Capítulo 89.3 ❃ A Descoberta de uma Gênio.
Capítulo 89.3 ❃ A Descoberta de uma Gênio.
O ar vibra com a energia crescente que emana de Isabel. Sua determinação não é apenas visível, mas sentida, como um calor que se espalha no peito de Ivetya, arrancando-lhe um sorriso involuntário.
Há algo cativante naquela garota de olhos safira, uma chama que cresce com cada escolha que faz.
— Mas… senhorita Ivetya… não tem uma espada… digo… um galho também? — Isabel fita a arma improvisada em suas mãos, os dedos apertando a madeira seca com um resquício de hesitação. — Não seria injusto?
A amazona inclina a cabeça de lado, avaliando-a por um instante antes de soltar um pequeno riso.
— Está tudo bem, não há motivo para tal coisa. Como sou eu quem vai ensiná-la, minha ausência de uma arma é justificável.
Ela então estende a mão à frente do corpo, os dedos firmes, a presença imponente. Sua voz ecoa pelo acampamento, quando brada com autoridade:
— Morgan, venha!
De uma das carroças, uma lâmina negra como a noite irrompe pelo ar, deslizando velozmente em sua direção.
O aço ônix reluz à luz do dia, o brilho sombrio dançando na superfície da lâmina enquanto ela voa certeira para a mão estendida da cavaleira.
Com um único movimento, Ivetya a segura sem esforço, como se a arma fosse parte de seu próprio ser.
Isabel mal tem tempo de processar o espetáculo diante de seus olhos. Num estalar de dedos, Ivetya lança a espada em direção à copa das árvores.
A lâmina desliza com precisão assassina, cortando folhas e desviando habilmente dos galhos, até encontrar seu verdadeiro alvo: um pedaço robusto de madeira, espesso e longo, decepado com um único golpe limpo.
A espada então retorna, rodopiando pelo ar até pousar suavemente na mão da guerreira.
Um murmúrio percorre o acampamento. Olhares arregalados, bocas entreabertas. Isabel sente um calafrio percorrer sua espinha. Ivetya, no entanto, ainda não terminou.
Erguendo a mão uma segunda vez, ela foca sua atenção no galho que ainda despenca, caindo lentamente como um cadáver abatido no campo de batalha.
Antes que toque o solo, a madeira é envolta por uma força invisível e, num instante, acelera em direção à guerreira.
O impacto iminente é interrompido por dedos ágeis e uma destreza inumana.
O vento sopra entre as árvores, espalhando folhas secas cortadas pela espada pelo chão do acampamento.
O cheiro de terra úmida mistura-se ao da madeira recém-cortada, um aroma férreo pairando no ar.
Com o galho firme em uma mão e a lâmina negra Morgan apoiada displicentemente no ombro, Ivetya exibe um sorriso, seus olhos faiscando com a antecipação de um duelo.
— Agora acha que estou pronta para ensiná-la?
Sua voz, carregada de um tom brincalhão, esconde a letalidade de quem maneja a morte como uma extensão do próprio ser. Isabel, ainda ofegante da surpresa, sente o calor do entusiasmo se expandir dentro de si.
Seus dedos tremem levemente ao apertar a madeira áspera do galho, um calafrio subindo por sua espinha. Mas, ao invés de medo, é excitação que pulsa em suas veias.
Um sorriso, involuntário e ávido, forma-se em seus lábios.
— Sim!
Ao longe, três pares de olhos observam. Lukas, Kamila e Balmor permanecem imóveis, a respiração suspensa, como se fossem testemunhas do prelúdio de algo muito maior.
Kamila estreita o olhar, seus lábios franzidos em uma expressão de inquietação.
— Isso… pode dar muito errado — murmura.
Lukas cruza os braços, a mandíbula tensa.
— Ou muito certo — rebate, sem tirar os olhos da cena.
Balmor apenas observa em silêncio, como um espectador diante do desenrolar inevitável.
O sol se eleva, e seus raios dançam entre as copas das árvores, tingindo a clareira com uma luz dourada e inquietante.
A Grande Floresta de Arrow desperta com os murmúrios da vida selvagem — roedores remexem nas folhas, pássaros esvoaçam em busca de alimento, e predadores silenciosos deslizam pelas sombras, em uma luta eterna pela sobrevivência.
No entanto, ao longo da estrada que leva à cidade mercantil, um novo tipo de tensão paira no ar.
O acampamento, antes repleto de vozes e o clangor do trabalho dos soldados, mergulha em um silêncio expectante.
Movimentos cessam, martelos e cordas são esquecidos, e todos os olhares convergem para o círculo rudimentar de pedras disposto sobre a terra batida.
Ali, em um palco improvisado pelo acaso, duas figuras se encaram.
Uma, de estatura delicada, os olhos safira brilhando com determinação juvenil. Isabel segura o galho com ambas as mãos, o suor já umedecendo suas palmas.
Seus ombros estão tensos, a respiração acelerada.
A outra, imponente e serena, carrega um ar de experiência forjado em batalhas. Ivetya segura seu próprio galho com a displicência de quem já empunhou lâminas reais contra carne e osso.
Os murmúrios ao redor crescem, sussurros animados e especulativos serpenteiam entre os soldados.
— Mas olha que interessante… — um deles resmunga, cruzando os braços. — Parece que aquela garota Isabel chamou mesmo a atenção da capitã…
O burburinho se espalha como um incêndio voraz entre os soldados, cada um buscando compreender o inesperado espetáculo que se desenrola diante de seus olhos.
— Quem diria… Não sabia que a Capitã Valencourt estava de olho na aldeã. Pensei que ela não se envolvia diretamente com magos.
— Você tem razão. — Um outro responde, coçando o queixo, o olhar fixo em Isabel. — Mas talvez ela tenha algo a mais do que só magia em sua manga, para que a Capitã tenha pegado interesse.
— Independente de tudo, ela é uma garota de sorte, por ser treinada exclusivamente por uma Imperatriz da Espada…
A última frase pesa no ar, sufocante como uma mão invisível apertando gargantas desprevenidas.
Lukas e Kamila, até então observadores casuais, empalidecem diante das palavras que alcançam seus ouvidos.
Seus olhos arregalam-se, como se a simples compreensão da verdade fosse um golpe certeiro atravessando-lhes os peitos.
— Não… pode ser…! — A incredulidade escapa em uníssono, os corpos tensos, os corações batendo furiosamente em seus peitos.
— Nã-não pode… ser! Então ela esse tempo todo era…
— Uma Imperatriz da Espada, sim, sim… — A voz grave e despreocupada de Balmor os atinge como um martelo contra vidro.
Kamila se vira abruptamente, a confusão dançando em seus olhos.
— Se-senhor Balmor, o senhor já sabia desde sempre…?!
O velho fazendeiro apenas sorri, os olhos ocultando um brilho astuto
Virando parcialmente o rosto para encarar o casal, Balmor permite que um sorriso malicioso se forme em seus lábios, o brilho experiente de seus olhos denunciando a superioridade de sua percepção.
— Na verdade, como vocês, eu também não me importei muito com a identidade da senhorita Valencourt. — Sua voz rouca ressoa, carregada por uma risada abafada e gutural. — Só fui descobrir recentemente… heh, heh!
Ele inclina a cabeça ligeiramente, os olhos fixos na silhueta de Ivetya.
— Acabei percebendo sua verdadeira identidade quando observei o manejo de sua espada mais cedo, quando ela cortou o galho e o trouxe para si com tamanha destreza. Além disso… — Ele pausa, a expressão tornando-se soturna, seus olhos se fixando na lâmina repousada contra as costas da mulher. — Aquela espada…
A simples menção à arma faz um calafrio percorrer a espinha de Balmor.
— Aquela espada carrega um desejo insaciável por lutas, algo que apenas alguém no calibre de um Imperador da Espada pode suportar.
Lukas sente o suor frio escorrer pela lateral do rosto.
A revelação bate como um trovão em sua mente, e sua mão ajusta automaticamente os óculos, um gesto quase instintivo diante da nova compreensão.
Ele revisita mentalmente os momentos anteriores: a precisão do corte, a maneira como a espada retornou às mãos da mulher como um cão fiel, como o ar ao redor dela vibrava com pura intenção letal.
— De fato… — Ele murmura, a voz trêmula, quase inaudível. — Alguém como ela deve ter conseguido domar o Ego… algo que só um Imperador da Espada pode fazer.
Seus olhos deslizam até a pequena arena onde Isabel aguarda, segurando o galho com ambas as mãos.
— Não há dúvidas… ela é Ivetya Valencourt Mountblade… uma Imperatriz da Espada. Porém, me pergunto… por quê?
”O que será que ela viu em Isabel para fazer tal cenário…?”