Capítulo 111 – Caminho até o alívio
Capítulo 111 – Caminho até o alívio
Os pinheiros cresciam ao longo da trilha do estreito rio. Nos ramos mais altos, as folhas finas e pontiagudas adquiriam tons vermelhos predominantes entre o roxo; sob eles, raízes largas atravessavam o terreno úmido.
Akemi ultrapassou uma delas com dificuldade e esperou as demais. A mecha ígnea enrolada no pescoço ainda aquecia seu núcleo, mas as faíscas azuis se enfraqueceram depois de tantas horas de esforço. Hiromi lhe cedera parte do próprio calor áurico durante o percurso; mesmo assim, o alívio durava pouco. O garoto apoiou as mãos nas coxas doloridas e soltou o fôlego. Energia áurica, pelo visto, também precisava de um corpo disposto.
Hiromi conferiu o mapa. O lago continuava na direção escolhida, embora as curvas do rio e os obstáculos da margem atrasassem o percurso. Atrás dela, Kyoko puxou a parte traseira do sapatinho e voltou o tornozelo ao chão com o apoio incompleto. — Se esse lago estiver tão longe quanto parece, esse mapa poderia ter vindo com um medidor de distância!
— E um café — bocejou Akemi.
Na retaguarda, Mayumi escondia as fisgadas no braço. O tratamento fechara a ferida, mas o contato da manga ainda incomodava; Aruni percebeu a mão sobre o tecido e recebeu um breve aceno de tranquilidade, mas antes de qualquer insistência, pequenos frutos amarelos entre os arbustos rubros atraíram a atenção do garoto.
— Olhem aqui! Parece bem comestível!
A áurica floral se aproximou e recolheu um fruto. — Esses podemos colher. Mas só esses; os roxinhos daquele arbusto são le-tais!
A empolgação de Akemi morreu no primeiro fruto aberto: pouca polpa e uma semente enorme. Ainda assim, ele os distribuiu entre as companheiras e se sentou junto delas no chão de folhas, com uma porção decepcionante na palma.
O momento trouxe paz…
De repente, um colorido coelho de corpo comprido e patas silenciosas atravessou a trilha e desapareceu entre as folhagens. O salto até os arbustos lembrou a agilidade de um gato, e Akemi flagrou o animal; Hiromi percebeu a comparação com as frutinhas e dobrou o mapa.
— Sem caça.
— Eu sei.
Kyoko jogou uma fruta longe e cruzou os braços. — Arhg! Essa ideia fajuta de que essa floresta traz carma é ridícula! Vamos precisar de mil dessas pra pelo menos saciar a fome.
Mayumi engoliu um pedaço da sua e reprovou o desperdício. — Quem permite que a fome vença pode perder um futuro banquete.
— Eu aceitaria o tal banquete bem antes dessa sua lição…
A pausa terminou com pouco entusiasmo…
Num tronco caído, uma espécie de girassol de pétalas finas se abria à luz do sol. A energia rosada de Aruni percorreu o cálice 1 , encontrou uma resposta pouco familiar e retornou à mão. A garota aproximou o rosto, consultou uma página e colocou um dos girassóis na parte de trás do cabelo enquanto as azuis seguiam presas à franja. O registro da nova espécie recebeu um espaço vazio sob a indicação de uso.
Poucos minutos de caminhada, a dor no pé de Kyoko a parou de vez. Aruni abaixou-se diante dela quando a atiradora retirou o sapatinho roxo e a longa meia; um furo no tornozelo o deixava arroxeado. — Hãn! — A áurica floral pediu encarecidamente que todos esperassem e iniciou o tratamento. — Por que você continuou andando desse jeito?! — questionou, preocupada.
— Parar no meio de uma floresta dessas também não parece uma ideia maravilhosa.
— Olha, você poderia ser menos imprudente — zombou Akemi.
— Me testa de novo pra você ver se eu nã- ai !
A reação dolorosa dos dedos do pé foi analisada por Aruni. — Ele está certo, mais um pouco e você teria um piripaque! Isso parece um ferimento de Ferrão da Noite. Você deve ter pisado em um quando atravessamos aquele riacho.
— Aquelas plantinhas pontiagudas e escuras que você tinha alertado?! — remeteu o garoto.
— É! A perfuração quase não incomoda de início, mas a toxina pode prejudicar os movimentos e paralisar o corpo conforme se espalha. Até as dores mais fracas merecem atenção, Kyo!
A baixinha deu de ombros, contrariada com a própria falta de argumento.
Perto, Hiromi abaixou o mapa e apontou. — Essas flores na sua cabeça não são por mero visual, não é?
A atenção dos demais deixou Aruni nervosa. — É-é que com uma de verdade, posso interagir diretamente com as características dela: estimular crescimento, produção de substâncias… assim como fiz contra os plumofurcos!
— Suas habilidades áuricas só funcionam em posse delas? — questionou Mayumi.
— Não necessariamente. Eu posso armazenar a propriedade das flores. Cada espécie tem uma composição fitoáurica. Depois que meu núcleo assimila essa essência, consigo reproduzir seus efeitos com minha própria energia áurica, que sinceramente, nunca senti falta.
— Tá dizendo que você tem os três tipos áuricos?! — duvidou Akemi.
— Mais ou menos isso.
O rapaz ficou incrédulo. As perguntas eram tantas que não se sabia qual viria primeiro.
Mayumi interrogou na frente. — Sua energia áurica nunca se esgotou? Nem durante os treinos?
— Posso ficar cansada… mas a energia sempre continua. Pelo menos até onde eu conseguir usar.
O espanto dos três arrancou um comentário de Kyoko.
— Tá. Dessa vez eu passo pano pro escandaloso. Isso merecia uma explicação bem antes.
— E seu corpo cansa mesmo com energia sobrando — comentou Akemi, menos exaltado.
— Bastante, principalmente depois que fico concentrada por muito tempo. E quanto mais tarefas, mais difícil é pra mim. Por isso infelizmente eu ainda não encontrei um modo de ajudar todos ao mesmo tempo, mas tô perto de aprender! — Aruni encerrou a aplicação, acomodou uma pétala macia retirada do livro entre a meia e a região tratada e sugeriu um teste de apoio do pé. Kyoko moveu o tornozelo e aliviou-se.
— Se voltar a incomodar, me avisa antes que piore.
— Aviso…
Durante o trecho seguinte entre matas densas, altas e rubras, uma umidade morna alcançou o grupo. Enquanto uma névoa clara atravessava os troncos, o cheiro da vegetação ganhava um odor mineral.
Akemi afastou a última folhagem e arregalou os olhos ao máximo que a fome lhe permitia. — Oooh…!
O lago do mapa se dividia em duas grandes piscinas naturais rodeadas por formações rochosas e unidas por transbordamentos lentos. Vapores subiam das superfícies e se desfaziam entre a mata vermelha; o fundo de pedra permanecia visível até as pequenas fendas de onde vinham as bolhas quentes.
— Fontes termais — reconheceu Hiromi, convencida.
Mayumi conferiu a entrada pela qual chegaram e procurou outras passagens na vegetação. O lugar oferecia descanso, mas a sensação de perigo interferia naquela tranquilidade. Perto dela, Aruni procurava no caderno as mesmas flores de aroma adocicado que boiavam sobre a água; nenhuma correspondência bateu com os desenhos já registrados.
Kyoko se sentou numa pedra baixa, retirou um sapatinho e mergulhou a ponta do pé. Com o toque sutil do dedão, um sorriso lhe ocupou o rosto. O outro sapato caiu ao lado do primeiro, e antes que os demais acompanhassem a reação…
Splash!
A baixinha pulou de roupa e tudo.
— Kyoko!? — gritaram todos.
A atiradora emergiu a cabeça poucos metros, afastou os fios da boca, soltou o fôlego e se deitou de costas. O cabelo se espalhou ao redor numa extensão maior que seu corpo, e o suspiro satisfeito sobrepôs todas as suas repreensões. — Pra quê essa gritaria, gente? O momento agora pede uma bela pausa.
— Mas nem examinamos a água! — protestou Aruni
Akemi concordou: — Pois é! Pelo menos avise antes de entrar!
A água morna alcançou as orelhas da atiradora e abafou parte da conversa. Ela inclinou a cabeça, incomodada com o esforço necessário à explicação. — Lembram do nosso primeiro dia no refeitório? Quando contei sobre o meu clã e a fonte da juventude?
Akemi se aproximou tanto da borda que Hiromi o segurou pela gola traseira. — E-essa é a fonte?!
— Se fosse, encontraríamos bem mais que flores na entrada — Kyoko passou as mãos pela superfície. — Uma característica das águas da fonte é a proliferação depois que ficam estagnadas. Se uma porção alcançar outro reservatório e estiver em condições favoráveis, ela espalha parte das propriedades áuricas pela água comum ao redor. Minha família chama esses lugares de fontes secundárias.
Hiromi soltou a gola do garoto e se abaixou junto da margem. — E você reconheceu pelo contato no pé?
— Minha família me ensinou isso tantas vezes que quase decorei as descrições. Primeiro o calor avança por dentro, depois os músculos começam a soltar e… Aah, essa parte é deliciosa! Aqui a concentração parece menor, mas o calor dessas pedras deve favorecer o efeito.
O rapaz criou dúvidas a si mesmo. — Então a fonte da juventude fica na Floresta Estelar?
— Negativo. Porém isso não impede de alguém ter despejado uma parte da água pura neste lugar.
— Então podemos não estar sozinhos — antecipou Mayumi, atravessando pela margem — vamos, Kyo, devemos deixar esse lugar o mais rápido possível pra evitarmos qualquer risco.
Akemi mergulhou um dedo. A sensação ultrapassou o calor sobre a pele e percorreu o corpo dolorido pelo esforço. O contato foi repetido com uma surpresa crescente. — Que intrigante… é lotada de energia áurica!
— Durante o banho, essa energia entra em contato com a nossa circulação áurica e favorece a recuperação do corpo. Tenho certeza que esse é um detalhe que a nossa espadachim altruísta iria adorar.
Mayumi parou a caminhada. — Há recuperação de ferimentos?
— Não espere que um corte profundo desapareça, porém dores musculares, inchaços, desgaste… tudo isso melhora em um instante. E se vocês relaxarem direito, o banho pode até substituir várias noites de sono.
Aruni registrou as sensações do rápido contato com a água. A explicação oferecia possibilidades demais para uma conclusão apressada, sobretudo diante do vigor obtido sem qualquer esforço de sua parte. — E os efeitos da juventude? Também acontecem durante um banho?
— Somente na fonte verdadeira. Ela conserva a capacidade de recuperação dos tecidos por muito mais tempo, por isso o envelhecimento diminui. Nas secundárias, o efeito se perde. A recuperação permanece, mas a juventude não. Minha família conhece a diferença, mas nunca me explicou o motivo. Sempre achei essa parte estranha.
A passagem estreita entre as piscinas tomou o foco de Mayumi, depois, a vegetação além do vapor. A proximidade daquelas águas com um segredo tão protegido merecia uma conversa mais longa, porém o cansaço já dificultava a iniciativa de investigação.
— Beber dela mata a sede? — perguntou Akemi.
— Se quiserem vomitar até a alma por incompatibilidade áurica, vão em frente. Já eu posso beber de boa — bebeu, gargarejou e cuspiu como uma mangueira.
O garoto abaixou a cabeça, vencido.
Mayumi trocou um breve aceno com Aruni. A possibilidade de ambas descansarem aliviou parte de sua resistência à pausa.
A baixinha interrompeu a flutuação e retomou um assunto com uma repentina seriedade. — Ah, tem outro detalhe. O contato direto da água com a pele aumenta bastante os efeitos, contudo, como todos já sabem, nosso uniforme é feito com tecido anti-áurico. Ou seja…
Aruni entendeu rápido. O rubor no rosto e a respiração acelerada não desapareceriam tão cedo. — V-v-v-você t-tá dizendo que…
— Isso mesmo! Podem ir tirando seus uniformes — ordenou Kyoko, despindo-se debaixo d’água.
Com olhos condenatórios, a ígnea e a ruiva encararam o garoto e forçaram-no a agir antes que qualquer uma lhe dirigisse a palavra.
— Eu sei, vou ficar longe. Lááá na outra parte atrás daquelas pedras. Bem longe, ok ?!
Hiromi colocou uma mão rígida no ombro dele e indicou a mata que rodeava a outra extremidade. — Aquela margem é um ponto cego pra nós, então fica de olho! — Um tapa nas costas o impulsionou à passagem rochosa entre as piscinas.
— Ah, eu só quero descansar…
Mayumi acrescentou com uma serenidade que piorou o constrangimento do rapaz: — E nós só queremos a confiança de que não haverá nenhuma “gracinha” da sua parte.
— JÁ DISSE QUE VOU FICAR LONGE!!!
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- conjunto de pequenas estruturas semelhantes a folhas chamadas sépalas que protegem a flor antes de sua abertura. ↩