Capítulo 108 – Plumas em chamas
Capítulo 108 – Plumas em chamas
Um plumofurcus preto e verde surgiu pela direita. Mayumi desembainhou a katana e recebeu as garras flamejantes na lateral da lâmina; o choque empurrou seus pés entre as folhas e facilitou o impulso ígneo da criatura de volta às copas.
Mais duas silhuetas cruzaram os galhos.
Akemi levantou a guarda e iniciou esquivas subsequentes aos ataques aéreos; suas faíscas que antes surgiam em intervalos curtos ocuparam os antebraços, ombros e pernas.
Ele olhou os arredores. Mayumi tinha foco em proteger Aruni, e Hiromi o observava de braços cruzados.
— Miya! — cobrou, desviando das investidas aéreas.
— Eu tô vendo.
— Então ajuda!
Hiromi sorriu de lado, quase ofendida. — Ah, sim, eu poderia me divertir muito derrubando esses passarinhos pra você. Mas se eu fizer tudo, seu mês de treino serviu pra quê?
— Quer continuar o treinamento aqui !?
— Acha mesmo que aprimorou sua defesa só pra praticar naquele salão?
Três plumofurcos trocaram de galho e despencaram sobre Akemi em sequência. Cada rasante esquivado terminava numa explosão curta de fogo que devolvia as criaturas às copas com velocidade.
O garoto rangeu os dentes. “Como podem ser tão rápidos! Se continuar nesse ritmo, vou ficar preso num ciclo infinito sem brecha pra contra-ataques.”
— Ow! — o sermão de Hiromi cortou o ruído das asas — pare de desviar um por um! Você treinou isso por semanas, caramba! E esses seres são ígneos, você cansou de interagir com esse elemento! Descubra o padrão que eles usam e aja antes deles!
Um macho de penas azuis mergulhou em diagonal e errou o primeiro contato de garras. A cauda comprida mudou a direção da criatura no mesmo instante; o leque traseiro dobrou-se e trouxe o par de esporões. Akemi bloqueou o golpe com as faíscas dos antebraços cruzados, e embora o breve desequilíbrio, sua mente clareou. “A cauda! Ela corrige a direção junto com as penas das patas.”
Outro vulto de voo desceu; os impulsos ígneos nas asas traseiras aceleraram e modularam a aproximação do bote.
Akemi notou a cauda à esquerda e a asa direita recolhida.
O plumofurcus impulsionou-se e mudou a trajetória.
Akemi já tinha saído da linha de ataque. Uma palma eletrificada atingiu o peito durante a passagem. A criatura bateu contra o tronco, caiu no chão com espasmos elétricos e desmaiou.
Hiromi bateu duas palmas simples. — Muito beeem. Agora você consegue reagir melhor. Como estão os outros?
Mayumi mantinha Aruni protegida. Kyoko continuava alguns metros à frente delas, acompanhando com os olhos um plumofurcus nas copas. Ela abriu o cantil e esticou os dedos indicador e médio perto da boca metálica.
A água esverdeada subiu num fio contínuo e ficou rodeando da pequena mão até a ponta dos dedos apontados como revolver. Seguidamente, uma compressão crescente reduziu o líquido pouco a pouco ao tamanho de uma gota redonda e flutuante na ponta da unha.
A trajetória de voo do plumofurcus entrou na mira dos dedos apontados.
— Quatro asas, quatro pontos de desequilíbrio.
Tchak!
Akemi ouviu o grunhido do ser penoso acima, e quando olhou, o viu caindo em rodopios até a grama.
Kyoko puxou outra parcela de água do cantil e preparou o segundo disparo.
Vendo o formato da mão da baixinha, Akemi compreendeu. — Você “atirou” nele?!
— Parabéns, muito observador da sua parte. E não se preocupe quanto a integridade vital dele, só acertei um ponto incapacitante.
— Espera… — ele revidou uma investida aérea e recuperou a guarda — não vivia falando que dominava artes marciais? Você luta atirando água nos outros?!
— Eu somente disse que entendo de artes marciais, tem diferença, sabia?
Outro plumofurcus avançou pela lateral de Kyoko. A garotinha olhou de soslaio e encontrou a articulação que sustentaria a impulsão ígnea. No instante em que o filete esverdeado condensou-se nos dedos apontados, a criatura acionou as chamas das asas.
O disparo foi instantâneo. Tchk! Os anéis se expandiram num estouro circular e lançou um fio d’água perfeitamente reto e fino. Por uma fração de segundo, a trajetória ficou desenhada por uma linha brilhante que perfurou a pata traseira do animal, que perdeu a sustentação do impulso ígneo e caiu de peito no solo de folhas.
— Se eu sei onde quebrar a postura do adversário, ele pode dar as piruetas que for, vai continuar me mostrando exatamente onde tenho que acertar — mais um fio subiu do cantil e concentrou-se na ponta dos dedos. O foco da atiradora voltou às copas em busca de outro ponto vulnerável. — Vamos lá, quem é o próximo?
De tiros em tiros, plumofurcos caíam…
Em contraponto, Aruni procurava o próprio espaço entre os ataques defendidos por Mayumi.
Repentinamente, o ruído de asas aumentou à sua esquerda.
— Aruni! — alertou a ruiva.
Um plumofurcus atravessou a guarda lateral e acertou a garota de raspão no ombro. Aruni caiu entre duas raízes de uma árvore; o caderno escapou de suas mãos e caiu sobre as folhas.
O animal pousou à frente dela e abriu as quatro asas.
Mayumi avançou para um corte, mas outro macho surgiu e obrigou sua katana ao bloqueio. As garras se agarraram à lâmina, puxando-a.
O plumofurcus que derrubou Aruni iniciou um avanço lento de asas expandidas. A garota recuou apoiada no ombro ferido, e sem querer tocou a mão em uma das flores azuis fechadas entre a folhagem. Apesar do susto, uma lembrança a atingiu. “É a mesma de antes.”
Aruni abriu os dedos sobre as pétalas, a aura rosa as preencheu por completo.
Em resposta, a flor cresceu bruscamente, as pétalas alongadas avançaram e agarraram-se às penas do ser. Outras flores azuis próximas responderam à energia e fizeram o mesmo; faixas florais envolveram as asas dianteiras, patas e cauda. O animal debateu-se, e uma nuvem espessa de pó azulado espalhou-se de súbito contra sua plumagem, colando as penas umas às outras.
Num piscar de olhos, o rápido resultado trouxe orgulho à áurica das flores.
— Funcionou…
— Aruni! — Mayumi correu e agachou-se ao lado dela.
— Eu tô bem — garantiu, ainda surpresa — é realmente curioso como essa flor me ajuda. Melhor levar algumas comigo.
— Investigamos isso depois. Consegue ficar de pé?
Aruni assentiu, recuperou o caderno, colheu duas flores azuis e colocou-as no lugar das margaridas, bem nas laterais da franja.
Nas copas, o bando diminuía.
Lutando entre faíscas e chamas, Akemi percebeu. — Estão recuando.
Kyoko parou os disparos e teve outra percepção. — Isso me preocupa mais do que eles atacando.
Galhos grossos cederam ao peso de uma nova presença acima. Penas brancas caíram leves entre o roxo das árvores. Uma ave maior caminhou sobre um galho, com o peito claro, asas de tons rosados e uma longa cauda que descia entre as folhas. Era a plumofurcus fêmea, que observava de cima os jovens enquanto vários machos planavam ao seu redor.
Hiromi tomou a frente do grupo, estalando a mão cerrada com a outra palma. — Muito bem, Akemi. Chega por agora! — Ela ergueu o joelho e deixou a mão espalmada na mira da criatura. — Essa é minha…
A fêmea abaixou o corpo sobre o galho e abriu as asas, pequenas chamas rosadas nasceram entre as penas traseiras.
Todavia, um som distante quase inaudível veio do interior da mata.
kiiih…
A plumofurcus cortou as próprias chamas e olhou para trás.
O grupo presenciou a reação mas não entendeu o motivo.
kiiih…
O pescoço da fêmea recolheu-se, as penas do dorso eriçaram. Os plumofurcos machos fugiram em desordem.
Kiiih… O terceiro chamado soou mais próximo, semelhante ao ganido de uma raposa.
Assustada, a fêmea branca permaneceu escutando por um tempo, mas por fim decidida, explodiu uma rajada rosa pelas penas traseiras e seguiu os machos numa velocidade sônica superior à do combate. Folhas caíram dos galhos sacudidos.
Hiromi saiu da guarda. — Ah, sério?
— Tá chateada porque fugiram? — Indignou-se Akemi.
Kyoko fechou o cantil. — Decidiram preservar a própria vida. Como se já não fossemos fazer isso por eles, não é, foguenta?
A Miyazaki devolveu uma expressão contrariada à baixinha.
Mayumi e Aruni encaravam a direção tomada pelas criaturas. O silêncio da floresta ganhou nitidez, e arbustos violetas balançaram sem ventania.
Akemi sentiu uma descarga fina correr pelo indicador; era calor… fraco, mas áurico.
— Miya.
— Também senti.
Um rápido clarão azulado apareceu entre as árvores.
Aruni viu. — Ali!
Todos notaram uma pequena chama cerúlea suspensa pouco acima de um arbusto. Nenhum graveto queimava abaixo dela, nenhuma fumaça subia. O fogo apenas existia.
Mayumi deu meio passo à frente com a katana sacada.
— Espera — advertiu Hiromi.
A chama se apagou. Outra surgiu dez metros à esquerda. Depois, uma terceira também distante apareceu atrás deles.
Kyoko virou-se. — Ah, que legal — ironizou.
Kiiih…
Akemi apurou o olhar entre as árvores, de repente, uma grande silhueta azulada cruzou o vão entre dois troncos. Primeiro surgiram as orelhas longas e alertas, junto a um corpo robusto e alongado terminando em uma cauda peluda e monumental. Embora o movimento visualmente gracioso e leve, o chão vibrou sutilmente com o impacto das quatro patas maciças.
Era certamente uma raposa azulina com cinco metros de pura imponência mítica.
— Kitsuno… — relembrou Akemi.
Uma dezena de chamas azuis acendeu ao redor dos jovens, nenhum sabia exatamente o que significava.
Mayumi entrou em defensiva com a lâmina. — Atenção à primeira regalia.
O resto acompanhou a postura.
Um cerco estava armado…