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Capítulo 112 – Vapor sobre pedras

Shihais: Remanescentes Da Aura — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 112 – Vapor sobre pedras

A água morna alcançava os ombros nus das garotas escoradas na borda rochosa. Acima delas, as folhas rubras recortavam a luz da tarde e deixavam reflexos sobre as bolhas de calor. O cheiro adocicado das flores se misturava ao vapor, enquanto os uniformes descansavam sobre pedras secas, próximos do caderno de Aruni.

Entregue ao relaxamento, Hiromi acomodou a nuca contra a margem e boiou os pés na superfície. A mecha ígnea do Kitsuno enrolada no pescoço estava em sua segurança.

Enquanto Aruni conferia as flores na cabeça, a atenção de Mayumi vigiava os arredores, à espera de qualquer ruído. A espada de lâmina carmesim fincada verticalmente na rocha estava ao seu alcance de saque.

— Se continuar encarando arbustos, vai sair daqui louca da cabeça — alertou Kyoko.

— A possibilidade de existir alguém por perto merece toda a precaução.

Hiromi ergueu uma mão preguiçosa. — Eu já tô vigiando, e tenho certeza que o Akemi tá bem atento no outro lado… Pode descansar um pouco, Mayumi.

A permissão surtiu efeito parcial. Apesar do receio, a ruiva se deixou relaxar. Seu ombro tocou brevemente o de Aruni.

— E-e n-nossa, é… — a tímida disfarçou com uma mexida nas pétalas da franja — então, como vamos nos secar daqui depois? — enrolou.

— Deixa comigo — garantiu Hiromi.

— C-como assim!?

— Ué, nunca viu o que uma áurica das chamas pode fazer? Posso tirar toda a umidade do seu corpo em instantes!

Mayumi apontou à baixinha. — Hum, só tome cuidado para não secar demais essa aqui. Se exagerar, ela pode encolher até não estar entre nós.

— Ah, ha, ha… Muito engraçado, ô, “Dra. Hemoglobina” — rebateu, afastando-se com braçadas lentas para boiar. — Mas pra sua sorte eu tô bem confortável nessa água de-li-ci-osa.

O borbulhar das fendas voltou a ocupar o silêncio…

Sossegado do outro lado das pedras, Akemi escutou a risada e afundou um pouco mais na água. O calor soltava das costas o cansaço acumulado desde a trilha; a dor desaparecia aos poucos, e uma sonolência agradável prolongava os intervalos entre cada respiração.

Fazia dias que seu corpo vivia em alerta. A simples permissão de parar finalmente trouxe a paz.

Seu uniforme ficara ao alcance do braço sobre uma saliência seca. Diante dele, a rochosa margem distante cercava a água com o vermelho da mata.

Naquele sossego, uma atividade discreta despertou no núcleo, tão leve que o garoto fechou as pálpebras para percebê-la: um zumbido baixo e constante que o levou de volta às salas de máquinas das hidrelétricas onde estagiara antes da ASA.

“Haah, que saudade estranha daquela usina. Lembro que a gente vivia falando que dava pra escutar a energia chegando antes de sequer vê-la… Por que essa frase parece ter mais sentido agora?”

Os técnicos mais velhos repetiam que a corrente nunca feria, apenas cobrava caro de quem a subestimava. Akemi sorriu sozinho com a lembrança.

“Quem diria que aquele garoto de macacão velho chegaria numa floresta áurica com o corpo funcionando feito uma subestação e lutando contra seres inimagináveis.”

Durante o combate, a energia do Kitsuno entrara de uma vez, forte a ponto de seus próprios movimentos inicialmente escaparem do controle de velocidade. O calor que Miya lhe cedera pelo caminho provocava reações rápidas e impacientes, pulsos curtos que acendiam as faíscas e logo se esgotavam. Naquela água quetne, a sensação chegava menor, porém contínua, sem picos nem quedas, a entrega mais limpa que ele já recebera.

“A mesma energia entregue de jeitos diferentes traz estragos distintos… e se meu núcleo funciona igual…”

A suspeita o deixou inquieto num bom sentido, dando-lhe ânsia pelos conselhos de Masaru e pelas análises de Kurori. Akemi prometeu a si mesmo que guardaria cada detalhe de suas sensações até o reencontro, mas os principais objetivos eram as regalias e a segurança do grupo.

A lembrança da mecha do Kitsuno enrolada no pescoço de Hiromi cortou o raciocínio. Se tivesse razão sobre a aura eterna, nem a fonte relaxante apagaria as chamas azulinas; mergulhadas, talvez seguissem iguais, ou talvez revelassem um limite que ninguém conhecia. Akemi quase gritou a pergunta por cima das pedras, mas os avisos e o tapa nas costas que recebera antes do banho seguraram sua língua. Às vezes as garotas não queriam incômodo.

Todavia, outra ideia veio à mente. “Pera, se aquelas chamas resistem à água por serem eternas, minhas faíscas… Elas também teimariam do mesmo jeito se tiverem a mesma natureza!”

Apesar da empolgação, o raciocínio técnico veio logo atrás e segurou-o pela gola.

O detalhe que importava estava no comportamento. Mesmo que uma água carregada de minerais conduzisse correntes elétricas em todas as direções, qualquer brilho de energia terminaria rapidamente engolido pela dissipação. Já uma faísca eterna, se existisse, talvez não se apagaria tão facilmente.

O garoto passou os dedos pela superfície aquática e sentiu o cheiro mineral que subia junto do vapor, o mesmo que denunciara aquele lugar antes mesmo da chegada. As bolhas nasciam das fendas da rocha fervente, e a transparência da água o enganou só por um instante.

“Não importa o quão cristalina seja, água limpa não quer dizer pura. Ninguém enxerga o sal dissolvido. Essa água quente deve estar lotada de minerais. Quanto mais quente, mais os íons se mexem e mais ela conduz, fora a energia áurica que pode ser um problema ou solução.”

A conclusão desanimou e animou ao mesmo tempo.

“Então qualquer descarga maior pode vazar pra todo lado. Só que essa água já tá quase fervendo… vai virar vapor muito mais fácil em volta dos dedos… e o meu núcleo adora calor.” Uma ruga surgiu entre suas sobrancelhas. O olhar dele escorregou até o transbordamento raso à direita, por onde a água seguia até a piscina das garotas. A empolgação esfriou de vez. “Se eu exagerar na dose, a eletricidade pode chegar nelas… Tenho que ter cuidado.”

Com pulmões preenchidos, o mergulho foi feito. Sob a superfície, bolhas quentes escapavam entre as pedras, e curiosamente, o calor não afetava os olhos, como se a água permitisse que o banhista vislumbrasse sua escuridão bolhosa.

Akemi aproximou o indicador do polegar até um espaço mínimo entre eles, reuniu a carga nas pontas dos dedos e deu início a uma curta e contínua descarga, concentrada o suficiente para que vencesse a água.

Um traço azul-esbranquiçado acendeu entre as falanges. O brilho existia, pequeno e real. A empolgação aumentou. Enquanto os dedos se separavam lentamente e ampliavam a energia gerada, um formigamento elétrico seguia além pelo corpo submerso.

A corrente que escapava pela água retornava pela pele, morna e carregada do calor da fonte. O núcleo a recebia com a mesma avidez com que engolira o fogo do Kitsuno.

O rapaz via que cada faísca liberada voltava acompanhada de mais energia do que partira; o circuito se fechara nele mesmo. O brilho cresceu dentro de um envoltório contínuo, alimentado por um núcleo que já não distinguia o que saía do que entrava.

Akemi fechou a mão, mas a carga acumulada procurou uma saída antes do comando:

Katchau!

Um raio branco-azulado partiu dos dedos energizados e atravessou a água na horizontal até a margem oposta. Seca e violenta, a explosão atmosférica do trovão abafado dentro d’água chegou junto ao clarão.

Os braços foram recolhidos contra o peito num reflexo atrasado, a onda de choque bateu no peito do garoto com a força de um soco, esvaziou-lhe os pulmões e cravou um zunido nos ouvidos. Por um instante, o mundo submerso se resumiu a um apito agudo e a um brilho que se recusava a sair da retina.

Akemi emergiu a cabeça com cara de desastre. — Essa eu não esperava.

Esperava-se um vazamento de energia, mas não daquela distância nem daquela forma. A fonte saturada de minerais e de energia áurica conduzia muito melhor que a água de qualquer represa que conhecera, e mesmo assim a corrente deveria ter se espalhado em todas as direções até morrer na dissipação.

Aquele raio atravessara a piscina inteira por um caminho que a própria fonte parecia ter aberto para ele.

Akemi encarou a mão aberta diante do rosto. A resposta que tanto quisera talvez estivesse ali, e ele não fazia ideia de como lê-la. Pior: seu corpo inteiro estava voltado para a margem da mata, bastaria um palmo de desvio para cima e o risco teria sido catastrófico.

O estômago gelou.

— Akemi?! — A voz alarmada de Hiromi atravessou as pedras. — Que clarão foi esse? Tá tudo bem aí?

— T-tô! Tô bem! — Ele engoliu a seco e escondeu a mão debaixo d’água embora ninguém pudesse vê-la. — Foi só, é… Depois eu explico!

Murmúrios entre as garotas duvidavam da resposta, ela saiu alta demais, nervosa demais.

Akemi soltou o fôlego devagar e voltou os olhos para o lugar onde o raio atingiu a margem.

Partindo do local atingido da rocha submersa, subia uma cicatriz escura espalhada como veias em direção à mata, onde entre as altas plantas vermelhas, havia uma falha, um vazio amassado, como se algo tivesse tombado ali e ainda pesasse sobre o chão.

“Acertei alguma coisa?”

As pedras ocultavam a visão, e por mais que o jovem estreitasse o olhar, jamais distinguiria o que era dali.

A sensação incômoda era de que o raio não havia saído ao acaso: possivelmente ele tinha perseguido alguma coisa, ramo após ramo, até alcançá-la e derrubá-la…

Akemi pensou em uma verificação por conta própria, mas o risco de sair de seu posto sozinho era maior do que qualquer curiosidade. Ele cogitou se levantar, mas uma bufada o voltou para o aconchego das pedras na margem.

Foi quando um brilho estreito cortou o ar rumo ao seu rosto.

Tchak!

A cabeça desviou antes da compreensão do ataque. Um objeto laminado passou junto da orelha e acertou a rocha atrás dele na altura da cabeça; lascas saltaram para a água. A arma fincada na rocha tinha a curvatura de uma garra comprida, com uma base envolvida por tiras escuras.

Da esquerda, o som de passos rápidos e pesados golpeando a terra num ritmo não humano alertava uma aproximação. As plantas altas curvavam uma após a outra como se uma onda invisível as atravessasse.

O caminho que abriam não vinha em linha reta, muito menos de um só lugar. Eram várias. Contornavam, flanqueavam, e fechavam-se pouco a pouco com a paciência da caça.

Akemi arregalou os olhos e subiu escorregando pelas saliências rochosas entre as piscinas, revelando sua tanguinha improvisada de folhas brancas. Na disparada para o outro lado, faíscas estalaram sob as solas descalças; o deslizamento aprendido com Hiromi o freou sem tombo.

— GENTE! TEM ALGUÉM AQUI!

O vapor se abriu diante dele, quatro rostos se voltaram ao mesmo tempo.

O silêncio durou por segundos.

— KYAAAAA!!! — Aruni  cruzou os braços diante do corpo e afundou-se até o nariz.

Mayumi agarrou a katana próxima sobre a pedra, a expressão serena tornou-se tão mortal quanto a de Kyoko.

Hiromi colocou as mãos na cintura, a mecha azul em seu pescoço estalou em faíscas furiosas. — Akemi!

— N-não! Não é o que vocês tão pensando!

Kyoko mirou sua arma de dedo para o rosto que se escondia. — SEU PERVERTIDO DE QUINTA AUDACIOSO! EU VOU FURAR SEUS OLHOS ATÉ A NUCA!

O disparo partiu rumo a Akemi, que se encolheu por puro instinto. O fio d’água passou rente aos cabelos castanhos e raspou em algo logo atrás.

O vazio soltou um guincho 1 reptiliano, onde um instante antes, garras antes invisíveis anunciaram o bote que vinha às costas do rapaz; o tiro interrompeu o salto no meio.

A invisibilidade do ser se desfez em manchas. Era um dinossaurídeo 2 bípede: Umbraraptor. Pedaço por pedaço, o nada foi ganhando carne até que a criatura cambaleante estivesse exposta à luz que tanto havia evitado. Já não parecia um caçador paciente.

Alto, esguio, negro e riscado de vermelho como brasa sob cinzas. O pescoço longo terminava numa cabeça estreita e fileiras de dentes pequenos. Um babado gular 3 amarelado eriçava-se em volta da garganta, guardando a jugular.

Sobre o dorso, presa por tiras de couro e ossos amarrados, uma sela.

Montado nela, um cowboy bandido com máscara de lenço segurava as rédeas com uma mão; na outra, apoiada no antebraço com a naturalidade de um velho hábito, um rifle de precisão não pertencia a época alguma: entre o metal moderno e design arrojado, brilhos azulados pulsavam nas extensões laterais, um som baixo de energia contida esperava o gatilho.

Entre os alunos, o instinto venceu o espanto. Akemi ergueu os punhos e deu carga para os braços; faíscas estalaram da pele ainda úmida.

O cavaleiro deu um assobio veloz.

O babado gular abriu-se num leque súbito em volta do pescoço do Umbraraptor, um chiado subiu da garganta. Pfchat! O jato esverdeado atingiu o rosto do rapaz em cheio.

— Ahg! Quê?! — A forte queimação úmida tomou as pálpebras, invadiu o nariz e escorreu pelas bochechas. A claridade da tarde se desfez em borrões que escureciam a cada piscada até que sobrasse apenas um breu manchado de verde.

Akemi quase caiu às cegas, e o som enérgico do rifle subiu de tom diante dele. Então, às suas costas, um rugido de chamas brotou repentino, o mesmo que já escutara quando tudo saía do controle…

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  1. emitir um som agudo, estridente e forte ↩
  2. classificação dada aos seres áuricos de anatomia semelhante à dos antigos répteis do registro fóssil, com a aura manifestada pela própria fisiologia. ↩
  3. estrutura membranosa e retrátil situada ao redor do pescoço de alguns dinossaurídeos. Composta por hastes cartilaginosas flexíveis e tecido epitelial ricamente vascularizado, a estrutura permanecia oculta e colada ao pescoço em estado de repouso. Quando o animal se sentia ameaçado ou se preparava para o ataque, a gola se expande instantaneamente em um formato circular e armado, exibindo cores vibrantes e emitindo um som de chocalho assustador, servindo também como mecanismo de distração e intimidação visual. ↩