Capítulo 3
Capítulo 3
3. O GUARDIÃO DO MUNDO
Depois de me separar de Natsunagi, fui até um determinado local para recuperar minha carteira e minha chave, que haviam sido roubadas. Esse era o endereço que tinham me passado por telefone, mas...
"Não tenho boas lembranças deste lugar."
O prédio diante de mim não era uma delegacia. Era o Palácio de Westminster, o centro nervoso do Reino Unido. Cerca de um ano atrás, Hel me sequestrou e me manteve prisioneiro sob esse edifício. Depois, houve uma batalha feroz ao redor da torre do relógio com Siesta.
"Mas acho que não tenho escolha." Entrei no prédio.
Imediatamente, um cavalheiro inglês de terno apareceu e me conduziu a uma área restrita ao público em geral. Após me levar até um elevador exclusivo, ele se curvou e se retirou. Aparentemente, a pessoa que havia me chamado estava no topo da Elizabeth Tower, a torre anexada ao palácio.
"Caramba. Mia Whitlock faz questão de causar impacto", murmurei para mim mesmo enquanto o elevador subia.
Não era preciso ser um detetive para saber quem estava me esperando lá em cima. Desde o início, eu suspeitava que quem havia roubado minha carteira — ou melhor, a chave dentro dela, tinha sido a comissária de bordo, Olivia. Ela fizera isso apenas para determinar se éramos dignos de conhecer Mia.
Olivia pegou minha chave no avião, nos incentivou a tomar certas atitudes e garantiu que encontrássemos o texto sagrado. Depois, observou se seríamos capazes de resolver o incidente da Medusa. Quando Natsunagi e eu descobrimos a identidade da Medusa e estávamos prestes a encerrar o caso, ela entrou em contato comigo. Ou seja, quem me esperava só podia ser o Oráculo, Mia Whitlock.
"Foi uma manipulação bem feita. Quase admirável."
Mas isso acabava agora. Eu havia decidido que não sairia dali sem que meus pedidos fossem atendidos. Assim que as portas do elevador se abriram, revelando uma escada em espiral, comecei a subir, avançando na penumbra.
E então...
"É aqui, hein?" Havia uma porta diante de mim. Criando coragem, girei a maçaneta.
"......!"
Tapei o rosto com o braço quando uma rajada de vento uivante me atingiu. Logo percebi que era só por estarmos a cem metros de altura.
A luz alaranjada atingia meu rosto coberto e atravessava minhas pálpebras fechadas.
"...Este lugar é aberto para o lado de fora?"
Conforme me acostumava ao vento e à luz ofuscante, finalmente abri os olhos. O local parecia um quarto de hotel. Do outro lado, havia uma varanda. E ali, olhando para as ruas de Londres, estava uma garota. Vestia um manto branco e hakama vermelha, as roupas tradicionais de uma miko, uma sacerdotisa xintoísta.
Iluminada pelos últimos raios do pôr do sol, a Tuner protegia o mundo do alto da torre do relógio.
"Quem está aí?"
Nesse instante, a garota pareceu me perceber e olhou sobre o ombro. Seus cabelos azul-claros esvoaçavam, e seus grandes olhos, belos como os de uma boneca, se arregalaram ainda mais.
"Finalmente nos encontramos, Mia Whitlock", aproximando-me mais ainda da guardiã do mundo.
"Me diga como mudar o futuro."
Queríamos chegar ao desfecho que todos desejavam. Aquele em que resgatávamos Siesta. O fim do mundo, a profecia da völva.
"Isso é impossível."
Depois que Mia Whitlock trocou sua roupa de sacerdotisa por roupas casuais, respondeu com franqueza. No momento, ela estava devolvendo livros às enormes estantes que cobriam as paredes do cômodo.
Diziam que ela podia ver o futuro. Esperei até que terminasse suas tarefas noturnas habituais na torre do relógio, e então ela permitiu que eu a encontrasse ali. Até aquele ponto, pensei que meu objetivo já estava praticamente alcançado, mas...
"O futuro é imutável. Podemos lutar contra ele o quanto quisermos, mas o desfecho final da história não mudará."
A voz da garota era fria. Ela estava de costas para mim, na ponta dos pés, tentando devolver um livro a uma prateleira alta.
"Você está sozinha? Pensei que sua assistente estivesse com você."
Estendendo a mão por trás dela, peguei o livro de sua mão e o coloquei de volta na estante. Olivia, a comissária de bordo, foi quem me convidou até aqui. Antes de mais nada, eu precisava recuperar minha carteira e a chave...
"Ela me enganou." O rosto delicado de Mia se contorceu em uma careta. Ela olhou para mim de vinte centímetros abaixo.
"Não sei qual é a intenção dela, mas Olivia está tentando nos reunir, eu e vocês dois."
Entendo. De fato, mesmo no avião, Olivia parecia desejar que nos encontrássemos com Mia.
"Ou seja, eu não tenho nenhum interesse em você, pessoalmente. Preferia não ver o seu rosto, se puder evitar, e não quero respirar o mesmo ar. Pode ir embora, por favor?"
Mia passou por mim e voltou a organizar os livros.
...Não esperava que ela me detestasse tanto. Na verdade, provavelmente não era algo pessoal. Parecia mais que ela evitava o convívio com qualquer pessoa. Sim, só podia ser isso.
"Desculpe, mas não posso ir embora até conseguir o que vim buscar." Peguei um dos livros empilhados na mesa.
"Mia Whitlock. Esses são os textos sagrados, certo?"

Todos eles, tanto os livros que Mia e eu estávamos manuseando quanto os que já ocupavam as prateleiras ao redor.
"Pode me lembrar por que eu teria que responder isso?"
"Minha parceira está resolvendo um caso agora, por instrução da Olivia."
Se aquele texto sagrado nos tivesse sido enviado por alguém do círculo de Mia Whitlock, então o fato de Natsunagi estar decifrando o problema difícil contido nele deveria jogar a nosso favor. Além disso, eu estava ajudando Mia a organizar sua biblioteca.
"...Não acho que colocar alguém em dívida à força seja uma técnica tão eficaz assim."
Ainda assim, como se estivesse sem alternativas, Mia suspirou levemente.
"Sim, é verdade. São 100.279 volumes. Todos os textos sagrados aqui foram compilados por Oráculos anteriores... ou por mim."
Enquanto falava, ela apontou calmamente para as estantes ao redor da sala.
"Minha habilidade de prever o futuro me permite vislumbrar, ainda que apenas em fragmentos, as crises que o mundo enfrentará. Por causa dessa habilidade, fui escolhida como Oráculo e me foi confiado o papel de registrar o fim do mundo, o Ragnarok, nestes textos sagrados."
Era exatamente como a Srta. Fuubi havia dito: a Oráculo realmente possuía o dom da clarividência. Agora estava claro que Mia possuía um poder de que eu precisava para alcançar meu objetivo.
"Mas só saber o futuro não significa que seja possível mudá-lo. Para a maioria das pessoas, isso não tem muito valor."
Desdenhando de sua própria habilidade, Mia passou os dedos pelos cabelos azulados.
"Existe mais alguém com esse tipo de poder?"
Interrompi o trabalho e me inclinei para frente, pressionando Mia por mais detalhes.
"Quem não trabalha, não come. Não te ensinaram isso na pré-escola?"
Mia sentou-se em uma poltrona alta, recostou-se e fechou os olhos.
"Não ensinam isso para crianças de três anos. Não sobrecarregue os pequenos."
Mas provavelmente o que ela queria dizer era que, se eu quisesse respostas, precisava continuar ajudando com o trabalho. Eu não compreendia exatamente o sistema de organização dela, mas continuei colocando os livros nas prateleiras conforme suas instruções.
Vi muitos títulos perturbadores nas lombadas dos volumes: Pandemia Viral , Terceira Guerra Mundial , e até Rebelião Vampírica . Será que todas essas eram crises globais evitadas pelos doze Tuners?
"A propósito, o texto sagrado é material classificado de primeira categoria. Você pode ler, mas esteja preparado para nunca mais dormir em uma cama."
"Você fala isso como se não fosse nada..."
Aparentemente, se eu abrisse um desses livros sem permissão, alguém poderoso me transformaria em líquido. Um pouco nervoso, deslizei um texto sagrado intitulado História Alternativa de volta para a estante.
"Somente uma pessoa no mundo possui esse poder por vez. No momento em que essa pessoa morre, outra adquire o poder, como uma bênção divina."
Enquanto eu trabalhava, Mia respondeu à minha pergunta anterior.
"Começou com uma völva, uma das profetisas dos mitos nórdicos. A partir dela, muitos Oráculos surgiram ao longo de milênios. Houve uma também no seu país. Qual era o nome dela mesmo? Acho que incluía a palavra miko ."
Mia provavelmente se referia à rainha que governou Wakoku há cerca de 1.800 anos, uma mulher que usava o poder da adivinhação. Seria Agastya, o sábio sagrado mencionado por Hel, um dos que ocuparam esse papel?
"Quando você adquiriu seu poder, Mia?"
"Faz cerca de dez anos. Um dia, do nada, comecei a murmurar que certo desastre natural ocorreria em breve, como se estivesse delirando... Meus pais ouviram e foi assim que tudo começou."
Além de me explicar os detalhes de sua habilidade, Mia começou a contar sobre seu passado.
"Eram como profecias; surgiam em minha mente como imagens. Eu as colocava em palavras, quase inconscientemente, ou escrevia em pedaços de papel. Passei a prever atos de terrorismo em larga escala e momentos em que a vida de pessoas importantes estariam em risco, e logo passei a ser conhecida como a 'criança de Deus'."
"'Criança de Deus'... Então você chamou a atenção de alguém?" Mia deu um sorriso autodepreciativo.
"Chamei sim. Dos meus próprios pais, para ser exata. As pessoas mais próximas de mim. Quando descobriram minha habilidade, criaram uma organização religiosa, me colocaram como figura central, e começaram a lucrar com isso."
Uma criança de Deus que podia ver o futuro, é claro que certas pessoas enxergariam nisso uma fonte de dinheiro inesgotável. Infelizmente para Mia, essas pessoas eram sua própria família.
"Desculpe interromper, mas... Mia, o que faço com isso?"
Eu havia pegado um maço de uma dúzia de folhas de pergaminho amarradas com barbante. Ao contrário dos outros textos sagrados, este não tinha capa, apenas a palavra Singularidade rabiscada na primeira página.
"Isso é lixo."
...Não tinha nada a ver comigo, mas, como eu estava segurando aquilo, senti como se ela tivesse me ofendido também.
"O que está escrito aí não é confiável de qualquer forma."
Então aquilo não estava relacionado aos textos sagrados? Pelo que eu sabia, eles continham apenas futuros já determinados. Por ora, obedeci às ordens de Mia e devolvi o maço ao lugar.
"No entanto, minha habilidade só permite prever crises globais. Não consigo ver o futuro de crentes individuais", continuou Mia.
Seus pais haviam fundado uma religião em torno da habilidade profética da filha. Porém...
"Isso realmente funcionava como uma religião? Os fiéis não esperavam profecias da 'criança de Deus'?"
"Sim. E por isso meus pais inventavam revelações divinas repetidamente e as usavam para extorquir dinheiro dos crentes. Chegavam a ameaçá-los, insinuando que seriam punidos por Deus se não obedecessem."
Era o típico culto fraudulento. O que Mia me contou em seguida também era típico, embora fosse o tipo de tragédia que se desejaria nunca ver acontecer em lugar algum.
Os pais de Mia tiveram a ideia de inventar profecias para extorquir dinheiro de pessoas crédulas. Mia, peça central em tudo isso, protestou repetidas vezes. Mas, sempre que o fazia, os adultos a agrediam.
"Você não pode trair seus fiéis agora", diziam.
Mia ainda era apenas uma criança e não conseguia enfrentá-los. Eles a trancaram em um cômodo no porão e, depois disso, tudo o que ela podia fazer era assistir seus pais se afundarem cada vez mais em suas próprias mentiras e crimes... Mas então, aqueles dias foram ofuscados por algo ainda pior.
Certo dia, em um ato de vingança, um dos crentes que havia perdido uma fortuna por causa de uma falsa profecia ateou fogo à casa de Mia. Num piscar de olhos, as chamas consumiram seus pais.
"Minha mãe havia feito coisas ruins. Meu pai me bateu muitas vezes. Mesmo assim, eles eram a única família que eu tinha, então tentei salvá-los. Tentei usar minha clarividência para encontrar uma forma de tirá-los do incêndio."
Mia se aproximou da grande janela. O sol poente iluminava seu perfil frágil.
"Mas, por mais que eu tentasse, não conseguia ver um futuro em que eles sobrevivessem. Para o mundo, meus pais não eram importantes."
Isso mesmo, Mia só conseguia ver acontecimentos ligados a crises globais. Seus pais eram pessoas comuns. Não faziam diferença.
"...Então só você foi salva?"
"O fogo nunca chegou ao quarto no porão. Eu nem queria uma proteção divina, ou seja lá o que fosse aquilo... e mesmo assim..." Mia sorriu de forma amarga.
"Como você passou disso para se tornar uma Tuner?" Tendo perdido sua família, Mia Whitlock passou a viver sozinha, sem esperanças. Como e quando ela começou a lutar contra os inimigos do mundo como a Oráculo?
"Quatro anos e meio atrás, o Detetive Ás me 'roubou'", disse Mia, voltando-se para mim.
"...Então a Siesta estava envolvida?"
Pelo contexto, "roubou" provavelmente queria dizer "levou sob custódia protetora". Siesta havia estendido a mão para uma garota que estava completamente sozinha no mundo.
"Siesta a acolheu como parte de um dos trabalhos dela como Detetive Ás?"
"Disseram que a missão havia sido originalmente designada ao Ladrão Fantasma. No entanto, o Detetive Ás me roubou do lugar dele. Ela disse: 'Esse homem é a última pessoa no planeta em quem você deveria confiar.'"
Durante os três anos que viajei com Siesta, enfrentamos ladrões fantasmas incontáveis vezes. Contudo, agora, Mia provavelmente se referia ao Tuner. Eu tinha quase certeza de que "Ladrão Fantasma" havia sido uma das funções listadas pela SIESTA em nosso grupo. Mas...
"O que você quer dizer com 'o Ladrão Fantasma não é confiável'? Ele é tecnicamente um herói, não?"
Os doze Tuners haviam sido designados para salvar o mundo em momentos de necessidade. Eu tinha ouvido que Scarlet, a Vampira, era a ovelha negra do grupo... Será que o Ladrão Fantasma também era?
"O Ladrão Fantasma é um traidor, o único entre os doze Tuners que violou abertamente a Carta Federal. Ele está atualmente preso nas profundezas do subsolo por cometer um crime grave. O Detetive Ás foi a única pessoa que viu o perigo que ele representava com antecedência. Por isso, me resgatou pessoalmente, sem depender dele."
A Carta Federal mencionada por Mia era provavelmente a mesma de que Charlie havia falado antes. Pelo que eu sabia, suas normas mantinham o grupo dos Tuners unido.
"Qual foi o crime do Ladrão Fantasma?" A conversa estava desviando do foco, mas eu perguntei mesmo assim. Como um herói encarregado de proteger o mundo havia acabado preso como um criminoso?
"Sou a única pessoa autorizada a tocar nos textos sagrados, mas ele roubou alguns deles."
Ao dizer isso, pela primeira vez, havia um leve traço de raiva nos olhos de Mia.
"Depois, ele vendeu o texto sagrado que continha profecias sobre a SPES para Seed... em troca de uma certa vantagem."
"Então é aí que nossas histórias se cruzam, não é?"
Seed havia usado o Ladrão Fantasma para roubar alguns dos textos sagrados de Mia. Outro dia, ele também tentou se aliar ao Vampiro para libertar o Morcego da prisão. Aparentemente, ele já tentava manipular os Tuners fazia alguns anos.
Depois de conseguir acesso ao texto sagrado e aprender sobre o futuro, Seed foi capaz de antecipar o perigo antes que ele o alcançasse. Siesta enfrentou esse adversário inúmeras vezes, apesar da enorme desvantagem... até que, finalmente, ela….
"Gostaria da sua opinião." De repente, Mia se virou e caminhou até mim.
"Suponha que o papel de um Tuner seja arriscar tudo para enfrentar os inimigos do mundo, até encontrar um fim inevitável. Eles podem evitar uma crise, mas os inimigos continuarão surgindo. A luta nunca terá fim. Até que o mundo seja destruído, eles apenas continuarão fingindo salvá-lo, usando todos os truques possíveis, enquanto as pessoas que ocupam esses cargos mudam. Você consegue encontrar alguma esperança em um futuro assim?"
Os olhos lilases de Mia Whitlock estavam diante de mim, trêmulos.
Essa era sua resposta à pergunta que eu tinha trazido: "É possível mudar o futuro?"
A resposta dela era: não importa qual futuro você escolha, ele terminará mal. Com o fim do mundo.
E ela não estava exagerando. Mia havia recebido o dom de ver o futuro ainda criança, e as pessoas ao seu redor se apressaram em explorá-la. Siesta a salvou uma vez, mas acabou se sacrificando... e nem isso foi suficiente para eliminar os inimigos do mundo. Como a Oráculo, Mia Whitlock observaria esse futuro infernal pelo resto da vida.
"Então, até que minha vida acabe, ou o mundo, cumprirei minhas funções dentro dos muros desta torre. Não tenho expectativas. Não tenho ambições de mudar nada. Não espero, não desejo, não confio em ninguém. Apenas faço o trabalho que o Detetive Ás me deu. Trabalho em silêncio. E trabalho sozinha."
"...Certo. Eu finalmente entendi a sua posição sobre isso", disse a ela, levantando-me.
Era exatamente como Mia havia dito: se aquele era o único tipo de futuro que nos aguardava, qualquer ação pareceria inútil. Era uma perspectiva compreensível. Até o dia sombrio e inevitável, Mia planejava permanecer reclusa naquela torre do relógio. Fiquei me perguntando: quanto sofrimento ela devia estar escondendo? Eu realmente não podia dizer que ela estava errada.
"Desculpe, no entanto. Eu posso até entender... mas não consigo simpatizar." Ergui Mia nos braços no que se conhece como o "carregamento da princesa".
"...Hã?" Nos meus braços, Mia piscava repetidamente, surpresa. O que foi? Está agindo de um jeito meio estranho. Percebe que está quebrando o próprio personagem, não é?
Ela não podia realmente ter achado que me convenceria com aquilo.
"Eu vou te mostrar o quanto o futuro é incerto."
Naquele instante, um alarme começou a soar na sala, ou talvez por todo o prédio. Em seguida, a janela onde Mia estivera encostada se estilhaçou.

"Q-quê? O que está acontecendo?" Mia estava confusa. Do lado de fora, algo explodiu, e o chão tremeu como se um terremoto tivesse atingido o lugar.
O quê? Você não previu isso? Que pena.
(N/R: esse cara é muito foda kkkk)
"Você sabe com quem está agora?" Ainda carregando Mia, eu corri em direção à saída.
"Não subestime minha tendência a me envolver em confusões."
Se você é uma garota amada pelos deuses, então eu sou o cara que todos eles abandonaram. Desculpe, mas estou prestes a te arrastar para mais problemas do que você pode imaginar.
"Onde você está me levando?!" Mia gritou enquanto eu fugia do ciclo do destino, carregando-a comigo.
A procura de uma única rota
Tendo escapado da torre sem grandes incidentes, nós dois andávamos pelas ruas de Londres. O sol já havia se posto há bastante tempo.
"P-por que isso está acontecendo...?" Mia Whitlock olhava ao redor, inquieta, andando dois passos atrás de mim. Sua atitude fria de antes havia sumido; os ombros estavam curvados defensivamente e ela dava passos curtos e rápidos.
"O que, afinal, foi aquilo?"
Uma explosão havia ocorrido de repente na torre do relógio. Enquanto fugíamos do prédio, os alarmes soavam e passamos por áreas tomadas por fumaça e chamas.
"Vai saber. Terroristas, talvez?"
"Como você consegue ficar tão calmo?!" O tom de Mia ficou mais agudo, e ela se colocou ao meu lado.
"Ugh! Gritar me deixou tonta..." Ao finalmente deixar as emoções virem à tona, Mia afundou, fraca, sobre a calçada. Pelo visto, ela realmente não fazia nada que exigisse sair do quarto.
"Atos terroristas não são exatamente raros, sabia?"
"Eles também não são exatamente 'comuns'." Estendi a mão para Mia, e ela a pegou para se levantar novamente.
"Você devia se exercitar mais. Sair de casa de vez em quando."
"Eca, não. Isso me cansa."
"Não diga isso com essa cara séria. O que você é, uma NEET?" Isso pareceu incomodar Mia. Ela começou a andar mais rápido sozinha.
"Você devia se abrir mais. Arrumar um hobby. Só um amigo já pode deixar seu mundo um pouco mais brilhante."
"Mesmo que deixasse, isso vai acabar logo de qualquer jeito."
"Você é tão negativa!" Embora, no caso dela, aquilo nem fosse exagero, o que dificultava qualquer resposta animadora.
"...Fale mais baixo. Vai me assustar; não faça isso." Mia virou-se pela metade, lançando-me um olhar reprovador.
"Ah, desculpa. Acabei escorregando no jeito como costumo falar com o pessoal."
"Esse é o jeito como vocês falam...? Vocês devem ter muita energia."
Então alguém finalmente comentou isso, hein? Bom, não é um problema que eu possa resolver sozinho. Estão ouvindo, Yui, Saikawa e companhia?
"...Haaah. Sinceramente, nada de bom acontece quando estou com você." Mia soltou um suspiro profundo.
"As coisas também estavam difíceis no ano passado." Com as mãos entrelaçadas atrás do corpo, ela me olhou friamente.
"Ah, é mesmo. Aquilo também foi naquela torre, né?"
Um ano atrás, Siesta e Hel haviam lutado ali. Pilotando um robô e uma arma biológica, causaram uma destruição total na torre. Na época, Mia estava dentro. Aposto que assistiu tudo pela janela.
"Imagine ser a pessoa que teve que limpar aquela bagunça."
Entendi. Mesmo com toda aquela destruição, não apareceu um curioso sequer, e nenhum veículo de imprensa noticiou o ocorrido. Alguém muito poderoso devia estar agindo nos bastidores. Eu só queria que ela reclamasse diretamente com a detetive de cabelo branco.
"Considere isso meu pedido de desculpas, então." Mia caminhava do lado mais próximo dos prédios, e eu a puxei pela mão, trazendo-a para perto de mim.
"Hã?" Seus olhos se arregalaram, um vaso de flores despencou e se espatifou bem onde ela estava antes.
"Certo, vamos." Soltei sua mão e continuei meu passeio noturno.
"...Eu sabia. Só arranjo encrenca quando estou com você." Mia parecia estar cansada do meu magnetismo para problemas; a curvatura das costas dela já não era mais de um gatinho assustado, mas de um que desistiu completamente. Nos últimos minutos, cada gesto dela me lembrava algum bichinho da floresta.
(N/R: BICHINHO DA FLORESTA KKKKK)
Porém, para mim, isso era fichinha. Se eu queria provar para ela que o futuro realmente podia ser mudado, ela precisava continuar comigo mais um pouco.
"A Siesta não te ensinou que as coisas sempre mudam de repente?"
Perguntei a Mia, que ainda estava parada.
"Que tipo de lição é essa? A chefe, digo, a Detetive Suprema e eu só jogávamos online de vez em quando."
"Como exatamente vocês Tuners se relacionam entre si?"
Ela acabara de revelar um inesperado vínculo de mestre e aprendiz. Eu era assistente da Siesta, Charlie era aprendiz dela... Então, Mia era uma dessas pupilas fofinhas que, na prática, causavam muito trabalho?
Enquanto eu me perguntava isso, um ônibus vermelho de dois andares parou no ponto mais próximo. Ótimo timing.
"Preste atenção. No nosso mundo, coisas como bom senso, conflitos internos e impasses só servem para atrasar a história. Então a gente pula tudo isso."
"Que ‘nosso mundo’? Que explicação repentina é essa?"
"Deixa pra lá. Só me acompanhe. Esta história anda rápido." Acertou em cheio, pensei, ao subir os degraus do ônibus.
"Vou mudar de assunto, mas você não parece ser do tipo que tem muitos amigos."
"Se for mudar de assunto, pelo menos não seja tão maldoso."
"Então, vou direto ao ponto: eu não posso ser sua amiga."
"É, só me ajuda a realizar um sonho idiota. Isso já vai ser o suficiente."
Sentamos lado a lado na última fileira de assentos do andar de baixo do ônibus.
"Me diz uma coisa: você é sempre assim?" Mia perguntou. Ela estava no assento da janela, olhando para as ruas escuras lá fora.
"Assim como? Charmoso, atencioso e surpreendentemente legal?"
(N/R: confesso que esse cara tá subindo no meu conceito. Não esperava que ele fosse tão carismático kkkk)
"Não precisa se esforçar tanto pra bancar o bobo." Mas eu não estava fingindo.
"Perguntei se você age sempre sem um plano."
Sem um plano, hein? Era verdade que, mesmo agora, eu não fazia ideia de para onde esse ônibus ia. Não sabia quais paradas faria, nem quem poderia embarcar no caminho. Mas...
"Tenho um objetivo final. Um dia, vou trazer a Siesta de volta à vida." Esse é o único futuro que eu quero. É o final da história que eu estou buscando.
"E você realmente acha que isso é possível?" Mia não parecia surpresa com minha promessa.
Provavelmente já sabia. Talvez fosse por isso que ela vinha se afastando tanto de mim e da Natsunagi, ela já havia percebido que era um desejo absurdo.
"Eu realmente não saberia dizer." Eu não sei. Acho que foi por isso que vim te ver. Porque eu... simplesmente não sei. Mas...
"Acho que seria justo existir ao menos uma rota superconveniente." Eu queria acreditar que sim.
"......" Mia não concordou nem discordou. Só continuou olhando pela janela.
Mesmo que alcançar um final perfeitamente feliz fosse difícil demais. Mesmo que alguém tivesse que suportar algumas dores pelo caminho, e pequenas perdas fossem se acumulando. Ainda assim, não podiam ser todos finais cruéis onde todo mundo perdia tudo.
"O futuro precisa se ramificar em diferentes rotas. Nossas vontades é que vão decidir qual seguir."
A vontade da Olivia me levou àquela torre do relógio; minhas ações estavam puxando Mia para algo que ela nunca esperava. Com nossas vontades e ações, podíamos mudar essas rotas do futuro de várias formas. Nesse caso...
"Você não acha que pode existir uma rota onde a Siesta volte à vida?"
Mais uma vez, eu joguei sobre Mia a primeira e maior razão de eu ter vindo vê-la.
"Só você tem permissão pra dizer isso", murmurou Mia. Eu não entendi exatamente o que ela quis dizer. Mas a realidade não foi gentil o suficiente para me dar tempo de responder.
"Desculpa, mas parece que vamos ter que interromper esse papo."
"Hã?" No instante em que Mia se virou, um grito de mulher ecoou pelo ônibus.
Olhei para frente e lá estava um homem vestindo uma roupa camuflada, segurando um rifle.
"Um sequestro de ônibus, é isso?" Minha sina para me meter em confusão estava em plena forma.
Esse salto vai atravessar a linha do mundo
"É-é por isso que eu não queria sair de casa..." No banco ao meu lado, Mia voltou a fazer o papel de bichinho da floresta. Ela se encolheu toda, abraçando os próprios joelhos. Seria rude dizer que ela estava fofa? (Ou talvez patética?)
"E aí? Não previu esse futuro, né?"
"Como você consegue fazer graça numa hora dessas...?" Mia me lançou um olhar ressentido. Mas pelo menos, finalmente começou a me encarar de verdade.
"Minha habilidade não é nem de longe tão prática quanto adivinhação. Se eu quiser ver um futuro que realmente vá mudar o mundo, preciso preparar o palco antes... Então, eu não faço ideia do que vai acontecer agora." Ela terminou a frase num sussurro.
“Parados! Não se mexam, não posso garantir o que vai acontecer com vocês!"
No momento seguinte, um disparo ecoou quando o sequestrador atirou no teto. Depois, apontou a arma para os passageiros, incluindo a gente. Aff... Parece que não dá pra fazer nenhuma besteira.
"Se libertarem nosso camarada, vocês podem sair do ônibus. Tamo todo mundo no mesmo barco aqui, ha-ha!" O homem, vestido como um soldado, ria como se fosse o Bat em pessoa.
Certo, ele queria a libertação de algum aliado preso. Pretendia negociar com a polícia? Não parecia uma ideia muito boa.
"O que a gente faz?” Mia perguntou baixinho.
A tensão estava no limite, mas, felizmente, por estarmos bem no fundo do ônibus, conseguíamos ter uma boa visão da situação. Contando comigo e com a Mia, havia onze passageiros normais, o motorista, e um criminoso armado na frente. Ele tinha uma arma, e o ônibus estava cheio de civis, não podíamos agir de forma imprudente.
"Uh, na real, o que você acha que a gente devia fazer?"
"Então você é essencialmente inútil quando mais precisa." Mia apoiou a testa na palma da mão.
"Olivia..." disse Mia, chamando pelo nome de sua assistente.
“Fofa” e “patética” realmente eram dois lados da mesma moeda.
"Chega. O mundo vai acabar logo mesmo..."
"Olha, já falei: para de ser tão pessimista." Tudo bem ser um pouco negativo de vez em quando, mas no caso dela, ela levava isso tão a sério que nem dava pra achar graça.
"Escuta. Mesmo eu consigo agir, sabe? Desde que a detetive me diga o que fazer."
"Tenha um pouco de orgulho próprio, por favor?!"
"Mia, tudo bem se eu segurar sua mão por um momento?"
"Você estava me ouvindo?!" Mas ela não disse não, então apertei sua mão pequena. E ela congelou.
"...Nunca segurei a mão de um homem antes", murmurou Mia, muito rápido, como se quisesse se justificar, embora eu nem tivesse perguntado. Ela suspirou. Sua mão estava ainda mais fria do que eu imaginava.
"O que será que a Chefe teria feito numa situação como essa?"
Talvez ela estivesse cansada demais para continuar mantendo as aparências; Mia estava chamando Siesta de “Chefe” abertamente agora.
"Pra começar, ela tomaria um chá... ou me provocaria."
"Isso foi absolutamente inútil."
Pois é. Afinal, ela era do tipo que tiraria uma boa soneca mesmo num avião sequestrado.
"...Eu posso ser uma Tuner, mas não sou boa com esse tipo de coisa." Mia olhou para baixo e murmurou num tom autodepreciativo.
É, não era como se todos os Tuners fossem mestres do combate (Ou mestres da socialização kkkkk). Só os três que eu tinha conhecido até então. Provavelmente havia alguns que tinham apenas aptidão intelectual, e outros, como Mia, que foram recrutados por causa de habilidades únicas. O equilíbrio entre os doze mantinha o mundo em ordem.
"Eu não tenho o senso de missão inabalável do Assassino, nem a força destruidora do Vampiro, nem a coragem da Detetive para encarar a morte de frente. É por isso que não fui capaz de impedir a aposta da Chefe naquela época."
"Mia, você..."
"Quem está falando aí?!"
No instante seguinte, o sequestrador apontou o rifle para os passageiros. Algo o tinha irritado. Ele foi passando de pessoa em pessoa, apontando a arma, um por um... mas antes de chegar à parte de trás, se virou e voltou para perto do motorista. Ele não tinha nos notado.
"Como você disse... o futuro muda, às vezes." Mia falou ainda mais baixo. Com aquele volume, o barulho do motor provavelmente abafaria sua voz.
"Dois dias atrás, fui ao Japão. O futuro que eu havia observado recentemente tinha mudado, e eu queria descobrir o motivo."
"Entendi. Então foi por isso que você estava naquele voo."
Mia quase nunca deixava sua torre, e mesmo assim havia embarcado num voo do Japão para Londres. Finalmente eu entendi o porquê.
"Eu conhecia o futuro relacionado à SPES. Ele terminava com a morte da garota safira pelas mãos do Assassino e com a perda do receptáculo de Seed. Mas essa rota foi evitada. Você e seus amigos estavam no centro dessa mudança."
...É, foi isso mesmo. Escolhemos proteger Saikawa, o que significava que Seed sobreviveu. Tecnicamente, essa escolha poderia ter tornado o mundo inteiro nosso inimigo.
Como uma Tuner, e como o Oráculo, Mia tinha o dever de guiar o mundo pelo caminho certo. E ela não havia previsto aquele desfecho.
"O futuro muda. Mas o lugar onde ele termina... não."
O ônibus parou num sinal vermelho, e Mia olhou pela janela. Lá na frente, o sequestrador gritava com o motorista:
"Não para esse ônibus, ouviu?!"
"A Detetive realmente mudou o futuro. E então, no mesmo dia, ela morreu."
Era algo que Mia ainda não tinha me contado. A aposta da Siesta, aquela que Mia mencionara antes, mas não tinha conseguido impedir.
"Originalmente, no texto sagrado escrito pelo Oráculo anterior, a batalha entre a SPES e a Detetive terminava com a derrota dela."
"Você está dizendo que a Siesta perderia para Seed e Hel?"
"Sim. A Chefe morreria, e Seed transformaria Hel, a sobrevivente, em seu receptáculo. O final previsto no texto era o pior possível."
Mia explicou que esse texto havia sido escrito há cerca de dez anos atrás.
"Mas quatro anos atrás, a Chefe conheceu você. E, pouco a pouco, vocês começaram a mudar aquele futuro."
...Mas eu não tinha feito nada. Naquela época, Siesta provavelmente já estava tentando distorcer o próprio destino.
"Senti que talvez, se continuássemos assim, poderíamos evitar a morte da Chefe. Há cerca de dezoito meses, observei novamente o futuro relacionado à SPES. E o final"
"Era que Siesta e Hel acabariam se eliminando mutuamente, e Seed perderia seu receptáculo, não é?" Enquanto eu dizia isso, Mia apertou minha mão com força.
Esse foi exatamente o desfecho que enfrentamos no ano passado.
Mesmo que o futuro tivesse mudado um pouco, o ponto final, o pior final, a morte da Siesta não havia mudado, apesar de todo nosso esforço.
"Claro que eu não queria desistir. Eu destruí minha própria família com as minhas mãos. Não consegui salvar meus pais. Mesmo assim, devia à Chefe tudo o que ela fez por mim. Se nada mais fosse possível, ao menos queria evitar o futuro em que ela era sacrificada... Mas acho que ela já estava preparada para isso."
...É. Esse era o tipo de pessoa que ela era. Sabia qual seria seu destino e, mesmo assim, manteve seus princípios como detetive. Mesmo que isso custasse sua vida, ela estava decidida a selar um grande mal e salvar sua amiga, Natsunagi. Realizar o desejo de sua cliente, até o fim.
"E diferente de mim, a Chefe lutava contra a SPES diretamente. Ela percebeu que Seed queria o texto sagrado, e, ao mesmo tempo, se preparava para a traição do Ladrão Fantasma. Ela veio até mim e propôs usar tudo isso contra eles."
"Então ela deixou Seed roubar o texto de propósito? Mesmo sabendo que o futuro que ele previa não era mais real?"
Esse foi o plano secreto da Siesta. Uma armadilha, na verdade. O final original do texto sagrado previa que ela seria derrotada, e que Hel, a sobrevivente, seria o receptáculo de Seed.
Quando percebeu que esse futuro não iria mais se concretizar, ela propositalmente deixou o texto cair nas mãos de Seed.
Seed acreditou naquele futuro falso e baixou a guarda. Não percebeu a aposta de Siesta. Foi por isso que seus planos saíram do controle, e por isso ele estava agora tentando usar Yui Saikawa como receptáculo, mesmo ela tendo sido apenas um plano reserva.
"Como você disse... é possível mudar o futuro. Mas o desfecho final não muda,"
repetiu Mia, com a voz totalmente vazia de emoção.
"É verdade que vidas foram salvas graças a esse futuro alterado. Desejos foram realizados. Mas outras vidas foram perdidas. Eu... sei que isso é egoísmo, mas... eu teria preferido um futuro onde a pessoa que era preciosa pra mim tivesse sobrevivido."
Esse devia ser o arrependimento que o Oráculo não conseguia esquecer. Ela não conseguiu salvar a benfeitora que a resgatou do inferno.
Mia buscou, com toda a força, um futuro onde Siesta sobrevivesse...
Mas, no fim, foi a determinação da detetive que prevaleceu.
E quando o fim chegou, foi o mesmo cenário,o pior possível, para Mia.
E assim, Mia não agiu. Ela não tentou mudar o futuro. Ela simplesmente... observou. Assim como havia observado a luta entre Siesta e Hel se desenrolar do alto do maior relógio de Londres, no ano anterior.
Mia Whitlock cumpriria seu dever: registrar os futuros que via, até o dia em que o mundo chegasse ao fim. Se havia algo que eu pudesse dizer a ela, era:
"Também estamos planejando transcender a vontade de Siesta."
Os olhos de Mia se arregalaram. Teria sido por causa do que eu disse, ou porque me levantei enquanto falava?
"Quem é você?! Quem está falando?!"
O sequestrador do ônibus apontou o fuzil para mim, mas a mira vacilou, incerta. Claro que vacilou: o sujeito não podia me ver.
"Dizer para não conversarmos durante um sequestro? Isso está ao contrário."
Segurando a mão de Mia, agachei-me.
"Não se deve sequestrar um ônibus durante uma conversa importante."
Aparentemente, havia um figurante extra neste palco. Entre mim e o NPC havia uns dez metros. Assumindo que meus problemas aleatórios não surgissem no caminho, essa luta terminaria em segundos.
"Espera, o que você está fazendo?!"
"Não se preocupe, ele também não pode te ver." Esse era o poder que eu ganhara ao engolir a semente do Camaleão. Era por isso que eu segurava a mão da Mia o tempo todo.
"Vou trazê-la de volta à vida e então vou dizer: 'Toma essa'."
Não pense que vou deixar você me manipular para sempre. Talvez ache que morreu sozinho e ficou com uma aparência toda descolada, mas vou mudar esse final. Vou mudar o futuro. Vou te mostrar.
"...Você está falando sério?"
"Se eu não estivesse, não teria vindo até o outro lado do oceano."
Nesse instante, o sequestrador do ônibus deduziu nossa posição pelas vozes e atirou contra nós. Gritos dos passageiros preencheram o veículo. Mia e eu nos desviamos do disparo deslizando por entre os assentos vazios.
"Então, por favor. Me ajude a encontrar um futuro onde a Siesta volte à vida."
"...Você realmente acredita que isso exista?"
"Se não existir, eu o criarei. Desta vez, serei eu quem arrastará o mundo junto comigo."
Segurei a mão de Mia novamente e saí correndo. O sequestrador estava bem à nossa frente agora.
"Eu não consigo... correr tão rápido...!"
Após anos trancada em seu quarto, Mia tropeçou nas próprias pernas. Estava ofegante.
...Ah, entendi. Ela ainda não percebeu, né?
"Mia, olha bem para os seus pés."
No momento em que disse isso, percebi pelo canto do olho um revólver preto reluzente. Um segundo sequestrador havia fingido ser um passageiro. Pensando bem, aquele homem com aparência militar dissera "nosso" no começo. Puxa vida. Talvez eu devesse ter pensado duas vezes sobre problemas aleatórios.
"Kimihiko!" Mia gritou meu nome.
"Você cuida desse, Mia."
Soltei a mão dela e me lancei contra o segundo sequestrador, que se levantava do assento. Quando o homem recebeu um golpe no estômago vindo de algo que não podia ver, soltou um grito agudo e deixou a arma cair. Exceto que, agora que eu havia soltado Mia, ela estava visível.
"! De onde surgiu essa garota?!"
Quando Mia surgiu de repente bem diante dele, o sujeito de camuflado ficou chocado. Contudo, sua confusão nos deu uma breve abertura.
"Mia! Mesmo que você não queira mudar o futuro, já é tarde demais! Você sabe do que estou falando! Pense no que significa estar usando esses sapatos agora mesmo!"
No instante em que falei isso, os olhos lilases de Mia se arregalaram.
É isso aí. Aqueles sapatos deviam ser um presente da Detetive As. Um presente para sua assistente exigente que não saía da torre. A essa altura, os pensamentos de Siesta já não a alcançavam, mas haviam tomado forma e fizeram Mia dar um grande passo à frente.
"Maldita pirralha.!" O sequestrador atirou em Mia sem nem mirar.
Mas era tarde demais. As balas cruzaram o espaço vazio.
Por que, você pergunta? Se quiser saber, olhe para cima.
"Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!" Ah, acho que agora também já é tarde para isso.
Naquele momento, os pés da garota que havia saltado alto no ar acertaram a cabeça do homem de camuflado como se fosse uma rebatida de beisebol.
É, eu sabia daquilo há quatro anos. Os sapatos da Detetive As podiam voar.
Presságio de um futuro distante
"Estou exausta... Nunca mais vou sair de casa pelo resto da minha vida..."
Mia caminhava pela rua escura com os ombros tão caídos que quase se podia ouvir a aura de desânimo à sua volta.
Graças à sua manobra desafiando a gravidade, conseguimos derrotar os sequestradores, e agora estávamos voltando para a torre. Esperava que a confusão causada pelo incidente terrorista já estivesse diminuindo.
"Por que todas essas coisas bizarras acontecem quando estou com você?" Mia, que andava ao meu lado, me lançou um olhar reprovador.
"Hmm? Isso foi culpa minha?"
"Você é mesmo um idiota. Estou sendo sarcástica, claro", suspirou Mia pela enésima vez. "Acho que sua sorte acabou quando, por acaso, acabamos no mesmo voo."
Pensando bem, deve ter sido aí que começaram os infortúnios de Mia Whitlock.
"Isso mesmo. Tive que passar horas espremida em um carrinho de refeições por sua causa."
Então, havíamos deduzido isso corretamente? Sim, devia ter sido difícil.
"E por que vocês dois estavam naquele voo, afinal? Eu tinha feito questão de pegar o voo depois do seu..."
Ela provavelmente tinha pedido para Olivia cuidar dos detalhes. No entanto, de última hora, meu talento para me meter em confusão entrou em ação e mudou o futuro.
"Bem, eu estava salvando um gato que tinha subido numa árvore e acabamos perdendo o primeiro voo. Só isso."
"Só isso?!"
"O que quer dizer? Gatos importam. Se você agir como se não importassem, a Siesta vai ficar brava com você."
Houve uma vez em que fomos contratados para procurar um gato perdido e, quando o encontramos, ele era tão fofo que ela passou a insistir que queria um também.
"Então é porque a Detetive Suprema te condicionou?"
"...Você não está totalmente errada, mas cuidado com as palavras."
Dito isso, o fato de eu ter me tornado quem sou se deve, em parte, a essa tendência problemática que tenho. Os dias que passei antes de conhecer Siesta também devem ter influenciado.
"Mas, nesse caso..." De repente, senti um leve puxão na manga do meu casaco.
"É sua culpa que isso aconteceu comigo", Mia sussurrou, meio passo atrás de mim.
À luz do luar, numa calçada iluminada por postes, virei-me para trás. Nossos olhos se encontraram.
"Vou dizer quantas vezes for preciso: foi sua culpa eu ter saído do meu quarto. É sua culpa eu ter me metido em toda essa confusão horrível. E também... é sua culpa eu ter começado a querer, só um pouco, mudar o futuro. Tudo isso. É tudo culpa sua. E por isso..."
Mia Whitlock me olhou nos olhos.
"Assuma a responsabilidade, tá?"
A expressão dela estava confusa, e ainda assim havia algo de esperançoso nela. Foi o olhar mais humano que vi em seu rosto o dia inteiro. Na verdade, me pareceu belo.
"Sim. Vou assumir a responsabilidade. Quando você quiser, quantas vezes forem necessárias." Agora éramos cúmplices.
O cara que os deuses haviam abandonado ao nascer e a garota que vivia recebendo bênçãos indesejadas, tinham acabado de unir forças.
O inimigo que pretendíamos derrotar era, bem, vou ser um pouco melodramático, o futuro que os deuses haviam decretado. Como adversário, isso era mais do que suficiente.
Pela primeira vez, sorrimos um para o outro e apertamos as mãos.
"Bom, há algumas mulheres com quem prometi me casar, então é provável que você tenha que esperar um pouco."
"...Isso não tem nada a ver! Tenho certeza de que você está mentindo, e, de qualquer forma, não foi isso que eu quis dizer. Não mesmo, tá?!"
Enquanto ainda estávamos ocupados com essa conversa divertida, voltamos à torre do relógio. Pegamos o elevador reservado e, ao abrirmos a porta do quarto de Mia…
"Oh, Kimizuka. Bem-vindo de volta."
Alguém que eu não esperava estava esperando lá dentro.
"Hã. Você trouxe outra garota bonita com você. O que foi? Ela também é uma das suas noivas em potencial?"
"O que você quer dizer com 'também'? Que história é essa?" brinquei com a detetive.
Ela lançou um olhar breve a Mia e, em seguida, me fuzilou com um olhar frio.
"Parece que você resolveu tudo do seu lado, Natsunagi."
Natsunagi estava sentada sozinha à mesa, tomando chá. "Sim. Graças a ela."
Algumas horas antes, eu havia me separado da detetive em um cemitério. Aparentemente, a outra parceira dela ajudou a resolver o incidente com a Medusa.
"Bem-vinda de volta, Senhora Oráculo."
Havia outra pessoa no cômodo. Olivia fez uma reverência respeitosa a Mia, vestida com um uniforme clássico de empregada.
"O dia de hoje fugiu um pouco da sua rotina habitual. Como foi a experiência?"
"Olivia, sua BOBA." Com um leve baque, Mia enterrou o rosto no peito de Olivia. Esse gesto dizia muito sobre a relação entre as duas.
"E quanto a você, Sr. Kimizuka. Dei bastante trabalho, não foi?"
"Deu, sim."
Olivia usava um sorriso de vendedora. Tirando minha carteira do bolso, devolveu-a para mim. Ao verificar o conteúdo, vi que a chave mestra também estava lá. Puxa. Considerando os últimos dias, parecia que a assistente da Oráculo tinha sido o cérebro por trás de tudo, mais do que a própria Oráculo.
"Agora estamos todos aqui." Sorrindo, Olivia serviu chá para mim e para Mia, e fez um gesto para que nos sentássemos.
"Por favor, não se preocupem comigo. Podem discutir o assunto principal." Ela recuou um passo e ficou em silêncio.
O assunto principal era o motivo pelo qual Natsunagi e eu fomos ver a Oráculo. Queríamos que Mia observasse um futuro onde Siesta voltasse à vida.
A essa altura, eu já sabia que a habilidade de Mia só funcionava com fenômenos grandes o suficiente para afetar o mundo de maneira significativa. Mas Siesta era uma Tuner, uma das guardiãs do mundo. Sua vida ou morte provavelmente se encaixava nesse critério.
"Vou perguntar mais uma vez", a própria Oráculo foi quem falou primeiro.
"Vocês dois realmente pretendem trazer a Detetive Suprema de volta, certo?"
Mia, sentada à cabeceira da mesa, olhou diretamente para mim e para Natsunagi. Será que tínhamos mesmo essa determinação?
Será que pretendíamos abrir caminho através de conflito após conflito para realizar um milagre que beirava a blasfêmia?
Ela nos perguntava sobre nossa determinação, em sua posição como uma Tuner. Em resposta, eu disse:
"Se realmente não houver nenhuma rota possível nos futuros que você observa, então desistiremos." Mas, ainda assim...
"Se houver sequer um único caminho do outro lado de um infinito inferno, abriremos passagem com nossas próprias mãos. Essa é a nossa ambição."
Enquanto dizia isso, pensei que soava pretensiosamente heroico. Mas tudo aquilo era fachada. Eu precisava bancar o corajoso, mesmo sem acreditar que tínhamos uma chance real. Por isso, fiz uma declaração a uma das executoras do mundo, como se eu fosse o protagonista dessa história ou algo assim.
"Nós não vamos apenas desejar. Hoje, a partir de agora, vamos agir."
Natsunagi fez seu próprio juramento à Oráculo, sem hesitação, mesmo nunca tendo a visto antes daquela noite.
"Não importa o custo?"
"Sim. Infelizmente, já fomos longe demais para voltar atrás", eu disse.
Certo. Eu já havia pago o preço no dia em que engoli aquela semente.
Não pretendia contar isso diretamente a Natsunagi, nem a ninguém, mas estava preparado para oferecer qualquer coisa, um dos meus cinco sentidos, ou até mesmo minha vida, à planta que agora habitava meu interior. Sabia que, sem colocar tanto em jogo, meu desejo jamais se realizaria.
Transmeti minha determinação a Mia sem palavras, e ela focou seus olhos em mim.
"Vampiros podem até existir aqui, mas ainda é impossível que humanos que já morreram voltem à vida exatamente como eram. Isso significa que não posso observar o futuro dos mortos, e não faz sentido tentar. No entanto..."
Havia uma beleza efêmera em seu sorriso.
"Kimihiko Kimizuka... se você realmente deseja se tornar a SINGULARIDADE DO MUNDO , então talvez..."
Uma carta da Detetive Suprema
"Não é justo."
Andando sozinho pela Baker Street à noite, suspirei. Ao final do nosso encontro com Mia Whitlock na torre do relógio, ela havia dito:
"Tenho algo importante para discutir com minha colega Tuner."
Como a nova candidata a Detetive Suprema; Natsunagi ficou, e elas me mandaram embora.
No fim, Mia não nos deu uma resposta definitiva sobre a existência de um futuro em que Siesta voltaria à vida. Mas, ao menos, as negociações não haviam fracassado.
"Vou ter que perguntar à Natsunagi quando ela voltar."
Eu tinha certeza de que era disso que falavam naquele exato momento. Forçando-me a aceitar essa ideia, fui para casa sozinho. Mas não estava indo para o hotel. Eu estava indo cumprir o objetivo original da viagem.
"Uau, faz tempo mesmo."
Eu tinha andado por essa rua há um ano também. Só que, naquela época, outra pessoa estava comigo.
Tínhamos olhado vitrines de roupas. Fomos ao mercado comprar ingredientes para o jantar. Tomamos chá no café favorito dela. Por toda parte naquela rua, via rastros dela.
Ao atravessar aquelas paisagens familiares, um antigo prédio residencial apareceu na esquina. Siesta e eu usávamos um de seus apartamentos como escritório e residência.
O prédio não tinha elevador, então subi as escadas até o terceiro andar. Um pouco hesitante, encaixei a chave e girei a maçaneta.
"Cheguei."
Eu sabia que não havia ninguém ali. Mesmo assim, por hábito, anunciei minha chegada ao quarto vazio.
Quando abri as cortinas, a luz do luar iluminou o cômodo. A mesa de jantar, o sofá e todos os móveis estavam exatamente onde os havíamos deixado.
Tudo permanecia como no dia em que partimos para o esconderijo da SPES para resgatar Natsunagi.
Quando perdi Siesta naquele dia, voltei direto ao Japão. Era como se eu estivesse fugindo.
"Esse lugar está mesmo limpo."
Pensei que o quarto estaria mais sujo, mas não havia um grão de poeira. Nenhuma caixa de pizza vazia, nenhum pacote de salgadinho espalhado.
Nossas xícaras de chá combinando estavam guardadas no armário de louças, em seus devidos lugares. Siesta deve ter limpado tudo minuciosamente antes de partirmos. Ela sabia que não voltaríamos.
Fui até o quarto. Aquele havia sido o quarto dela. Havia uma cama e um pequeno escritório ali. A escrivaninha tinha uma gaveta trancada.
"É isso mesmo. É aqui."
Lembrei da conversa que tive com Siesta sobre essa gaveta, um pouco mais de um ano atrás.
Tinha entrado no escritório dela a pedido e a vi escondendo algo naquela gaveta. Em seguida, ela trancou e tentou me fazer deduzir o que havia dentro:
"Se você quer tanto saber o que tem aqui, por que não tenta fazer uma dedução? Se for capaz, claro."
"Se você faz tanta questão de esconder, só pode ser aquilo-que-não-se-nomeia. Ouvi dizer que seus três grandes impulsos são mais fortes que os das outras pessoas, Siesta, então deve ser uma revista pornô pesada..."
"Você é idiota, Kimi?"
"Poxa, isso não é justo."
"Eu não sou você, tá?"
"Ai! Não precisava bater tão forte assim..."
“Isso aqui não é como aquelas pastas ocultas do seu computador, tá?”
“Ei, quanto você sabe?!”
“Você realmente não devia renomear suas pastas com títulos de dissertações em inglês super complicadas. Isso é muita ingenuidade.”
“É, melhor a gente não falar sobre isso. Sério, prefiro mudar de assunto agora.”
“Pode até funcionar com outras pessoas, mas comigo não funciona. Achei interessante e dei uma olhada.”
“Então eu devia ter nomeado com algo que não chamasse a sua atenção...? Tipo ‘100 Lugares Quentes do Instagram em Alta’ ou algo assim?”
“O que eu estou tentando dizer é...”
“?”
“...Não me jogue imagens tão vívidas assim, do nada.”
Siesta murmurou isso bem depressa. De maneira incomum para ela, corou e desviou o olhar.
“...Ok, isso nem é relevante agora. Preciso parar de me perder nas lembranças.”
Mudando o foco mentalmente, peguei a chave mestra que herdei da Siesta e liguei a luz fluorescente alaranjada. A chave era uma das Sete Ferramentas de Siesta; ouvi dizer que abria qualquer fechadura com facilidade. Ela a usou para invadir meu apartamento quando nos conhecemos.
“Não me decepcione, Siesta,” rezei, e então inseri a chave na fechadura.
Era bem possível que ela tivesse deixado uma pista sobre a luta contra a SPES ali, como legado. No entanto, provavelmente nem a Siesta do passado sabia tudo sobre a SPES.
Mesmo a clarividência da Mia, na qual Siesta confiava, não era perfeita. A própria Mia havia dito isso. Por isso Siesta correu aquele risco. Para evitar que eu percebesse como tudo terminaria, ela deve ter evitado me contar qualquer coisa importante ao longo daqueles três anos.
Mas agora que eu tinha completado a “lição de casa” que ela me deixou, tinha certeza de que cooperaria.
Com esse pensamento, girei a chave, abri a gaveta e…
“Uma carta?” Havia uma única carta dentro da gaveta.
O envelope estava lacrado com cera. Abri com um abridor de cartas e retirei o papel de carta. Era uma carta endereçada a mim, e começava com:
"Ao meu assistente."
“Você é idiota, Kimi?”
“...Isso não é justo.”
Por algum motivo absurdo, ela já estava me xingando logo na primeira linha. O que foi que eu fiz, hein?
Me recompus e continuei lendo a segunda linha:
"Tentar descobrir os segredos de uma garota? Isso é totalmente brochante, francamente. Mesmo agora, enquanto você lê isto, que métodos usou? Só de imaginar já me dá arrepios."
“O que tem de errado com você? Eu tava sendo sério aqui.” Tipo, você que mandou aquela empregada me dar a chave, tá?
"Dito isso, acho que o fato de você ter encontrado isso significa que quer pôr as mãos naquela informação , mesmo que precise ir tão longe."
Aí está. Exatamente. Acertei em cheio. Quero saber as informações sobre a SPES que você deixou para trás, e como derrotar o Seed.
Cheio de esperança, li a próxima linha:
"Entre os dois, prefiro shortcake de morango a Mont Blanc."
“Eu realmente não poderia me importar menos!”
Por pouco não joguei a carta longe. Sério, o que havia de errado com ela? Não tinha como eu ter vindo até Londres só pra descobrir isso... E, se bem me lembro, Siesta, quando me fez comprar essas duas sobremesas, você comeu as duas. A minha também.
"Brincadeiras à parte..."
“Eu não vim até aqui pra fazer número de comédia interdimensional com você, tá?”
"...Vou registrar aqui minhas observações sobre a SPES e seu líder, Seed."
Finalmente, o assunto sério. A carta continuava em uma segunda folha.
"Quando você estiver lendo esta carta, presumo que já terá um certo conhecimento sobre a SPES. Por isso, vou omitir os detalhes. Minha mão cansaria, de qualquer forma."
...Deixando de lado essa desculpa digna de uma aluna do ensino fundamental, a suposição de Siesta estava correta. Agora que eu tinha recuperado minhas memórias sobre o encontro com Seed e aprendido sobre os Tuners, conseguiria acompanhar sua explicação até certo ponto.
"Primeiro, a premissa: Seed é o progenitor de toda a SPES. Acredito que, se o derrotarmos, a produção de clones pseudohumanos cessará, o que levará à destruição da SPES. Portanto, nosso objetivo deve ser derrotar Seed."
Perfeito. Isso se alinhava com o que estávamos tentando fazer. Era exatamente por isso que viemos até aqui: buscar informações sobre Seed.
"No entanto, no momento, Seed não parece disposto a se mostrar. Podemos conjecturar que ele não quer fazer movimentos chamativos, e que não deseja guerra. Seu único desejo é satisfazer seu instinto de sobrevivência, e são apenas seus subordinados que estão cometendo atos de terror."
Comparando essa suposição com o que eu sabia até agora, fazia muito sentido. Seed nunca agira diretamente. Ele deixava Hel e os outros executivos fazerem todo o trabalho visível, tudo para atrair Siesta, sua candidata a receptáculo, para o campo de batalha.
Ele cultivava Siesta por meio da batalha... ou talvez estivesse alimentando o instinto de sobrevivência da semente que brotava dentro dela, ao fazê-la competir com Hel. Era isso que a sincronizaria com ele, a semente primordial.
"Como Seed não consegue se adaptar ao ambiente da Terra, está em busca de um receptáculo humano. Hel e eu estamos no topo da lista dele... Mas o que, exatamente, impede essa adaptação à Terra? Se conseguirmos determinar isso, pode ser seu ponto fraco."
...Entendi. Sim, fazia sentido. O que, exatamente, nesse planeta, era tão hostil a Seed? Essa era a chave para derrotá-lo.
“Pode ser a água, por exemplo, ou algum elemento do ar, como nitrogênio ou oxigênio. Podemos supor que sua fraqueza seja algo que existe em abundância na Terra, mas que não existia em seu planeta natal ou no espaço?”
As observações de Siesta continuavam em uma terceira folha de papel.
“O Vampiro parecia ter alguma pista, mas quando negociamos, não consegui pagar o preço que ele pediu, então, no fim, não consegui arrancar nada dele. Você também deve tomar cuidado com esse homem.”
Então Scarlet realmente estava envolvido. O que aquele vampiro narcisista teria pedido?
Melhor que não tenha pedido para Siesta se oferecer a ele. Se tiver feito isso, da próxima vez que o encontrar, eu juro que o mato enquanto dorme.
“Mais uma coisa importante: eu disse que Seed tende a não se mostrar, mas eu lutei com ele uma vez. Foi há quatro anos, naquela ilha.”
Quatro anos atrás. Mas essa carta havia sido escrita um ano atrás, então essa luta teria ocorrido há cinco anos. Siesta estivera na instalação da SPES seis anos atrás. Ela tentou um novo ataque contra Seed um ano depois?
“No entanto, não dá para chamar aquilo de uma luta, exatamente. A força de Seed era esmagadora. Em termos de pura força de combate, ele é provavelmente igual ao Vampiro ou ao Assassino; pode até superá-los. Fui completamente derrotada e fugi daquele lugar.”
Seed era, no mínimo, tão forte quanto um Tuner.
Naquela época, Siesta ainda era uma garota, nunca teria chance contra um inimigo desses. Seed provavelmente só a deixou escapar porque ela era uma candidata a receptáculo. Estava apostando no crescimento dela.
“Pouco tempo depois, conheci uma garota chamada Mia Whitlock, que podia ver o futuro. Mia se tornou uma Tuner e me admirava como alguém com mais experiência. Ela se preocupava comigo, e um dia, abriu uma exceção e me mostrou o que estava escrito sobre a SPES no texto sagrado.”
E o que Siesta teria visto ali...? Devia ser aquilo que Mia me contou no ônibus.
No início, o texto sagrado falava de um futuro em que Siesta era derrotada pela SPES, e Hel se tornava o receptáculo de Seed.
“Aquela experiência me mostrou que reverter o futuro e derrotar Seed exigiria um plano extremamente cuidadoso. Eu sabia que precisaria de mais informações sobre a SPES. Foi por isso que falei com você naquele dia, no alto dos céus.”
Isso foi quatro anos atrás, a dez mil metros de altura. Siesta, que me fez carregar sua arma no avião, já pretendia me tornar seu assistente desde o começo.
Tenho certeza de que foi por um único motivo: essa minha “predisposição”.
Comigo por perto, incidentes, e a própria SPES, viriam até ela.
“Aí eu fui descuidada e tirei um cochilo, então não consegui explicar o plano direito.”
Olha... você tem ideia do quanto eu fiquei apavorado naquela hora? Primeiro, fui jogado do nada num sequestro de avião, e depois tive que lutar contra um pseudohumano.
“Mas você conseguiu me acompanhar. Na verdade, se saiu até melhor do que eu esperava. Mais do que qualquer coisa...” Virei para a quarta folha.
“...conversar com você foi divertido.”
“Você é uma idiota?” acabei dizendo em voz alta.
“Quando percebi, já estava te arrastando comigo para todo lado por três anos inteiros. Me desculpa.”
Eu já tinha ouvido esse pedido de desculpas antes, quando Siesta assumiu temporariamente o corpo da Natsunagi… Droga, Eu disse pra ela não se desculpar.
“É provável que eu ainda esteja causando problemas para você. Se você está lendo esta carta, é porque falhei em matar Seed. Acho que estou te dando muito trabalho, e provavelmente também aos seus companheiros atuais.
Como Detetive Ace, e como Tuner, o fato de não ter conseguido garantir que a justiça fosse feita é, para mim, mais vergonhoso do que qualquer outra coisa. Ao mesmo tempo, quero me desculpar do fundo do coração com você, que ficou para trás.”
A carta tinha quatro páginas no total. Ela terminava assim:
“Por fim, embora eu quisesse delinear exatamente o que você deve fazer a seguir, nem eu consigo prever com precisão o futuro daqui a um ano. Em especial por causa dessa sua predisposição, o ambiente ao seu redor muda a cada dia. É bem provável que você esteja fazendo algo que nem mesmo a Oráculo consegue prever. Sendo assim, ao encerrar esta carta, vou depositar em você a mais tênue das expectativas. Estou ansiosa para ver você escolher um futuro que nunca ocorreria a mim.”
Esse era o fim da carta. Era típico da Siesta encerrar assim. Ao dizer que não podia prever o que eu faria, deixava tudo no ar, e ainda assim, parecia ter plena consciência de que o futuro que escolheríamos seria algo absolutamente inesperado.
“Mas que pena, Siesta. De todos os futuros improváveis, o que você menos espera é aquele em que você volta à vida.”
Com uma risada leve, me joguei na cama da Siesta e fiquei deitado, olhando para o teto.
Agora que pensei bem, passei uma noite com ela uma vez, quando ela bebeu demais. Depois daquilo, tivemos uma briga feia...
Puxa.
“Acorda logo, Siesta.”
Então a gente pode brigar de novo, e ficar todo sem jeito, e um de nós vai se desculpar sem graça, e depois a gente come pizza e bolo, e bebe chá, e tem conversas bem idiotas.
Enquanto pensava nisso... senti que, nesse momento, talvez conseguisse até sonhar com isso.
Ali mesmo, na cama, fechei os olhos suavemente.
Numa noite enluarada, você faz um voto….
Algo cheirava doce. Era uma fragrância como de perfume de rosas, algo reconfortante e familiar.
“Ah, você acordou.” Quando despertei de um mundo de escuridão, vi o rosto de uma garota bem perto do meu.
“...O que você está fazendo, Natsunagi?” Eu só tinha fechado os olhos por um minuto, mas aparentemente apaguei de vez.
"Estava te observando. Você dormia tão tranquilo quanto um bebê."
"Não se deita na cama de um cara assim, do nada."
"Seu coração disparou?"
"Estar na cama da Siesta com você me faz suar, mas não pelos motivos que você está pensando."
Siesta provavelmente me daria um soco sem dizer uma palavra. Num sonho, por exemplo.
"E aí? Por que você tá aqui, Natsunagi?" Será que ela e Mia já tinham terminado a conversa?
"Na verdade, como você chegou até aqui? Pegou um táxi? Não é seguro andar sozinha tarde da noite."
"...Uau! Então você está preocupada comigo."
O quarto estava escuro, mas dava pra ver que ela sorria. Tá bom, entendi, então para de me olhar desse jeito.
"E então? Conseguiu o que procurava?" ela perguntou.
"Sim. A Siesta deixou uma carta com uma pista. Parece que vamos precisar ajustar um pouco o plano a partir de amanhã."
Dito isso, o nosso plano ainda estava longe de ser claro. Para ser honesto, eu queria ouvir a opinião da Natsunagi também. Mas agora...
"E do seu lado? Como foi?"
Me apoiei em um dos cotovelos. Ela estava deitada ao meu lado. Enquanto eu estava ali lendo a carta, Natsunagi tinha ido conversar com a Oráculo sobre a possibilidade de trazer Siesta de volta à vida.
"Uhum. Vai dar tudo certo." Natsunagi assentiu. Sua expressão era séria e sincera.
"A Oráculo disse que esse futuro, ou a possibilidade dele realmente existe."
"Sério?! ...Então por que ela me mandou embora sozinho daquela vez?"
Lá no fundo, eu temia que esse caminho nem existisse, e que ela só tinha me mandado embora porque não teve coragem de me contar a verdade.
"Ah, isso foi... bem... Ela disse que precisava se vestir formalmente e fazer uns preparativos pra conseguir enxergar o futuro. Aposto que ela ficou com vergonha de você ver ela trocando de roupa."
O quê? Essa razão tão... de menina? Bom, não importava. Desde que não fosse o pior cenário que eu tinha imaginado...
"Mas ela ainda precisa de um tempo pra entender exatamente o que deve ser feito pra que esse futuro se concretize."
"Entendi... Mas só saber que é possível já é uma vitória."
Eu nunca achei que esse desejo fosse se realizar de um dia para o outro. Provavelmente, teríamos que sentar com a Mia e discutir tudo com calma.
Mas mesmo assim...
"Existe um jeito de recuperar a Siesta, então? Sério mesmo...?"
Naquela madrugada, eu tinha gritado isso. Tinha jurado aos berros que traria a detetive de volta à vida. Parte daquilo foi puro delírio. Eu não fazia ideia de como realizar um milagre tão absurdo...
Mas agora havia realmente uma chance? Será que eu poderia vê-la de novo, algum dia?
"Ei, Kimizuka." Natsunagi falou num tom leve.
"Você quer mesmo trazer a Siesta de volta à vida?"
"Sim, é claro que quero."
"Então você realmente gostava dela?"
"Qual é a relação entre essas duas frases?" Qual é desse "então", hein? Poxa...
"Ela não era minha namorada, e nem éramos amigos. Éramos apenas parceiros de trabalho."
"Entendi. Então era um amor não correspondido."
"Ei, não inventa coisa."
"Ah, relaxa. Pensa nisso como a última noite de uma viagem escolar. Vamos falar sobre romance? Vamos lá!"
"Por que você tá tão animada, hein? Para com isso. E acho que meninos e meninas não conversam sobre esse tipo de coisa, Tá bom! Já entendi! Para de me cutucar, caramba!"
Ela estava estranhamente insistente hoje... Espera aí.
"Natsunagi, espera... Você tá bêbada?" Aquele cheiro que eu pensei ser perfume... poderia ser bebida? Tudo bem que a idade legal pra beber na Inglaterra é dezoito anos, mas...
"Quem sabe? Toda garota tem seus segredos."
Ah é? Bom, se ela queria ficar animada, tudo bem. Só espero que não faça nada de que vá se arrepender depois. Será que amanhã ela vai estar se descabelando por isso? (Como eu estive naquela vez.)
"E aí? E aí? Fala a verdade. O que você realmente achava da Siesta, Kimizuka? Vai, vai, eu sou a única ouvindo."
Mesmo assim, Natsunagi não desistia. Parece que ela não ia me deixar escapar tão fácil… Bom, acho que não tenho escolha.
"Eu disse que ela era só uma parceira de trabalho. Deixa eu corrigir isso." Virei o rosto, olhando para o teto.
"O que ela era de verdade...?"
"...Uma parceira de trabalho um pouquinho especial."
"Uoooou!"
"Você tá me zoando, né!" Virei e dei um peteleco violento na testa da Natsunagi.
"Aiii! Kimizuka, seus petelecos doem de verdade, sabia?!" ela gritou. Dava pra ouvir um chorinho nas entrelinhas da voz dela.
E aí? Isso te fez voltar ao normal um pouco? "Ué, achei que você gostasse de dor!"
"Eu odeio dor sem amor por trás!"
"A própria masoquista clássica..."
Por favor, só não se envolva no futuro com um cara violento ou algum idiota que você tenha que bancar.
"...Haaah. Bem, se consegui te arrancar essas palavras, acho que valeu a pena."
Natsunagi parecia finalmente ter se acalmado um pouco. Murmurando para si mesma, ela se sentou.
"Natsunagi?" Sentada na cama, ela me encarava com firmeza.
"Deixa comigo," ela disse com convicção, ali sob a luz do luar.
"Eu vou trazer a Siesta de volta, não importa o que tenha que fazer. Eu juro pelo nome da detetive substituta." Natsunagi sorriu para mim.
Aquelas palavras soaram tão confiáveis que, por um momento, pensei que não me importaria de deixar todo o meu destino nas mãos dela.
Seu sorriso era tão bonito que eu quis permanecer ali, olhando para ele, até o fim do mundo.
Traduzido por Moonlight Valley
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