Capítulo 110 – Mecha ígnea de Kitsuno, parte 2
Capítulo 110 – Mecha ígnea de Kitsuno, parte 2
Enquanto Mayumi e Aruni organizavam suas ideias, os disparos d’água tonteavam a raposa.
As pequenas chamas azuis suspensas ao redor da clareira continuavam como portais de translocação. O Kitsuno recebeu um tiro no focinho e recuou até uma delas. Seu corpo desapareceu da cabeça às caudas, e quase no mesmo instante, a luz cresceu atrás de Kyoko, o alvo principal.
A palma abastecida voltou-se à claridade, mas as presas estavam próximas demais.
Zziup! A mordida se fechou entre faíscas azuis. Numa arrancada, Akemi passou e recolheu a baixinha no colo rumo a uma distância segura. As vastas e brancas faixas capilares da garota balançaram ao vento da retirada. O elétrico freou com os calcanhares, porém seu tronco avançou além do pretendido: com as longas mechas emaranhadas no rosto, ele pendeu em uma perna e quase caiu sentado com a atiradora nos braços.
— Pf! pf! — Afastou os fios da boca, surpreso com a facilidade do resgate. — Caramba! Você é leve como uma pluma!
Sem vestígio de gratidão, a baixinha agarrou a gola do salvador. — Me põe no chão — intimidou.
— Qual é? Eu só-
— AGORA! — Solta com pressa e cuidado, Kyoko conferiu a flor branca presa à cabeça e apontou um dedo molhado para o peito do elétrico. — Encosta em mim de novo e eu te mostro como seu corpo pode ficar tão leve quanto!
Um ganido interrompeu a ameaça; o Kitsuno saiu da chama e desceu a pata. Akemi agarrou a colega outra vez e disparou para o lado pouco antes que as garras os rasgassem, porém, seu pé prendeu numa raiz.
Antes da queda, a garotinha desempenhou uma cambalhota elegante e terminou de pé. A destreza evitou o tombo, mas pouco ajudou o humor.
Caído de bruços, o rapaz ergueu a cabeça e deu de cara com uma esfera d’água de energia crescente.
— EU TE AVISEI, SEU PALERMA IDIOTA!
Uma mão agarrou a gola de trás da baixinha, os sapatinhos roxos saíram do chão. Hiromi interviu. — Opa, opa, opa! Não era você quem queria tratar a situação com mais seriedade?
— AH, VOCÊ QUER PROVAR TAMBÉM, É?!
Um clarão azul iluminou-as pela lateral. As jovens dispersaram-se em labaredas alaranjadas; a bola de energia atravessou o vestígio de chamas e destruiu uma região de árvores.
Akemi mal acompanhou a passagem da faixa de fogo que cruzou a vegetação rasteira e se reuniu metros adiante; Hiromi reapareceu dinamicamente agachada com a atiradora no colo mirando seu pescoço. — Pronto, pode baixar essa mão — deixou a passageira de pé.
Kyoko olhou a distância até os troncos estourados, depois, a palma vazia; o calor das chamas apagara momentaneamente a corrente d’água da flor. As intrigas se perderam diante do que acontecera.
— INCRÍVEL! — Akemi comemorou aos pulos. — Você saiu igual um raio ! Como faço isso?!
— Primeiro você deve se preocupar em não se esborrachar no chão. A técnica de velocidade em si dá trabalho até pra mim.
Outro ataque chegou perto, mas atravessou apenas chamas dispersas.
Hiromi deslizou com a companheira segura. — Viu?! — Indicou a própria postura com o queixo — é só não tentar frear em pé de uma vez! Por enquanto, abaixe o corpo e deslize. Assim você consegue segurar melhor o impulso com as pernas, que são o seu forte!
Com uma veia saliente na testa, a garotinha jogou-se dos braços da Miyazaki e mirou a raposa. A flor branca repôs a corrente perdida. — Será que dá pra vocês continuarem essa aula depois que aquele monstro parar de tentar me engolir?! — Disparos atingiram o Kitsuno e mandaram-no de volta às pequenas chamas.
A ígnea escapou em arrancada de fogo e deixou Kyoko ao lado de Akemi. — Fica com ela. Enquanto isso vou continuar procurando alguma forma de arrancar um pedaço daquele pelo.
— Ei! Eu ainda nem testei suas dicas!
O crescente brilho azul iluminou o rosto inconformado de um e o sorriso enviesado da outra.
— Testa agora.
A investida chegou num flash. Akemi arreganhou os dentes de susto e impulsionou-se para o lado com Kyoko nos braços; Hiromi se desfez em fogo na direção oposta.
Um tronco cresceu depressa no campo de visão do rapaz. Ele baixou o corpo, projetou uma perna à frente e dobrou a outra. O deslizamento pela grama causou estalos e folhas levantadas. Uma mão faiscante apoiou-se no solo e conteve o desequilíbrio. A freada terminou pouco antes da árvore.
Do outro lado, Hiromi rematerializou-se. Akemi olhou para ela com uma felicidade incontível. — EU CONSEGUI!
A garota assentiu com a mesma animação e joinhas.
Acolada, Kyoko mirou o inimigo. — Quer saber, eu atiro daqui mesmo.
— Tem certeza?!
— Você corre, eu atiro. Simples! Só tenta não me derrubar no chão de novo…
Akemi carregava a atiradora até trechos distintos e freava baixo para os disparos subsequentes.
Hiromi acompanhava o adversário imparável pelos flancos. A cooperação enfim permitia alguma vantagem. A cada tiro recebido, a fera retornava mais irritada para as chamas suspensas. A Miyazaki antecipou uma das translocações e acertou chute marcial flamejante na mandíbula que seguia os rastros elétricos. O golpe desviou a mordida, entretanto, as chamas alaranjadas foram absorvidas e engrossaram os pelos.
Irritada com o resultado, a ígnea apertou os punhos; a caça seguiu com energia renovada. “Eu atraso o ataque em troca de força pra ele. Se continuar assim, uma hora ninguém conseguirá segurar… O que eu faço?”
Ao longe, uma nova chegada chamou sua atenção:
A katana banhada em vermelho reluzente vinha na mão canhota de Mayumi, que avançava pelo espaço aberto com Aruni mantendo o brilho rosa no braço direito ferido.
— Ooi! — chamou Hiromi — espero que vocês tenham uma ideia melhor que a minha!
A ruiva parou a espada adiante. — Só preciso que ele fique perto o suficiente!
Esferas azuis atravessaram faíscas esparsas e explodiram entre troncos. Disparos d’água interromperam a seguinte. A perseguição seguiu.
— Ele continua atrás da Kyoko — observou a espadachim.
— E eu continuo piorando tudo quando acerto um golpe — desabafou a Miyazaki, próxima — meu fogo entra no corpo dele e acaba o fortalecendo sempre. Parece ser outra aura eterna… A cada segundo aquela energia áurica fica mais abundante. Isso é preocupante.
— Então deixe o próximo contato comigo.
Hiromi nunca tinha visto o brilho vermelho que cobria toda a lâmina. Embora o braço aberto da companheira ainda chamasse sua atenção, ela construía uma confiança. — Consegue lutar assim?
— Somente com Aruni por perto.
A áurica floral respondeu com um aceno breve, concentrada no ferimento.
Mayumi indicou o espaço livre diante delas. — Kyoko deve ficar aqui. Quando o Kitsuno vier, Akemi tira ela da frente, a Miyazaki intercepta o ataque, e eu sob suporte de cura fico com o objetivo principal.
Hiromi compactuou com a ideia. Antes que avisasse os dois sobre o novo plano, recomendou gentilmente: — Pode me chamar pelo nome, se preferir. Tá?
A permissão foi aceita em silêncio…
— Akemi! Traz ela aqui!
Os rastros de faíscas ziguezaguearam até abaixo da katana. Após a freada, Kyoko disparou inúmeras vezes e mandou o ser de volta às chamas suspensas.
— Trouxe! — bradou Akemi.
— Mayumi tentará algo — informou Hiromi — você só precisa sair da frente quando ele chegar.
A garotinha acolada observou a lâmina vermelha sob foco samurai. — Usando a minha pessoa de isca ? Achei que você fosse mais nobre.
O jovem agachado alfinetou: — Não podemos agir em equipe-? Ai ! — Tomou um peteleco na testa.
— Não te perguntei nada, ô bocó! — A luz azul irradiou adiante. — Ó lá, fica esperto!
O Kitsuno cortou distância.
— Saiam! — ditou Mayumi.
Após a disparada faiscante, a trajetória da mordida encontrou a espadachim.
As presas ocuparam a visão de Hiromi, tão próximas que ganharam contornos nítidos.
“Tenho que tirá-lo da reta a qualquer custo.” Dispersando em chamas, a ígnea executou um rápido golpe de três tempos finalizado com o punho cerrado na lateral do focinho. A explosão alaranjada maior saiu do último impacto e bruscamente desviou a criatura para o lado.
A pelagem incendiada em laranja passou diante da samurai, volumosa e exposta desde a face até o peito. A ruiva acompanhou o desvio com um passo curto e efetuou um corte ascendente. A lâmina vermelha passou na base dos pelos, percorreu a curva do pescoço e saiu antes que a raposa atingisse o chão.
O ganido veio junto ao impacto: o Kitsuno — tomado pelas chamas Miyazaki — caiu e abriu uma vala entre as folhas.
Os que evadiram voltaram a atenção para o rastro de destruição. — Pegou?
O chão vibrou em ironia à pergunta mútua. O Kitsuno apoiou uma pata, depois outra, e ergueu o corpo; o fogo laranja sobre seu dorso se contraiu junto à pelagem flamejante e duplicou-o de tamanho. Ele abaixou a cabeça com os dentes expostos; um azul quase branco envolveu seu pescoço.
O grupo entrou em alerta máximo.
A fera raivosa caminhou lentamente, potencializada para o novo ataque… Entretanto, um detalhe travou o seu avanço. Ela soltou um breve choro canídeo, as patas traseiras se afastaram e o pescoço comprimiu entre os ombros. As nove caudas se reuniram em uma.
Era medo.
Hiromi buscou o real motivo do recuo. À frente das garras, uma longa mecha cortada estava ondulada sobre a grama queimada.
O Kitsuno mantinha os olhos no grande pedaço separado. Mesmo após a absorção das chamas alheias, uma falha extensa na lateral da pelagem deixava o pescoço totalmente desprotegido.
A raposa farejou o tufo, recuou o focinho num sobressalto e centralizou as pupilas de caça à lâmina vermelha. O peito continuava aceso, porém as patas voltavam instintivamente…
Sua intenção de bote cedeu quando o gume reluziu a luz do sol em vermelho. Após um rosnado demorado à ruiva, o ser áurico fugiu pela chama suspensa.
A ameaça do cerco de luzes azulinas persistiu mesmo depois que as caudas desapareceram.
Os cinco esperaram…
Esperaram…
E esperaram…
O círculo de chamas se apagou.
Mayumi baixou a ponta da katana e a Miyazaki finalmente saiu da postura de combate.
Akemi se reuniu com o grupo junto da baixinha. — Então ele se foi?
— Covarde, né? — Indignou-se Kyoko.
— Não se enganem — alertou Hiromi — seres áuricos são ardilosos e adaptativos. Ele pode voltar a qualquer momento. Mais forte e mais preparado.
Aruni soltou a tensão dos pulmões e apoiou a testa no ombro da ruiva. Ela permaneceu perto, com o braço ferido ao alcance de sua aura rosa; sua atenção, porém, desceu para a extensa faixa de pelo no chão.
O garoto abaixou-se diante do tufo. — Você arrancou tudo isso em um só corte?!
Convencida, a ígnea levou a mão ao queixo. — Pooois é. Mesmo depois daquele tamanho todo, ele ainda fugiu com o rabo entre as pernas. Muito bem, Mayumi!
— Sua força deixou tudo ao meu alcance. Obrigada… Hiromi.
Akemi colocou uma questão em jogo. — Agora como a gente leva isso?
Uma faixa de um metro e meio foi separada pela espada. — Uma mecha enrolável já deve bastar para não perdê-la.
— Mas podemos mesmo tocar nisso? — Preocupou-se Aruni.
— Ih, essa pequena quantidade de energia áurica nem faz cócegas — Hiromi recolheu a amostra e enrolou-a no pescoço do rapaz.
A mecha foi recebida com certo receio, mas quando entendeu-se que o toque mal afetava e ainda despertava as mesmas sensações calorosas que atiçavam as faíscas, foi aceita como um belo cachecol fortalecedor.
— Irado…
— Primeira regalia, adquirida! — confirmou Hiromi com o dedão pra cima.
Mayumi sentou-se, deixou a katana sobre as pernas cruzadas. — Faltam uma parte da Coroa do Hakutori, o Prisma de Veio Estelar, as Sementes de Hiroshihana e… Arh , esqueci qual era a última… — ela respirou fundo em conta do pequeno incômodo que irradiava seu braço.
— Já estou quase fechando a ferida — assegurou Aruni — a dor pode continuar por um tempo, então você precisará descansar.
Kyoko cruzou os braços perante a ruiva. — Você nunca disse quanto tempo dura essa sua técnica de afiação áurica.
— Quando secar, a camada de sangue cairá feito pele de cobra: opaca e inútil… Tenho poucas horas até isso acontecer e precisar de outro corte em situações como esta.
A aura das flores ocupou as bordas do ferimento diminuído e fechou a fenda. O tecido da longa manga colada seguia com o corte limpo.
Mayumi flexionou os dedos da mão direita e testou o braço isento do brilho rosa. O fascínio foi imediato.
— Ah! — Aruni lembrou de algo — eu não disse antes, mas posso tentar costurar esse corte do uniforme de maneira rápida! — Ela aproximou os dedos do rasgo, a particularidade do tecido gerou dúvidas. — E-ehm, só não sei se vai funcionar bem porque eu nunca testei materiais anti-áuricos.
Finos fios rosados surgiram de seus dedos e passaram pelos espaços da trama 1 . As duas bordas se aproximaram aos poucos até que a manga se fechasse por completo.
O grupo ficou em silêncio por um instante.
— Deu certo… — Aruni surpreendeu-se consigo mesma.
Mayumi encarou a costura. — Pelos deuses… Preciso que você me explique tudo sobre estas suas arte depois.
Akemi levantou o próprio braço e apontou para a manga chamuscada. — Bom, já que deu certo…
O grupo pôde enfim dar sequência à trilha rumo ao suposto lago…

Longe da Floresta Estelar, sozinho no Escritório de Direção da ASA, Katsuro recebeu registros.
No laboratório secreto, Masaru acompanhava na bancada os mesmos documentos em revelações fotográficas.
Em outra mesa, Kurori separava o material revelado; seu leve sorriso denunciava o quão gostava daquele momento. — A posição do Major Yura segue oculta.
O professor comparou os horários dos registros e parou na lacuna entre as atualizações. — O contrato que a ASA entregou ao Governo Asahiano previa acompanhamento vinte e quatro horas dos instrutores durante todo o percurso. Ele realmente se desviou da rota?
— Creio que não. Majores levam contratos governamentais a sério demais pra descumprirem um por conta própria. Houve alguma influência externa… Aliás — uma das fotografias foi erguida contra a luz branca — eles continuam enviando os dados a outro destino.
— Pra quem? — interrogou, contrariado.
Com passos sensuais e ecoantes, Kurori se aproximou; sua mão enluvada acariciou o ombro do Miyazaki e seus seios encostaram nas costas dele.
O dedo indicador apontou o campo vazio do destinatário. Os lábios esverdeados sussurraram no ouvido atento:
— Essa é uma informação que esconderam até do seu irmão~…
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- estrutura de linhas entrelaçadas que compõem o tecido. ↩