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Interlúdio III – A biblioteca

Shihais: Remanescentes Da Aura — illusia.com.br · All chapters

Interlúdio III – A biblioteca

[ Flashback: horário de almoço, térreo do prédio principal da ASA ]

Parado entre a entrada, Akemi estava mal acostumado com o movimento no térreo da ASA.

Alunos transitavam pelos corredores em grupos animados, alguns entre dezoito e vinte anos vestidos em gakurans e seifukus; e outros com cinco a seis anos a mais, usando fardas verdes militares ou uniformes brancos com detalhes em vermelho e preto, marcas dos veteranos perto da formação.

As conversas eram burburinhos constantes: risadas, debates técnicos sobre auras, reclamações sobre instrutores. A energia era contagiante.

“Finalmente! Parece que a ASA acordou de vez!” Empolgado, Akemi observava tudo, e quando rumou ao balcão da recepção, uma dúvida o atingiu. “Mas será que a biblioteca fica aqui mesmo? Na recepção? Mas só tem um balcão…”

No refeitório, Hiromi havia dito para que ele procurasse um livro específico. “ — Se você o ler por completo, entender todos os passos e se esforçar pra ser igual ao protagonista da história, eu posso tentar te auxiliar a ser como aquele herói.” As palavras dela ecoaram com o tom desafiador.

“Tudo bem, vamos ver o que tem nesse tal livro!”

Ignorando a existência dos outros — como sempre — Yui Kurosawa, em seu estilo gótico impecável, carimbava uma grande pilha de papéis.

— Boa tarde! — apresentou-se Akemi, a um metro de distância.

Yui reconheceu que entraria numa conversa e suspirou. — O que quer agora?

— Sou o Akemi Aburaya, o 01 da Turma 1F. A gente já se viu antes, mas enfim… aqui também é a biblioteca?

A moça finalmente o olhou, decidindo se valia a pena responder ou simplesmente ignorá-lo. Então, sem delongas, apertou um botão de madeira escondido embaixo do balcão.

Um som mecânico ecoou pela parede lateral, e uma área quadrada da parede branca atrás da recepção abriu-se em duas portas duplas, revelando um espaço imenso de iluminação amarelada por dentro.

Prateleiras altíssimas repletas de livros de diferentes tamanhos e cores se estendiam para dentro da sala, a luz vinha de luminárias no teto, criando feixes dourados que iluminavam a breve poeira suspensa no ar.

Bem no centro, num grande poleiro de madeira escura fixado no chão, havia uma criatura familiar.

A falcoruja.

Preta como a noite, com penas roxas no pescoço que brilhavam sob a luz, ela descansava de costas à porta, quando escutou o ranger das dobradiças, girou a cabeça completamente pra trás sem que o corpo se movesse. Os olhos amarelos afiados focaram diretamente em Akemi.

O rapaz congelou. “Isso é… assustador… e… muuuito maneeeiro!” A animação matou seu choque.

— Diz logo o que precisa — exigiu Yui, entediada enquanto se concentrava nas carimbadas.

Akemi analisou de longe aquele espaço escondido, encantado, mas rapidamente balançou a cabeça e lembrou do porque que estava ali. — Ah! Sim! Eu preciso de um livro chamado… “O Único Raio”.

Pedido atendido:

Yui se abaixou e procurou por algo. Após instantes de busca, pegou um sinete 1 especificamente dourado e um folhetinho branco embaixo do balcão. O pequeno papel foi carimbado e arrastado para o canto do balcão.

A marca dourada impressa era o título do livro em tipografia estilizada, seguido por uma sequência de números e letras: “UR-3A-07”.

— Isso é um código? — investigou Akemi

Antes que Yui respondesse, a falcoruja se moveu.

Bram!

A ave pousou com força na borda do balcão, deixando as garras afiadas cravadas na madeira e as asas atentamente abertas.

Akemi deu um passo pra trás de susto.

A falcoruja pegou o folheto com o bico, e quando ergueu a cabeça, encarou o rapaz com os olhos semicerrados. Provavelmente, ela avaliava aquele que fez o pedido, mas não faria nada de mal, assim, bateu asas de volta à biblioteca e entrou pelas prateleiras.

Akemi ficou boquiaberto. — Ela… ela realmente trabalha aqui? Tipo, ela entende os códigos e busca os livros sozinha!?

Yui juntou os papéis espalhados pelo bater de asas, visivelmente contendo a irritação. — Sim… e faz um trabalho melhor que a maioria dos alunos que passam por aqui.

— Mas como? Ela é… treinada? Quem ensinou ela a ler?

— Sei lá. Ela já estava aqui quando cheguei. Agora, se não se importa, tenho trabalho a fazer.

Akemi abriu a boca para outra pergunta, mas parou. Algo o martelava na cabeça desde que chegara ali como aluno oficial. A voz de Jin Ichikawa ecoava na memória, daquele dia em que o diretor amparava Picuinha com carinho: “Não ligue pro que ela diz. Apenas está estressada com o trabalho, assim como todos os triviais.”

“Triviais…” Akemi olhou para Yui de novo. Ela era jovem, provavelmente tinha uma idade próxima a dele, mas claramente carregava um peso invisível nos ombros. A má vontade não era apenas preguiça, era algo mais profundo.

— Ei…

— O quê? — Yui não tirava os olhos dos papéis que carimbava.

— Aquele dia… quando o diretor Ichikawa me trouxe aqui e levou o Picuinha… ele disse que você é… trivial.

Yui parou o serviço, inicialmente calada. — … E daí? — indagou, gelada.

— É-ém, n-nada! E-eu só queria dizer que ser trivial não é tão ruim assim.

A recepcionista ganhou uma expressão perigosa. — Como?

“Merda!” Akemi buscou explicações. — Espera! Eu quis dizer que-

— Que não é tão ruim ser inferior? Que não é tão ruim se sentir descartável? Que não é tão ruim ver todo mundo ao seu redor fazendo coisas ditas extraordinárias enquanto você fica presa numa mesa carimbando papéis o dia inteiro!?

Alguns alunos que passavam observavam o estresse da moça. Mas alheio aquele vexame, Akemi sentia a dor daquelas palavras… e como sentia. — Não. Não é isso que eu ia dizer.

Yui cruzou os braços, e afrontosa, relaxou-se na cadeira. — Então ia dizer o quê?

— Sei exatamente como você se sente.

A moça piscou surpresa.

— Baseado no que você disse, também sei o que é ficar com receio de ser menosprezada, sei o que é ter medo de ser jogada fora por inutilidade, e inclusive, sei bem o que é ver pessoas fazendo coisas incríveis enquanto você começa a achar que é um nada em meio a tanta extravagância.

Yui ainda estava irritada, mas escutava.

— E sei também — continuava o garoto — que quando alguém fala “não é tão ruim”, parece que estão jogando areia pra tampar as suas feridas, como se não entendessem e apenas estivessem mentindo só pra te fazer sentir melhor.

Os olhos âmbar perderam parte da frieza apesar da maquiagem preta.

— Mas aqui vai a verdade — concluía Akemi — independente da sua condição, de como chegou aqui ou do que os outros pensam sobre você… você jamais pode perder a vontade de provar o seu valor, de sempre tentar ser alguém melhor, nem que seja só pra você mesma, claro: desde que não cause mágoas nos inocentes ao seu redor.

As palavras finais foram escolhidas com cuidado.

— Porque acima de ser áurica ou trivial, você é humana, assim como todos na ASA… e é isso que você deve levar em consideração quando tiver o dever de ajudar alguém. No final, você perceberá que o mundo pode te recompensar caso você procure melhorar a todo momento.

Yui ficou parada, de olhos arregalados e boca entreaberta. Suas sobrancelhas e lábios tremiam, procurando alguma resposta.

Mas nada saiu.

O rouge nas bochechas disfarçavam o rubor, mas jamais segurariam os pensamentos confusos. “Por que… por que um áurico tá falando isso pra mim? Na verdade, eu nunca escutei isso antes.”

Bram!

A falcoruja soltou o livro sobre o balcão e pousou na borda da madeira; uma nuvem de poeira ergueu-se ao redor do tomo de couro grosso no instante do impacto. Apesar da capa volumosa, as folhas eram poucas, o que denunciava o curto conteúdo guardado.

— Cof ! Cof ! Caramba! — Tossiu Akemi, protegendo o rosto.

A certa distância, alguns jovens veteranos que passavam pelo corredor deram risos:

— Olha só! Alguém vai reviver o ensino fundamental áurico!

— Aquela iguaria! Hahaha, todo mundo já leu aquilo quando tinha dez anos!

As risadas ecoavam pelo corredor enquanto os veteranos se afastavam.

Akemi ficou perdido e envergonhado. “Todo mundo já leu esse livro? Por que eu nunca ouvi falar dele antes!?”

Yui pegou a obra com pressa, o vexame escondido na rapidez dos movimentos acelerou o grampeamento do papel que informava a data de devolução. — Aqui. Devolva em duas semanas — ela arrastou o livro para frente, desviando o olhar.

Empolgado, Akemi pegou o empréstimo e o segurou como se fosse um tesouro. — Obrigado! Vou ler com atenção e trazê-lo intacto! — Ele virou-se e correu em direção às escadas com o livro apertado contra o peito.

E de novo, Yui ficou sozinha.

O burburinho dos alunos continuava ao fundo, mas ela não prestava atenção, apenas ficava ali sentada, com o cotovelo na mesa e queixo apoiado sobre a mão, observando algum lugar distante pela entrada.

Com certeza, estava emburrada, e em segredo, emocionalmente tocada.

Sentindo os sentimentos da recepcionista, a falcoruja se aproximou e cutucou-a com o bico na lateral do braço.

Yui virou o rosto bruscamente. — QUIÉ !?

A ave recuou com elegância, e como se já fosse acostumada com aquelas reações, revirou os olhos.

A moça retornou os olhos ao vazio e refez o bico, reafirmando o distanciamento que a isolava dos outros.

Poucas pessoas atravessavam aquela barreira, e quase nenhuma permanecia. Ainda assim, no fundo daquele coração tingido de preto, existia um desejo silencioso por uma vida melhor, e o garoto com quem conversara, certamente abriu uma fresta em sua mente, pequena, mas suficiente para que a luz entrasse.

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  1. utensílio antigo, geralmente feito de metal, pedra ou madeira, usado para autenticar documentos e selar correspondências através da impressão de um desenho, brasão ou monograma em cera derretida. ↩