LNCrawler

Capítulo 107 – Regras que ninguém escreveu

Shihais: Remanescentes Da Aura — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 107 – Regras que ninguém escreveu

No fim da claridade branca, Akemi e Hiromi sentiram uma camada de folhas sob os pés; a sensação provocada pelo portal desapareceu tão rápido quanto veio, substituída por um cheiro intenso de terra molhada, madeira e flores desconhecidas. Atrás dos dois, o portal encurtou-se e sumiu rapidamente em uma linha fina.

Kyoko, Mayumi e Aruni aguardavam poucos metros à frente. Nenhuma delas tinha saído daquele ponto. Pinheiros de folhagem roxa fechavam o grupo por todos os lados entre galhos com flores luminosas, raízes erguiam lombadas naturais pelo chão e pequenos cristais surgiam entre pedras cobertas de musgo. O amanhecer mal atravessava as copas, porém a claridade da própria vegetação iluminava o ambiente em tons amarelos e violetas.

Com o caderno em mãos, Aruni acompanhava uma pequena flor que fechava as pétalas sempre que um ser luminoso passava perto. Mayumi avaliava os espaços entre os troncos e a pouca visibilidade de cada direção.

Faíscas saltaram do corpo de Akemi, que desconhecia a causa daquelas reações involuntárias.

Hiromi informou: — A concentração de energia áurica aqui é extremamente abundante. Você possui uma aura volátil, então seus raiozinhos ficarão em alerta até se acostumarem.

— Isso foi pra me tranquilizar?

— É o máximo que eu consigo.

Mesmo preocupado, Akemi quase sorriu. O incômodo cedeu espaço à curiosidade. A própria atmosfera estimulava seu núcleo; os experimentos com Masaru jamais chegaram perto de uma condição daquela escala. Outra descarga pulou dos dedos. “Espero que isso me ajude de alguma forma.”

Kyoko voltava do ponto onde o portal desapareceu. — Então é isso. Nos jogam no meio de uma floresta desconhecida, fecham a passagem de volta e mandam a gente se virar.

De atenção nas copas, Mayumi acrescentou: — Desconhecemos a distância da rota, o tempo da operação e os pontos de retirada, fora a falta de equipamentos e água.

— Você não tem nada nesse cantil, Kyoko? — questionou Akemi.

— A água que tem aqui não é pra beber.

Aruni terminou suas anotações e voltou ao grupo. — Se eu soubesse que o instrutor faria aquilo com os nossos equipamentos, eu não teria pego este caderno. Perdoem-me — curvou-se.

Hiromi amenizou o arrependimento. — Podemos xingar o Yura durante o caminho. Nossa preocupação é saber por onde começar, e a resposta deve estar aqui.

Ela indicou o envelope e rompeu o lacre com um peteleco de fogo. Duas folhas dobradas saíram de dentro, uma grande e outra menor, semelhante a uma lista.

Kyoko já imaginava o conteúdo. — Se tiver escrito “boa sorte”, eu volto nadando pelo espaço-tempo e afogo aquele homem.

A primeira folha trazia o mapa da Rota Um. Uma sequência de setores marcados por círculos menores avançava até uma região final ainda distante; rios, vales, cavernas, áreas minerais e manchas de vegetação serviam de referências onde caminhos definidos sequer apareciam.

— Lê pra gente, Akemi.

O rapaz recebeu a segunda folha. — Hmm… “Regalias de Travessia: Mecha Ígnea de Kitsuno; Ossículo da Coroa do Hakutori; Prisma de Veio Estelar; Sementes de Hiroshihana e uma Ninféia Rubra.”

— Isso é uma lista de itens ou uma ameaça? — satirizou Kyoko.

Aruni preocupou-se. — É tão perigoso assim conseguir essas coisas?

— Há mais informações? — interrogou Mayumi.

Akemi percorreu o restante. — Nada.

— Que novidade — Kyoko soltou um suspiro curto.

A ruiva se aproximou do mapa aberto por Hiromi, onde um curso de água atravessava o setor mais próximo e seguia por noroeste até uma área maior.

A Miyazaki percebeu que ambas analisavam o mesmo ponto. — Se esse lago ainda existir, já resolve grande parte da nossa falta de água.

— Exato. A caça pode esperar. Primeiro precisamos impedir que a floresta nos faça andar em círculos — Mayumi indicou o curso desenhado. — Usaremos o rio como referência principal e evitaremos mudanças desnecessárias de margem. Permaneceremos próximos e registraremos qualquer alteração de direção. Se precisarmos sair da rota, deixamos sinais suficientes até o caminho anterior.

— A margem também pode nos dizer onde o terreno desce — acrescentou Kyoko. — E, até descobrirmos o que vive na água, ficamos perto o bastante pra usá-la de referência e longe o bastante pra continuar com todos os membros.

Akemi assentiu. — Parece justo.

— Minha bússola continuará útil enquanto ficarmos longe daqueles cristais — Hiromi mostrou a pequena oscilação da agulha. — Podemos comparar as marcações com ela sempre que o terreno permitir.

Aruni abriu um compartimento do caderno e retirou uma caneta curta de corpo metálico. — Eu trouxe uma caneta especial. A tinta brilha no escuro e permanece na madeira por bastante tempo.

Ela desenhou uma pequena seta no tronco mais próximo. Um risco verde-claro ficou luminoso sobre a casca, discreto de longe e evidente a poucos passos.

— Muito bem, Aruni! — aprovou Akemi.

— Então fazemos assim — interrompeu Mayumi — Aruni marca o caminho principal e Akemi registra no mapa cada mudança de direção. Eu, Kyoko e Miyazaki ficaremos atentas aos arredores. Se uma região tiver que ser desviada, teremos referências suficientes para retorno.

Hiromi levantou um dedo. — E se me permitem, quero estabelecer mais uma regra. Durante a travessia, não retiraremos uma única vida.

Kyoko estranhou a ideia. — Mesmo se essa vida tentar fazer o contrário conosco?

— Neste caso derrubamos e imobilizamos — sugeriu a ruiva — existe um princípio antigo sobre florestas áuricas: tudo que se faz dentro delas retorna de alguma maneira. A energia permanece, os animais reagem, e o ambiente muda. Quem espalha violência costuma encontrar violência mais adiante.

— Isso é espiritual ou realmente acontece? — indagou Akemi.

— As duas respostas podem estar certas — esclareceu Aruni.

— Exatamente — concordou Mayumi — e mesmo que alguém aqui prefira ignorar a parte espiritual, a lógica continua útil. Um ecossistema cheio de energia áurica reage às ações que envolvem aura. Quanto menos perturbarmos, menos problemas criaremos.

— Legal, e onde será nosso primeiro passo? — questionou Kyoko.

Hiromi usou a bússola. A agulha oscilou perto de um conjunto de cristais e estabilizou-se a noroeste poucos passos depois. — Seguiremos por aqui…

O grupo iniciou a caminhada num passo bem mais lento que a travessia anterior. Cada trecho da floresta púrpura oferecia uma novidade e atrasava o avanço. Durante uma das marcações, Aruni parou diante de um musgo espesso preso à base de uma árvore e o apertou entre os dedos. Água escorreu.

— Ele armazena bastante umidade…

— Dá pra beber? — perguntou Kyoko.

Aruni cheirou a gota no dedo e repuxou o rosto. — Uhg , eu prefiro evitar.

— Tanto faz, enche aqui — a baixinha ofereceu o cantil aberto.

— M-mas você pode pegar infecções seríssimas!

— Eu jamais colocaria minha boca num líquido sujo desse, mas de qualquer forma, esse detalhe nocivo dele vai ser útil. Pode colocar…

Metros adiante, uma trepadeira cobria metade de um tronco, porém foram as flores azuladas presas entre suas folhas que intrigaram Aruni. A jovem tocou uma das pétalas com a ponta do dedo; o contato causou um fechamento imediato seguido por uma pequena nuvem de pó luminoso.

— Hm?

Encantada, ela aproximou a mão outra vez e usou uma parcela mínima de sua Aura das Flores.

O resultado excedeu a expectativa.

Num brilho rosado, todas as flores da trepadeira se abriram. As pétalas cresceram e se alongaram muito além do tamanho natural, e como se fossem vivas, quase agarraram Aruni. Assustada com a reação, a jovem rompeu o fluxo áurico e recuou num passo rápido. As flores encolheram de imediato e soltaram o fino pó azul sobre a garota.

O fascínio superou o susto.

Mayumi chegou perto. — Aconteceu algo?

Disfarçando, Aruni esfregou o tecido manchado. O pó resistiu. — Não esperava que as flores daqui reagissem tão rápido ao meu toque.

— Essa mancha azul na sua roupa não te causa nada?

— É apenas um pólen grudento, nada que uma água não resolva.

No caderno, a garota registrou o formato da flor, a reação áurica e o comportamento dos estames. A insegurança dividia espaço com o entusiasmo; aquela floresta oferecia flores que seus estudos sequer imaginaram…

O grupo prosseguiu.

Pouco depois, os sons das copas rarearam.

Mayumi parou a marcha. — Escutem.

As folhas das copas se moveram; um estalo correu entre galhos escondidos pela folhagem roxa.

Aruni encontrou uma pena negra presa numa raiz. — Plumofurcos… — anunciou com suor frio.

Akemi duvidou: — Plumofurcos?! Esses bichos não foram extintos?!

— É macho? — questionou Kyoko.

— Pela cor, sim — revelou Hiromi.

Kyoko estudou os galhos. — Então temos uma chance de sair antes que o bando se interesse na gente — ela seguiu em frente, ignorando os fatos. Contudo, uma pena puramente branca caiu diante dos seus pés.

À frente, uma árvore com cortes de garras estava rodeada por ossadas.

Kyoko ergueu a pena clara pela haste. — Retiro o que disse.

Akemi recordou as aulas de Masaru. Machos formavam bandos; e fêmeas viviam sozinhas e possuíam forças áuricas muito maiores.

— Mudaremos a rota — decidiu Mayumi — vamos, pelas árvores marcadas.

O primeiro vulto negro passou entre as copas antes que completassem o recuo.

Akemi só percebeu o ataque quando a copa violeta acima dele foi rasgada. Um plumofurcus despencou entre os galhos, pouco maior que uma águia, com o corpo estreito de plumagem negra e asas dianteiras com penas rubras nos braços compridos. Enquanto as patas traseiras tinham o mesmo conjunto vermelho de asas, a cauda fina terminava num leque com esporões bifurcados.

O pescoço da criatura projetou a cabeça para baixo, as garras curvas miraram o peito do rapaz. Uma chama curta explodiu na base das quatro asas e impulsionou a velocidade da descida.

Akemi reagiu por reflexo, a eletricidade cobriu as pernas e seu corpo escapou numa rolada lateral. O plumofurcus passou num rasante direto, queimando a grama.

— Contato! — alertou Mayumi, sacando sua katana.

O primeiro combate começava…

2fb60f781660cf9572478a0e610c494e.jpg