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Capítulo 67 – Superando as alturas

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Capítulo 67 – Superando as alturas

Após o fim das escadas, a nova área onde o Grupo Fênix se encontrava era um espetáculo da engenharia glacial: plataformas de diferentes distâncias e formas erguiam-se, conectadas por passarelas finas de gelo com saliências traiçoeiras que levavam às alturas. Quem escorregasse teria uma queda feia, e quem optasse pelo medo ficaria preso em um “destino congelado” vulgo: o chão.

— Tem uma porta lá no topo na última plataforma! Nosso destino deve ser lá! — comunicou Nikko.

— Aparentemente não lutaremos contra nada aqui — avaliou Minoru — só que não me vejo como o melhor dos equilibristas, isso pode ser um problema.

— Er, galera, acho que temos problemas maiores a lidar — onde Akemi apontava, Mayumi massageava o braço esquerdo com a espada de gelo apertada em mãos, evidenciando o receio que mal escondia.

— Bom, eu… ficarei bem por aqui. Podem ir na frente.

Nikko tomou iniciativa e envolveu um braço amigável nos ombros da colega. — Relaxa, ruivinha! Vamos achar um jeito para que você siga com a gente! E se não acharmos, nada que uma boa ventania não resolva. Pode perguntar pro Akemi, ele aprova!

A resposta foi uma encarada afiada como o gume de uma katana. O aviso foi dado.

— Ah-ah! Ehehe, talvez não seja uma boa ideia… — Nikko recuou com cautela.

Distante da conversa, Akemi analisava por onde iniciaria a subida. — Quantas formas estranhas. Quadrados, retângulos, triângulos… tudo interligado por caminhos extremamente estreitos e congelados. Como escala uma coisa dessas sem escorregar?

Minoru também observava o cenário, e apesar da aura dobradora incapacitada, viu o desafio como uma mera brincadeira. — Isso vai ser moleza! Chego lá em um minuto — ele flexionou os joelhos, pronto para o impulso.

— Opa, opa! Nem vem! Você pode ser ágil, garoto, porém não mais do que eu! — proclamou Nikko, aproximando-se dele enquanto girava os ombros em aquecimento.

— Rá ! Quer apostar?

A garota inclinou o tronco com as mãos na cintura. — Sou uma mulher de desafios, colega.

— Sei… Mas nada de aura! Só a pura habilidade.

— Fechado!

Ambos apertaram as mãos e se preparam para o parkour.

— No três! Um- — Antes do fim da própria contagem, Minoru largou primeiro, ganhando impulso a cada passada larga.

— Trapaceiro! — julgou Nikko, disparando logo atrás.

Juntamente de uma energia confiante, Minoru nem olhava a retaguarda enquanto saltava entre as plataformas gélidas como um nativo da selva. Seus dedos dos pés incrivelmente encontravam pontos de apoio em meio a cada forma escorregadia e errônea, principalmente nas passarelas estreitas usadas como conexões que derrubariam qualquer despreparado; porém, para o de número 10 no peito, cada obstáculo era parte de uma coreografia já conhecida…

Nos últimos obstáculos, apenas a parede do andar levava à plataforma final. O garoto cravou as pontas dos dedos nas fissuras, impulsionou-se, agarrou a borda da plataforma e subiu.

— Eu sou uma lenda ! — anunciou Minoru no topo, com os braços erguidos e olhos fechados ampliando seu semblante vitorioso. Mas os abriu, teve o mundo desabado. — A Ichikawa que lute pra-

À frente, alguém acabava com a moral do adversário com um único aceno de mãos. — Oooi.

— Hã…? M-mas como…!?

Nikko jogou uma mecha das marias chiquinhas para trás e agachou-se na borda da plataforma para que observasse o solo distante. — Se serve de consolo, você quase chegou antes de mim.

— Você só pode ter roubado! Não era pra usar aura!

— Roubar? Eu não faria isso. Não sou como você, bleh ! — A encarada de língua exposta tocou na ferida.

— Pff, aquilo foi pra ver se você tava esperta! E fique sabendo que não costumo fazer esse tipo de coisa! Enfim, não posso fazer nada além de reconhecer o seu talento.

— Hum! Tá bom, tanto faz. Agora, um detalhe importante. O que a gente faz com aqueles dois lá embaixo?

No solo inicial, os atrasados simplesmente aceitavam o “destino congelado”.

Em silêncio, Akemi olhava para cima, onde Nikko e Minoru o observavam.

E Mayumi? Mesmo que normalmente fosse uma pessoa culta e de palavras bonitas, naquele momento, lembrava a personalidade dos covardes: estava totalmente travada, quase quebrando a estaca pela força involuntária em que a empunhava. Os olhos, fixos no chão, denunciavam que a vista acima traria o pânico absoluto.

Akemi notou o comportamento da companheira e aproximou-se cautelosamente como se estivesse perto de um animal selvagem e assustado. — S-Sanada… sei que isso não é fácil pra você, mas não podemos ficar aqui. Nikko e Minoru já estão lá em cima, e nós precisamos encontrar um jeito de nos juntar a eles.

Os ombros delicados ainda tremiam e lutavam contra o desespero interno. A afetada não era do tipo que se convencia facilmente quando o medo a comandava.

— Confie em mim, reconheço o que está sentindo. Altura não é brincadeira, mas você não está sozinha. Eu… eu estou aqui, e juntos, podemos fazer isso, passo a passo, sem pressa. E se você escorregar, eu… te seguro? É-é! Eu te seguro…! Prometo.

— Eu agradeço o convite — respondeu a de olhar retraído — mas não consigo. Meu corpo não obedece. É como estar preso dentro de si. Cada vez que penso em subir, sinto que vou desmoronar… Posso somente aceitar este trauma.

Um pequeno sorriso cheio de confiança se abriu em Akemi.

— Então, não pense em subir. Pense em dar um passo. Só um. Depois, outro. E outro. Não precisa ser rápido, nem perfeito. Só precisa ser possível.

Algo na voz do companheiro acalmava o turbilhão alheio.

— Um… passo…? — sussurrou Mayumi, testando a ideia na cabeça.

— Isso! Um passo de cada vez. Vamos?

A ruiva olhou para a mão amiga estendida. Suas pupilas dilataram — Um passo… de cada vez…? — Eventos inesquecíveis eram lembrados. O coração samurai bateu forte, e os sentimentos ruins e relutantes diminuíram…

Lá de cima, Nikko e Minoru observavam a cena; uma era a curiosidade, o outro, a impaciência.

— Haaah — visivelmente agoniado, Minoru cruzou os braços e afastou-se um pouco. — Eles vão demorar uma eternidade. Devíamos ter ido todos juntos. Que bola fora.

Nikko seguia agachada na borda. — Temos que ajudá-los.

— Quer mesmo descer até lá?

— Claro que não. Mayumi não conseguiria subir até aqui por aquele percurso.

— Então qual o plano?

— Vai me dizer que não viu essa alavanca debaixo do seu pé?

Quando viu a barra de gelo rente ao centro da plataforma onde pisava, Minoru levou uma mão ao queixo. — Hmm, isso é altamente suspeito. Considerando que estamos em um lugar cheio de tramóias, tem certeza que essa é a melhor opção?

Nikko caminhou até o desconfiado. — Só tem um jeito de descobrir — ela repousou um joelho no chão e agarrou a alavanca, pronta para o que quer que viesse.

— Espera! — Minoru segurou o pulso da garota — e se for uma armadilha? Podemos acabar liberando outro monstro de gelo ou algo pior!

— Aaah, então você tem medo, é?

— Eh? Eu não tenho medo! É apenas cautela! Seja consciente, poxa.

— Qual ééé? Ter cautela é chato. Vamos lá, Suzumura! Vi-vência ! — Nikko puxou a alavanca.

A superfície estremeceu por um breve instante de ruído súbito, como se algo vindo de baixo tivesse colidido com a base da plataforma.

— Olha, garota. Eu num tô com um bom pressentime-

Vup! A estrutura despencou em queda livre, tão rápida que o vento uivava nos ouvidos dos jovens agarrados na alavanca para que não saíssem voando.

— AAAH, OLHA O QUE VOCÊ FEZ, SUA INCOMPETENTE!!!

— EU NÃO SABIA QUE SERIA ASSIM, DESCULPAAAA!!! Mas ó, estamos descendo, né?

— DESCENDO???!!! ISSO É UM ELEVADOR PRO INFERNO!!!

Cabelos voavam em todas as direções enquanto a plataforma descia vertiginosamente. Akemi e Mayumi viam a cena se desenrolando de olhos arregalados.

BANG!!!

Quando a plataforma atingiu o chão, o gelo rachou ao redor e levantou uma breve névoa cristalina.

Nikko e Minoru soltarem-se da alavanca e rolaram para lados opostos.

— Minha coluna… Vou processar você, Ichikawa. Juro que vou.

— Ah, para com isso, Suzumura. Pelo menos a gente tá vivo, hehe… Ai.

Akemi prontificou a ajuda. — Vocês estão bem!? — perguntou, levantando Minoru.

— Bem? Eu acho que vou precisar de uma massagem depois disso.

— Você chora demais, hein, garoto! — Nikko levantou-se com disposição acrobática e encarou aqueles que não subiram. — Olha só, a gente veio buscar vocês. Provavelmente essa alavanca também pode nos levar pra cima de novo.

— Nem pensar — Mayumi deu as costas.

— Qual foi, ruivinha, não seja assim… — Nikko abriu os braços e tentou um passo à frente, mas o olhar tenebroso da espadachim a impediu. — Tá, tá, sem tocar. Mas fique sabendo que não temos escolha. A porta tá lá em cima.

Mayumi, antes uma líder elegante e confiante que inspirou outros com sua postura impecável, suava frio e desviava olhares, lutando contra o medo debilitante.

Tratando-se de uma condição negativa eficaz até mesmo contra os indivíduos mais qualificados na elegância, a fobia jamais seria menosprezável, e Akemi mais que sabia de tal fato.

— Sanada, é assustador, mas a Nikko tem razão. Não podemos ficar parados, e se a plataforma já está aqui, talvez seja mais seguro do que subir pelos obstáculos.

Embora não confiasse totalmente naquelas palavras, Mayumi buscava um pingo de esperança em si mesma. — Vários alunos desta academia já devem ter superado desafios maiores, então, não seria justo da minha parte não tentar. Não precisam me fazer mais promessas — ela deu um passo à frente e olhou para Akemi com um toque de agradecimento. — Um passo de cada vez, correto?

— Correto! Hehe…

Os quatro se preparam para a elevação da plataforma.

— Prontos? — Nikko segurou a alavanca.

— Espera! — Minoru novamente agarrou o braço da garota — dessa vez, eu puxo.

— Tudo bem, tudo bem. Vai lá, “herói”.

Minoru respirou fundo, agarrou a alavanca, e puxou-a cuidadosamente.

A plataforma iniciou a subida de forma lenta e controlada. Mayumi fechou os olhos e rapidamente agarrou a primeira mão que achou.

— Está tudo bem, estamos quase lá — disse Akemi, acalmando a espadachim que apertava seus dedos, afinal, ninguém entenderia melhor as sensações que o pavor oferecia. No entanto, à medida que a plataforma subia, a pressão da mão assustada crescia exponencialmente. O rapaz inicialmente disfarçou, mas logo percebeu os dedos dormentes. — Peraí… S-Sanada, não precisa segurar tão forte!

A resposta foi o aumento da força, como se aquilo fosse a única coisa que impedia a queda ruiva a um abismo sem fim.

Nikko e Minoru contemplavam o cenário gélido, alheios ao desastre que ocorria com o pobre garoto atrás.

— Ai ai, qual será o nosso próximo desafio, hein?

— Tá tão animada assim?

— Você não?

— É difícil ficar animado quando se está em um lugar tão imprevisível.

— Ah, para, tenho certeza de que o próximo será tão fácil quanto este!

— Hum, apenas espero que possamos colaborar mais um com os outros. Devemos estar atrasados pra chegar até o topo.

— Sanada! — Um chamado abafado não atraiu a atenção dos que dialogavam.

— Você pensa bastante no grupo, não é? Confesso que não esperava isso de você. Fico feliz.

— Sanada!

— E por que pensava isso? — Minoru cruzou olhares com Nikko.

— He hiii! Por nada! Só fiquei encantada pela sua compaixão.

— C-compaixão?! — Corado, o jovem recuou assustado. Talvez aquela palavra fosse inesperada para alguém de ego elevado, mas que no fundo, guardava gentileza no coração.

— Sanada ! — Finalmente os gritos são percebidos.

— Que barulheira é essa? — Aproveitando a oportunidade para mudança de assunto, Minoru olhou para trás e deparou-se com uma cena um tanto cômica.

— Sanada , você não vai cair! Por favor, solta minha mão! Aaa -! — Akemi alertava Mayumi, mas a força do aperto levou seus joelhos ao chão gelado. — Aagh ! Por favor, Sanada, para com isso ! — Ele segurava o pulso com a outra mão em vão, pois sequer aliviava a pressão que esmagava seus dedos.

— Cuidado, Akemi! Se ela continuar assim, será obrigado a viver com uma mão só! — brincou Nikko.

— Comentários assim não ajudam em nada !

— Que situação deplorável. Ao menos estamos chegando — disse Minoru, olhando para cima.

A plataforma alcançou o topo limite, encaixando-se com um estalo.

Mayumi finalmente abriu os olhos por um breve momento e observou os lados, desacreditada de que havia sobrevivido à experiência.

— Sanada, a mão …

— Oh, perdão! — A ruiva soltou os dedos espremidos.

— Tá tudo bem, deu pra perceber que altura definitivamente não é seu forte… — respondeu o dolorido, aliviado pelo retorno da circulação sanguínea nas falanges.

— Muito bem, ruivinha! Viu, não foi tão ruim assim.

— Devo agradecer ao Sr. Akemi, se não fosse pelas palavras dele, eu jamais acumularia tanta coragem. Aliás, garoto, pode me chamar pelo primeiro nome, creio que todos nós nos comunicaremos melhor assim.

O mencionado levantou-se sem graça. — Tudo bem, hehe. Mas nossa, você tem uma força impressionante!

A brincalhona deu um tapinha nas costas do envergonhado. — Bom trabalho, verdadeiro herói! Agora entendemos que confrontar a ruivinha em pânico é mais difícil do que lutar contra uma besta áurica, he hiii!

Minoru tomou passou na frente do grupo e esbravejou em direção à porta. — Vamos logo com isso antes que eu mude de ideia e os faça voltar lá pra baixo.

— Nossa, grosso! E a compaixão? Ficou pra trás?

— Compaixão é meu ovo!

Bam! A porta foi fechada.

…

O silêncio seguinte foi tão pesado que até mesmo o vento parou.

Mayumi inclinou a cabeça como se decifrasse um código, Akemi ficou boquiaberto, e Nikko, sentindo-se culpada por aquela reação, sorriu sem graça. — Puts! Acho que devemos segui-lo, né?