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Capítulo 78 – Horizonte de eventos

Shihais: Remanescentes Da Aura — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 78 – Horizonte de eventos

O jovem Aburaya foi puxado de imediato pela correnteza cósmica, seu corpo foi acelerado pela força que o segurara instantes antes.

Na base da escadaria, Nikko se desesperou com a imagem sem contexto do aliado passando como um cometa elétrico em queda diagonal e ascendente. — AKEMI!

Faíscas explodiam pelo corpo todo numa resposta instintiva. As crepitações amarelas cresciam enquanto o corpo se aproximava da espiral.

A cada centímetro da distância percorrida em rodopios sem controle, Akemi confirmava o que havia notado: as faíscas ainda seguiam o próprio fluxo, envolvendo-o como se preparasse uma barreira ao corpo inteiro. O vórtice acima da grande mão cósmica não as curvava, não as absorvia, era como se existissem num plano paralelo ao caos que consumia tudo ao redor.

“Certo… Certo, certo!”

A teoria resistiu ao teste empírico.

Mas o garoto não apenas atravessaria o horizonte. Havia um plano ensaiado, talvez não para aquela situação específica, mas possivelmente serviria da mesma forma:

No dojo abandonado onde treinava escondido de Hiromi, Akemi havia passado pré-noites atrás de  pré-noites testando uma coisa simples: se apontasse o dedo e canalizasse toda a carga pelo braço até a ponta, liberaria um filete comprimido de eletricidade. A potência estava longe de uma descarga ampla, mas expelia uma linha fina, direcional, e extremamente rápida.

Aqueles testes sempre ocorriam minutos antes dos treinamentos marciais com a mestra de fogo, já que toda a energia elétrica gasta era recarregada com as sessões de meditação sob o clima caloroso gerado pela aura das chamas.

Akemi havia descoberto a técnica por acidente, mirando os dragões de ouro entalhados nos pilares de jade do dojo enquanto se imaginava batalhando como Inazuma Kurogane. O filete tocou o contorno dourado e se espalhou por todo o desenho numa fração de segundo: o ouro conduziu a eletricidade com uma perfeição que o deixou imóvel de admiração por quase um minuto. Se funcionava daquela forma num dragão inerte, num ser humano cujo corpo era composto de água e sal e sangue, o efeito seria considerável; não necessariamente letal, mas provavelmente suficiente…

A distância entre Akemi e Rin diminuía. O garoto alcançou a região acima do fim da escadaria do altar.

O barulho do vórtice passou de estridente para algo além do som, tratando-se de uma pressão diretamente contra os tímpanos, ossos, e o interior do peito. Akemi sentiu os pulmões contraírem pela falta do ar que o vórtice devorava, e em resposta, a eletricidade no corpo amplificou: as faíscas dobraram de intensidade, o braço direito ficou completamente envolto em energia elétrica, e uma luva crepitante de luz amarelo-vibrante se formou na mão direita.

O último giro descontrolado foi proposital: Akemi encerrou os rodopios em um eixo firme, cravando o corpo na direção de Rin abaixo, a poucos metros. O próprio espaço o ajustou àquele instante. A mão envolta em energia se ergueu, apontando a linha exata formada pelos dedos indicador e anelar alinhados entre si com rumo à vilã. Quando a força gravitacional puxou o braço para fora do alinhamento, a outra mão o firmou em apoio, contendo qualquer desvio que tirasse a mira.

E então, o mundo desacelerou drasticamente.

A mesma sensação que ocorreu outras vezes em momentos de perigo extremo, como se a própria aura elétrica construísse um escudo temporal ao redor da percepção: as partículas de gelo que voavam em direção ao vórtice voavam como se estivessem suspensas em água. O próprio roxo de centro obscuro da esfera pulsava devagar, como um coração giratório sob a posse de uma mão extraordinária que destruiria tudo.

Rin seguia abaixo, imóvel, como se ignorasse a existência daquele próximo a vivenciar o esquecimento que um buraco negro proporcionaria.

Akemi levantou o braço direito com dificuldade, a gravidade ainda o puxava, esticando os músculos articulações contra a direção desejada; porém, a lentidão do mundo compensava. Ele tinha tempo, tinha mira, então, só restava a execução…

Mas de repente, uma conhecida voz rouca apareceu pela entrada do salão após a escadaria de trás. — Arg, eu não aguento mais essas artimanhas nojentas, por quanto tempo essa garota vai… Pera aí, o que tá acontecendo aqu-? — Era Kentaro, que quando pisou no solo plano, foi subitamente puxado pela correnteza do vórtice — WAAAAH!

Ele bateu as costas na empunhadura da katana, quebrando-a e levando todos os outros alunos consigo rumo ao horizonte de eventos.

Alheio ao desastre que ocorria, Akemi estabilizou o ângulo, apontou os dois dedos diretamente à Rin, e sentiu toda a carga acumulada migrando para o ponto de saída. “Funciona, funciona!” torceu ele, ampliando o foco.

A concentração aumentou.

Aumentou mais um pouco.

Enfim, o disparo:

Ffzzzit!

O filete saiu como um raio comprimido: longo, fino, brilhante com a intensidade de tudo o que havia acumulado, e a trajetória era certeira dentro daquele mundo vagaroso que somente Akemi habitava.

O espetáculo de luzes amareladas e breus arroxeados era belo, e a vitória, esperançosa.

Entretanto, Rin sorriu de canto. Até mesmo quando seu plano parecia ameaçado, o universo continuava a seu controle…

Descontrolado, Kentaro bateu as costas na mão de Nihara, soltando-o do degrau em que segurava. A força gravitacional instantaneamente  alçou o ígneo para cima, em direção ao vórtice. Todos os outros alunos vinham atrás, mas a trajetória involuntária do Miyazaki cruzou primeiro com o filete num ponto que não estava em nenhum cálculo de Akemi.

O raio atingiu Nihara de frente.

A eletricidade se espalhou por todo o corpo de Nihara com a velocidade que tinha, passou pelos braços, tórax, pernas, gerando um grito entrecortado pelo choque. Chamas tentaram reações, mas falharam, absorvidas pela prisão elétrica sobre a pele.

Paralisado e enrijecido, o corpo de fogo contido que emitia sons gargarejados de dores lancinantes seguiu a trajetória em direção ao vórtice.

O mundo ficou ainda mais lento, o suficiente para que se visse os detalhes do caos.

“Não… não!”

A forma que Nihara passava pelo limite do horizonte de eventos assustou Akemi. Membros se esticaram de maneira irreal, as proporções distorceram, a silhueta que era de um humano se tornou esticada e flagelada: espaguetificação, o nome técnico para a destruição gradual da diferença de gravidade entre os extremos do corpo e uma região supermassiva colapsada.

Akemi via tudo lentamente, nenhuma reação evitaria o estrago que era causado.

“Eu causei isso?”

O peso da falha voltou à ronda, denso e persistente. O ferimento de Minoru já marcava feridas profundas, mas de novo, outro colega caía, atingido por uma consequência que, mesmo nascida de um azar brutal, recaía sobre as mãos de Akemi por decisões ousadas somadas à pouca experiência, especialmente diante de cenários que exigiam respostas em milissegundos.

A cena sequer se concretizou, e a tristeza de mais um fracasso já abalava. Para alguém que fomentava o desejo de salvar pessoas, a face real de um herói revelava a possibilidade de contratempos irreversíveis que abriam caminho para tragédias, dores, e traumas profundos.

Certamente, dali em diante, quadros semelhantes se repetiriam incontáveis vezes; e apesar dos danos permanecessem sem retorno, restaria a resiliência, o treinamento árduo, e o conhecimento arrancado à força nos piores cenários, independentemente da disparidade de força entre os usuários de aura.

Por sorte, como Akemi havia previsto, tudo aquilo ainda pertencia a um ambiente de prova…

O universo parou de vez.