Capítulo 49 – O anúncio
Capítulo 49 – O anúncio
[ 1 de Maio de 1922, Campo de Treinamento 1, às 5h57 da manhã. ]
Sob o teto de concreto negro, luminárias amarelas pouco iluminavam o breu que dominava o recinto cerimonial: o auditório — uma estrutura triangular, com fileiras de assentos em declive separadas por duas escadarias, todas convergindo para o palco de madeira fechado por cortinas vermelhas.
Pelas paredes pretas, guardas perfilados em descansar sequer piscavam, buscando com sua autoridade a neutralização de qualquer desordem dos alunos assentados.
No bloco de cadeiras à esquerda da grande entrada, que seguia aberta na espera de novas presenças, o grupo da Turma 1F permanecia próximo às escadarias. Nikko, Sho, Aruni, Mayumi e Kyoko, respectivamente lado a lado, deixavam um espaço de duas cadeiras à esquerda vazio, reservado por algum motivo que ninguém questionava, pois o simples roçar de uma perna contra o banco seria um ruído indesejado pelos guardas.
Ansiosa, Nikko balançava as pernas. — Uma reunião logo cedo! O que será que organizaram pra gente!? — questionou ela, exclamando em sussurros baixos.
— Se fosse anúncio de rotina, o diretor já estaria alí embaixo — afirmou Sho, analisando com estranheza o vazio no palco.
Aruni segurava o lenço do uniforme. — Mas por quê há tantos alunos aqui hoje? Não lembro de sermos tantos.
— Né!? He hii! E eles são um pouco mais velhos que a gente! Isso não é muito interessante?
Mayumi esperava o momento em que as cortinas abrissem. — São as turmas acima, chegaram esses dias.
Os três à direita da espadachim a encararam na hora, curiosos. Principalmente Nikko, esforçando-se para que segurasse a animação. — Hoje!? De onde eles chegaram!?
— Atividades extracurriculares, estágios e missões — informava Kyoko, de braços cruzados, cabeça baixa e olhos fechados que não escondiam sua impaciência — faremos o mesmo quando chegar a nossa hora, não é preciso tanto escândalo.
— Se eles chegaram agora, essa reunião deve ser extremamente importante — ponderou Sho, perdendo parte da convicção enquanto procurava algo fora do lugar nos arredores. — Mudando de assunto, alguma de vocês viu o Akemi? Fizemos os exercícios do Major Yura ontem e ele desapareceu até então.
— A Senhorita Miyazaki também está sumida. Ela não aparece em nenhuma instrução faz dois dias… — comentou Aruni.
— Olha que dividimos o mesmo dormitório e nem eu os vejo. Bom, pra ser justa, sempre apago antes de todo mundo… — Nikko apoiou o dedo no queixo e estreitou os olhos, pensativa. — Hmmm… estranho, né? Quando um desaparece, o outro também some. E quase sempre à noite… — uma mão escondeu o sorriso maroto — He hiii! O que será que eles andam aprontando sozinhos e escondidos?
— Falando de mim?
Num arrepio, o calor da voz na orelha de Nikko arregalou seus olhos e comprimiu sua boca numa linha fina. Passado o susto, ela virou a cabeça devagar, muito devagar, e deparou-se com Hiromi Miyazaki sentada na cadeira ao lado. — A-ah! Miyazinha! Que bom te ver! Eu… eu só estava comentando que vocês estavam quase atrasados pra reunião! Isso!
— Silêncio no auditório! — alertou um guarda aleatório.
Nikko revirou os olhos, agoniada pelo tom baixo que devia respeito; quando os voltou para Hiromi, notou Akemi sentado na outra cadeira ao lado, com um rosto confuso atrás da expressão antipática da ígnea.
Mas digamos que a espertalhona descobriu uma rota de fuga para aquele julgamento no olhar.
— Oh, e aí, Akemi! Me diz aí, por onde vocês andavam, hein?
— Bom, a ge- — o garoto abriu a boca, mas Hiromi o cortou.
— Ele passou a noite na enfermaria e não pode ser notificado da reunião, então fui buscá-lo. — A resposta foi direta à Nikko, preocupando-a.
— Enfermaria? — os mesmos olhos arregalaram-se novamente, porém, por motivos completamente diferentes. — Você tá bem, Akemi?
De cabeça baixa, o rapaz respondeu com calma. — Eu… tô. Tô bem. Foi só… cansaço.
O abalo alheio foi percebido por Nikko, então, seus sentidos de ajuda foram ligados: de maneira inesperada e totalmente despreocupada, ela colocou os joelhos sobre a cadeira e passou o torso por cima de Hiromi para um toque nos ombros de Akemi. Óbvio, não haveria outro resultado a não ser o constrangimento e estranheza a todas as pessoas próximas, exceto uma. — Cara, você foi muito bem ontem! Sério mesmo! Sua resistência física tá melhorando cada vez mais, sabia!?
Enquanto Hiromi já havia desistido daquele furacão de emoções em cima dela, Akemi sentia-se agradecido.
— Hehe, acho que sim. Mas ainda tenho muito a melhora-
Nikko repentinamente retornou ao assento e sinalizou silêncio. — Shh! — Os olhos vidrados no palco e os pés saltitantes quase a ejetavam da cadeira. — Olha! Olha! As cortinas estão se mexendo! Vai começar!
“Por quê alguém do tipo dela ficaria tão animada por uma auditoria?”, questionou-se Akemi.
Ao passo que as cortinas vermelhas se distanciavam, todos os alunos das primeiras às últimas fileiras voltavam sua atenção para o palco.
Quando os véus terminaram de se afastar, o palco revelou-se mergulhado na escuridão. Nenhuma figura ou som, apenas o vazio.
Até que um holofote iluminou.
A luz amarela rasgou a escuridão e caiu em um ponto vazio do tablado, para que então, arrastasse para trás, vagarosa, buscando algo que ainda se escondia nas sombras.
Coturnos brancos surgiram primeiro, imaculados e reluzentes sob o clarão. A luz subiu. Calças militares negras, seguidas por uma farda vermelha e preta no corpo robusto de quem a usava em descansar. Medalhas cintilaram no peito, orgulhosas e pesadas. Uma capa negra caía dos ombros largos, balançando ao menor movimento.
O holofote finalmente alcançou o rosto. Barba grossa, cabelo penteado para trás, postura de comando absoluto.
O olhar afiado passou pela plateia, dissecando cada fileira. A boca curvada para baixo, carregava um eterno amargor de uma expressão esculpida à força.
Segundos se passavam, e o homem permanecia parado, observando.
Alguns alunos nas fileiras traseiras trocavam olhares. Os veteranos mantinham a frieza.
Finalmente, uma das mãos do militar saiu de trás da cintura e revelou um microfone de fita. — Uma boa manhã, alunos da Academia Shihai de Asahi — o tom de imponência ecoou pelo auditório e arrastou para uma breve risada irônica. — Rá… já que enfim temos todos reunidos, inclusive os novos recrutas, suponho que eu deva manter a compostura e me apresentar. Quem vos fala é Katsuro Miyazaki, General de Expedição do Primeiro Regimento Áurico.
Murmúrios percorreram as fileiras.
— Primeiro!? — Alguém sussurrou três cadeiras atrás de Akemi.
— Ele não era General de Exército do terceiro regimento?
— Isso é estranho — analisava outro — subir do terceiro pro primeiro assim, do nada? Aliás, no que um “General de Expedição atua?
Preocupar-se com os fatos? Longe disso. A memória da conversa entre Katsuro e o oficial — invasões, estratégias sujas, planos encobertos — gravaram-se na mente de Akemi, lembrando-o da “missão anti-conspiração” no qual se envolvera.
“Será que ele sabe?”, indagou-se, de peito apertado. “Jin facilmente avisaria a Katsuro de que estavam sendo observados naquele dia, não custaria nada.” A dúvida o mordia, porém, a visão do poder bruto partido de shihais de alto grau o empurrava à razão oposta. “Hm, sinceramente, devo entender que temê-los só me levará a estaca zero novamente.” Ele tentou buscar coragem no rosto resoluto de Hiromi, atenta ao palco. “Ao lado dela, terei mais chances de enfrentar esses monstros”, a promessa o fortificou contra o eco do auditório.
Satisfeito com o futuro promissor que imaginava para si, Akemi fechou os olhos e inspirou fundo; o ar puro preencheu seus pulmões e trouxe uma tranquilidade que não sentia a tempos, sua mente equilibrou-se.
Todavia, quando abriu os olhos, percebeu que o foco era outro.
Katsuro, imóvel no centro do palco, banhado pela luz amarela do holofote, cravava seus olhos penetrantes e deliberados diretamente no garoto, atravessando a escuridão do auditório.
A plateia inteira era um mar de sombras e silhuetas de alunos no breu, e ainda assim, o militar havia encontrado o jovem específico num distante bloco à sua direita.
Aquele olhar dizia: “Sei exatamente quem você é!”
Seu instinto do medo gritava para que se encolhesse, desviasse o rosto, ou sumisse entre os colegas; mas Akemi rebuscou o conforto da cadeira, apertou os dedos até as unhas pressionarem as palmas, ergueu o queixo e devolveu o encaro de Katsuro.
A coragem foi notada pelo militar; sobrancelhas se levantaram juntas do microfone levado ao sorriso breve e vil. — Talvez muitos de vocês esperassem o Marechal Jin Ichikawa neste palco, em meu lugar — a falsa humildade era evidente — porém, como diretor da Academia Shihai de Asahi, ele foi convocado a acompanhar eventos de relatórios governamentais junto ao Imperador pelos próximos meses. Uma responsabilidade anual, como sempre foi feito pelo nosso mestre dos ares.
O sorriso aumentou, mais satisfeito. — E para suprir sua ausência temporária… Fui deixado no cargo máximo da Academia!
Orgulho.
Esse era o sentimento de Katsuro, como se aquele fosse o anúncio de seu maior sonho.
“Eventos de… relatórios governamentais!?” A repetição soou oca para Akemi, que a tratou como uma desculpa esfarrapada construída para que enganasse bobos. “O que eles realmente estão planejando? Um Marechal sai, um General assume, e fingimos que é protocolo? Esses militares devem esconder uma rede de acordos e segredos, e essa troca de poder é apenas um nó a mais. Afinal, vamos mesmo acreditar nisso e levar como se nada?”
Vendo o rosto dos em volta, não se encontrava reações contrárias ao anúncio, nem um sussurro de desconfiança. Todos seguiam inexpressivos.
— Jin é um Marechal, é normal que seja convocado — sussurrou um aluno irreconhecível na multidão, esperando pela resposta de seu grupo.
— Exato, mas é sério que o substituíram por um Miyazaki? — questionou uma garota.
— Relaxe, não há nada de ruim nisso — assegurou outro jovem — seguimos sob comando de um shihai grau S, e é de referência que a ASA precisa.
Akemi concordava com os comentários: “Talvez isso seja realmente normal…”, entretanto…
— Tamo ferrado — resmungou Minoru, sentado uma fileira à frente, conversando com Nihara Miyazaki e Kentaro Ozaki ao seu lado esquerdo. — Vocês lembram quando ele foi diretor no Instituto Taira?
Kentaro ria das lembranças que tinha. — Rá, sim, foram os dois anos mais dolorosos da minha vida. Mas como sobrevivi, virei o que sou hoje por causa daqueles anos. Você, Nihara, o que acha?
Entre eles, o ígneo recostado ignorava as novidades. — Pra mim? Muda nada. Convivo com essas métricas todos os dias.
Novamente, Katsuro levou o microfone à boca. — Como novo comandante, poderia gastar tempo com formalidades, discursos vazios sobre tradição e honra militar. Mas prefiro ser direto — um passo à frente balançou a capa — outras mudanças virão! E elas começam agora!
A atenção da plateia aumentou.
— Todos vocês, seres áuricos, possuem capacidade igual para provarem seus valores a qualquer momento, sejam juntos, ou um contra o outro. Isso eu já confirmo quando se trata das turmas superiores, pois passaram por missões, estágios, e desafios que separam os gloriosos e os flagelos — uma pausa destacou o orgulho dos veteranos. — Mas… e as Turmas F? Como posso ter certeza de que os novatos valem o investimento desta instituição?
Kentarou chamou Nihara num encontrão de ombros. — Aí, o que esse cara tá pensando? Isso é um menosprezo pessoal?
— Tsc, cala a boca, apenas escute.
— Por isso! Caros recrutas! Decidi adiantar suas missões de campo e os campeonatos para o próximo mês! Iniciando pela Operação: Floresta Estelar!
Reações de choque percorreram e atingiram alguns novatos no auditório. Murmúrios dominaram fileiras; alunos se viraram uns para os outros, tão incrédulos quanto Nikko. — Próximo mês!?
Minoru gesticulava sua confusão e tensão. — Ele só pode ser maluco, nem fizemos reconhecimento de terreno, como andaremos em um campo infestado de feras áuricas sem saber nem por onde andar?
Katsuro ergueu uma das mãos e retomou o foco do público. — Antes que algum de vocês das Tumas F pensem em escapar dessa responsabilidade, saibam que não haverá complacência com aqueles que desejam evitar a operação só por acreditarem que pertencem a outra arma. Comunicações, logística, suporte… esqueçam! Vocês só escolherão suas armas ao final deste ano, apenas se forem capazes de subir de divisão. Portanto, todos, sem exceção ! Participarão da operação, pois para um áurico, é crucial estar sempre apto a servir a infantaria; se é incapaz disso… és descartável !
Aruni nem notava o pavor atrapalhando sua respiração: os ambientes hostis e as feras inimagináveis que esperava daquela floresta causavam suores frios e tremores em suas pernas. Entretanto, em meio às preocupações que abalavam seu mental, uma mão pousou sobre sua coxa inquieta.
Ao lado, Mayumi mantinha a serenidade do olhar ao palco; a pressão suave e constante da mão insinuava sua presença e segurança, pronta para acalmar e ajudar sua companheira.
O medo se dissolveu de Aruni, relaxando-a…
Katsuro observava a plateia, seu sorriso vil satisfez-se com o que foi imposto. — Treinem até o limite e esfriem as cabeças. Falaremos dos campeonatos depois, por ora, a Floresta Estelar os aguarda. Dispensados !

