LNCrawler

Capítulo 6

A Detetive Já Está Morta — novelmania.com.br · All chapters

Capítulo 6

6. O confronto final

Depois de nos despedirmos de Bat, voltamos para o carro, e Charlie assumiu o volante, seguindo a trilha de Seed. Concentramos a busca em locais onde ele provavelmente buscaria abrigo, edifícios escuros, onde a luz do sol não o alcançasse, e utilizamos o olho esquerdo de Saikawa para eliminar possibilidades com precisão.

Por fim, chegamos a um grande shopping abandonado nos subúrbios. A demolição ainda não havia começado; o prédio estava coberto de trepadeiras, e o interior era tão escuro que precisávamos de lanternas, mesmo em pleno dia.

Caminhamos pela estrutura até que, no terceiro andar do estacionamento, encontramos nosso alvo.

“...Kimizuka, tome cuidado.”

“Eu sei. Natsunagi, cuide da Saikawa.”

Como Seed visava usar Saikawa como receptáculo, achei mais seguro deixá-la sob os cuidados de Natsunagi, em uma posição recuada.

“Kimizuka... Vamos assistir a filmes de zumbi juntos depois disso, tá?”

“Claro. E aproveita e faz uma assinatura Prime pra mim enquanto estamos aqui,” respondi, tentando aliviar a tensão com uma brincadeira.

Charlie e eu trocamos um olhar firme e então, nos voltamos para encarar Seed.

“Então é aqui que você está.”

O estacionamento estava repleto de carros abandonados. Seed estava bem ao fundo, a cerca de uma dúzia de metros de nós.

Seus cabelos longos tinham uma cor difícil de definir, algo entre o cinza e o prateado. Seu rosto, inexpressivo e sem traços marcantes, transcendia nacionalidade e até gênero. Havia algo nele que inspirava reverência, quase como se fosse sagrado.

A semente primordial era capaz de mimetizar a estrutura do corpo humano, e parecia ter desenvolvido uma espécie de armadura orgânica. Notei rachaduras em seu pescoço, talvez resultado de sua breve exposição à luz solar. Sua orelha direita também estava ausente. Seria possível que houvesse outros danos ocultos sob aquela proteção?

“Por que vocês desperdiçam tanta energia para lutar?”

Eu estava prestes a alcançar minha arma na cintura, mas os olhos púrpura-escuros de Seed me atravessaram como lâminas.

“Qual é a razão do conflito? Pense bem. É porque sou aquilo que vocês chamam de inimigo mortal? Por rancores do passado? Pela morte de alguém da sua espécie? É apenas um meio de extravasar sua raiva? Vai mesmo pegar em armas por motivos tão sentimentais? É incompreensível.”

“Então está dizendo que não quer lutar?” Charlie estreitou os olhos, desconfiada. Sua mão continuava firme na bainha da espada.

“Nunca quis. Não existe nada mais inútil do que desperdiçar energia em conflitos fúteis.”

Lembrei do que Siesta escrevera em sua carta, Seed não tinha um gosto natural pela violência. Ele apenas utilizava seus subordinados como ferramentas para realizar seu plano.

“Seed, o que você é, afinal?” Minha pergunta era abstrata, mas era essencial entender isso antes do confronto final.

“Só sei que você é a semente de uma planta vinda do espaço, que o sol é seu maior inimigo, e que está cultivando receptáculos humanos para sobreviver. Mas por que essa obsessão com sua sobrevivência? Por que invadir nosso mundo?”

Talvez ele se perguntasse por que eu estava querendo entender agora. Mas ainda assim, respondeu:

“Fiz um pouso forçado na Terra há pouco mais de cinquenta anos.”

Sem demonstrar hostilidade, ele começou a relatar sua história. Era como se fosse ele quem desejasse encerrar tudo de forma pacífica.

“Como a semente primordial, vagava pelo espaço em uma cápsula externa resistente a temperaturas desde o zero absoluto até dez mil graus Fahrenheit. Um dia, uma supernova explodiu em uma galáxia a dezenas de milhares de anos-luz de distância. A onda de choque desestabilizou meu curso, e acabei caindo neste planeta.”

“Você era como um meteorito...?” Lembrei do modelo da semente primordial no laboratório da SPES. Tinha o tamanho de uma pedrinha. E foi assim que a crise global vinda do espaço chegou à Terra, silenciosamente.

“Pousei em uma terra fria, escura e deserta. Não demorou até que uma sensação gélida me alertasse: minha cápsula havia sido danificada. Provavelmente na aterrissagem,” continuou Seed.

“Ainda assim, continuei me movendo, levado pelo vento. Aos poucos, a temperatura subiu, e o ambiente ficou mais claro, e foi aí que o problema começou.”

“O sol,” murmurou Charlie.

“Pude sentir minhas sementes murchando rapidamente. Mesmo assim, achei que, se conseguisse sair daquele deserto, escaparia da fonte de calor que brilhava sobre mim. Protegido pelos fragmentos restantes da minha cápsula, viajei com o vento pelo mundo.”

“...E então percebeu que não havia lugar no planeta onde pudesse fugir,” completei. Aquilo certamente foi o ponto em que seu instinto de sobrevivência se consolidou de vez.

“! Kimizuka, olhe,” disse Charlie, em alerta. Fitei Seed com atenção, a orelha direita que Bat havia cortado estava inchando, como se bolhas subissem à superfície da pele. Células estavam se dividindo... Ele estava se regenerando.

“Logo descobri que o nome do meu inimigo era ‘o sol’. Pouco a pouco, compreendi os mecanismos deste planeta. Que ele tinha ‘dia’ e ‘noite’. Que abrigava inúmeras formas de vida, como lobos, morcegos e camaleões. E que os ‘humanos’ ocupavam o topo da cadeia alimentar. Eles eram os reis deste mundo.”

O restante, provavelmente, corresponderia ao que eu já tinha lido na carta de Siesta e visto no laboratório.

Seed havia infiltrado os corpos de humanos e animais, estudando suas estruturas. Conforme reunia amostras, aprendeu a se disfarçar como essas criaturas. Essa técnica levou à descoberta de sementes que podiam aprimorar órgãos. Ele criara clones a partir de fragmentos de si mesmo. Humanos começaram a se reunir em torno dele, atraídos pelo poder das sementes, e então ele unificou ambos os grupos, dando origem à organização SPES.

Embora Seed esperasse conquistar o sol usando um corpo humano como receptáculo, a semente primordial consumia rapidamente os nutrientes dos humanos, e seus receptáculos murchavam quase instantaneamente. Para cultivar um corpo compatível, criou uma instalação de testes, disfarçada de orfanato, e tentou encontrar crianças especiais, como Natsunagi (Hel), Siesta e Alicia.

“Demorou cinquenta anos... mas achei que estava prestes a realizar, enfim, meu instinto de sobrevivência,” murmurou Seed, seus olhos voltados a algum ponto distante.

“No entanto, por alguma razão... o futuro que eu acreditava conhecer não se concretizou. Dois receptáculos foram perdidos ao mesmo tempo, bem diante dos meus olhos.”

Esse era o plano que Siesta havia arquitetado. Ela e Mia tinham armado uma armadilha e o enganado.

“Agora, permitam-me fazer uma pergunta.” Os olhos do inimigo voltaram-se para nós, escuros como o vácuo.

“Por quê? Por que iriam tão longe para me impedir? Qual razão justificável vocês têm para negar meu instinto de sobrevivência? Não pretendo destruir a raça humana. Aqueles que não servirem como receptáculo podem simplesmente viver em áreas onde não interfiram em meus planos. Podemos coexistir, desde que separados... E ainda assim, vocês insistem em me enfrentar. Por quê?”

Seed não desejava necessariamente uma guerra. Estava tentando encontrar um compromisso.

Isso jogava a nosso favor, mesmo com ele ferido, mesmo com a vantagem numérica do nosso lado, enfrentá-lo diretamente continuava sendo perigoso. Vários Tuners haviam falhado antes de nós. Não havia garantia alguma de vitória.

“Eu entendo o que você está dizendo,” falei a Seed, sem sequer empunhar minha arma.

“Não vamos matá-lo. Nem ao menos pretendemos atacá-lo. Não condenamos seu instinto de sobrevivência. Se houver algo de que precise para continuar vivendo, faremos o possível para ajudar.” No entanto….

Por um instante, virei o rosto para trás, olhando para as garotas que nos acompanhavam.

“Mas não vamos entregar Yui Saikawa. Não vamos permitir que sacrifique nem uma única de nossas amigas.”

Siesta, Natsunagi, Charlie ou qualquer outra, eu não deixaria que usasse nenhuma delas como receptáculo.

O que quer que acontecesse, eu jamais permitiria que alguém fosse sacrificado para que outro pudesse viver.

Era isso o que eu queria dizer, não só por mim, mas também à Detetive Lendária que já havia partido.

c1dc40803da8ebf4783b9aeaf6f51bfc.jpg

"Oh, então é disso que se trata?", murmurou Seed. "Finalmente entendo por que ocorreu uma desconexão tão fatal entre mim e vocês, humanos."

"O que você quer dizer? O que está tentando dizer?", perguntei, com um pressentimento ruim. Algum sexto sentido me dizia que a próxima coisa que ele dissesse causaria uma ruptura decisiva entre nós. Mas já era tarde demais para impedir, pois Seed continuou.

"Vocês, humanos, caíram do topo do ecossistema há muito tempo e, ainda assim, se recusam a servir de base para uma espécie superior. Isso vai contra as leis do mundo natural."

Seed estava dizendo que, assim como a humanidade havia sobrevivido se alimentando de outros animais, ele satisfaria seu instinto de sobrevivência usando os humanos como receptáculos. Sua alegação era de que essa era uma nova lei natural.

"Os humanos sentem culpa ao comer uma vaca, um porco ou uma ave? Desenvolvem sentimentos especiais por cada forma de vida individual? Isto não é diferente. Não sinto nada ao usar seus corpos como receptáculos."

"......!", Charlie lançou um olhar penetrante para ele, e sua mão se tensionou sobre a empunhadura da espada.

"Está dizendo que nem mesmo sente gratidão por aqueles que farão de você o que é? Que não se importa com quem eles são ou com o que são?"

"Vocês, humanos, conseguem distinguir o rosto de uma vaca ou porco de outro?", disse Seed, arregalando os olhos e inclinando a cabeça de maneira exagerada. Seu pescoço estalou audivelmente.

"...Ah, entendi." Finalmente, compreendi.

Seed não estava falando com indivíduos, com Kimihiko Kimizuka e Charlotte Arisaka Anderson. Assim como os humanos não conseguiam distinguir as formigas que rastejavam a seus pés, Seed nos enxergava apenas como “humanos” em geral.

Por exemplo, quando Hel havia fugido no ano anterior, em Londres, o clone Chameleon teve dificuldades em encontrá-la. Apesar de terem trabalhado juntos por anos como membros da SPES, quando ele reencontrou Natsunagi naquele navio de cruzeiro, não percebeu quem ela era.

Não era de se surpreender que seu criador, Seed, também não enxergasse normalmente os humanos como indivíduos. A única coisa que ele notava era se o sujeito à sua frente era ou não um exemplar defeituoso para se tornar seu receptáculo.

"Agora entenderam, humanos?", disse Seed, fitando os quatro de nós como um único grupo, sem sequer piscar.

"Isso não é uma questão de bem ou mal. É uma conclusão lógica sobre a forma que a natureza deve assumir."

No sentido mais verdadeiro da palavra, Seed não estava olhando para ninguém. Fiz uma última pergunta:

"E se dissermos que vamos resistir mesmo assim?"

"Os humanos também não mostram misericórdia ao seu gado."

Ele estava certo. Eu não podia negar isso. Saquei meu Magnum e apontei para o inimigo.

"Entendi. Mas é o seguinte: os humanos são péssimos em saber a hora de desistir."

Fim da Rota X

Tentáculos brotaram das costas de Seed, com pontas afiadas voltadas para nós. O rosto do nosso inimigo continuava inexpressivo. Como ele havia dito, não desperdiçaria energia atacando primeiro. Mas, quando fosse para revidar, eu tinha certeza de que não hesitaria.

"Natsunagi e Saikawa, abriguem-se atrás das colunas!", gritei por sobre o ombro.

Então Charlie e eu avançamos.

"Qual é o plano?", perguntou Charlie, lançando-me um olhar.

"O de sempre."

"Ou seja, não temos nenhum. Certo."

Mesmo nos preparando para a batalha, trocávamos piadas. Exceto pelo ano em branco, era assim que sempre agíamos.

"Você acha que ela vai dizer que eu me saí bem?", murmurou Charlie, com a voz soando um pouco mais jovem que o de costume.

Eu não precisava perguntar quem era "ela". Charlie sempre estava focada na grande Detetive de Elite, a garota que deixava suas ações falarem por si.

"Acho que eu sentia inveja de você, Kimizuka." Sem nem me olhar, Charlie correu em direção ao inimigo.

Apertei com mais força minha arma, e nos separamos, correndo contra Seed de direções opostas.

"Eu corri atrás da Senhora, e você andava ao lado dela, Kimizuka", disse Charlie.

"Tive a sensação de que nunca seríamos iguais enquanto eu vivesse... e eu invejava você. Mas... percebi que tudo bem ser assim. Afinal..."

A agente corria pelo campo de batalha, desviando dos tentáculos que a cercavam, com seu rabo de cavalo loiro esvoaçando.

"Enquanto eu estivesse um passo atrás da Senhora, poderia proteger as costas dela!", gritou.

Então, sua espada dourada cortou os tentáculos que vinham em sua direção. Ela deu um passo largo rumo ao inimigo e….

"! Parem!"

Atrás de nós, Saikawa gritou. Seu olho esquerdo devia ter percebido algo. Foi quando uma violenta tremedeira nos sacudiu verticalmente e de um lado para o outro ao mesmo tempo.

"...! Um terremoto?", Charlie parou subitamente.

Não. Aquilo não era um terremoto. Era….

“Superfície do Planeta Explodindo Sementes, Minhas sementes já foram plantadas por todo este mundo.”

Ao falar, Seed fez com que incontáveis espinhos brotassem do chão e das paredes do estacionamento. O edifício estivera sob seu controle o tempo todo.

"...Droga!"

Os espinhos se enroscaram em mim. Atirei contra eles, mas pareciam não ter fim. Enxames de cipós espinhosos também avançavam contra Saikawa e Natsunagi. Natsunagi estava com seu mosquete e conseguia lidar com eles de alguma forma. Saikawa, porém, não era boa com armas e logo foi cercada pelas plantas espinhosas.

"Yui!"

Charlie, que se libertou mais rápido do que qualquer um de nós, correu até Saikawa. Sua espada dourada cortava os espinhos para os dois lados, quase como se dançasse. Quando eliminou todos, estendeu a mão para ajudar a outra garota, mas foi nesse momento que aconteceu.

"Não, Charlie, não!" Saikawa viu algo com seu olho esquerdo e empurrou Charlie para longe.

E então….

"....!"

Um dos tentáculos de Seed disparou de um ponto cego e roçou o pescoço de Saikawa.

"Saikawa!"

Daquela distância, eu não conseguia ver a profundidade do ferimento, mas a localização era péssima. Um sangue vivo jorrava do lado direito de seu pescoço.

"...Ué? Que estranho. Eu consegui salvar o Bat assim uma vez."

Saikawa segurava o pescoço com uma das mãos. Seu rosto estava pálido, mas ela ainda tentava forçar um sorriso. Seu olho esquerdo lia o campo de batalha melhor que qualquer um de nós... mas isso não significava que seu corpo conseguiria acompanhar.

"Yui...!"

Charlie tentou correr até ela novamente, mas o chão ao redor de Saikawa desmoronou. Um emaranhado gigantesco de espinhos brotou do piso inferior, a engoliu, e ela desapareceu sem ter tempo de dizer uma única palavra.

"Saikawa...!"

"Yui!"

Minha voz e a de Natsunagi se sobrepuseram... mas já não havia mais como alcançá-la.

"Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!"

Charlie foi a primeira a reagir. Correu em direção a Seed, os cabelos loiros desgrenhados.

"Você disse que aquele receptáculo era sua amiga? É incrível vocês se chamarem de ‘amigos’ quando não conseguem protegê-la direito."

Aparentemente, Seed também não tinha a intenção de ferir Saikawa. Ele lançou um olhar frio para Charlie. Então, um tentáculo que crescia de um ponto próximo à sua espinha tornou-se prateado, como aço, e rebateu a lâmina dourada que Charlie havia lançado contra ele. O resultado foi….

".........Oh." Na cena seguinte, Charlie estava no ar.

Ouvi o estalo de sua espada se partindo, seguido de um som surdo. Um breve soluço escapou de seus lábios, o tentáculo de aço se enrolou em sua cintura como um chicote e….

"Os humanos são realmente frágeis." Ele a lançou por entre as plantas que cobriam o prédio e para fora da garagem.

"...A que altura estamos do chão?"

Um calafrio me percorreu o corpo inteiro enquanto meu sangue gelava. Se ela se chocasse contra o chão daquela altura, sem sequer conseguir tentar amortecer a queda, Charlie….

"Natsunagi! Vá atrás dela!"

As únicas palavras que saíram da minha boca foram previsíveis. Eu nem sabia direito se falava de Saikawa ou de Charlie. Apenas pedi, de forma simples e vital, para que a Detetive de Elite salvasse nossas amigas. Em troca….

"Seed!"

Sem esperar a resposta de Natsunagi, corri sozinho contra Seed, Magnum em mãos. Graças a Charlie, todos os espinhos que bloqueavam o caminho haviam sido eliminados.

"Faltam dois, é isso?" Tentáculos brotaram das costas de Seed, avançando em minha direção.

Apoie-se em toda a sua experiência, mire apenas para matar, perfure a garganta do inimigo com suas balas. Era tudo o que eu precisava fazer naquele momento.

Não sentia dor. Comparado à dor de perder alguém precioso, aquilo não era nada. Com Seed bem à minha frente e minha arma negra na mão direita, eu….

"Sim. Isso é o que significa aperfeiçoar o instinto de sobrevivência."

Quando ouvi o inimigo dizer isso, eu já estava deitado no concreto frio. Espere... era o chão que estava frio ou eu?

Provavelmente havia sido atingido por um daqueles tentáculos. Meu corpo não se mexia direito. Ele havia me acertado em um ponto vital, ou eu já havia perdido sangue demais?

"Tanto faz."

Nada iria acontecer se eu não me levantasse. Eu precisava tentar mais uma vez atingir a semente primordial e destruí-la. Mesmo que meu corpo estivesse pesado como chumbo, eu precisava me mover, agora.

"Mova-se." Eu sabia disso.

Sabia, mas meu corpo não obedecia mais. E, mesmo assim, eu já nem sentia ansiedade quanto a isso. Era o quanto minha mente estava enevoada.

Era aqui que minha história terminaria.

Eu não derrotaria Seed, nem acabaria com a SPES. Nunca encontraria um futuro onde eu pudesse recuperar minha parceira mais querida. Não me restava força para inverter essa realidade a meu favor.

"Então é isso, hein?"

Ao perceber que estava prestes a morrer, me levantei. Pela primeira vez, a expressão de Seed se distorceu, mesmo que levemente.

Como eu ainda conseguia ficar de pé? Nem eu sabia. Ter engolido aquela semente me dera poderes físicos e recuperação sobre-humanos? Ou estar à beira da morte havia liberado uma dose absurda de adrenalina? Ou talvez...

"É porque Siesta prometeu."

Ela nunca me deixava vê-la chorar. Mesmo assim, com as lágrimas escorrendo pelo rosto, ela jurou que viria me ver de novo um dia. Enquanto eu não reencontrasse Siesta de verdade, eu não tinha permissão para morrer.

"Esse é o meu instinto de sobrevivência. Com as mãos trêmulas, apontei minha arma para o inimigo.

“Está tudo bem.”

Nesse instante, uma sensação suave envolveu minhas costas. Eu nem precisei olhar para saber que era Natsunagi. Nagisa Natsunagi estava me abraçando por trás.

“Há algo que você precisa fazer, Kimizuka. Lembra? Então, durma um pouco.”

Sua voz suave se infiltrava no meu cérebro como uma hipnose. Tentei reagir, mas minhas pálpebras estavam ficando pesadas e se recusavam a me obedecer.

“Natsu...nagi...”

Desabei no chão. E, pouco antes de adormecer, ouvi a garota de olhos vermelhos em brasa fazer uma declaração ao supervilão:

“Eu, a Detetive de Elite, derrotarei esse inimigo do mundo.”

0d5d42a320ccec8af67f8c4644f2e20d.jpg

Uma detetive de fraude Nagisa Natsunagi

“Essa personalidade é capaz de utilizar completamente minha semente?”

Seed, que estava parado logo adiante, olhou para mim com frieza. Ele tinha percebido que eu havia usado o poder da Palavra-Alma de Hel.

“Então, consegue me distinguir, não é?”

Seria porque este corpo era um vaso no qual ele havia investido tempo e esforço? Nesse caso, talvez ele realmente se ressentisse de mim por ser um defeito... Bem, isso não importava mais agora. Eu lutaria contra esse homem de qualquer forma.

Depois de lançar um último olhar ao rosto adormecido de Kimizuka, virei-lhe as costas e me levantei.

“Onde está a Yui?”

“Transformá-la em um vaso adequado exigirá certos preparativos.”

Seed não respondeu diretamente. No entanto, parecia que Yui ainda estava viva em algum lugar. Se ele planejava usá-la como receptáculo, não podia permitir que seu corpo morresse, o que significava que ainda podíamos salvá-la.

“Você pretende me obstruir também?”, perguntou Seed, de maneira impassível. Ele havia notado que minha mão se fechava com mais força em torno do mosquete.

“Estou ciente de que duas identidades adicionais dormem dentro de você. Pretende lutar sem a ajuda delas?”

Ele falava de Hel e Siesta. As duas haviam sido os melhores candidatos a vasos para Seed. No entanto, suas mentes foram condensadas em um só corpo graças a Siesta, e Seed acabou perdendo as duas de uma vez.

Como as fortes personalidades de Hel e Siesta já estavam adormecidas dentro deste corpo, se Seed tentasse tomá-lo à força, eu, o receptáculo externo. provavelmente seria destruída. Sabendo disso, ele havia desistido de me usar como vaso. Por isso...

“Sim, eu mesma lutarei contra você. Afinal, se eu deixasse Hel assumir agora, você tentaria tomar este corpo novamente, não é?”

O fato de que as poderosas consciências de Hel e Siesta estavam adormecidas dentro de mim era o que tornava possível manter Seed afastado. Eu não conseguiria cumprir esse papel. Então, restava a mim proteger esse corpo por fora.

“Mesmo que isso a coloque em desvantagem no combate... mesmo que arrisque sua vida... está dizendo que jamais se tornará meu vaso?”

De forma alguma poderíamos permitir que Seed obtivesse um receptáculo. Se ele conquistasse o sol, a única fraqueza que conhecíamos, nossas chances de derrotá-lo seriam praticamente nulas. Isso significava que eu não poderia permitir que ele tomasse este corpo.  Mas...

“Você está enganado sobre uma coisa.”

Enquanto falava, sorri.

Mesmo em uma situação dessas, era isso que a Detetive de Elite teria feito.

“Não vou deixar que me use como receptáculo, mas também não tenho a menor intenção de morrer.”

Apontei meu mosquete para Seed e puxei o gatilho. Como era de se esperar, os tentáculos do inimigo bloquearam a bala antes que ela o atingisse.  Mas isso era exatamente o que eu queria.

“Agora seus tentáculos jamais poderão me atacar de novo.”

Era a bala vermelha que Siesta havia usado tempos atrás, do tipo em que colocava seu próprio sangue. Quem fosse atingido por ela não poderia se voltar contra seu mestre. Agora Seed não podia me atacar, nem ao coração de Siesta dentro de mim.

“Entendo. Depois que derrotei aquela criatura, ela aprendeu esse truque?”

Seed abaixou temporariamente os tentáculos que se estendiam de suas costas.

“No entanto, fui eu que criei esse sistema originalmente, recombinando genética, a fim de evitar conflito com minha própria espécie. Existem diversas formas de contorná-lo.”

Seed lançou um tentáculo em alta velocidade em direção a um ponto acima da minha cabeça.

“......!”

O ataque atingiu o teto, e uma grande lâmpada fluorescente despencou sobre mim. Consegui desviar a tempo, mas cacos de vidro se cravaram nas minhas pernas.

“...Então você vai atacar objetos ao meu redor, e não a mim diretamente.” Seed estava planejando me atingir indiretamente.

“Como regra, prefiro não desperdiçar energia. No entanto, acabo de assegurar um novo vaso. Cumprirei meu dever como pai e eliminarei as variantes defeituosas antes de partir”, declarou ele, com indiferença.

Então quatro tentáculos brotaram de suas costas, atingindo as paredes e o teto ao meu redor, ondulando como se tivessem vontade própria.

“Tente me acertar, então!”, desafiei, desviando de luzes fluorescentes que caíam e pedaços de pilares voando. Talvez fosse porque Hel usou este corpo por anos, ou talvez porque ela ainda estivesse lutando comigo agora; eu continuava desviando dos ataques do inimigo com movimentos que nenhum humano comum conseguiria fazer.

“Isso é pela Charlie!”

Usando as nuvens de poeira como cobertura, passei por seus ataques e disparei. A bala acertou em cheio o ombro de Seed, e um fluido verde espirrou... Mas, mesmo assim, sua expressão não se alterou. Ele inclinou a cabeça num ângulo antinatural.

“Está se vingando pela morte de outro humano?”

“Seria preciso muito mais que isso para matar a Charlie.” Apoiei-me em uma coluna, recuperando o fôlego.

“Falando em vingança...”

Carreguei o próximo ataque no mosquete; ele havia sido modificado para facilitar o carregamento.

“Vou devolver a você a dor que Alicia sentiu.” Abaixei-me e corri em direção ao inimigo.

“No fundo, então, suas ações são baseadas em sentimentos?”

“...Agh...!”

De repente, cipós espinhosos cresceram sob meus pés, cravando-se neles. Enquanto eu estava presa, os tentáculos do inimigo agarraram um carro abandonado próximo e o lançaram contra mim.

“Aaaaaaaaaaaaaaaaaaah!” Disparei contra os espinhos sob meus pés, libertando-me, e então….

“Mexa-se, pernas!”

Usando a Palavra-Alma, dei a mim mesma uma ordem, forçando minhas pernas ensanguentadas a se moverem. A enorme carcaça metálica passou a um fio de mim.

Logo em seguida, houve uma explosão. O carro havia se chocado contra a parede e, ao se amassar, vazou gasolina, que logo pegou fogo. O estacionamento estava coberto de plantas, e em instantes, o lugar todo estava em chamas.

"…E daí?! Quem se importa?" Limpei o suor e o sangue que escorriam pela minha testa, depois recarreguei minha arma. Estas eram as últimas balas. Como eu poderia vencê-lo?

Até agora, eu usara a paixão que ardia dentro de mim como minha arma. Kimizuka também havia contado com minhas emoções. Mas, contra este inimigo, nada disso importava. Ele sequer compreendia o conceito de sentimentos. O que eu poderia fazer contra alguém assim?

"Vou lhe perguntar mais uma vez", disse Seed, como se tivesse lido meus pensamentos. Sua voz era fria, naquele campo de batalha em chamas.

"Por que vocês, humanos, dão tanto valor às emoções? Às vezes escolhem agir com base nelas, mesmo em detrimento do instinto de sobrevivência, que deveria ser o desejo mais fundamental de qualquer ser vivo."

Ele não piscava. E não perguntava por curiosidade fútil. Seed queria entender, ele, uma criatura caída neste planeta, fazia aquela pergunta a mim, um ser humano.

"Então você não percebeu."  Mesmo tendo tido inúmeras oportunidades. Mordi o lábio, parada entre as chamas, e gritei para Seed:

"A Alicia tentou proteger a Siesta e a mim, ignorando o perigo para si mesma, isso é amizade! Hel sempre ficou ao seu lado e deu o melhor de si em tudo, isso é tristeza! Yui pensava nos pais, e os pais dela sempre colocaram a filha acima de tudo, isso é amor! Charlie herdou o último desejo da Siesta após sua morte e continuou realizando missões sozinha, isso é dedicação! Albert arriscou todos os aspectos da própria vida para salvar a irmãzinha, isso é devoção! E Siesta morreu confiando tudo ao Kimizuka, a mim, e aos seus amigos, isso é paixão! Tudo isso... são emoções humanas. E tê-las é o que nos torna humanos!"

Naquele momento, essa era a melhor resposta que eu poderia dar.

"Entendo. Não compreendi isso nem um pouco. Provavelmente é algo parecido com a forma como os humanos não conseguem perceber o canto dos insetos como linguagem inteligível."

Em meio às chamas, a expressão de Seed permanecia inalterada.

"Muito bem. Terminei de recombinar meus genes. Acho que agora posso atacá-lo."

Mesmo durante a luta, Seed vinha manipulando seu próprio DNA. As pontas de seus tentáculos voltaram a se virar para mim. Atrás de mim, Kimizuka jazia no chão, dormindo profundamente. Eu não podia fugir.

"……!"

Um minuto atrás, havia apenas uma pessoa de quem eu não tinha falado para Seed: meu parceiro e assistente, Kimihiko Kimizuka.

Siesta era mais preciosa para ele do que qualquer outra pessoa. E ele estava tentando trazê-la de volta, mesmo que isso significasse pisar em território proibido aos humanos. Não parecia certo eu dizer que tipo de emoção era essa, aqui e agora. Talvez nem existisse uma palavra que a descrevesse.

Isso significava que Kimizuka teria que encontrar essa resposta por si mesmo, um dia. Talvez ele recorresse a métodos proibidos, enfrentasse o mundo inteiro como inimigo, talvez até lutasse contra os Tuners, mas ele a traria de volta. Ele traria Siesta de volta, com certeza. Eu sabia disso. Afinal, eu já havia encontrado o caminho que levava a esse futuro.

"Você tem certeza de que isso está certo?" Do nada, senti como se uma voz ecoasse na minha mente.

Era a pergunta que me havia sido feita dois dias antes, no topo da torre do relógio mais alta da Inglaterra, por uma garota capaz de ver o futuro.

Depois que ela mandou Kimizuka embora e ficamos só nós duas, ela me falou sobre a distorção que ocorreria ao tentarmos reverter um futuro predestinado, cometendo o tabu de ressuscitar os mortos.

Assim como só poderia existir uma pessoa no mundo com os dons de um Oráculo, talvez o mundo só permitisse uma Detetive Definitiva. Então, se criássemos um futuro onde Siesta voltasse à vida, eu seria….

"Sim. Está tudo bem."

Naquele momento, eu não consegui responder de imediato. Mas agora eu tinha uma resposta.

"É verdade, não é?"

O papel que me foi dado. A missão que eu precisava cumprir aqui e agora.

"Sou a detetive substituta." Essa decisão eu havia tomado há um ano.

"............!" No instante seguinte, o tentáculo de Seed atravessou meu estômago.

"..................gk, ah, .........kh!"

Uma dor mais intensa do que qualquer outra que eu já sentira tomou conta de mim, e quase desmaiei. Quando o tentáculo se retraiu, o sangue escorreu em grandes e ruidosas gotas vermelho-escuro. Aquilo provavelmente seria um ferimento fatal. Mesmo assim…

"Corram, pernas!"

Usando meu poder da "palavra-alma" mais uma vez, dei a mim mesma uma ordem firme: corra, corra. A dor não importa. Esqueça tudo, apenas siga em frente.

"Talvez eu realmente não seja páreo para você!"

Eu passara minha vida em um leito de hospital, sem conseguir correr nem cem metros. Mas agora, eu tinha pernas que podiam correr, e uma razão para fazê-lo. Eu não iria parar.

"Mas, um dia, alguém vai derrotar você!"

Olhando para frente, reunindo minhas últimas forças, jurei aquele voto ao inimigo do mundo. Então, escondida entre a fumaça negra e as chamas, me aproximei dele. Mas não empunhava o mosquete, estava com minha outra arma.

"Talvez a idol do Japão o convença com uma canção, ou a agente loira o domine com suas habilidades de luta!"

Era uma das espadas favoritas de outra parceira minha. Eu a havia encontrado no centro de testes, pouco antes de deixarmos o esconderijo da SPES, ontem.

"Me empreste sua força", supliquei em silêncio, apertando o punho da espada com firmeza.

"Ou talvez um garoto sem graça, usando um casaco, mude sua opinião com suas palavras atrapalhadas... Ou, quem sabe, uma Detetive Definitiva de cabelos brancos o derrote com um plano engenhoso que ninguém mais seria capaz de conceber!"

Dois metros nos separavam. No instante em que saltei para fora da fumaça negra, usando a força emprestada de Hel, desferi um golpe com o sabre vermelho mirando o pescoço do inimigo.

"Eu não estarei lá para ver esse futuro acontecer, mas posso afirmar isto: nunca existirá um futuro onde você governa este planeta e conquista a humanidade!"

No fim da minha batalha final, o que eu consegui foi...

"…Não foi o bastante, né?"

Faltando apenas alguns centímetros para decepar a cabeça do inimigo, meu sabre vermelho foi bloqueado por um tentáculo moldado como uma espada. E então...

"Você também, Hel?"

Enquanto minha consciência começava a falhar, ouvi Seed murmurar essas palavras, em um sussurro quase inaudível.

"Estamos prestes a ser interrompidos", disse ele. Quase ao mesmo tempo, percebi ao longe o ruído rítmico de um helicóptero. Eram reforços e, como Seed já havia cumprido seu objetivo principal e garantido um receptáculo, ele simplesmente desapareceu.

"...Acho que é o fim."

Aparentemente, eu já não conseguia mais enganar meu cérebro com o poder da palavra-alma. Cambaleei e desabei no chão.

"Ki...mizuka..."

Em meio às chamas ardentes, comecei a rastejar em direção ao corpo imóvel de Kimizuka. O oxigênio era escasso. Eu havia perdido muito sangue. Meus pensamentos estavam embaralhados, e respirar parecia impossível. Ainda assim, estendi a mão, apenas a ponta dos dedos, em sua direção.

"Obri...ga..."

Não consegui terminar a frase.

Mas, no final, havia realizado o que sempre sonhei: eu me tornei alguém. Sentindo uma leve satisfação, adormeci.

Meu nome é Nagisa.

Nagisa Natsunagi, detetive substituta.

Meu último desejo impediu que a missão da detetive desaparecesse. E ela será herdada por quem lutar a seguir.

Traduzido por Moonlight Valley

Link para o servidor no Discord

Entre no nosso servidor para receber as novidades da obra o quanto antes e para poder interagir com nossa comunidade.