
Yura conferiu tudo e ordenou: — MOCHILAS NO CHÃO! — Respeitada a ordem, a sola do coturno amassou o solo; quinze elevações de terra brotaram sob as mochilas largadas e as lançaram além do precipício; comida, cobertores, roupas e objetos desapareceram pelas nuvens.
A turma explodiu em revolta. Nikko deu um grito agudo, Akemi botou as mãos na cabeça, Kentaro e Minoru avançaram reclamando de braços abertos e Aruni abraçou o estojo contra o peito. Kyoko passou na frente das vozes, furiosa. — VOCÊ VAI ME PAGAR POR TODOS OS XAMPUS CAROS QUE EU TINHA NAQUELA MOCHILA!
— Sabe o que também tinha lá dentro, Zero Oito? — rebateu Yura.
Kyoko perdeu a adrenalina da raiva pois já sabia a resposta. — Peso.
— EXATAMEEENTE!!! UM DIA INTEIRO DE PESO ! VOCÊS CARREGARAM UM PEQUENO QUARTEL NAS COSTAS, E AGORA, TUDO FOI DESTRUÍDO! SE QUERIAM CONFORTO, DEVERIAM TER APROVEITADO MELHOR A ÚLTIMA NOITE DE SONO!
As reclamações viraram preocupações. Akemi questionou os recursos de sobrevivência, Sho trouxe a qualidade da água em discussão, e Kentaro ganhou dúvidas sobre onde diabos dormiriam.
Hiromi apenas manteve-se atenta em quais seriam as verdadeiras intenções daquele feito.
Yura recebia as críticas de braços cruzados, até que Aruni reuniu coragem para que a própria voz se sobressaísse do tumulto. — E-e se alguém precisar de um atendimento médico urgente?
— ATENDIMENTO?! RÁ ! NÃO CONTEM COM UMA MÃO DIVINA DESCENDO DO CÉU TODA VEZ QUE ESFOLAREM UM JOELHO, SENHORES! A PARTIR DOS PORTAIS, CADA UM CUIDA DO PRÓPRIO CORPO E DO CORPO DO COMPANHEIRO! SE UM CAIR, ALGUÉM O LEVANTA! SE DOIS CAÍREM, OS OUTROS CARREGAM! E SE TODOS CAÍREM… É, aí fica complicado.
Akemi notou que, a partir dali, a vontade de testar o próprio núcleo ganhou um limite maior. Sem equipamentos e com resgate incerto, erros pessoais aumentariam sua responsabilidade pelas prováveis consequências.
Yura puxou quinze papeizinhos dobrados do bolso. — FORMAÇÃO DE EQUIPES! ENFILEEEREM-SEEE !!!
Com a turma organizada em ordem numérica, o Major caminhava diante dela enquanto distribuía os papéis fechados. — AQUI TEMOS CINCO UNIDADES DOS NÚMEROS UM, DOIS E TRÊS! OU SEJA, TEMOS TRÊS PORTAIS PARA CINCO RECRUTAS EM CADA! SORTEIO PURO, BRUTO, E SEM CHORAMIIINGO!!! PEGUEM SEU NÚMERO E VÃO PARA DIANTE DOS RESPECTIVOS PORTAIS!
Ao passo do abrir dos papéis, os resultados eram revelados no comportamento da turma.
Nihara atravessou a formação até o portal 3 à esquerda. Kinyoku seguiu para junto dele.
— Ótimo — murmurou o Miyazaki.
— Você parece decepcionado — alfinetou Kinyoku.
— Eu disse ótimo.
— Então faça cara de ótimo.
A irritação do ígneo só aumentou quando Aya apareceu.
— Ah, qual é! Essa garota nem sabe conversar!
— ACEITE O DESTINO, DOZE!
— Destino o cacete… — resmungou Nihara, mas para sua alegria, Kentaro aproximou-se para o aperto de mãos mais masculino que conseguiam.
Sho chegou de fininho para o fechamento do quinteto. Seu olhar não saía da irmã ao longe, que mesmo preocupada, acenou positivamente para que passasse a confiança de que ficaria bem…
Nikko abriu o número dois e comemorou quando Minoru mostrou o mesmo. — Aaaah! Suzu! — Ela o abraçou.
— Ei! Não grita como se a gente tivesse ganhado alguma coisa!
Teruo e Hikaru também compartilharam o mesmo número par, e Rin completou os cinco com um desânimo tão sincero que o Major se sentiu ofendido.
— Francamente, DEMONSTRE UM POUCO DE AMOR ÀS ESCOLHAS DA VIDA, ZERO QUATRO!
— Prefiro morrer logo como o senhor deseja…
Akemi foi ao primeiro portal. Hiromi o acompanhou, dando-lhe um alívio evidente.
— Tava com medo de ficar sem mim? — provocou a garota.
— Tava com medo de ficar com o Nihara.
— … Justo.
Kyoko veio e olhou os dois de cima a baixo. — Maravilha, começamos bem.
Mayumi também chegou ao primeiro portal seguida por Aruni, a última da formação. A introvertida relaxou um pouco com seus novos companheiros. — Pelo menos fiquei com vocês.
Hiromi observou o grupo completo. O sorteio manteve Akemi próximo e colocou Aruni ao seu alcance. Embora a ausência de Nikko pudesse complicar o plano secreto, pouco adiantava reclamar do acaso naquele momento.
Mayumi voltou-se ao Major. — Senhor, qual exatamente é o objetivo final da operação?
Yura retirou três envelopes espessos presos atrás do cinto e os ergueu. — REGALIAS DE TRAVESSIIIAAA!!! CADA EQUIPE RECEBE UMA LISTA, UMA ROTA, E PONTOS POR ITEM!
— Que tipo de item? — indagou Kentaro, direto.
— SEI LÁ! QUALQUER DESGRAÇA ESCRITA AQUI! O QUE IMPORTA É: TROUXE A PROVA?! PONTO! CHEGOU DE MÃOS VAZIAS?! PARABÉNS PELO PASSEIO!
Hiromi recebeu o envelope do primeiro grupo e analisou o lacre.
— NÃO ABRA AINDA, MIYAZAKI! SÓ DEPOIS DA PASSAGEM! E GRAVEM MAIS UMA COISA: REGALIAS NA MÃO DE OUTRA EQUIPE CONTINUAM SENDO REGALIAS! E REGALIAS VALEM PONTOS INDEPENDENTEMENTE DE COMO FORAM ADQUIRIDAS! O RESTO É PROBLEMA MORAL DE VOCÊS!
Alguns entenderam rápido. Nihara passou os olhos nos outros grupos, Minoru compreendeu de imediato, e Akemi imaginou que, segundo aquela regra, uma equipe poderia apenas esperar perto do final e assaltar quem aparecesse.
Yura apontou ao terceiro portal. — GRUPO TRÊÊÊS!!! VOCÊS TERÃO O PRIVILÉGIO DE INAUGURAR O CAOS! MEXAM ESSAS PEEERNAS!!!
Nihara atravessou primeiro, seguido por Kentaro, Kinyoku, Aya e Sho
— GRUPO DOIS! Avaaaanteee !
— Ainda temos muitas perguntas, sabia? — satirizou Minoru.
— E VOCÊ SABE MUITO BEM QUE NÃO AS RESPONDEREI AGORA! ENTÃO ANDE LOGO!
Minoru foi na frente. Nikko ergueu o rastelo como uma haste de guerra antes que a passagem engolisse sua figura, Hikaru entrou logo depois e Rin passou com a mesma disposição desagradável. Teruo ficou por último; reflexivo, ele observava as bordas translúcidas do portal, mas nenhuma reação explicava o que exatamente era sentido ou desejado naquele momento. Restou-lhe seguir em frente.
Por fim, sobraram cinco diante do primeiro portal.
Kyoko conferiu o cantil, Mayumi ajustou a katana na bainha e Aruni guardou o caderno no quadril assim como Akemi também prendeu a panela do avô. Hiromi segurou a bússola escolhida como material principal e avaliou os quatro companheiros com positivismo.
Uma ventania subiu do precipício. O cheiro úmido da vegetação desconhecida trouxe um gosto mineral que ficou na língua.
Uma pequena faísca escapou dos dedos de Akemi. A curiosidade continuava viva, mas o aviso do Major sobre resgate e sobrevivência também era recente demais. Seria preciso compreender com calma quais eram as melhores oportunidades para descobrir o que aquela região provocava em seu núcleo.
Yura apontou ao último portal. — GRUPO UUUUM!!! DAQUI PRA FRENTE, PRESTEM ATENÇÃO EM TUDO ! SE NÃO SABEM, DESCUBRAM ! SE DESCOBRIREM ERRADO, CORRIJAM ANTES QUE O ERRO COMA VOCÊS! APRENDAM RÁPIDO E VOLTEM INTEIROS, POIS EU ME RECUSO A PREENCHER PAPELADA DE RECRUTA MORTO!
— Nossa, que discurso motivador — Kyoko atravessou primeiro sem mais delongas.
Mayumi seguiu e Aruni a acompanhou com um olhar hesitante para trás.
Akemi e Hiromi ficaram por último.
Através da superfície translúcida, a Floresta Estelar parecia diferente daquela contemplada minutos antes. Vista de longe, era maravilhosa, porém já parecia próxima o bastante para engoli-los.
O rapaz observou a aurora, o vulcão entre as nuvens e as criaturas que cruzavam o céu distante. A empolgação continuava presente, mas os documentos encontrados nos túneis impediram sua inocência. Alguns dos alunos que acabaram de atravessar estavam marcados por uma instituição que aceitava perdê-los.
— Miya.
— Hm?
— Não importa o problema, vamos trazer todo mundo de volta.
Hiromi retornou os olhos ao portal e assentiu. — Esse é o plano.
Akemi respirou fundo. — Então vamos.
Os dois atravessaram juntos.
Na passagem, a parede translúcida envolveu os corpos e arrancou deles a referência do terreno. Uma claridade intensa ocupou toda a visão.
Então os pés encontraram o chão novamente.
O cheiro da mata mudou, os sons aumentaram, e a eletricidade sobressaiu-se de uma pele.
Akemi levantou a cabeça.
A Operação: Floresta Estelar foi finalmente iniciada…
❧
- Akemi, Rin, Teruo, Aruni e Sho ↩
- Hiromi e Teruo ↩
- Kinyoku ↩
- Kentaro e Minoru ↩
- Kyoko ↩
- Sho ↩
- Rin ↩
- Nihara ↩
- Aya: cinturão de armas ninja ↩