Capítulo 2
Capítulo 2
EPÍLOGO E PRÓLOGO
“Entendo. Então, uma crise global chegou ao fim.” Do outro lado da linha, a garota suspirou, aliviada.
“É. Já se passou uma semana, mas aparentemente o selo sobre Seed continua firme.” No corredor de um pequeno hospital, apoiei-me na parede.
Uma semana antes, havíamos enfrentado uma calamidade mundial naquela cidade tomada por plantas. Siesta, Hel e eu havíamos lutado contra Seed; no fim, vencemos, mas a um custo elevado.
Hel, a segunda personalidade de Nagisa Natsunagi, infundiu a espada vermelha com a própria mente e com o poder da semente dentro de si, selando ambos junto de Seed na árvore. A árvore ainda se erguia ali, como uma torre de vigia observando a humanidade.
“Excelente trabalho, Kimihiko”, disse a garota ao telefone.
“Você escolheu um caminho para o futuro que nem mesmo eu fui capaz de prever e salvou o mundo de forma magnífica. Como Tuner, você tem a minha gratidão. Obrigada.”
Mesmo através da ligação, e apesar dos nove mil quilômetros que nos separavam, eu conseguia imaginar que ela estava se curvando.
“...Eu não fiz nada.”
Era verdade. Uma crise global havia terminado, mas não fora eu quem lhe dera fim. Foram os sacrifícios de Siesta, de Natsunagi e de tantos outros companheiros. E, por fim, fora Hel quem adormecera Seed, guiada pela paixão herdada de sua mestra.
Será que ela fora feliz no fim? Pensei nisso enquanto observava a grande árvore.
Os mortos não falam; por isso, os vivos devem respeitar esse silêncio. Não deveríamos falar em nome deles.
Ainda assim, pensei, contra minha própria vontade. A vida de Hel fora uma busca constante por amor. Eu não conseguia deixar de desejar que ela estivesse dormindo em paz, sob a proteção daquela árvore, junto de Seed, que finalmente aprendera, ou melhor, lembrara, o que significava sentir emoções.
“Quem realmente passou por dificuldades foi você, Mia”, disse, mudando de assunto.
Como Oráculo, o papel de Mia como Tuner era prever as crises do mundo, e ela ajudara Siesta a lutar contra Seed durante anos. Talvez tivesse até mais história com ele do que eu. Agora que tudo chegara ao fim, ela havia retornado à torre do relógio em Londres.
“Você também. E então? Como estão seus ferimentos?”
“Ah, estou bem o suficiente para falar ao telefone.”
Dito isso, um dos tentáculos de Seed havia atravessado meu flanco. Eu ainda poderia estar à beira da morte. No entanto, os efeitos da semente que eu engolira pareciam ter permanecido. Graças ao seu impressionante poder de regeneração, o ferimento quase cicatrizara por completo. Seed pode tê-la extraído, mas, para o bem ou para o mal, talvez parte de seus efeitos tivesse ficado. Mais importante ainda…
“Se for para comparar, Siesta saiu mais ferida.”
No campo de batalha, Ouroboros havia mordido o pescoço de Siesta, causando um ferimento grave. Ela fora levada para aquele hospital e, apenas naquele dia, recebera autorização para visitas. O fato de a recuperação ter levado tanto tempo, mesmo com a impressionante capacidade regenerativa dela, mostrava o quão sério fora o ferimento.
“Acredito que ela vá se recuperar mais rápido se você for vê-la. Pelo poder do amor, sabe?”, brincou Mia.
“Isso é outra profecia?”
“Intuição feminina.”
…Ah, é mesmo? Disse que falaria com ela mais tarde e desliguei. Ao chegar diante do quarto de Siesta, respirei fundo antes de abrir a porta.
Depois de um ano separados, eu finalmente me reunia com minha antiga parceira. Por causa das circunstâncias, ainda não havíamos conseguido conversar de verdade. Agora que tínhamos tempo, o que eu deveria dizer? Sobre o que falar? Sem conseguir organizar meus pensamentos, abri a porta mesmo assim.
“Ei, como você está se sentindo?” Para um quarto particular, ele era bem espaçoso.
A detetive prodígio estava sentada na cama, próxima à janela, vestindo um avental hospitalar.
“Não acredito que você se recuperou antes de mim. Acho que estou perdendo o jeito”, disse Siesta, virando-se para mim. A luz do sol da manhã refletia em seus cabelos prateados, e ela exibia um sorriso travesso. Talvez não desse para chamar isso de “ótimo”, mas ao menos ela parecia bem o suficiente para brincar.
“Charlie também está aqui, hein?” Notei a agente loira sentada em uma cadeira próxima à cama. Ela devia ter vindo visitá-la, mas estava cheia de curativos.
“...O que foi, Charlie?”
Charlie ainda não havia dito nada. Parecia inquieta; lançava olhares furtivos para Siesta e logo desviava o olhar para as próprias mãos. Sempre fora muito apegada à detetive. Eu não teria me surpreendido se ela tivesse se jogado nos braços dela de alegria, mas…
“Sim, foi exatamente o que eu pensei no começo”, disse Siesta, percebendo o que eu queria dizer.
“Aparentemente, vê-la novamente depois de tanto tempo a deixou envergonhada, e ela não sabe como agir comigo.”
“S-senhora! Por favor, não diga isso!”, protestou Charlie, mantendo os olhos fixos nos joelhos, enquanto o rosto ficava vermelho como uma maçã.
“Charlie, você virou uma donzela apaixonada ou algo assim?”
“C-cala a boca. Você sabe que eu não consigo evitar.” Seja lá o que fosse aquilo, estava sério. Mesmo quando ela retrucava, faltava convicção.
“Quer dizer, eu nunca imaginei que um milagre desses pudesse acontecer… Claro que eu acreditava, e planejava fazer o que fosse necessário. Mas agora que realmente aconteceu, eu não sei o que fazer…”, murmurou, cerrando os punhos.
“Venha aqui.”
Observando sua querida aprendiz, Siesta falou com suavidade. Os ombros de Charlie estremeceram, e ela ergueu o rosto lentamente.
“Desculpe por ter te feito sofrer.”
Pedindo desculpas a Charlie do mesmo jeito que fizera comigo, Siesta afagou sua cabeça com carinho.
“…Ngh. Senhora… Senhora…!”
Os olhos de Charlie se arregalaram, cheios de lágrimas. Ela se agarrou a Siesta, chorando como uma criança.
“Aff. Não dava pra ser honesta desde o começo?”, murmurei, depois de observá-las por um tempo, sorrindo de lado enquanto ia trocar as flores no vaso perto da janela.
“…Você é a última pessoa de quem eu queria ouvir isso, Kimizuka.” As orelhas afiadas de Charlie captaram meu comentário; ela espiou de dentro dos braços de Siesta e me lançou um olhar fulminante.
“Vocês dois não mudaram nada. Não conseguem se dar um pouco melhor?”
“Nunca vai chegar o dia em que o Kimizuka e eu vamos nos dar bem!” Com a cabeça apoiada no colo de Siesta, Charlie começou a me insultar.
“Eu achei que a gente tinha começado a se entender um pouco.”
“É possível entender algo logicamente e, ainda assim, ser fisicamente incapaz de suportar.”
“Desculpa, Siesta. Acho que estamos exatamente onde estávamos há um ano.”
Se nem esse incidente tivesse sido suficiente para nos aproximar, então nada seria. Suspirei e me sentei num banquinho perto da cama.
“Hehe.”
Inesperadamente, os lábios de Siesta se suavizaram num sorriso. Ela acariciou o cabelo de Charlie.
“Está tudo bem. Faz muito tempo que não vejo vocês dois fazendo esse teatrinho.”
““Não é um teatrinho, senhora!””
Charlie e eu falamos em uníssono, depois trocamos olhares hostis. No meio da nossa pequena guerra…
“Eu realmente gostaria que vocês não fizessem essas festinhas divertidas sem mim!”
Era uma idol com mechas rosa e brancas no cabelo e um tapa-olho cobrindo o olho esquerdo. Yui Saikawa havia chegado.
“Yui!” Charlie se sentou rapidamente, aliviada. …Mas seu olhar estava focado em Saikawa num ângulo mais baixo do que o normal.
“E aí. Já está melhor?”
“Estou perfeita! …Bom, isso talvez seja um exagero, mas estou indo bem!”
Da cadeira de rodas, Saikawa nos mostrou um sinal de paz. As pernas estavam bem, mas ela ainda não tinha força suficiente para andar. Noches, a criada anteriormente conhecida como SIESTA, empurrava a cadeira. Ela vinha cuidando de todos ao longo da última semana.

“Você sempre parece tão à vontade nesse uniforme de empregada.”
“E você sempre repara nas mesmas coisas, Kimihiko.” Entendi. Eu já sabia que aquilo não era um elogio.
Enquanto Noches e eu conversávamos…
“Esta é a primeira vez que nos encontramos pessoalmente, não é? Da cama, Siesta ofereceu a Saikawa um sorriso gentil.
“Prazer em conhecê-la, Siesta. Eu sou Yui Saikawa, a idol mais fofa do mundo!”
Da cadeira de rodas, Saikawa fez sua melhor apresentação promocional. Siesta já sabia da existência de Saikawa e vinha trabalhando nos bastidores para protegê-la, mas aquela era a primeira vez que se encontravam frente a frente.
“Disseram-me que causei muitos problemas a você. Me desculpe.”
Uma leve sombra passou pelo sorriso de Saikawa enquanto ela inclinava a cabeça. Os pais de Saikawa haviam financiado as atividades da SPES no passado.
“Não há nada pelo que você precise se desculpar, Yui”, disse Siesta, acariciando o cabelo de Saikawa.
“E obrigada por cuidar do meu assistente enquanto eu estive ausente.”
“Siesta…” As duas se encararam por um instante e, então…
“Sim, para ser sincera, cuidar do Kimizuka deu bastante trabalho. Fiz massagens nele, cozinhei para ele… Pode não parecer, mas ele é bem manhoso. Houve até momentos em que precisei segurá-lo bem apertado…”
“Pare de inventar coisas.”
“Ai!” Dei um golpe de caratê na cabeça de Saikawa. Seus olhos se encheram de lágrimas.
“Mas eu não estava…” O que ela murmurava já não fazia muito sentido para mim.
Siesta me lançou um olhar gelado, e tive a impressão de que ela murmurara uma certa palavra começando com “p”. Porém, como havia um barulho de obras bastante conveniente do lado de fora, não consegui ouvir direito.
“Ainda assim, entendo.” Os olhos de Siesta suavizaram, e ela voltou o olhar para mim.
“Então esses são seus companheiros atuais, Kimi.”
Além de Siesta, estavam ali Saikawa, Charlie e Noches. E, embora não estivessem fisicamente presentes, Mia e a policial ruiva provavelmente também contavam.
Comparado a alguns anos atrás, eu definitivamente tinha mais amigos e havia conquistado coisas muito mais preciosas. Naquele momento, eu conseguia pensar isso do fundo do coração… ou pelo menos deveria.
No entanto, havia uma pessoa que não estava ali.
Balancei a cabeça.
“Tem mais uma. Se a deixarmos de fora, ela ficaria mais brava do que qualquer um.” Ao ouvirem isso, tanto Saikawa quanto Charlie baixaram o olhar.
Nagisa Natsunagi.
O coração de Alicia fora transplantado com sucesso, e a ordem do Seed primordial a retirara de seu estado de dormência. Depois, durante o confronto final, Hel selara permanentemente a própria mente. Não teria sido estranho que a personalidade de Natsunagi despertasse e tomasse seu lugar.
Mas uma semana havia se passado. Seus ferimentos haviam sido completamente tratados, e, ainda assim, ela não acordava. Estava dormindo sozinha, em outro quarto do hospital.
“Eu não me esqueci dela, é claro. Como eu poderia esquecer?”, disse Siesta, com os olhos fechados. Quando os abriu novamente, completou:
“Então, assistente, vamos partir numa jornada para salvar nossa amiga.” Ela estendeu a mão esquerda para mim.
“Mas como?” Havia algo que ainda pudéssemos fazer? Enquanto eu hesitava, Siesta continuou:
“Ainda há alguém que precisamos encontrar e com quem precisamos conversar.” …Ah, claro.
Essa pessoa estava profundamente envolvida com a nossa situação atual, mas ainda não havia aparecido. Ao longo da última semana, eu tentara entrar em contato com ele várias vezes, mas ele nunca dera as caras.
Pelo modo como Siesta falava, porém, um encontro já havia sido marcado. E havia muitas coisas que precisaríamos discutir com ele.
“Nesse caso, se estiver pronta, vamos vê-lo?” Mesmo ainda em repouso, Siesta se sentou na cama ao dizer isso.
“…O médico do submundo que salvou todas as nossas vidas.”
Aquele que protege os vivos
Depois de ajudar Siesta a se acomodar numa cadeira de rodas, seguimos para outro quarto do hospital. Não queríamos invadir o local em grupo, então fomos apenas nós dois, representando os demais.
Percorremos o corredor mal iluminado daquele pequeno hospital e, ao abrir a porta do quarto… Vimos uma garota deitada na única cama.
“Natsunagi…” Empurrando a cadeira de rodas de Siesta, aproximei-me.
Eu já havia visitado aquele quarto várias vezes durante a semana, mas ainda não tinha conseguido vê-la sorrir como antes.
“As condições para que Nagisa desperte parecem estar reunidas”, disse Siesta, observando-a atentamente da cadeira de rodas, analisando a situação.
“Tudo o que resta são fatores que nós, como leigos, não conseguimos detectar. Por exemplo, se houve danos internos graves. Digamos que ela tenha conseguido, milagrosamente, superar a morte cerebral ao entrar em dormência. Ainda assim, é possível que isso tenha causado estresse excessivo no cérebro, levando-a a um estado vegetativo.”
“É… é basicamente isso que eu também pensei”, respondi.
“Passei a última semana lendo todos os artigos médicos que consegui encontrar, mas um amador estudando isso às pressas nunca chegaria a uma teoria sólida. Além disso, como a Natsunagi é um caso especial, estudos anteriores provavelmente não ajudam muito.”
Era exatamente por isso que precisávamos de um especialista. Aquele médico já havia salvado a vida de Natsunagi uma vez; talvez soubesse o que seria necessário para despertá-la novamente.
“Antes de se preocuparem com os outros, vocês deveriam se lembrar de que ainda estão gravemente feridos.” Uma voz masculina falou atrás de nós.
Virei-me… mas ele nem sequer me olhou. Em vez disso, caminhou diretamente até Natsunagi.
“Ela está progredindo bem. Ao que parece, não houve nenhum problema real enquanto eu estive ausente”, murmurou o homem em um tom bastante monótono, ajustando o soro conectado ao braço de Natsunagi.
“Obrigado por toda a sua ajuda”, eu disse.
Só então ele se virou para nos encarar por cima da cama. Parecia ter pouco mais de trinta anos.
Tinha cabelos loiros claros, e os olhos por trás dos óculos redondos possuíam uma cor discreta. Mesmo à primeira vista, sua inteligência era evidente nos traços do rosto. Vestindo o jaleco, ele parecia tanto um pesquisador erudito quanto um médico experiente.
“Você está se referindo a esta garota? Ou a si mesmo?” Ele falou de maneira objetiva, sem alterar a expressão.
“Já tratei mais pacientes do que consigo contar, então há casos demais aos quais você poderia estar se referindo.”
Soava como uma piada, mas o homem falava de forma direta, sem qualquer mudança de tom. Eu devia ter percebido que ele não era o tipo que fazia brincadeiras.
“Refiro-me a nós dois. E também à Siesta, à Saikawa e à Charlie… Você ajudou todos eles. Sou grato por isso.”
E não me referia apenas a desta vez. Eu havia sido trazido àquele hospital quando fui ferido na batalha anterior contra Seed, e aquele médico também cuidara de mim naquela ocasião. Ele era o diretor do hospital e o homem a quem eu havia perguntado sobre o estado de Natsunagi.
Pelo que eu ouvira, aquele hospital não atendia pacientes comuns. Ele existia para tratar pessoas em situações especiais como a nossa. Durante os três anos em que viajamos, tanto Siesta quanto eu fomos salvos repetidas vezes por médicos clandestinos como aquele.
“Não há necessidade de agradecimentos. É o meu trabalho, e o dever que devo cumprir neste mundo.”
…A conversa não fluía de forma natural. Era como se nenhuma de suas palavras permitisse margem para interpretação. Ele parecia se recusar a ler nas entrelinhas, ou a permitir que nós o fizéssemos.
“Suponho que eu ainda não tenha me apresentado.” Sem se importar com o clima ou com o momento adequado, ele continuou com o rosto inexpressivo.
“Sou Stephen Bluefield, o Inventor.”
O Inventor….
Ao ouvir isso, a primeira coisa que me veio à mente foi Thomas Edison, o mundialmente famoso rei das invenções. Se voltássemos um pouco mais no tempo, havia também Hiraga Gennai, no Japão, inventor do gerador eletrostático. No entanto, era óbvio que o homem à nossa frente não se referia a inventores comuns como esses.
“Ele é um Tuner”, explicou Siesta, que ouvira em silêncio até então.
“Ele também esteve envolvido na criação das minhas Sete Ferramentas. Foi ele quem preservou meu corpo em criogenia, em animação suspensa, equipou-o com uma IA e criou a Noches. Ele é o Inventor, um médico do submundo.”
…Então eu estava certo.
Duas semanas antes, eu perdera a chance de encontrá-lo no esconderijo da SPES. Embora não o tivesse visto naquela ocasião, esse homem era o médico desconhecido que se estabelecera no laboratório. Um Tuner, um dos doze guardiões do mundo.
“Faz muito tempo, Stephen”, disse Siesta, olhando para ele da cadeira de rodas.
Esses Tuners pareciam compartilhar uma longa história que eu desconhecia.
“Sim. Vê-la se movendo e falando dessa forma deixa claro que o tratamento experimental de um ano foi um sucesso”, respondeu Stephen, lançando um leve sorriso enquanto observava a paciente a quem dedicara tanto esforço por tanto tempo.
“Você e Nagisa salvaram a minha vida”, disse Siesta.
“Mas, Stephen, se você considera sua missão salvar vidas, então, por favor… salve Nagisa desta vez.”
Ela estava pedindo ajuda novamente, para pagar a dívida que sentia ter com Natsunagi. Siesta acreditava que aquele homem era o único que poderia saber como despertá-la.
“Daydream.” Stephen chamou Siesta por seu apelido enquanto anotava algo no prontuário.
“Você está subestimando drasticamente as minhas habilidades como médico.”
Aquilo soou estranho. Não deveria ser “superestimando”? Ele não estava sendo modesto nem dizendo que não tinha tal poder.
“Para salvar meus pacientes, meus clientes, eu sempre faço tudo o que está ao meu alcance. Empenho todo o meu esforço e utilizo cada fragmento de conhecimento e habilidade técnica que possuo. Se, ainda assim, o paciente não desperta, eu jamais me culpo. Sei que já fiz tudo o que podia ser feito.”
Não havia raiva nem frustração em sua voz. Ele apenas expunha os fatos frios e objetivos, enquanto Siesta e eu escutávamos em silêncio.
“Se ainda houvesse algo que eu pudesse fazer por um paciente, isso provaria que eu havia negligenciado algo anteriormente. Como Tuner e como médico, tenho orgulho dos meus princípios. Posso garantir que fiz tudo o que estava ao meu alcance.”
Naquele momento, compreendi por que a srta. Fuubi havia me dito, naquele dia, que “Nagisa Natsunagi está morta”.
Ela fizera aquela afirmação com base na confiança que depositava no Inventor.
A srta. Fuubi certamente conhecia bem a filosofia pessoal de Stephen Bluefield. Quando ele realizava um tratamento e diagnosticava morte cerebral, ela entendia que não havia mais nada a ser feito.
“Aquela outra vez também… então foi por isso…”
Pensando melhor, quando eu havia jurado trazer Siesta de volta à vida algumas semanas antes, Fuubi sugerira uma possibilidade ao me falar de Mia Whitlock, a Oráculo. Colocar-nos em contato com Stephen teria sido a escolha mais natural, já que o Inventor estivera envolvido no tratamento de Siesta.
Mas ela não o fez.
Ela sabia que o Inventor já havia dado o seu máximo, e que não restava nada para ele fazer. Ainda assim, eu acreditava em milagres. Por isso, ela me apresentou à Oráculo; simplesmente não havia outra pista.
“Portanto, não há mais nada que eu possa fazer por Nagisa Natsunagi.”
Após declarar de forma categórica que o tratamento atual era a última opção, Stephen virou-se bruscamente e deixou o quarto, o jaleco branco esvoaçando atrás de si. Ele estivera ausente durante toda a semana; provavelmente seguia agora para outro paciente em circunstâncias especiais.
“Espere.” Siesta moveu sua cadeira de rodas atrás dele. Ao segui-los até o corredor, vi que o Inventor havia parado, ainda de costas para ela.
“Eu também conheço suas filosofias”, disse Siesta.
“Você tem outra: você se recusa a realizar cirurgias que sejam cem por cento impossíveis. Ou seja, se você se envolve em um caso, existe uma chance concreta de que aquele paciente seja salvo.”
Essa era a segunda convicção do Inventor. Siesta insistia que, sendo assim, ainda devia existir ao menos 1% de chance de Natsunagi despertar.
“Você diagnosticou Nagisa como morta cerebralmente e, de acordo com a vontade dela, doou o coração dela para mim. Mas você não parou aí.”
Ela estava certa. Stephen havia transplantado o coração de Alicia para Natsunagi. Normalmente, pacientes com morte cerebral não tinham qualquer possibilidade de recuperação. Ainda assim, Stephen realizara o segundo transplante, o que só podia significar que ele enxergara ao menos uma chance mínima de sucesso.
“Naquele dia”, começou Stephen, ainda de costas para nós.
“Após Nagisa ser declarada com morte cerebral, eu transplantei o coração dela em você. Como médico, essa era a minha obrigação. No entanto…” Ele se virou para nos encarar.
“Depois disso, eu agi como inventor.” O leve sorriso em seus olhos azuis era inquietante.
“Eu odeio milagres que não podem ser reproduzidos.” Sua expressão voltou imediatamente ao semblante frio e analítico de antes.
“Seres humanos comuns não retornam à vida. Tenho plena consciência disso. Ainda assim, eu estava extremamente atento ao fato de que os seus corpos não são normais.”
Enquanto falava, Stephen observava Siesta, ou talvez o lado esquerdo de seu peito.
“Também fiquei intrigado com a semente primordial que fez de você o que é.”
“Foi por isso que você trabalhou tanto tempo no laboratório da SPES?”, perguntei.
Quando Natsunagi e eu visitáramos o local duas semanas antes, Noches havia comentado que Stephen conduzia pesquisas sobre a semente primordial ali, ao mesmo tempo em que continuava o tratamento de Siesta.
“Exatamente. Na verdade, quando a Daydream morreu, há um ano, preservei seu corpo por meio de criogenia… mas a operação não foi bem-sucedida apenas por causa da minha habilidade.”
Ele lançou um olhar para Siesta enquanto explicava o processo de sua ressurreição.
“Imediatamente após a morte, você fez uma tentativa involuntária de preservar sua própria vida, entrando em estado de dormência.”
Então, enquanto realizava a cirurgia de Nagisa, Stephen tivera uma revelação.
“Como a única hospedeira totalmente compatível com a semente primordial, ela pode ter feito o mesmo, entrando deliberadamente em animação suspensa.”
Foi isso que o levou a ajudar Natsunagi pela segunda vez, mesmo depois de ela ter sido considerada morta.
“Por esse motivo, após transplantar o coração dela para você, transplantei o coração de Alicia para ela. Eu temia que o coração de Nagisa estivesse danificado demais para o procedimento, então levei um reserva do laboratório, e isso se provou a decisão correta.”
“Então foi por isso que o coração da Alicia estava aqui…”, murmurou Siesta.
Os testes medicamentosos pelos quais Siesta, Natsunagi e Alicia haviam passado seis anos antes haviam lhes concedido DNA da semente primordial. Era por isso que os três corações eram compatíveis entre si, e por isso as cirurgias haviam sido bem-sucedidas.
“Ambas as operações, incluindo os transplantes, foram concluídas sem incidentes. No entanto, nem você nem Nagisa despertaram imediatamente.”
Stephen voltou-se para mim.
“Em especial, Nagisa não apresentou reações vitais capazes de invalidar meu diagnóstico de morte cerebral, e o limite estava se aproximando. Foi então que você visitou o quarto dela.”
Lembrei-me de ter segurado a mão de Natsunagi, que esfriava de forma constante, cerca de dez dias antes.
“Portanto, não revoguei o diagnóstico de morte cerebral. Considerei esse o desfecho natural. Se vivêssemos em um mundo onde os mortos pudessem ressuscitar com tanta facilidade, médicos não seriam necessários.”
Ele tinha razão. Sob a ótica da medicina moderna, Natsunagi havia morrido naquele momento.
No entanto, três dias depois, Stephen mudou de opinião.
Uma semana antes, Siesta despertara, e Hel ressurgira pouco depois. Em três dias, o coração que originalmente pertencera a Siesta se ajustara ao corpo dela, e a ordem da semente primordial despertara Natsunagi de sua dormência.
“Eu odeio palavras levianas como ‘milagre’”, disse Stephen mais uma vez.
“Por que milagres não acontecem de forma consistente? Isso é ilógico. Eu só acredito em fenômenos que podem ser repetidos.” Ele fez uma pausa breve antes de continuar.
“Se a semente primordial trouxe dois humanos de volta da morte, então ela deve ser tratada como uma pedra filosofal reproduzível.”
“Então… ainda poderia haver um milagre capaz de despertar Natsunagi outra vez…”, murmurei.
Mas, mesmo enquanto falava, percebi o problema.
A própria semente primordial já havia sido perdida. Além disso.
“Não há sequer um fragmento da semente no corpo de Nagisa. Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance por uma humana comum.”
A discussão retornara ao ponto inicial.
Tanto como médico quanto como inventor, Stephen já havia cumprido seu dever ao máximo de suas capacidades. Agora, ele seguiria para salvar outro paciente em circunstâncias especiais, deixando Natsunagi para trás.
“Você usou a vida da Alicia…!”
Minha voz estrangulada ecoou pelo corredor. Ele havia usado o coração de Alicia. A vida dela. E se, depois de tudo isso, Natsunagi nunca despertasse? Isso não podia estar certo.
“Assistente.” Siesta puxou suavemente a manga da minha roupa. Meus punhos estavam cerrados, e minhas unhas cravavam nas palmas das mãos.
Outro problema me atravessou a mente.
Eu sabia que Stephen usara o coração de Alicia para salvar Natsunagi, como médico. Mas, naturalmente, a vontade de Alicia não estivera envolvida. Aquilo realmente fora a decisão correta?
Eu não conseguia….
“Não é minha função falar pelos mortos.” Ao ouvir a voz de Stephen, ergui o olhar.
“Os mortos não podem falar por si mesmos. Sendo assim, minha missão é salvar a vida que está diante de mim. Ajudar as pessoas por meio da ciência. Não pode haver nada além disso.” Eu sabia disso.
Apenas supor o que alguém teria desejado e, então, desejar isso em seu lugar… isso seria apenas arrogância por parte dos vivos.
No entanto, certa vez, uma idol havia encerrado um debate desses com palavras bonitas; vestira um belo vestido e enfrentara o ceticismo com uma canção. Eu não sabia dizer se aquilo tinha sido certo ou não.
Ainda assim. Se os mortos não podem falar, então a pergunta também não existe. E, se não há pergunta, talvez nunca tenha havido uma resposta correta.
“Deixe-me ser claro, Kimihiko Kimizuka.” Stephen pronunciou meu nome completo, embora eu nunca tivesse dito a ele qual era.
“Se isso significar que salvarei duas pessoas, matarei uma. Não posso salvar as três. Sempre pense no todo, no maior bem possível. Os números são tudo. Aquilo que salva o maior número de pessoas é o que está certo. Eu trabalho para salvar os vivos e não tenho tempo para considerar os últimos desejos dos mortos. Meu próximo paciente está esperando.”
Com isso, Stephen foi embora.
Em resposta… Os rostos sorridentes de Alicia e Natsunagi surgiram em minha mente, e fui incapaz de dizer qualquer coisa.
“Vamos voltar.” Siesta puxou suavemente o punho da minha manga outra vez.
Assenti em silêncio e retornei até a porta do quarto de Natsunagi, que havíamos deixado aberta.
“Desculpa por te fazer ouvir tudo isso, Natsunagi”, disse à sua figura adormecida.
Estendi a mão em direção à dela… mas, por algum motivo, não consegui tocá-la. Senti como se não tivesse esse direito, considerando que ainda não havíamos encontrado uma forma de despertá-la.
“…Hm? O que é isso?” Notei algo que parecia um livro antigo sobre uma prateleira próxima. Ele estava perto do local onde Stephen estivera parado antes.
“! Isso é….”
Os olhos azuis de Siesta vacilaram, e eu lhe entreguei o livro. Quando ela o abriu… o interior parecia ser um diário ilustrado de uma criança. Na fotografia, uma garota de cabelos negros estava sentada sobre uma cama, conversando com uma garota de cabelos brancos e outra de cabelos rosados que estavam ao seu lado.
“É o diário da Alicia”, murmurou Siesta. Ela apertou o livro contra o peito com cuidado, como se fosse algo precioso.
“…Então nós já tínhamos a resposta.” Ao ver o diário de Alicia e o perfil de Siesta, lembrei-me.
O coração de Alicia havia despertado o corpo de Natsunagi uma vez. Eu tinha visto aquelas três meninas de pé, lado a lado. Aquilo era a resposta. Mesmo que fosse um desejo egoísta, decidi acreditar naquela visão, e nas palavras que Hel deixara para trás.
“Depressa, acorde, Natsunagi”, disse à garota na cama. E então vamos ter outra discussão idiota, como sempre.
Uma jornada para predizer o mundo
Três dias se passaram. Durante esse tempo, Siesta, Saikawa, Charlie e eu quebramos a cabeça tentando encontrar uma maneira de despertar Natsunagi.
Stephen, seu médico responsável, já havia lavado as mãos em relação ao assunto. Ele dissera algo no sentido de que não havia mais nada que pudesse fazer, mas isso não significava necessariamente que não houvesse absolutamente nada que pudesse ser feito.
Partindo dessa suposição, Siesta mencionou o nome de um especialista que poderia assumir o lugar do Inventor, e decidimos que iríamos encontrá-lo imediatamente.
Porém…
“Ei, posso pedir um lanche?” Ao meu lado, Siesta segurava o cardápio de bordo.
Eu nunca imaginei que ela me arrastaria para um avião no dia seguinte à nossa alta hospitalar…
“É caro, então não. Eu disse para você comprar alguma coisa no quiosque, lembra?”
“O que eu podia fazer? Aquela confusão no trem fez a gente chegar em cima da hora. E a culpa foi praticamente toda sua, Kimi.”
Os olhos apáticos de Siesta se fixaram em mim. Desculpa, mas se você vai andar comigo, vai acabar sendo arrastada para confusões aleatórias. Ela já tinha esquecido disso?
“Ainda assim…” Siesta me observou por um instante e mudou de assunto.
“Já faz bastante tempo desde a última vez que nós dois viajamos de avião juntos, não é?”
Estávamos cruzando o céu a dez mil metros de altitude. Foi assim que conheci Siesta naquele dia fatídico, quatro anos atrás.
“É. Nem dá para contar quantos aviões eu peguei com você depois disso.”
“Acumulamos uma quantidade absurda de milhas, não foi?” Ao lembrar daqueles três anos, nós dois rimos um pouco.
Hoje, nosso destino era Nova York. Para encontrar uma certa pessoa e participar de um certo conselho, estávamos atravessando o mundo pela primeira vez em um ano.
“Você tem certeza de que está bem para viajar?” perguntei mais uma vez. Ela havia se ferido mais gravemente do que eu, mas deixou o hospital e embarcou no avião assim que conseguiu andar.
“Sim. Eu quero me apressar um pouco.”
“É… tanto pela Natsunagi quanto por esse conselho.” Aproveitei para perguntar sobre um de nossos objetivos.
“Então? O que exatamente é esse Conselho Federal?”
O Conselho Federal, Siesta havia me pedido para acompanhá-la a uma reunião de todos os Tuners do mundo. O conselho parecia ser realizado em locais variados, conforme a necessidade; desta vez, seria em Nova York. E, como a Detetive Ás era uma Tuner, Siesta tinha a obrigação de comparecer.
“Em termos simples, é um lugar onde os doze Tuners se reúnem e conversam sempre que o mundo atinge um grande ponto de inflexão.”
Enquanto respondia, Siesta beliscava um chocolate comprido e fino. Quando foi que ela comprou aquilo?
“Quando uma nova crise global está prestes a surgir, eles decidem quem vai lidar com ela. Como a crise da ‘semente primordial’ acabou desta vez, imagino que também haverá um relatório pós-ocorrência.”
“Entendi. Então você vai apresentar seus feitos como a Detetive Ás, é isso?”
Pelo que eu estava ouvindo, parecia que nós seríamos o destaque dessa conferência, de certa forma.
.…Ainda assim, reunir-se presencialmente nos dias de hoje fazia aquele grupo parecer bem antiquado.
“Está nervosa?”
“Estou tremendo de empolgação.”
“Literalmente, ao que parece.”
Tente não tremer quando é jogado direto em uma discussão gigantesca que vai decidir o futuro do mundo.
“Bom, vai ter muita gente que você conhece lá.” Siesta sorriu de leve.
“Como ela, por exemplo.”
“Ah, a Srta. Fuubi? Sim, eu estava me perguntando como vocês duas se conheciam. Só não imaginava que fosse dessa forma.”
Depois do sequestro de quatro anos atrás, Siesta havia entregue Bat aos cuidados da Srta. Fuubi. Elas já estavam conectadas antes mesmo de eu me dar conta disso, companheiras que protegiam o mundo a partir das sombras.
“Então a Mia também vai estar lá?”
“Essa é uma boa pergunta. Ela nunca participou antes.”
De fato, era difícil imaginar uma caseira como a Mia comparecendo a uma reunião tão tensa. Pensando bem, a própria Srta. Fuubi havia dito que nunca tinha conhecido o Oráculo pessoalmente.
“Então quer dizer que as pessoas podem simplesmente faltar?” Um conselho que previa o rumo do mundo parecia algo extremamente rígido, mas…
“Todos os Tuners, exceto eu, têm uma ou duas excentricidades. Poucos são bons em se relacionar com os outros.”
“Você fala como se fosse normal.”
Siesta apenas tomou um gole do chá, fingindo não entender do que eu estava falando. Você simplesmente trouxe sua própria xícara de chá para o avião como se fosse a coisa mais natural do mundo.
“Ainda assim, a pessoa que vamos encontrar provavelmente é o membro mais problemático do grupo.”
…É verdade. Havia outro motivo para estarmos indo a Nova York e participando do conselho.
“O Vampiro, Scarlet” Murmurei. Siesta assentiu levemente.
“Você já o conhece, não é?”
“Não é exatamente alguém que eu queira rever…”
Mesmo entre os Tuners, o Vampiro era um herege. Eu sentira algo insondável em seus olhos afiados, como se ele avaliasse tudo ao seu redor. Além disso, ele havia deixado subentendido que existia alguma ligação entre ele e Siesta…
“Você está falando como se algo desagradável tivesse acontecido. Ele implicou com você?”
“…Ele só era meio sinistro. Mas deixa isso pra lá. Você realmente acha que o Scarlet sabe como despertar a Natsunagi?”
O Vampiro era a pessoa que Siesta dissera ser necessária para acordar Natsunagi. Depositando nossas esperanças nele, nós dois partimos rumo ao Conselho Federal, onde ele também estaria presente junto aos outros Tuners.
“Existe apenas uma possibilidade. Porém, apesar da aparência, ele é um especialista em vida e morte, então certamente tem opiniões próprias sobre a consciência humana.”
“…Entendo… eu acho.”
O Vampiro possuía uma técnica capaz de ressuscitar os mortos, embora seus revenantes só conseguissem agir seguindo os instintos mais fortes de suas vidas passadas. Ele provavelmente tinha, sim, uma compreensão profunda sobre vida, morte, consciência e alma humana, mas…
“Dá mesmo pra confiar em uma criatura fantástica como um vampiro?”
“Você é idiota, Kimi?”
“Você é muito injusta.” Já fazia um tempo desde a última vez que repetíamos esse tipo de troca.
“Vampiros não são seres fantasiosos como os descritos no folclore, e tampouco surgiram do nada.” Siesta tomou mais um gole de chá.
“Tudo acontece por uma razão. Sempre existe uma causa. Você não deve fechar os olhos para isso e se apoiar em palavras convenientes como ‘impossível’ ou ‘coincidência’.”
Enquanto ela dizia algo estranhamente familiar, seu perfil me lembrou da pessoa que eu mais queria encontrar naquele momento.
“Para começar, os vampiros se originaram….” Mas, no instante em que Siesta ia explicar, interrompeu a si mesma.
“Oh, falando nisso, você viu o horóscopo de hoje? Touro estava na pior colocação.”
“Ah, qual é… existe maneira mais desajeitada de mudar de assunto?”
E não me diga informações inúteis. Agora vou ficar desanimado o dia inteiro.
“Escuta, não esconda coisas importantes sem motivo, está bem? Diga logo o que eu preciso saber.”
“Bem, é divertido ver você se debatendo quando não sabe de nada.”
“Esse é o pior motivo possível.”
Dois detetives, doze juízes
Após um voo de doze horas, Siesta e eu chegamos a Nova York. Depois de deixar as malas no hotel, seguimos diretamente para o local do Conselho Federal.
“Tem até serviço de transporte. Estão realmente nos tratando como VIPs”, comentei com Siesta.
Estávamos no banco traseiro do carro preto que nos aguardava assim que saímos do hotel. Pelo fato de Siesta ter entrado sem hesitar, devia ser mesmo o nosso destino.
“Eles podem estar nos tratando como VIPs agora, mas talvez nem estejamos vivos dentro de algumas horas”, disse Siesta. Eu definitivamente não gostei de ouvir isso.
“A Detetive Ás não deveria ser a estrela do evento?”
“A subjugação da semente primordial levou muito mais tempo do que o previsto. Além disso, nós também nos desviamos do futuro que o Oráculo havia previsto.”
“…Entendi. Quer dizer que mudamos drasticamente o curso dos acontecimentos, e talvez nos responsabilizem por isso?”
No texto sagrado, o futuro original centrado na Semente terminava com Siesta sendo derrotada por Hel, que se tornava o receptáculo da Semente. Para evitar isso, Siesta havia me escolhido, a mim e à minha estranha habilidade de me meter em confusão, como seu assistente. Pouco a pouco, essa decisão alterou o futuro.
O caminho modificado foi o que vivemos no ano passado: Siesta e Hel se eliminaram mutuamente, a Semente perdeu seus dois candidatos a receptáculo, e apenas a personalidade principal de Hel, Natsunagi, sobreviveu.
O plano de Siesta era que eu, Natsunagi, Saikawa e Charlie derrotássemos a Semente. No entanto, eu também rejeitei esse final. Jurei trazer Siesta de volta à vida e, para isso, Natsunagi havia se sacrificado. Após incontáveis provações, conseguimos selar a semente primordial…
Agora que eu pensava nisso, tinha sido realmente imprudente. Como Tuners, não era de se admirar que a Srta. Fuubi tivesse perdido a paciência e que Mia tivesse chorado. Eu havia desestabilizado o mundo em nome de um desejo egoísta. Distorci o futuro, e agora Natsunagi…
“Você continua sendo fácil de ler”, disse Siesta, soltando um pequeno suspiro.
“Está tudo bem. A Nagisa vai acordar.” Ela sorriu suavemente.
“Talvez ela tenha caído em um sono profundo, achando que já cumpriu seu papel. Mas você sabe que isso não é verdade, não sabe? Nagisa Natsunagi não é uma detetive substituta. Nada disso. Ela não ocupa o lugar de ninguém. Ela é sua única parceira.”
Como se quisesse transmitir fisicamente os sentimentos por trás de suas palavras, Siesta apertou minha mão, manteve-a assim por alguns instantes e então a soltou.
“…Entendi. É, você tem razão.”
Natsunagi havia perdido suas memórias, esquecido como viver e sofrido por não saber quem era. No entanto, ela finalmente aceitara todo o seu passado, encontrara um rumo e descobrira quem realmente era. E agora iria dormir para sempre? Mesmo que Natsunagi aceitasse isso, eu não aceitava. Eu a mataria duas vezes: uma por mim e outra por Hel.
“Mas tenho uma correção a fazer.” Siesta pareceu confusa. Eu a encarei, mas desviei o olhar antes de falar:
“Você também é minha parceira.” Ela havia dito que Natsunagi era minha única parceira. Mas, para mim, Siesta também era….
“Entendo.” Assim como eu, Siesta virou o rosto para frente. Falamos sem nos olhar.
“Estamos quase chegando, Assistente.”
Ela não disse mais nada. No entanto, pelo fato de ter me chamado pelo meu cargo, percebi que nossa relação continuava exatamente como sempre fora.
Pouco depois, o carro parou lentamente. As portas traseiras se abriram, e eu desci logo após Siesta.
“Então é aqui…?”
Do outro lado de um jardim amplo, erguia-se um edifício grandioso, digno de um palácio. Era ali que o Conselho Federal se reuniria.
“É mesmo adequado realizar uma reunião ultrassecreta em um lugar tão chamativo assim?”
“Não tem problema. Civis nunca percebem este lugar.” Siesta caminhou em direção ao prédio.
“O quê, fica escondido atrás de uma barreira mágica ou algo assim?” Três passos atrás dela, entrei no amplo saguão principal do palácio.
“Doze Tuners no total… No momento, conheço cerca de metade deles.”
Enquanto subíamos uma longa escadaria, enumerei mentalmente os Tuners que já havia encontrado. Siesta, a Detetive Ás; a Srta. Fuubi, a Assassina; Scarlet, o Vampiro; e Mia Whitlock, a Oráculo. Além deles, Stephen Bluefield, o Inventor, que eu conhecera recentemente.
E ainda havia aquele de quem eu só ouvira falar: o Ladrão Fantasma, que roubara o texto sagrado de Mia e agora cumpria pena em algum lugar profundo no subsolo.
“Você também já se envolveu com outros Tuners”, comentou Siesta, lançando-me um breve olhar por cima do ombro.
“Como assim? Isso vai ser um daqueles golpes do tipo ‘Saikawa era, na verdade, a Idol, uma Tuner’?”
“Pelo fato de a Yui ser a única conhecida que você consegue mencionar, fica claro que você não tem muitos amigos.” Ei, cuide da sua vida. A Charlie também conta.
“Na verdade, é mais que você esteve envolvido sem perceber. Você vai conhecê-los logo depois disso”, explicou Siesta, optando por não se aprofundar no assunto naquele momento.
“Mais importante: talvez eu deva te avisar sobre alguns membros com quem você deve tomar cuidado.”
“Sim, seria ótimo me preparar psicologicamente. Depois de tantas surpresas capazes de causar ataques cardíacos ao longo daqueles três anos, eu agradecia o aviso.
“Certo. Os particularmente perigosos são o Mago e o Executor.”
Chegamos ao topo da escada e seguimos por um longo corredor coberto por um tapete vermelho. Siesta continuou:
“O Mago é uma velha com aparência de bruxa que quase nunca sai da floresta. Dizem que, certa vez, ela destruiu uma vila inteira usando uma arte secreta. Mas foi justamente esse poder que a tornou uma Tuner.”
“Então é possível se tornar um defensor da justiça mesmo tendo cometido crimes?”
Provavelmente decidiram que a arte secreta dela seria útil para proteger o mundo, mas…
“É uma questão difícil… Ainda assim, sob o ponto de vista do que se entende por ‘crime’, o Executor certamente matou mais pessoas do que qualquer outro Tuner.”
“Isso é bem perturbador. Os Tuners não são os guardiões do mundo?”
Como a Srta. Fuubi e Scarlet já haviam demonstrado, não dava para simplesmente chamá-los de “heróis” e encerrar o assunto.
“Depende de como você define ‘justiça’. Na verdade, a função do Executor é executar criminosos que não podem ser julgados no mundo exterior.”
“…Então ele é um ‘mal necessário’, hein?”
Era verdade que havia casos que a lei não conseguia resolver adequadamente. Pelo visto, o Executor era um anti-herói que limpava a sujeira nas sombras.
“Exatamente. Ele se esconde nas trevas, empunhando apenas uma enorme foice, com a qual ceifa criminosos. Em termos de habilidade de combate puro, ele se equipara à Assassina e até mesmo ao Vampiro.”
“O Mago e o Executor, é… Prefiro evitar me envolver em qualquer coisa desnecessária, Opa.” Não. Se eu disser mais alguma coisa, vou atrair desgraça.
Enquanto eu tapava a boca apressadamente, chegamos a um conjunto de portas maiores do que as demais.
“Ouça bem, Assistente.” Siesta me lançou um olhar sério.
“A partir daqui, não pense que o senso comum que funcionou até agora ainda vai se aplicar.”
É. Isso já estava bem claro pelo que ela havia dito e pelos Tuners que eu conhecera até então.
Trocamos um aceno de cabeça. Em seguida, ela empurrou as portas com ambas as mãos, e, na grande sala além delas, vimos…
“O que a Rill está tentando dizer é: por que a Detetive Ás pode fazer o que quiser, enquanto o resto de nós não pode?”
“Hã? Então você está com inveja dela e fazendo birra porque também quer tudo do seu jeito?”
Uma garota havia saltado em cima de uma longa mesa. Ela segurava uma bengala preta como se fosse uma arma… e lançava um olhar feroz para Fuubi Kase. A policial ruiva estava largada em uma cadeira, fumando um cigarro, e retribuía o olhar com a mesma intensidade.
A garota em cima da mesa parecia bem mais jovem do que a Maga, e a arma que segurava não se parecia em nada com a foice do Executor. Nesse caso, essa pirralha completamente sem noção era….
“Quem você acha que ela é?”, murmurou Siesta, confusa.
O quê, nem você sabe? Então ela realmente não era nem a Maga nem o Executor?
“Este é um local sagrado. Abaixe sua arma.”
Naquele instante, um calafrio me atingiu em cheio, fazendo meu estômago revirar. A sensação era como se uma mão invisível estivesse escavando minhas entranhas.
Siesta e eu, assim como as duas que discutiam, voltamos nossos olhares para a origem da voz. Um homem de meia-idade estava sentado em um estrado, no fundo da sala. Ele falou sem sequer piscar.
“Os protagonistas do dia chegaram. Muito bem, que o conselho tenha início.”
Lançando um último olhar fulminante à Srta. Fuubi, a garota sobre a mesa retornou ao seu assento.
“Vamos, Assistente.” Além de nós, havia seis heróis sentados à longa mesa.
O conselho que decidiria o futuro do mundo estava prestes a começar.
E assim o mundo girou
“Detetive Ás Siesta. Peço desculpas pelo atraso”, disse Siesta, inclinando a cabeça diante das pessoas sentadas à mesa longa.
“Você também, Kimi.” Segui o exemplo dela, espera, estávamos atrasados?
Sentamo-nos nas cadeiras mais próximas, lado a lado.
Alguns dos rostos entre os Tuners eram familiares; outros, naturalmente, eu nunca tinha visto antes. Infelizmente, mesmo sendo justamente aquele em quem depositávamos nossas esperanças, o Vampiro não parecia estar presente.
“Creio que ainda não nos conhecemos, Detetive Ás.”
A garota da bengala falou educadamente, mas seu tom e seus olhos eram claramente hostis. Ela encarava Siesta, sentada diretamente à sua frente. Apesar do traje chamativo, quase saído de um anime, sua expressão era fria e severa.
“Você violou as regras da Carta Federal um milhão de vezes, recebeu exceções, e para completar, literalmente voltou dos mortos… Afinal, o quanto você precisa que o mundo te ame? A Rill gostaria que você compartilhasse um pouco dessa sorte toda com ela.”
A garota que se apresentou como Rill apontou a bengala na mão direita para Siesta, que não reagiu. Eu não consegui responder rápido o suficiente; meus músculos se retesaram.
“Chega.”
Dito isso, todos ali eram veteranos experientes, pessoas que já haviam colocado a própria vida em risco para proteger o mundo. Talvez eu fosse normal demais para acompanhar, mas a Assassina ruiva já tinha sua arma apontada para a garota.
“Você não acabou de ser advertida para abaixar a arma, Reloaded?”
“Violar a Carta é crime capital, lembra? Qual é o problema?”
“Mesmo que seja, você não é quem aplica a punição”, retrucou Fuubi, ríspida.
“Fuubi. Você também não.”
O homem de terno sentado à cabeceira da mesa ordenou que Fuubi guardasse a arma. Pelo visto, suas palavras tinham o maior peso ali; tanto Fuubi quanto Reloaded obedeceram, relutantes, recolhendo suas armas.
Tive a impressão de já ter visto aquele rosto em algum lugar. O cabelo castanho estava penteado para trás, e seus olhos eram de um verde profundo. O terno caro lhe caía perfeitamente; ele parecia algum tipo de político…
“…Ah. Você é o Fritz Stewart?”, perguntei. O homem deixou cair a máscara fria e sorriu com o sorriso público de sempre.
“Mais uma vez, é um prazer conhecê-lo. Sou Fritz Stewart, prefeito da cidade de Nova York.” Sabia. Era o mesmo rosto que eu vira tantas vezes na televisão.
Quando Siesta e eu passamos um tempo neste país, Fritz Stewart já era um político de destaque. Ganhara apoio com sua personalidade moderada e um histórico sólido, e continuava sendo o prefeito em exercício de Nova York.
“Nunca imaginei que alguém como você fosse um Tuner.”
“Sim. Fui incumbido do papel de Revolucionário.” Revolucionário… Aquilo era um cargo entre os Tuners?
“Não posso entrar em detalhes, mas a missão do Revolucionário é inclinar levemente o mundo a partir das sombras. Pode não parecer, mas, assim como gangorras de crianças, os governos de todas as eras se sustentam em equilíbrios.”
Em nome da paz, o equilíbrio do mundo era mantido ou, às vezes, quebrado. Fritz Stewart não era uma femme fatale seduzindo reis e derrubando impérios, mas, como Revolucionário, provavelmente não limitava sua atuação a esta cidade. Nos bastidores, ele interferia na política e na economia ao redor do mundo.
“Crise global” nem sempre significava alienígenas ou habitantes de mundos paralelos. Pessoas que comandavam nações eram perfeitamente capazes de destruir o planeta.
“Fritz, você é o líder dos Tuners?”, arrisquei, com base no que tinha visto até então.
“Não, não. Sou apenas o moderador desta sessão específica.” Percebendo minha ignorância, Fritz explicou….
“Talvez você também não tenha sido informado de que nós, Tuners, somos uma organização sob controle direto da Federação Mizoev.”
“…É verdade. Minha parceira de trabalho não me conta nada se eu não perguntar. E quando pergunto, ela ainda assim não conta.”
Lancei um olhar para Siesta, mas, como sempre, ela fingiu que não tinha nada a ver com isso. Em algum momento, ela havia preparado chá-preto e agora o saboreava elegantemente sozinha.
“De qualquer forma, era algo que eu já esperava vagamente. Se algum país tomou a iniciativa de organizar os Tuners, só poderia ser os Estados Unidos, a Rússia, a China… Não havia muitas outras opções.”
Atualmente, existiam seis continentes: Eurásia, África, América do Norte, América do Sul, Austrália e Mizoev. Quando os continentes lutaram entre si pelos Registros Akáshicos durante a Terceira Guerra Mundial, nenhum país sofreu danos graves; ouvi dizer que isso se deveu ao ‘Domínio Silencioso’ da Federação Mizoev.
“Dito isso, a União da Federação inclui figuras importantes de vários países além de Mizoev, e é essa entidade que nos nomeia como Tuners.”
“Entre o nosso grupo, fui encarregado de moderar este conselho”, disse Fritz, concluindo a resposta à minha primeira pergunta. Ele já devia estar acostumado a exercer esse papel por causa de seu trabalho na política; do meu ponto de vista, era a pessoa certa para a função.
“Ainda assim, esta é a sua primeira vez participando de um Conselho Federal”, continuou Fritz, voltando a atenção para mim.
“É claro que todos aqui sabem quem você é, mas o inverso não é necessariamente verdadeiro. Antes de entrarmos no assunto principal, que tal nos apresentarmos?”
Ele havia acabado de mencionar algo realmente assustador de passagem. Por que todos os Tuners sabiam sobre mim? E por que todos estavam me observando?
“Você tem certeza de que é aceitável gastar tempo com um estranho?”, perguntei.
“Você e o Detetive Ás são os convidados de honra de hoje”, respondeu Fritz.
“Além disso, se obtiverem permissão prévia, todos os Tuners podem trazer um assistente ao Conselho Federal ou enviar um representante em seu lugar. Exatamente como ela fez.” O olhar de Fritz se voltou para a cadeira na diagonal oposta à minha.
“Pensando bem, nossas posições são parecidas, não é, Olivia?”
A mensageira do Oráculo não estava vestida como comissária de bordo naquele dia. Ela participava como assistente e representante de sua Tuner.
“Sim. Embora o Oráculo também esteja presente.” Ao dizer isso, Olivia abriu o laptop e o virou em minha direção, e ali…
“...O que você está fazendo?” Quase chamei Mia pelo nome, mas me contive para preservar sua privacidade. Ainda assim, a garota na tela, que era claramente Mia Whitlock, estava vestida com um traje de sacerdotisa xintoísta… e usava uma máscara de raposa.
“Ouvi dizer que era possível participar online. Bem moderno, não acha?”, disse Mia, justificando sua escolha. Nunca imaginei viver o dia em que pessoas reclusas estariam à frente do seu tempo.
“Mas eu não preciso disso”, acrescentou ela, retirando a máscara. Olivia e os outros Tuners a encararam, visivelmente surpresos.
Mia jamais havia revelado qualquer coisa sobre sua identidade, nem mesmo o rosto ou o nome. A menos que ela mesma explicasse, não havia como saber o que havia motivado essa mudança de atitude. Ainda assim, seus olhos brilhavam com uma determinação clara de se envolver com o mundo.
“Entendo. Então você já conhece o Oráculo. Imagino que eu devesse esperar por isso”, disse Fritz, observando-me com interesse.
“Você também o conhece, então?”
Seu olhar percorreu o Detetive Ás e a Assassina, até parar em um homem de terno escuro, sentado na extremidade da mesa.
“..................”
Mesmo estando em um ambiente fechado, o homem usava óculos escuros. Mantinha a postura impecável e não se movia um centímetro. Parecia quase um androide perfeitamente construído: semblante severo, absolutamente silencioso.
Eu não o conhecia pessoalmente. Mas já havia me envolvido com aquele tipo de gente muitas vezes.
“O Homem de Preto”, apresentou Fritz, referindo-se à sua posição, não ao nome.
“A organização deles, os Homens de Preto, foi nomeada coletivamente como um Tuner. Eles estão espalhados pelo mundo, atuando como uma espécie de faz-tudo.”
“...Ah, sim. Entendi”, respondi.
Quatro anos atrás, eles me fizeram contrabandear aquele mosquete pouco antes de eu conhecer Siesta, a dez mil metros de altitude. Depois disso, ajudaram-nos ocasionalmente em alguns trabalhos, sempre seguindo instruções dela. Após minha separação temporária de Siesta pela morte, cheguei a depender deles pessoalmente algumas vezes.
“Exatamente. Os Homens de Preto são o substituto de uma peça que desapareceu pouco antes da conclusão de um enorme quebra-cabeça. Eles são o lubrificante que faz engrenagens enferrujadas e paradas voltarem a girar. São os deuses surgidos da máquina que aparecem aos personagens de certa história para manter a trama coesa.”
Este mundo estava repleto de inconsistências, mas, ainda assim, as pessoas conseguiam viver sem sofrer dissonância cognitiva. Talvez isso se devesse a uma única bala disparada da escuridão, invisível e esquecida.
“Sou o próximo, então?”, perguntou outro indivíduo, que permanecera em silêncio até aquele momento.
Sentado na diagonal oposta a Fritz, estava um senhor idoso, de bigode branco, cartola de seda e um sorriso afável.
“Meu nome é Bruno. Meu trabalho é fornecer informações úteis aos demais, como Corretor de Informações.” Seu sorriso gentil era exatamente o que o Papai Noel teria, caso realmente existisse.
“Faz bastante tempo desde a última vez que nos vimos, Detetive Ás.”
“De fato. É bom vê-lo novamente, Bruno”, respondeu Siesta, inclinando a cabeça com uma reverência inesperada. Pelo visto, eram velhos conhecidos.
“Ele também ajudou você, Kimi, embora você não soubesse disso”, sussurrou Siesta em meu ouvido.
“Durante aqueles três anos?”
“Sim. Um terço daqueles incidentes não teria sido resolvido sem o conhecimento e as informações dele.”
Entendi. Então os Tuners de quem ela havia falado antes de chegarmos, aqueles com quem eu me envolvera sem saber, eram os Homens de Preto e o Corretor de Informações.
“Não existe idade obrigatória para aposentadoria entre os Tuners?”, cochichei para Siesta, mais por curiosidade.
“Não. E, Kimi, você costuma dizer coisas bem rudes sem nem piscar”, respondeu ela.
Era raro Siesta se irritar comigo por um motivo legítimo. Normalmente, ela era muito mais injusta.
“Ha-ha-ha!”, Bruno riu, claramente divertido. Ele havia ouvido meu comentário perfeitamente.
“Ora, isso não me incomoda. Sem dúvida, você estava apenas preocupado com a minha saúde.” Ele sorriu com gentileza.
Por outro lado, alguém que provavelmente era capaz de matar pessoas com um simples olhar me lançou um glare ameaçador.
“Escute bem, seu moleque insolente.” Sim, eu devia parecer um moleque para alguém da idade da Srta. Fuubi, pensei, mas não disse nada.
“Ele viveu dez vezes mais do que você e continua exercendo suas funções como Corretor de Informações. Não ouse desrespeitá-lo.”
…Dez vezes a minha idade? Então Bruno era… Não, mas ele aparentava ter cerca de setenta anos…
“Isso se deve a uma droga bastante especial”, explicou Bruno, alisando a barba.
“Ela não me tornou exatamente imortal, mas me permite viver um pouco mais do que o restante de vocês. É apenas isso: por ter vivido um pouco mais, acabei aprendendo algumas coisas.”
Em seguida, voltou seu olhar sereno para a Assassina e para o Detetive Ás.
“Vocês sempre enfrentam as crises do mundo de frente, na linha de frente, e eu os respeito por isso.”
Bruno então direcionou o olhar gentil para a Srta. Fuubi e, logo depois, para Siesta.
“Vamos prosseguir, então?”, disse Fritz. As apresentações finalmente avançaram até o sétimo Tuner. Este último era a criança problemática que havia discutido com a Srta. Fuubi quando entramos…
“Então finalmente podemos conversar.” Abandonando a expressão severa que mantivera até então, a garota Reloaded sorriu com certo orgulho, exibindo pequenas presas brancas. Jogando o cabelo laranja para trás, declarou:
“Kimihiko Kimizuka, você está na presença da grande Garota Mágica, Reloaded. Que tal se tornar o bichinho de estimação dela” Quer dizer, seu familiar?”
Por que todas as garotas que encontro são tão difíceis de lidar?
A balança da justiça
Com o fim das apresentações, as posições ocupadas pelos sete Tuners presentes ficaram claras: Fritz Stewart, o Revolucionário; Bruno, o Corretor de Informações; o Homem de Preto (nome desconhecido); Siesta, a Detetive Ás; a Srta. Fuubi, a Assassina; Mia Whitlock, o Oráculo. E….
“Hum, com licença? Por que só a Rill foi completamente ignorada?”
A garota de cabelo laranja vibrante ainda se referia a si mesma pelo apelido. Batendo com força na mesa, ela se levantou; o impacto derrubou sua bengala preta.
“Rill vai dizer mais uma vez, Kimihiko Kimizuka: seja o familiar dela.”
Essa era a sétima Tuner: Reloaded, a Garota Mágica. Ela devia ter mais ou menos a mesma idade que Siesta e eu, mas sua roupa parecia exatamente um traje de garota mágica saído de um anime.
Combinava perfeitamente com a expressão fofa que ela exibira por um breve instante momentos antes.
No entanto, nada do que ela havia dito ou feito até então tinha sido minimamente fofo. Presumi que “familiar” fosse um termo do universo das garotas mágicas e que, na prática, ela estivesse me mandando virar seu faz-tudo. Ou seja…
“...Duvido muito que isso traga algum benefício para mim.”
“Ah, não, isso não é verdade. Você deve estar cansado de ser o assistente da Detetive Ás. Ser o cachorrinho de uma garota mágica fofa com certeza seria mais divertido.”
“Você acabou de dizer ‘cachorrinho’. …E, além disso, por que eu?” Não precisei pensar muito: tinha certeza absoluta de que aquela era a primeira vez que encontrava essa garota. Então por que ela estava tentando me transformar em seu cachorro… ou melhor, em seu assistente?
“Não é óbvio? Kimihiko Kimizuka, você é deste mundo.”
“Desculpe, mas o meu assistente nunca será seu”, interrompeu Siesta.
Reloaded vinha provocando-a desde antes do início do conselho, e agora Siesta finalmente parecia disposta a aceitar o desafio. Ela não sacou sua arma, mas uma guerra fria começava a se formar sobre a mesa.
“O quê? Vai monopolizá-lo? Ninguém gosta de mulheres ciumentas, sabia?”
“Não se trata de emoções mesquinhas. É uma questão contratual.”
“Contrato? Depois de três ou quatro anos, eles geralmente são renovados.”
“Boa tentativa, mas não. O contrato é de vínculo vitalício. Ele não tem tempo para ser seu parceiro.” …Ao que tudo indicava, eu havia acabado envolvido em algum tipo de pacto misterioso com Siesta.
“Vínculo vitalício” significava que eu ficaria com ela até morrer? Que o resto da minha vida seria repleto de injustiças.
“....” É, isso eu devia recusar. Sem hesitar.
“Você está planejando trapacear sozinha?”, Reloaded atacou Siesta novamente.
“Se a Rill pudesse usar a Singularidade, ela faria seu trabalho com muito mais eficiência…”
“Reloaded, você sempre cumpre muito bem suas funções como Maga”, disse Fritz, tentando apaziguar a situação com um elogio.
“Eu já disse: Rill é uma Garota Mágica, não uma Maga. Ela fez o favor de se tornar uma Tuner, então você prometeu mudar o nome do cargo.” Reloaded apoiou o queixo nas mãos e lançou um olhar carrancudo para Fritz.
Ao que parecia, Reloaded havia assumido o cargo de Maga no lugar da velha senhora de quem Siesta me falara no caminho até ali.
Eu acabara de ouvir que não existia idade obrigatória para aposentadoria entre os Tuners, então por que a Maga anterior decidira se retirar? Mistérios e mais mistérios continuavam se acumulando, e ninguém , nem mesmo a Detetive Ás de semblante impecável ao meu lado, dava qualquer explicação.
“Muito bem. Vamos iniciar nossa discussão sobre o tema principal”, disse Fritz, com uma voz que parecia afundar diretamente em nossos estômagos.
Finalmente, iríamos ao que interessava. Eu tinha ouvido dizer que a pauta incluía um relatório sobre a subjugação da semente primordial, e, como esperado…
“Certo. Estamos atrasados, mas, mais uma vez, Daydream: graças a você, a crise da semente primordial chegou ao fim.” Virando-se para Siesta, Fritz a parabenizou por seu trabalho como Detetive Ás.
“A sociedade secreta SPES será erradicada em breve, incluindo seus colaboradores ao redor do mundo. Também foi decidido que a ilha remota que eles ocupavam ilegalmente se tornará território da Federação Mizoev. A crise da ‘semente primordial’ foi completamente resolvida. Excelente trabalho.”
Várias pessoas aplaudiram. Mia (na tela), Olivia, Fritz e Bruno parabenizaram Siesta pela conclusão de sua grande missão.
“Eu…” Mas o rosto de Siesta estava longe de parecer feliz.
Seis anos atrás, ela havia encontrado a semente primordial. Quatro anos atrás, partira comigo em uma jornada para enfrentar a SPES. Se somasse tudo o que perdera ao longo do caminho, era impossível que conseguisse sorrir naquele momento. Simplesmente não fazia parte de quem ela era.
“Ela não fez exatamente um trabalho digno de elogios.” A autoproclamada Garota Mágica lançou um olhar frio para Siesta, ainda com o queixo apoiado nas mãos.
“E vários outros Tuners quebraram as regras.” Ela ampliou seu ataque para além de Siesta. Eu já tinha uma boa ideia de quem ela estava falando.
“Fritz, você já sabe disso, não sabe? A Assassina e o Oráculo extrapolaram sua autoridade.”
…Eu sabia. Ela estava certa. As duas haviam ajudado a subjugar a Semente, mesmo que a missão tivesse sido atribuída a Siesta. Mia mostrara a ela o texto sagrado, embora apenas o Oráculo tivesse permissão para consultar aqueles livros. Após a morte de Siesta, a Srta. Fuubi ajudara Charlie e a mim a lutar contra a SPES.
Reloaded estava sugerindo que elas haviam violado a Carta Federal.
“……! A culpa não é do chefe”, disse a garota que aparecia na tela do computador.
“Eu agi por conta própria, então o chefe não tem…”
“Hã? E daí?”, retrucou alguém.
“Isso não refuta absolutamente nada, sabia?”
“…Olivia, como é que desliga essa tela de chamada?”, perguntou Mia.
Mia não estava acostumada a lutar, na verdade, tampouco estava acostumada a conversar com outras pessoas. Encolhendo-se sob a pressão do momento, ela tentou recuar de forma abatida. Era patético, mas ao mesmo tempo adorável.
“Deixe-me explicar.” Bruno, o Corretor de Informações, ergueu a mão direita enluvada.
“A verdade é que recebi anteriormente uma proposta da Assassina a respeito disso. De fato, a Carta Federal estabelece que um único Tuner deve lidar com cada crise global. No entanto…” Bruno bateu o chão com sua bengala.
“A Assassina perguntou se seria aceitável prestar auxílio a outro Tuner , desde que ela mesma estivesse com sua missão sob controle. Na realidade, isso também faz parte do meu dever, eu próprio auxilio outros Tuners . Compreendi muito bem o argumento dela.”
Em resposta às palavras de Bruno, todos os olhares se voltaram para a Srta. Fuubi.
Assim, ciente de que suas ações acabariam causando problemas algum dia, a Srta. Fuubi procurara o Corretor de Informações com antecedência. Afinal, ele era tanto o membro mais antigo quanto aquele com maior probabilidade de compreender o verdadeiro peso daquela função.

“Veja, quando um policial percebe que alguém está em perigo, é natural ajudar.”
Mesmo sob todos aqueles olhares, a Srta. Fuubi manteve a calma e a compostura, a ponto de ainda fazer piadas. Não só isso, como acrescentou.
“Bem, talvez isso seja informação demais para uma criancinha que está tão ocupada lidando com a própria missão que não consegue se dar ao luxo de pensar nos outros.” Ela fungou com desdém, claramente zombando de alguém em específico.
“Você está falando da Rill?”
“Oh? Então você sabia que era assim?”
“Hã?”
“Uhn?” …Srta. Fuubi, você realmente não leva jeito para lidar com pessoas.
“Entendo. Compreendo a situação.”
Por ora, sem alterar a expressão, Fritz aceitou as alegações da Srta. Fuubi e de Bruno.
“É verdade que a ameaça representada pela semente primordial estava em um nível raramente visto nos últimos anos. Devemos ser capazes de permitir algumas irregularidades.”
“Você é apenas um mediador. Não tem autoridade para tomar essa decisão.”
Incapaz de aceitar o veredito, Reloaded retrucou de forma ríspida.
“Correto. Caso seja necessário alterar oficialmente as regras, o Governo da Federação tomará a decisão final. Dito isso…” O tom de Fritz mudou novamente. “
Emiti esse julgamento considerando que, neste momento, nossa prioridade máxima deve ser o andamento tranquilo desta reunião. Há alguma objeção?”
Ele falou com uma voz que me gelou até os ossos, e senti uma dor fantasma atravessar meu coração. Apesar de sua postura arrogante até então, Reloaded estremeceu e, por fim, recuou.
“Então, parece que isso está resolvido.” A voz rouca de Bruno rompeu o silêncio; ele havia optado por ignorar a tensão no ar.
“Uma nova era exige novas regras e novos valores. Tenho orgulho dos jovens que não temem esse tipo de mudança… ou talvez este velho senil esteja apenas desesperado para acompanhar os tempos.” Enquanto falava, ele acariciou suavemente a bengala com a ponta dos dedos.
“Obrigada pela sua consideração.” A Srta. Fuubi inclinou a cabeça diante do Corretor de Informações. Assim como Siesta, ela parecia nutrir um respeito genuíno por Bruno.
“Ha, ha, ha. Afinal, foi um pedido vindo de uma garota adorável.”
“…Obrigada pela sua consideração.”
Após uma breve pausa, a Srta. Fuubi respondeu exatamente com a mesma frase de antes. De maneira incomum, ela parecia não saber como reagir, e quase deixei escapar uma risada. Por pouco.
“Muito bem, vamos discutir o assunto principal?” Os olhos frios de Fritz se voltaram para mim.
Ah, entendi. Foi nesse momento que a ficha caiu. O objetivo do conselho não era ouvir um simples relatório sobre a subjugação da semente primordial. Aquilo era…
“O futuro descrito no texto sagrado mudou. Qual é a sua opinião a respeito disso?”
O propósito da reunião era me denunciar por ter interferido no futuro que Mia havia profetizado e buscado, abrindo a nova Rota X.
“Ouvi dizer que Daydream deveria ter morrido. O próximo Detetive Ás seria aquele destinado a derrotar a semente primordial. Você rejeitou esse desfecho e distorceu a narrativa e, como resultado, Daydream retornou à vida. No entanto, perdemos Nagisa Natsunagi, a próxima candidata a Detetive Ás. Pelo menos, fui informado de que ela se encontra atualmente em coma.” Fritz me encarou, com uma sobrancelha arqueada.
“Foi isso que você realmente… Não, foi isso que Daydream queria?”
Ele estava falando comigo, e somente comigo. Aquilo era um interrogatório. Eu acreditava mesmo que Siesta teria desejado trocar a vida de Natsunagi pela própria? Não consegui responder. Eu sabia muito bem qual era a resposta.
“A Singularidade.”
Ao pronunciar aquela palavra, Fritz olhou diretamente para mim, e os olhares dos demais Tuners também se concentraram em mim.
“Quando uma era começa a passar por mudanças drásticas, ela inevitavelmente surge. Ela subverte o futuro previsto pelo Oráculo e transforma o caminho predeterminado do mundo. Um elemento irregular, esse é você” Declarou Fritz.
A Singularidade…. Algum tempo atrás, Scarlet havia mencionado esse termo uma vez. Também tive a sensação de que Mia dissera algo parecido, e de que me observava atentamente enquanto falava.
Uma entidade irregular, capaz de mudar o futuro e de colocar o mundo em movimento…. Esse era eu, Kimihiko Kimizuka.
Isso não tinha graça nenhuma. Não havia como algo tão absurdo ser verdade. Por dentro, afastei a ideia com uma risada incrédula, mas sinais sutis de presságios do meu passado começaram a surgir em minha mente.
Minha irritante tendência de me meter em confusão. Será que aquilo acontecia porque eu era a Singularidade, e minha própria natureza atraía problemas inesperados ao meu redor?
Pensando bem, Hel já havia me dito certa vez que minha predisposição era a de transformar as coisas e provocar incidentes, que eu era o centro do mundo. Sem mencionar o fato de que uma certa detetive ás me levara a dez mil metros de altitude porque precisava de mim para mudar um futuro desastroso.
E se eu assumisse que tudo aquilo tinha acontecido porque eu era essa tal “Singularidade”?
Era por isso que os incidentes surgiam ao meu redor, que eu atraía detetives e inimigos do mundo, e que até mesmo havia subvertido o futuro profetizado pelo Oráculo. A verdadeira razão pela qual eu conseguira realizar um tabu como ressuscitar os mortos era….
“Permita-me perguntar, Singularidade. De que forma você pretende se envolver com o mundo daqui em diante?”, questionou Fritz.
“É verdade que, desta vez, em parte graças à cooperação de outros Tuners , Daydream retornou à vida conforme você havia planejado. A eliminação da semente primordial também acabou sendo bem-sucedida, mas isso nem sempre será assim. Para mim, os resultados não são tudo.”
Permaneci em silêncio.
Mantendo os olhos fixos em mim, Fritz Stewart entrelaçou os dedos, apoiando os cotovelos sobre a mesa. A Srta. Fuubi e Mia também não conseguiram contestar. Mesmo que não dissessem abertamente que o que haviam feito fora errado, elas sabiam que não tinha sido correto.
Eu sabia disso melhor do que ninguém.
Eu havia deixado a Srta. Fuubi furiosa, feito Mia chorar e, ainda assim, convencera as duas. Eu as havia enganado. Sendo assim, cabia a mim dizer aquilo.
“Assistente?” Levantei-me abruptamente, e Siesta me encarou, surpresa.
Até então, eu havia dependido exclusivamente da detetive. Durante aqueles três anos, estive o tempo todo ao lado de Siesta.
Fui rápido demais em me apoiar nela, em acreditar que, enquanto ela estivesse ali, os casos seriam resolvidos e nossos desejos se tornariam realidade.
.…E paguei o preço por isso quando a perdi.
Incapaz de esquecê-la, passei um ano inteiro sem fazer absolutamente nada. Então, conheci uma nova detetive.
Não havia problema algum em Natsunagi viver a própria vida. Eu mesmo havia lhe dito isso. Ainda assim, no fim, pedi que ela continuasse sendo uma detetive. Mais uma vez, acabei confiando totalmente em alguém.
Durante aqueles três anos, aquele ano de apatia morna e estes últimos meses em que consegui me reerguer, estive sempre me agarrando a uma detetive, e sendo salvo por ela. Mas…
“Provavelmente já está na hora de trocarmos de lugar, não é?” Era por isso que eu estava ali, naquele momento.
Minhas pernas vinham tremendo estranhamente havia alguns minutos, mas resolvi não me preocupar. Devia ser apenas cansaço de ficar sentado por tanto tempo sem mudar de posição, não, era adrenalina. Eu estava tremendo por causa da adrenalina.
“Fritz, você está dizendo que foi um erro tentarmos trazer Siesta de volta à vida, certo?”
Olhei para o Revolucionário e, em seguida, deixei meu olhar percorrer os demais presentes.
Eu era apenas um cara comum, cercado por Tuners . Tecnicamente, era presunçoso até mesmo eu abrir a boca ali. O que, afinal, eu poderia dizer sob os olhares de todos aqueles heróis globais?
“Em termos simples, sim. É isso que estou dizendo”, respondeu Fritz pelo grupo, sem demonstrar qualquer hesitação.
Ele falava não com a face pública de um político, mas como o Revolucionário que puxava os fios do submundo. “Na rota original, o Detetive Ás teria sido sacrificado para salvar o mundo.”
Aquele representante dos guardiões do mundo havia determinado que a detetive deveria ter morrido.
Ao ouvir isso, minha mente ficou estranhamente calma. As regras dos Tuners , a história registrada no texto sagrado, o fato de eu ser ou não a Singularidade, nada disso importava. Havia apenas uma coisa que realmente interessava. Eu já sabia o que precisava dizer.
“Entendo. Então Siesta não deveria ter voltado à vida, é isso? Vocês realmente pensam assim? Se for o caso, deveriam abandonar esse trabalho agora mesmo.”
Quero dizer… se eles não conseguiam compreender algo tão simples assim… Pessoas desse tipo não estavam qualificadas para proteger o mundo.
“Perder Siesta é uma perda para toda a humanidade, para o mundo inteiro, para todo o universo.”
Desde o dia em que conheci a detetive a dez mil metros de altitude ela, não, as duas estenderam a mão para mim. Durante todo esse tempo, elas me salvaram. A partir de agora, porém, seria o contrário.
Não importava se eu era a Singularidade. Eu não me importava com o mundo. A única coisa da qual eu não podia abrir mão era…
Siesta, Natsunagi. Eu não permitiria que as detetives morressem.
“.…”
O silêncio se instalou. Na quietude, tudo o que eu conseguia ouvir era o bater do meu próprio coração. Dos sete Tuners , alguns me encaravam com hostilidade; outros exibiam sorrisos intrigados ou fitavam o vazio com indiferença.
Após um silêncio que pareceu interminável, cerca de trinta segundos, alguém falou:
“…Bem, essa é a sua opinião. Vamos deixar a decisão final para os superiores.”
“Você é idiota, Kimi?”
Incapaz de suportar o clima por mais tempo, voltei cabisbaixo ao meu lugar. Como esperado, Siesta me lançou um olhar frio e úmido. Pouco depois, soltou um longo suspiro.
“Ainda assim… obrigada.” Ela parecia um pouco confusa, mas trazia um leve sorriso no rosto.
“Acho que não posso fazer meu assistente se esforçar tanto assim e depois ficar calada.” Como se tomasse o meu lugar, Siesta se levantou.
“Naturalmente, estou preparada para assumir a responsabilidade por este incidente.” Percorrendo o rosto de todos na sala, ela falou com calma:
“Declaro aqui minha renúncia ao cargo de Tuner . Gostaria de nomear oficialmente Nagisa Natsunagi como a próxima Detetive Ás.”
A detetive, vazia.
Após o Conselho Federal, Siesta e eu fomos a uma cafeteria moderna próxima ao hotel para um jantar leve. Pedimos massas, scones e algumas outras coisas, e então começamos a planejar as consequências daquela reunião.
“O que foi aquilo, Siesta?”, perguntei, enquanto ela enrolava garfadas elegantes de macarrão.
“Você está falando sério sobre deixar o posto de Detetive Ás?”
Cerca de uma hora antes, no Conselho Federal, Siesta havia declarado sua saída do cargo e indicado Natsunagi como sucessora. Ainda assim, os outros Tuners , com exceção de Mia, pareciam completamente tranquilos com o anúncio.
“Oh, isso? Achei que você fosse perguntar sobre a Singularidade.” Como sempre impecável, Siesta limpou os lábios com um guardanapo.
“Se eu dissesse que não fiquei curioso, estaria mentindo… mas há algo que preciso priorizar agora.”
“Entendo. Achei que você fosse brigar comigo por não ter contado antes algo tão importante assim.”
Pelo jeito que falava, Siesta já sabia que eu era esse tipo de pessoa. Pelo menos por enquanto, porém, aquela informação era relativamente irrelevante para mim.
“Digamos que eu realmente tenha algum tipo de influência sobre o mundo. Isso não vai mudar o que eu faço.”
Passei a vida inteira com essa habilidade absurdamente inconveniente de me meter em confusões. A essa altura, dar outro nome a isso não mudaria nada na forma como eu pensava ou vivia. Havia apenas uma coisa que eu precisava fazer, um único desejo que eu queria ver realizado.
“…Entendo. Heh-heh. Você realmente cresceu, Kimi.” Parecendo satisfeita com alguma conclusão interna, Siesta retomou a refeição.
“E então?” insisti. “Estou perguntando por que você decidiu, de repente, deixar o cargo de Detetive Ás.”
Ela havia encerrado o assunto de forma vaga, com uma boa história, mas Siesta tinha um talento especial para suavizar, ou simplesmente omitir, os detalhes mais importantes.
“Minha missão como Detetive Ás era aniquilar a SPES. Nada além disso. Agora que cumpri esse objetivo, não vejo nada de estranho em renunciar ao cargo.”
“…Você não me disse que nasceu para ser detetive?”, perguntei, observando o copo próximo à minha mão. Na superfície da água, eu via meu próprio reflexo distorcido.
“Disse, sim. E é justamente por isso que, agora que derrotei meu inimigo mortal, vou voltar a ser apenas uma detetive comum. Só isso.” Observando-me, Siesta sorriu.
“A partir de agora, esta é a sua história.” Seu tom era gentil, mas a forma como falou não me deixou margem para contestação.
“Entendo…”
Ela estava certa. Mesmo que Siesta deixasse de enfrentar os inimigos do mundo, ainda continuaria lidando com os mistérios e as maldades escondidas no cotidiano. Ela podia ter abandonado o posto de Detetive Ás, mas isso não significava que desapareceria completamente da minha vida.
“Assistente?” Imediatamente, percebi que Siesta me observava atentamente.
“…Não, não é nada.” Eu havia decidido parar de depender das detetives para tudo e, ainda assim, estava assumindo naturalmente que Siesta continuaria ao meu lado. Aquilo me surpreendeu. Limpei a garganta antes de continuar.
“Então você está nomeando Natsunagi para assumir o cargo?”
“Isso mesmo. É graças à Nagisa que consigo me mover assim e que conseguimos derrotar a Seed. Tenho certeza de que ela será uma Detetive Ás melhor do que eu… Não, na verdade, Nagisa sempre foi mais adequada para esse papel. Ela me superou completamente.”
Siesta recostou-se na cadeira, como se estivesse admitindo derrota diante daquela versão de Alicia de Natsunagi que conhecêramos em Londres, um ano antes.
“Claro, isso supondo que ela ainda queira ser a Detetive Ás. Ela pode ter perdido o poder daquela semente e voltado a ser apenas uma garota comum.”
“…É. Só nos resta perguntar isso a ela.”
Trocamos um aceno de cabeça e, em seguida, revisamos nosso plano. Por mais que Siesta desejasse que Natsunagi assumisse o posto de Detetive Ás, nada aconteceria se ela não despertasse.
“É verdade. Não temos muito tempo, mas vamos acordar a Nagisa, com certeza.”
No Conselho Federal, haviam nos informado que a intenção de Siesta de renunciar seria comunicada oficialmente aos superiores sob a condição de que Nagisa Natsunagi fosse convocada ao conselho.
Em outras palavras, se Natsunagi não despertasse e não aceitasse herdar a vontade de Siesta, ela continuaria sendo a Detetive Ás.
“Mas não conseguimos ver Scarlet.”
Siesta planejava obter alguma pista com o vampiro sobre como acordar Natsunagi, mas, infelizmente, ele não aparecera.
“Talvez ainda fosse cedo demais. Ele deve ficar bem em ambientes fechados, mas….”
O vampiro só saía à noite. Assim como Seed, ele não se dava bem com a luz do sol.
“Ainda assim, apenas sete Tuners compareceram.”
Os ausentes foram o Vampiro, o Inventor, o Ladrão Fantasma que eu ainda nem tinha visto, e mais dois… Ah, um deles devia ser o Executor que Siesta havia mencionado.
“Na verdade, é incomum que mais da metade apareça. Tivemos sorte de conhecer a nova Turner , a Garota Mágica”, murmurou Siesta, umedecendo a garganta seca com um gole de chá.
Dizer isso depois de ter sido duramente criticada pela outra garota, era realmente imperturbável.
“Ela disse que assumiu o lugar do Mágico? Os cargos mudam assim tão facilmente?” Embora, nesse caso, talvez só tivessem alterado o nome da função.
“Oh, sim. Isso acontece com frequência. Já houve mais de doze cargos de Tuner antes, adaptados às respectivas eras. Se não me engano, houve tempos em que existiam posições como Exorcista e Mestre Espadachim.”
“Então há muita rotatividade.”
“É o que acontece quando se luta contra os inimigos do mundo”, respondeu Siesta, com um sorriso triste.
Eu estava falando apenas da mudança de cargos, mas Siesta provavelmente interpretara aquilo de outra forma. Novos Tuners surgiam regularmente porque os anteriores morriam em serviço.
“Aliás, pelo que ouvi, o Executor que eu conhecia também desapareceu no último ano.”
…Entendo. Então não era apenas que ele tivesse faltado ao conselho. Isso significava que outra pessoa já assumira o papel de Executor, ou que todo o cargo fora substituído por outro?
Durante aqueles três anos, enquanto Siesta lutava contra os inimigos do mundo, ela sabia o que acabaria acontecendo com ela um dia. Eu estive ao lado dela o tempo todo e nunca percebi sua determinação.
“Mais importante agora é pensarmos na Nagisa.” Como sempre, Siesta trouxe a conversa de volta ao ponto principal, como se tivesse lido meus pensamentos.
“Mencionei isso antes, mas acredito que a consciência dela tenha caído em um sono profundo.” Levando um dedo ao queixo, ela começou a refletir sobre o estado atual de Natsunagi.
“Ela acha que cumpriu seu papel. Quando aceitou isso, sentiu-se aliviada e adormeceu. Foi o que aconteceu comigo também”, disse ela, falando por experiência própria.
Siesta também havia deixado sua mente viver no coração de Natsunagi e entrado em sono profundo.
“…Hm? Então como você conseguiu naquela vez?”, perguntei.
“Que vez?”, Siesta inclinou levemente a cabeça.
“Você sabe. No cruzeiro de luxo. Quando eu estava lutando contra o Camaleão depois que ele perdeu o controle, você usou o corpo da Natsunagi e veio me ajudar, lembra?” Naquela ocasião, ao menos, Siesta despertara e correra até mim.
“…Isso aconteceu?”, perguntou ela.
“Ei, não tem como você bancar a desentendida agora.”
Por algum motivo, porém, Siesta desviou o olhar, visivelmente confusa.
“Ah, entendi.”
Foi então que uma possibilidade me ocorreu. Depois de tantos anos como assistente dela, eu também havia desenvolvido algumas habilidades dedutivas.
“Quer dizer que, como eu estava em sério perigo, você entrou em pânico e despertou porque não conseguiu simplesmente ficar parada sem fazer nada.”
“……”
“Em um nível inconsciente, você estava morta de preocupação comigo.”
“….” Siesta fazia o possível para manter a compostura, mas, ainda assim, suas sobrancelhas estremeceram levemente.
Quando me lembrei da forma como ela havia corrido até o local em um mecha quando fui sequestrado, aquilo não me pareceu nem um pouco fora de caráter. Em outras palavras.
“Siesta, você gosta tanto assim de mim, né?” Um ano depois, eu havia recebido a oportunidade de tê-la de volta.
“…. Você é idiota, Kimi?” Fui recompensado com a repreensão mais fraca que já ouvira da parte dela.
“……Haaah.” Siesta soltou um longo suspiro.
“Você acha mesmo apropriado ter conversas desse tipo comigo, Kimi? Se a Nagisa ouvisse isso, acho que ela ficaria muito irritada.” Ela me encarou com uma expressão bastante enojada.
Agora que eu havia me reunido com minha parceira depois de um ano afastados, ela parecia bem mais expressiva do que antes. Provavelmente porque passara aquele ano em constante contato com uma garota que sempre demonstrava emoções intensas. Pensando nisso, respondi:
“É… acho que ficaria mesmo.” Por isso….
“É por isso que eu quero que ela acorde logo e venha me dar uma bronca.” Esse era o meu único desejo naquele momento.
“…Kimi, suspeito que você goste demais da Nagisa.” Siesta esboçou um sorriso malicioso.
Não soube como responder àquela réplica imediata e, enquanto quebrava a cabeça….
“Ninguém se mexa!”
A voz de um homem e o som de um disparo ecoaram de repente por todo o café. Sem entender o que estava acontecendo, virei-me e vi vários homens mascarados apontando armas para funcionários e clientes.
Ao que tudo indicava, havíamos nos envolvido em mais um incidente. Francamente… que jeito de estragar o clima. Contendo um sorriso irônico, esperei pelas instruções da detetive.
“Assistente. Sério, você não pode fazer nada a respeito dessa sua predisposição?”
“É. Esse é, na verdade, o segundo maior desejo que tenho no momento.”
O nome do inimigo é Arsène
No dia seguinte.
Após recebermos uma convocação de certa pessoa, Siesta e eu fomos até o Departamento de Polícia de Nova York.
“E então, aproveitaram bem a noite passada?”
Fomos conduzidos a uma sala de recepção, onde uma policial estava sentada em um sofá como se fosse dona do lugar, com um cigarro na mão. Com uma fala que me lembrou um famoso RPG, Fuubi Kase sorriu de lado para mim e para Siesta.
“Não entendo o que você quer dizer com ‘aproveitar’”, respondi, fingindo inocência, enquanto me sentava no sofá em frente à Srta. Fuubi, ao lado de Siesta.
“Oh, você sabe. A mocinha aí parece com sono. Achei que talvez você a tivesse mantido acordada a noite toda.”
“…Essa detetive ás sempre parece sonolenta.”
Lancei um olhar para Siesta.
Ela esfregava os olhos, e não dava para saber se estava realmente ouvindo a conversa entre mim e a Srta. Fuubi. Pensando bem, ela parecia ter mais dificuldade do que o normal para acordar… mas juro que não fizemos nada na noite anterior. Nem deveria ser necessário esclarecer isso.
“Falando nisso, Srta. Fuubi, por que você está tão à vontade no NYPD?”
Uma policial japonesa comum ocupava a sala como se fosse a chefe e ainda fumava tranquilamente. E eu poderia jurar que ela havia dito que tinha parado de fumar.
“Oh, isso?” A Srta. Fuubi sorriu de maneira contida.
“Eu adoraria largar o vício agora mesmo, mas… achei que devia fumar a cota daquele cara também, por um tempo.”
Eu não esperava por essa. À maneira dela, era uma forma de prestar homenagem ao inimigo falecido.
“…E então? Você queria falar sobre o incidente de ontem?”, perguntei.
Referia-me aos homens mascarados que haviam atacado o café onde jantáramos na noite anterior. Infelizmente para eles, um dos clientes era a Detetive Ás. No fim, Siesta os subjugou antes mesmo que eu tivesse a chance de tentar fazer algo impressionante, e nós os entregamos à polícia.
Como havíamos, ao menos em parte, cumprido nossos objetivos, planejávamos voltar ao Japão naquele mesmo dia. No entanto, pouco antes da viagem, a Srta. Fuubi entrara em contato conosco a respeito do incidente, e foi assim que acabamos ali.
“Sim. Fizemos o pessoal que vocês trouxeram ontem confessar o motivo do ataque. E, sabe, eles disseram algo bem interessante.”
Tudo o que a Srta. Fuubi considerava “interessante” costumava dar dor de cabeça. Desanimado, preparei-me para ouvir.
“Eles disseram: ‘Libertem Arsène.’”
No instante em que Siesta ouviu aquilo, estremeceu. O sono de antes havia desaparecido completamente. Em seguida, levou um dedo ao queixo, com uma expressão sombria. Eu ainda não entendia o motivo. Arsène? Quem era esse?
“Ele é o Ladrão Fantasma.”
“…! O Ladrão Fantasma? Você não quer dizer…” Siesta assentiu.
“Isso mesmo. Um dos doze Tuners , o traidor, Ladrão Fantasma Arsène. Embora, pelo que me disseram, esse não seja seu verdadeiro nome.” Ela parecia dividida.
O traidor Ladrão Fantasma Arsène. A Oráculo, Mia Whitlock, já havia nos explicado antes a origem desse título.
O Ladrão Fantasma fizera algum tipo de acordo com Seed e roubara o texto sagrado de Mia. Os Tuners deveriam ser aliados da justiça, e aquilo fora uma traição descarada. Como resultado, ele fora aprisionado em uma prisão subterrânea.
“Pelo que me informaram, têm ocorrido atentados frequentes aqui em Nova York com o objetivo de libertá-lo. Aquele desgraçado do Fritz anda tendo dificuldade para lidar com todos eles.”
Soltando uma baforada de fumaça, a Srta. Fuubi mencionou o nome do Revolucionário que atuava como político.
“Não é só Nova York”, acrescentou a Srta. Fuubi.
“Estamos recebendo relatos esparsos de ocorrências semelhantes ao redor do mundo. O que você acha? Isso lhe soa familiar?” Os olhos afiados da Srta. Fuubi se voltaram para mim.
“Não me diga que… aquele sequestro de ônibus em Londres fazia parte disso?”, perguntei.
O incidente havia ocorrido cerca de três semanas antes, quando eu viajava de ônibus por Londres com Mia. Eu tinha quase certeza de que o homem armado exigira que a polícia “libertasse seu companheiro”. E, por “companheiro”, ele se referia ao Ladrão Fantasma Arsène.
“O Ladrão Fantasma tem tantos amigos assim?”, questionei. Companheiros dispostos a sequestrar ônibus ou se barricarem em prédios em Nova York, Londres e em várias partes do mundo para tentar resgatá-lo…
“Eu havia ouvido dizer que ele tinha muitos colaboradores”, respondeu Siesta.
“Mas duvido que….”
“Sim. As pessoas que estão trabalhando para libertá-lo definitivamente não são amigas dele”, concluiu a Srta. Fuubi, completando o raciocínio de Siesta.
“Elas não sabiam nada específico sobre o Ladrão Fantasma, além de seu nome falso, Arsène.”
A Srta. Fuubi parecia segura disso, o que significava que os homens provavelmente não estavam mentindo para proteger o Ladrão Fantasma. Se fosse assim…
“Você está dizendo que eles eram apenas peões descartáveis?”, perguntei.
“Isso… ou….” A Srta. Fuubi apagou o cigarro no cinzeiro, interrompendo-me.
“Arsène pode estar controlando essas pessoas como bem entende.”
Dar ordens a indivíduos ao redor do mundo, pessoas que ele jamais havia encontrado, para ajudá-lo a fugir da prisão.
“…Isso é mesmo possível?” Será que Arsène possuía alguma técnica que lhe permitia usar completos estranhos como marionetes?
“Não sei exatamente como ele faz isso. Mas…” A expressão de Siesta estava incomumente sombria.
“Ele é o Ladrão Fantasma. Pode roubar qualquer coisa, até corações e vontades humanas.”
“…!” Engoli em seco.
“Mas, se Arsène está planejando fugir da prisão, não poderíamos impedir isso de alguma forma?”
Eu havia sido informado de que ele estava preso em uma instalação subterrânea, em algum país desconhecido. Nesse caso, se tomássemos providências antes que ele fizesse novos movimentos.
“É. Teria sido ótimo se tivéssemos feito isso, mas…” A Srta. Fuubi respondeu no lugar de Siesta, soltando a fumaça em direção ao teto.
“De acordo com os superiores incompetentes, o Ladrão Fantasma Arsène já escapou.”
O alarme certamente soará três vezes
Depois de deixarmos a delegacia, imaginei que conversaríamos sobre o Ladrão Fantasma Arsène… ou pelo menos era isso que eu esperava. No entanto, Siesta contrariou completamente minhas expectativas.
“Esses dois lugares devem ser nossos.”
Siesta e eu nos acomodamos em duas poltronas de um teatro. Por algum motivo, estávamos na Broadway, prestes a assistir a um musical.
“Agora realmente não é hora para esse tipo de coisa.”
“Se apressar nem sempre ajuda a encontrar as respostas que buscamos”, declarou Siesta calmamente, olhando para o folheto em suas mãos. Devia haver alguma lógica por trás daquela decisão.
“Além disso, faz muito tempo desde a última vez que fizemos isso. Dois anos, não foi?”, perguntou, nostálgica. Já havíamos visitado aquele teatro antes, por sugestão dela.
“Da última vez, houve um ataque terrorista durante o espetáculo, então não conseguimos aproveitá-lo direito.”
“Então isso é uma revanche, é?”, comentei. “…Na verdade, parece que tudo o que fazemos é acabar envolvidos nesse tipo de confusão.”
“Na maioria das vezes, por sua causa, Kimi.”
Passamos o tempo antes de o pano subir trocando provocações leves. Já se tinham passado dois anos.
Naquela época, eu me lembrava de ter dito que compensaríamos isso depois. Porém, um ano mais tarde, percebi que era uma promessa que não poderíamos cumprir. Quem imaginaria que aquele momento chegaria agora…?
“E então?”, perguntou ela.
“No último ano, você amadureceu e se tornou um homem que combina com musicais e outros ambientes culturais sofisticados?”
“Bom, tenho dezoito anos, afinal”, respondi, desviando da pergunta direta.
“Situações formais não me deixam nervoso, e acompanhar mulheres é minha especialidade. No último ano, não só fui às compras e jantei com elas, como também passei férias em piscinas e cassinos. Até consigo convidá-las para bares.”
“…Entendo. Não que isso tenha qualquer relação comigo, caso você cresça e se dê bem com outras mulheres.”
Eu havia pisado claramente em algum tipo de mina terrestre. O humor de Siesta azedara visivelmente.
“Estou brincando”, tratei de corrigir.
“Todas essas mulheres eram a Natsunagi, a Saikawa ou a Charlie.”
Além disso, tudo aquilo havia acontecido apenas nos últimos meses. Desde a morte de Siesta até eu conhecer Natsunagi, minha vida se resumira a uma rotina morna e repetitiva.
“Mas é verdade que ganhei mais experiência em várias coisas”, acrescentei. Siesta me encarou, confusa.
“Bem, você sabe… Primeiro, vamos acordar a Natsunagi. Depois, quando tudo se acalmar….”
Enquanto conversávamos, sonhávamos com um dia em algum ponto distante do futuro.
“Quer ir a algum lugar comigo?”
“Sim, isso parece bom.” O sinal de abertura soou.
“Não há nada como um musical da Broadway apresentado na própria Broadway, não é?”
Três horas depois, enquanto caminhávamos de volta ao hotel, Siesta se espreguiçou. Suas mãos se ergueram em direção ao céu, onde a lua crescente brilhava ao longe.
“A parte mais engraçada foi quando os protagonistas começaram a se beijar e você ficou todo desconfortável.”
“Não aproveite o espetáculo de um jeito tão sem sentido. Assista ao show, não a mim.”
“Oh, então eu acertei?”, provocou ela.
“Estava tão escuro que eu não conseguia ver direito a sua expressão.” Isso foi um golpe baixo…
Os cantos dos lábios de Siesta se curvaram levemente para cima. Em seguida, ela deu três passos à minha frente.
“Mas nós deveríamos estar voltando ao Japão.”
“…É, estou preocupado com a Natsunagi.”
No fim das contas, não conseguimos encontrar Scarlet e, naquele momento, não tínhamos nenhuma pista sobre como despertar Natsunagi. Não havia mais motivo para continuar ali. Como Siesta havia dito, o melhor seria voltar ao Japão o quanto antes.
“....”
“Assistente?”Quando me dei conta, Siesta estava parada à minha frente, encarando meu rosto de perto.
“Você estava pensando no Ladrão Fantasma, não estava?”
…Essa detetive genial realmente percebia tudo. O que a Srta. Fuubi nos contara ainda não saía da minha cabeça.
“Sim”, admiti.
“Eu estava tentando entender como um prisioneiro conseguiu transformar pessoas ao redor do mundo em terroristas.”
Mesmo que o Ladrão Fantasma Arsène realmente tivesse um meio de controlar outras pessoas, como a Srta. Fuubi e Siesta sugeriram, parecia difícil fazer isso estando preso dentro de uma cela.
“É um bom ponto”, concordou Siesta.
“Se ele tivesse manipulado, por exemplo, um guarda da prisão, teria sido fácil fugir por conta própria. Não consigo imaginar por que ele faria isso com completos estranhos espalhados pelo mundo.”
Exatamente. A estratégia usada por Arsène parecia excessivamente indireta. Se seu único objetivo fosse escapar da prisão, certamente existiria um método muito mais eficiente. Havia uma grande contradição entre aquilo de que Arsène era capaz e os resultados concretos de suas ações. Esse parecia ser o maior mistério de todos.
“Você sabe mais alguma coisa sobre o Ladrão Fantasma, Siesta?”, perguntei. Até então, ela nunca se esforçara para me contar essas coisas.
Contudo, agora que eu conhecia os Tuners e estava mais próximo do lado obscuro do mundo, ela provavelmente não esconderia informações sem um bom motivo.
“Arsène sempre foi uma figura misteriosa. Nem mesmo eu sei muito sobre ele, além de suas habilidades como Ladrão Fantasma. No entanto, há uma coisa que eu sei…” Com essa introdução, Siesta me revelou uma nova informação.
“Quando Arsène rouba algo de alguém, essa pessoa nunca percebe.”
Segundo Siesta, ele recebera o título de Ladrão Fantasma justamente em reconhecimento a essas habilidades avassaladoras.
A vítima jamais notava que algo havia desaparecido, muito menos que tinha sido roubado. O antigo eu provavelmente teria duvidado disso; não teria acreditado.
No entanto, eu mesmo já havia esquecido a verdade sobre a morte de Siesta uma vez, por causa daquele pólen. Siesta também tivera roubadas as memórias de seu encontro com Natsunagi e Alicia.
Coisas perdidas dessa forma eram levadas para longe, além do horizonte, por ondas turvas e pixeladas, sem que seus donos sequer percebessem seu desaparecimento. Será que o Ladrão Fantasma Arsène conseguia roubar vontades e corações com a mesma destreza? E suas vítimas jamais saberiam que ele havia feito isso…
“Ainda assim…” Enquanto eu permanecia em silêncio, Siesta continuou.
“Você está tentando ativamente resolver esse incidente. Mesmo que antes ficasse tão contrariado sempre que eu trazia um trabalho… você cresceu.”Espreguiçando-se levemente, Siesta afagou minha cabeça.
“Fisicamente também, em algum momento.”Por algum motivo, o sorriso dela parecia solitário.
“…Para com isso.” Ergui a mão para afastá-la, mas meus arrependimentos passaram pela minha mente, e acabei abaixando o braço outra vez.
Como Siesta havia dito, não era obrigatório que fôssemos nós a resolver esse problema. Talvez a Srta. Fuubi tivesse nos envolvido esperando algo da Detetive Ás, mas, ainda assim, ninguém estava nos forçando. Mesmo assim, eu havia me intrometido nesse caso porque….
“Se eu pareço empolgado, é porque este trabalho é especial.”
“Especial?” Siesta bagunçou meu cabelo, confusa.
…Se ela não parasse logo, meu cabelo ficaria impossível de mostrar em público.
“Sim. De acordo com o que a Mia me contou, o Ladrão Fantasma pediu algo ao Seed como condição para roubar o texto sagrado. Se o que ele pediu foi uma das sementes, achei que isso poderia ser a chave para resolver o caso.”
Em outras palavras, imaginei que isso pudesse ser uma espécie de prorrogação da crise da semente primordial. Se fosse assim, a Detetive Ás e seu assistente também deveriam lidar com isso.
“....Entendo.” Parecendo satisfeita, Siesta retirou a mão da minha cabeça.
“Mesmo assim, não havia nada que pudessem ter feito antes de ele escapar?”, reclamei.
“Por que temos de correr atrás disso agora?” Murmurei, descontente, sobre os outros Tuners e o grupo acima deles.
“E eles não retiraram o título de Ladrão Fantasma de Arsène? Por quê? Se ele roubou o texto sagrado, não teria sido uma medida absurda.”
“Não sei muito sobre o que aconteceu ao longo do último ano, mas a seleção dos Tuners é, no fim das contas, decisão do alto escalão. Eles podem ter tido um motivo para permitir que Arsène continuasse sendo o Ladrão Fantasma e para prendê-lo em vez de matá-lo. Independentemente de essa ter sido ou não a escolha correta…” Siesta concluiu.
“Mas, sim.” Ela deu dois tapinhas leves no meu ombro.
“Agora você consegue enxergar as coisas sob múltiplas perspectivas. Continue desenvolvendo essa qualidade.”
“…Eu não ouvia esse elogio irritante havia bastante tempo.”
“E então…” Siesta fixou em mim seus olhos azuis e diretos.
“Quero que você permaneça ao lado da Nagisa e a apoie.”
Ao dizer isso, ela retirou a mão esquerda do meu ombro. Eu estava prestes a responder quando….
“Assistente, parece que chegou a hora.”
“Hora? …!” O beco estava escuro; o sol já havia se posto completamente.
Como se emergisse da própria escuridão, ou das sombras projetadas pelas luzes elétricas, o demônio branco apareceu.
Um dos doze escudos que protegem o mundo, o Vampiro, Scarlet.
Seus olhos dourados e cintilantes estavam fixos na pessoa ao meu lado, como se estivesse avaliando sua presa. Quando ele falou, vi sangue vermelho manchando seus dentes.
“Quanto tempo, Devaneio.”
Eu o havia encontrado pela primeira vez algumas semanas antes, no estacionamento subterrâneo de uma emissora de televisão. Desde então, tornara-se difícil dizer se éramos inimigos ou aliados.
“Finalmente nos encontramos”, disse Siesta. Com um leve sorriso, ela encarou o vampiro, que estava encostado na parede.
Ao que tudo indicava, ela havia ajustado nossa agenda justamente para que nos encontrássemos ali. O vampiro nunca aparecia do lado de fora enquanto o sol ainda estivesse no céu. Siesta não tinha ido ao musical apenas por diversão.
“Ha! Entendo, entendo. Você sentiu tanto a minha falta que voltou dos mortos, não é?”, disse Scarlet, assentindo para si mesmo com aparente satisfação.
“Que mulher admirável.”
“Hum, não. Eu vim vê-lo apenas porque, por acaso, tinha assuntos a tratar com você. Só isso”, respondeu Siesta.
“Não há necessidade de ficar constrangida. Afinal, você foi uma antiga candidata a noiva.”
“Scarlet, o que foi que você disse agora? ‘Noiva’? A Siesta? De quem?”, interrompi.
“Assistente, não complique ainda mais a conversa. E não saque sua arma por causa de algo assim.”
…Ela podia dizer isso, mas, pela maneira como Scarlet havia falado antes, era evidente que existia algum tipo de passado profundo entre os dois. Havia uma chance razoável de que ele tivesse alguma vantagem sobre Siesta e estivesse a chantageando, por exemplo. Se fosse esse o caso, como assistente dela, não deveria eu fazer alguma coisa?
“E nos encontramos novamente mais cedo do que eu esperava, humano”, disse Scarlet, voltando seus olhos para mim enquanto eu pensava.
“…É. Viemos tirar uma dúvida com você”, respondi. No momento, havia assuntos muito mais importantes a discutir com ele do que sua relação com Siesta. A detetive genial e eu trocamos um olhar e fomos direto ao ponto.
“Scarlet”, disse Siesta, dando meio passo à frente.
“Você sabe como devolver a consciência a um ser humano que não desperta?” Era por isso que ela havia decidido consultar o Vampiro depois do Inventor.
Como vampiro, Scarlet era capaz de ressuscitar os mortos. Aqueles que ele trazia de volta retornavam desprovidos de tudo, exceto do instinto mais forte que haviam desenvolvido em vida. Em outras palavras, acreditávamos que ele pudesse ser capaz de puxar à superfície os instintos ou a consciência humana. Siesta estava perguntando se ele sabia como acordar nossa amiga adormecida.
“Onde você acha que a alma humana reside?”, perguntou Scarlet, em vez de responder.
“No cérebro… ou aqui?” Seus olhos dourados desceram até o lado esquerdo do peito de Siesta.
Onde, afinal, estaria localizado o “coração” humano, ou a alma? Mesmo substituindo esses termos por “consciência”, ainda assim a filosofia, a psicologia, a medicina e outras ciências ofereceriam respostas diferentes. A filosofia dava mais peso ao pensamento. A psicologia enfatizava a sensação. A medicina distinguia estímulo e resposta. Existiam infinitas formas de interpretar a consciência humana.
No caso de Siesta, possivelmente devido aos efeitos da semente, sua consciência residia em seu coração físico. Já Hel, sendo a segunda personalidade de Natsunagi, provavelmente dormia em sua mente, como uma espécie de reserva. Sendo Natsunagi a personalidade principal, sua consciência também seria gerada pelo cérebro? Em termos científicos, talvez sim.
“….” Percebi então que Scarlet me observava, com um sorriso tênue e frio no rosto.
“O paradeiro da consciência humana… bem, nem eu mesmo sei a resposta”, disse ele, como se estivesse se exibindo. O quê? Você faz todo esse suspense e, no fim, também não sabe?
“Isso foi a maior perda de tempo do mundo…”, murmurei.
“E ainda age todo orgulhoso”, acrescentou Siesta, lançando a Scarlet um olhar de puro desgosto.
“Não há o que fazer”, respondeu ele.
“Os mortos-vivos que eu crio retornam com um instinto preservado por acaso. Não é algo que dependa da minha vontade.”
“Quer dizer que não acontece porque você quer?”
“Não. Assim como eu também não vivo desta forma por vontade própria.” A resposta de Scarlet era enigmática. Eu quis perguntar o que ele queria dizer com aquilo, mas sua silhueta bela e terrível me fez hesitar.
“A única coisa que posso afirmar é isto”, continuou ele.
“Mesmo que seja apenas um fio de cabelo ou um fragmento de dente, desde que eu tenha uma parte física da pessoa, o morto retorna. Nesse sentido, o instinto humano, ou a consciência, deve residir em cada fragmento do DNA.”
Quando terminou de falar, Scarlet já havia retomado sua expressão distante de sempre.
A consciência humana percorria todo o corpo, da ponta dos pés ao topo da cabeça, circulando como o sangue. Era como se uma vontade inesgotável habitasse os olhos que enxergam o amanhã, as mãos que empunham uma espada para proteger alguém, o coração que continua a bater mesmo após a morte.
“Bat morreu.” Lembrei-me então de um de nossos inimigos mortais e contei a Scarlet sobre ele.
Scarlet estivera com Bat na noite em que o conheci; ele dissera que seus interesses coincidiam. Uma coisa levou a outra, e Bat acabou ficando do nosso lado, meu e de Saikawa, em vez de apoiar Scarlet. Realizando uma ambição que nutrira por muito tempo, ele finalmente enfrentara Seed e caíra em batalha.
“Entendo”, murmurou Scarlet. Ele não parecia sentir nada em especial ao ouvir a notícia.
“Se você me trouxer um fragmento dele, posso ressuscitá-lo.”
Provavelmente não estava sendo cruel. Como vampiro, ele apenas fazia a sugestão de forma natural.
“Não, está tudo bem”, respondi. Nem precisei falar em nome dos mortos. Eu sabia muito bem que Bat nunca desejaria isso. Afinal…
“Ele já realizou o seu desejo.” Ele não precisava mais lutar. Eu queria que descansasse em paz.
“Entendo. Não compreendo isso completamente, mas, sem dúvida, é algo bom.” Scarlet olhou para o horizonte. O vento noturno brincava com seus cabelos prateados.
“Há mais uma coisa que quero lhe perguntar”, disse Siesta.
“Você sabe que tipo de acordo Arsène fez com Seed no passado?”
Esse era o segundo grande problema que tínhamos em mãos: o que Arsène havia recebido de Seed em troca do texto sagrado? Aquilo poderia ser a pista decisiva para desvendar o mistério por trás dessa cadeia de incidentes.
“Quem sabe?”, respondeu Scarlet, dando de ombros.
“Já faz uma eternidade que não participo daquele conselho enfadonho, então não sei absolutamente nada sobre esse tipo de coisa.” Mais uma vez, ele se recusava a nos dar a resposta que procurávamos.
“Além disso, as únicas coisas que realmente me interessam são os meus inimigos.” Ele se referia aos inimigos do mundo, como um Tuner ? Ou seria outra coisa?
“Scarlet, contra o que você está lutando?”, perguntou Siesta.
O vampiro não respondeu. Seus olhos dourados fitavam a lua distante, como se o brilho dela o ofuscasse.
“Ah, mas há uma coisa que eu precisava lhes contar”, disse Scarlet, como se tivesse acabado de se lembrar de algo. Voltou-se novamente para nós.
“Embora eu não tenha como saber nada sobre o Ladrão Fantasma, posso fornecer informações a respeito da semente primordial já falecida. Considere isso uma recompensa por tê-lo derrotado.” Seu sorriso era tão arrogante quanto sempre.
“Quando negociei com Seed, ele me perguntou se eu o ajudaria a extinguir o sol.”
Provavelmente era disso que Scarlet falara antes, a tal “frente unificada” que Seed havia proposto. Eu já havia perguntado que tipo de negociação eles tinham tido, mas, naquela ocasião, ele se esquivara da pergunta, fingindo não ouvir.
“Então era isso, hein?”, comentei. Sinceramente, quando descobrimos que a fraqueza de Seed era o sol, eu já suspeitava disso. Scarlet era tão vulnerável à luz solar quanto Seed; era justamente por isso que Seed havia tentado negociar com ele.
“Mas por que você recusou?”, perguntei.
“Para um vampiro, não parecia uma proposta tão ruim assim, não é?”
“Sim. Foi uma sugestão divertida, e confesso que considerei acompanhá-lo. No entanto…”, o olhar de Scarlet desviou-se de mim para Siesta.
“Isso significaria que minha antiga candidata a noiva não poderia mais tirar cochilos sob a luz do sol, e eu senti pena dela.” Sua expressão suavizou-se levemente.
“…Bom, se formos comparar o número de vezes que vimos o rosto da Siesta dormindo, então eu….”
“Assistente, não vejo sentido algum em competir com ele nesse assunto”, interrompeu Siesta. Eu não estava competindo; estava apenas constatando fatos.
De qualquer forma, naquele ponto já havíamos perguntado tudo o que precisávamos a Scarlet. Provavelmente não avançaríamos mais nem na questão da consciência de Natsunagi nem no mistério do Ladrão Fantasma. Pensando nisso, sinalizei para Siesta que era melhor irmos embora.
“Não há como saber o que o Ladrão Fantasma pode fazer. Tome cuidado você também”, disse Siesta a Scarlet, enquanto nos virávamos para partir.
“Você é muito atenciosa com seu marido”, murmurou ele, com evidente satisfação. Marido da Siesta é o quê? Dá vontade de socar esse cara.
“Mas é verdade que tem havido movimentos suspeitos ultimamente”, continuou Scarlet. Seus olhos dourados se estreitaram.
“Cerca de um mês atrás, recebi o cadáver de um certo homem. O remetente perguntou se eu o compraria por um milhão de dólares.”
Aquilo soava quase como tráfico de órgãos, embora a compra e venda de cadáveres humanos provavelmente tivesse um significado especial para um vampiro capaz de ressuscitar os mortos.
“Então o corpo não era de um humano comum?”, perguntei, captando o rumo da conversa.
“Correto. Eu não o comprei, mas, sem dúvida, aquele era um preço justo para o indivíduo em questão.” Em seguida, Scarlet nos contou quem era o homem morto que vira um mês antes.
“Era o cadáver de Fritz Stewart, o Revolucionário.”

As cortinas se abrem para a próxima história.
No dia seguinte, Siesta e eu estávamos em uma sala de um certo edifício. Já passava das quatro da tarde. Sentados lado a lado em um sofá destinado a visitantes, aguardávamos a chegada da pessoa com quem tínhamos um encontro marcado.
“Suas habilidades de dedução melhoraram”, comentou Siesta. Ela havia colocado para funcionar o conjunto de chá que trouxera consigo e saboreava tranquilamente uma xícara.
Depois de nos despedirmos de Scarlet na noite anterior, eu havia formulado uma hipótese sobre a sequência de incidentes envolvendo o Ladrão Fantasma. Assim que voltamos ao hotel, passei a noite inteira discutindo essa ideia com Siesta. Ao chegarmos a uma determinada conclusão, viemos visitar aquela pessoa para confirmar nossas respostas.
“Eu percebi ontem à noite, enquanto caminhávamos pela rua, que você havia crescido”, continuou ela.
“Quem diria que você era do tipo que evolui ainda mais em combate?” Siesta falava como se eu fosse o protagonista de um mangá de ação.
“Você amadureceu enquanto eu não estava olhando. Os dias em que eu trocava suas fraldas agora são apenas uma lembrança nostálgica.”
“Isso nunca aconteceu”, respondi de imediato.
“Se alguém aqui é um bebê, esse alguém é você. Afinal, até que horas você acha que dormiu hoje?”
Repetindo o que acontecera no dia anterior, Siesta não havia acordado pela manhã e dormira até o meio-dia. À noite, só conseguiu sair da cama depois que eu a sacudi várias vezes.
“De vez em quando não tem problema, certo?”, disse ela, dando de ombros com elegância, ignorando meu sarcasmo. O problema é que isso não acontece apenas “de vez em quando”.
“Além disso, a outra parte também está ocupada. Este foi o único horário disponível.”
“Bom, nós chegamos no horário combinado, mas ainda assim...”
No meio da conversa, a porta se abriu abruptamente, e alguém entrou sem bater. O gesto era natural: afinal, aquele homem era o dono do escritório.
“Fiz vocês esperarem?”
O nome dele era Fritz Stewart. Vestia um terno caro e exibia um sorriso profissional. Em vez de se sentar diante de nós, acomodou-se atrás de sua mesa, no fundo da sala. Não o víamos desde o Conselho Federal, dois dias antes.
“Peço desculpas. O trabalho se acumulou. Espero que não se importem se eu resolver algumas coisas enquanto conversamos.”
Fritz, prefeito da cidade de Nova York e também um Tuner, abriu o computador e começou a digitar com rapidez.
“Isso é por causa do acúmulo de incidentes?”, perguntei.
“...Sim, exatamente”, respondeu ele.
“Fuubi Kase me contou que vocês resolveram um deles recentemente.” Lançando-nos um rápido olhar, sorriu.
“Agradeço pela ajuda.”
Falávamos dos atentados que vinham ocorrendo na cidade com o objetivo de libertar o Ladrão Fantasma. Como prefeito, Fritz estava tendo grandes dificuldades para lidar com todos eles.
“Ela continua intrometida como sempre”, comentou ele com um sorriso torto, fazendo uma leve provocação a Fuubi.
Isso também fora mencionado no Conselho Federal: Fuubi havia ultrapassado os limites de sua função para ajudar a Detetive Ás e agora investigava o Ladrão Fantasma por conta própria.
“E então?”, perguntou Fritz, sem parar de rabiscar documentos. “Disseram-me que vocês fizeram uma descoberta sobre essa série de incidentes envolvendo o Ladrão Fantasma.” Era exatamente por isso que estávamos ali.
“Sim. Na verdade, nós sabemos onde ele está.”
No instante em que falei isso, a mão de Fritz parou. Ele ergueu o olhar, franzindo a testa, visivelmente confuso.
“Vocês já sabem onde está o Ladrão Fantasma que fugiu da prisão?”
“Ei, não subestime a Detetive Ás e seu assistente”, retruquei. …Embora tivéssemos chegado à resposta graças a uma pista dada por outro Tuner.
“Então diga”, pediu Fritz, fixando em nós seus olhos verde-esmeralda.
“Onde está o Ladrão Fantasma Arsene agora?”
“Aqui mesmo”, respondi, sem rodeios.
Siesta ergueu um pequeno espelho de mão. Nele se refletia um homem de olhar frio como gelo, algo que talvez nem ele próprio tivesse percebido.
“Eu sou o Ladrão Fantasma? Essa é uma piada interessante”, disse ele, desviando os olhos do reflexo e voltando a digitar.
“Eu me apresentei a vocês outro dia. Meu nome é Fritz, e meu cargo é o de Revolucionário.” Ele rejeitou nossa conclusão sem sequer nos encarar.
“Não, você não é Fritz Stewart”, disse Siesta, guardando o espelho.
“Afinal... Fritz Stewart está morto. Você, o Ladrão Fantasma, tomou o lugar do Revolucionário falecido.”
Fritz Stewart, o Revolucionário, estava morto. Scarlet nos contara isso na noite anterior. Então, quem era o homem que conhecêramos no Conselho dois dias antes?
O vampiro era uma figura à margem do mundo comum e raramente participava de Conselhos Federais; aparentemente, ele sequer sabia que havia um impostor em cena.
Ainda assim, uma coisa era certa: alguém assumira a identidade do Revolucionário e participara do Conselho.
“Suponhamos, então, hipoteticamente, que Fritz Stewart seja um impostor”, disse Fritz, ou melhor, o homem que se apresentava como tal, interrompendo completamente a digitação.
“Como podem ter certeza de que sua verdadeira identidade é a do Ladrão Fantasma?”
Era uma pergunta perfeitamente razoável. Se eu dissesse que era porque seria mais fácil para um Tuner tomar o lugar de outro, ninguém acreditaria. No entanto, havia um motivo claro pelo qual essa troca seria especialmente fácil para o Ladrão Fantasma.
“Porque o Ladrão Fantasma pode assumir a forma de Fritz usando uma semente.”
Essa era a minha suposição: a recompensa que Seed oferecera a Arsene em troca do roubo do texto sagrado. Em seguida, Arsene teria assumido a forma de Fritz, seu companheiro Tuner, e roubado o cargo de Revolucionário.
“Não apenas isso, como o fato de nenhum dos outros Tuners ter percebido a troca já é, por si só, uma prova.” Siesta apresentou mais um argumento para sustentar que o falso Fritz era, na verdade, Arsene.
“Você se fez passar por Fritz Stewart durante um mês inteiro. Participou do Conselho Federal, uma assembleia de Tuners, e ainda agiu audaciosamente como mediador. Mesmo assim, nenhum dos outros, eu inclusa, percebeu que o Revolucionário era um impostor. A única explicação possível é a sua habilidade transcendental como o Ladrão Fantasma.”
Siesta não estava sendo excessivamente confiante em suas próprias capacidades de observação, nem nas dos demais Tuners.
O grupo já havia lidado com inúmeras crises globais, e suas habilidades estavam mais do que à altura da tarefa. Ainda assim, nenhum deles suspeitara que a posição do Revolucionário havia sido roubada, justamente porque estavam lidando com o Ladrão Fantasma.
“Se Arsene rouba algo de alguém, essa pessoa jamais percebe.” Era exatamente como Siesta dissera na noite anterior.
“Entendo. E vocês perceberam porque você é a Singularidade, ou talvez isso seja uma explicação simplista demais.”O homem permanecia sentado à mesa. Com um leve sorriso contido, continuou:
“Então, por que vocês acham que eu precisei assumir a identidade de Fritz?” Seu tom era suave. Calmo, morno, agradável.
Aquela voz gentil me envolveu e, por um instante, nem percebi a mudança na maneira como ele falava. Era completamente diferente do tom frio que eu ouvira várias vezes no conselho. Aquela era sua voz verdadeira.
“Assistente.” Voltei à realidade como se um balão de água tivesse estourado sobre mim.
Minha parceira estava bem ao meu lado, e eu me lembrei do que precisava fazer. Certo: aquele homem acabara de confessar que era o Ladrão Fantasma Arsene… e, ainda assim, continuava tranquilamente tentando nos fazer explicar seu motivo para a troca.
“Ladrão Fantasma Arsene”, disse Siesta, embora o homem ainda mantivesse a aparência de Fritz.
“Você mudou de forma e assumiu a identidade de Fritz Stewart para usar a mídia e lavar o cérebro das pessoas ao redor do mundo.”
Talvez fosse apenas uma teoria. Contudo, era fato que Arsene possuía uma habilidade especial capaz de controlar pessoas. Sendo assim, não era um grande salto supor que ele tivesse tomado o lugar de Fritz justamente para espalhar sua voz pelo mundo e exercer esse poder em sua capacidade máxima.
“Entendo”, murmurou Arsene, num tom que soou quase como um suspiro. O silêncio se instalou.
“Permitam-me esclarecer apenas uma coisa, para evitar mal-entendidos.” Arsene foi quem rompeu o silêncio. Ele apoiou ambos os cotovelos sobre a mesa, unindo os dedos diante do queixo.
“Eu não tive absolutamente nenhuma participação na morte de Fritz Stewart. Ele apenas morreu em um momento conveniente, e eu tomei o seu lugar. Só isso.”
Sua voz soava como ondas suaves se espalhando, enquanto insistia que não estivera envolvido na morte do homem.
“Então, o que você quer?” Siesta levantou-se do assento e ficou diante dele. Desta vez, não estava perguntando por que o Ladrão Fantasma assumira o lugar do Revolucionário. Isso já havíamos deduzido corretamente.
“Fritz Stewart morreu há um mês, mas continuou aparecendo com regularidade na mídia. Isso significa que você deve ter escapado da prisão há pelo menos um mês e vivido como o Revolucionário desde então. Então… por quê?”, questionou ela.
“Você esteve livre todo esse tempo. Por que manipulou completos estranhos para tentarem libertá-lo?”
Essa era a pergunta que havíamos descartado como impossível na noite anterior. Se ele podia escapar quando quisesse, não fazia sentido escolher colaboradores fora da prisão.
No entanto, Arsene não apenas podia fugir a qualquer momento, como já estava livre havia um mês. Então por que fazer pessoas em Londres e Nova York tentarem libertá-lo da prisão sem motivo algum?
Em resposta a essa pergunta perfeitamente natural, Arsene disse:
“O fato de não haver sentido algum é, para mim, o maior sentido de todos.”
Sua resposta era incompreensível, como um paradoxo. Siesta e eu nos entreolhamos, confusos. Arsene nos observava.
“Vocês não entendem?”
“É um experimento. Até que ponto as pessoas são capazes de fazer coisas sem sentido algum apenas por ordens de outra pessoa?”
Era um experimento mental que parecia existir além dos limites da razão. Para Siesta, cujas ideias eram sustentadas por experiência concreta e lógica, aquilo era intolerável. O ladrão fantasma e a detetive: como lança e escudo, estavam em oposição desde tempos imemoriais, destinados a se enfrentar.
“Você acha mesmo que vamos permitir que continue esse experimento?”
Nessa relação, às vezes era a detetive quem partia para o ataque. Siesta, que se levantara junto comigo, apontou sua velha e conhecida espingarda para o inimigo.
“Fique tranquilo.” Ignorando completamente o cano apontado para si, Arsene continuou com voz despreocupada.
“O experimento acabou. Já coletei estatísticas suficientes. Tenho certeza de que elas me levarão à próxima etapa.”
“Escuta, não existe ‘próxima’”
“Além disso…”, Arsene se levantou, interrompendo-me.
“O que Seed me concedeu foi apenas um fragmento. É improvável que eu desenvolva efeitos colaterais indesejados, mas, em troca, sua função é limitada. Isso significa que, do jeito que está, não poderei manter esta forma. Terei de partir em breve.”
“…Um fragmento de semente? Você violou a Carta Federal e roubou o texto sagrado por causa disso?”
Por algum motivo, Arsene pareceu desapontado com a minha pergunta.
“Eu nunca permito que aqueles de quem roubo percebam o que lhes foi tomado, e ainda assim vocês sabem que roubei o texto sagrado e a semente primordial. Isso não lhes parece estranho?” Arsene nos repreendeu.
“Vocês mesmos acabaram de me dizer isso.”
Ele estava certo. Sabíamos que Arsene havia roubado o texto. Contudo, isso se devia ao fato de Siesta e Mia terem preparado o roubo com antecedência, o que tornava a situação menos estranha…
“Não me diga… você está afirmando que o texto sagrado não foi a única coisa que roubou naquele dia?”
Ainda mantendo Arsene sob a mira da arma, Siesta o interrogou, sem lhe dar espaço para escapar.
“…Entendo. Então você tinha outro objetivo?”
Siesta e Mia haviam percebido que Arsene planejava roubar o texto sagrado. Estavam em alerta máximo. Ainda assim, ele escapara por entre suas defesas e roubara outra coisa, sem que nenhuma das duas percebesse.
“Então, desde o início, o seu verdadeiro objetivo era…”
Os olhos azuis de Siesta se estreitaram. Finalmente, ela havia compreendido. Ela e Mia acreditavam estar usando Arsene, mas, na realidade, eram elas que estavam sendo usadas.
“Aceitar passivamente aquilo que me é devido não faz parte da minha natureza. Quando eu realmente quero algo, eu mesmo vou lá e roubo.” Em seguida, ele passou diretamente por nós.
“Você acha que pode escapar?” Copiando Siesta, apontei minha arma para o inimigo.
“Escapar? Nunca considerei ‘fugir’ de ninguém. Nem uma única vez.” Ouvi um clique inquietante bem ao lado do meu ouvido.
“Acontece apenas que ninguém jamais consegue me alcançar.”
Pelo canto do olho, vi armas negras e reluzentes. Homens haviam surgido do nada, e tanto eu quanto Siesta tínhamos canos apontados para a parte de trás de nossas cabeças. Não tivemos escolha senão levantar as mãos.
“…Você também está manipulando essas pessoas?” Pelo modo como estavam vestidos, pareciam funcionários da cidade. Arsene provavelmente os controlava com sua habilidade.
“Não.” Arsene interrompeu a caminhada por um instante.
“Todos eles estão me ajudando por vontade própria.” Deixando para trás aquela explicação absurda, ele seguiu em direção à porta.
“Tenho quase certeza de que você me ouviu antes.” Ainda assim, uma única garota o deteve. Homens de terno a mantinham sob a mira de armas, mas Siesta falou por cima do ombro, dirigindo-se ao inimigo que se afastava.
“Uma nova Ace Detective assumirá o meu lugar em breve. A paixão dela certamente irá capturá-lo algum dia. Nagisa Natsunagi jamais perderia para um inimigo que se aproveita do coração humano.” Em resposta à declaração de guerra da Ace Detective, o Ladrão Fantasma disse:
“Ficarei ansioso para roubar essa paixão.” Ele proferiu essa última frase com entusiasmo e, então, desapareceu.
Aqueles três anos deslumbrantes que passei com ela
Após nosso confronto com o Ladrão Fantasma, Siesta e eu fomos a um restaurante em vez de retornar diretamente ao hotel. Planejávamos realizar uma reunião de revisão sobre nossa falha em capturar Arsene durante o jantar, mas…
“Vá com calma, Siesta.”
Para onde ia toda aquela comida naquele corpo tão esguio? Siesta limpava prato após prato com modos impecáveis, porém a uma velocidade estonteante. Não havia tempo algum para falar sobre Arsene.
“Mas, veja bem, preciso comer enquanto posso.”
“O que foi esse ‘veja bem’? Você pode comer de novo quando quiser.”
Siesta não estava ouvindo. Já analisava o cardápio outra vez. Eu me sentia levemente exasperado… mas, ao mesmo tempo, aquilo também me parecia nostálgico.
Na época em que estávamos sempre juntos, comíamos assim o tempo todo, sentados à mesma mesa, discutindo casos, planejando trabalhos futuros ou simplesmente conversando sobre nada em especial… Enfim, talvez a imagem mais marcante daqueles três anos fosse justamente Siesta apreciando sua comida com alegria, exatamente como fazia agora.
“Pensando bem, qual é a sua comida favorita, Kimi?”, perguntou ela do nada, enquanto esperávamos o próximo pedido.
“Hã? O que foi isso? Está falando como se tivéssemos acabado de nos conhecer.”
“Não, é só que me ocorreu que nunca conversamos sobre coisas assim.”
Entendo. Pensando bem, ela tinha razão. Parecia que nunca havíamos falado sobre esse tipo de assunto ou abordado tópicos básicos; apenas trocávamos provocações.
“Na verdade, eu nem sei seu nome verdadeiro, sua idade ou de onde você vem.”
“Se você coloca desse jeito, eu praticamente nunca ouvi o que você realmente pensa, Kimi.”
Ela não estava errada. Mesmo sem essas perguntas, havíamos caminhado lado a lado e, às vezes, lutado costas com costas, compreendendo-nos mutuamente. Eu nunca havia parado para pensar se isso tinha sido certo ou errado.
“Basicamente, gosto de qualquer coisa que tenha um sabor profundo e marcante.”
Não era por isso que eu dissera aquilo, e talvez fosse meio tarde, mas respondi à pergunta de Siesta mesmo assim.
“Comidas de sabor profundo? Isso nem é uma categoria.”
“O ponto é que, desde que o sabor seja definido, já me satisfaz.”
Especialmente durante aqueles três anos, quase tudo o que eu comia era pizza ou algum tipo de junk food. Talvez fosse por isso. Minhas memórias mais fortes com Siesta pareciam ligadas àqueles sabores intensos.
“E você, Siesta?”
“Hmm, essa é difícil. Não tem nada de que eu não goste.”
Ao responder, Siesta interrompeu o movimento de levar o copo à boca. Pensando bem, sempre tive a impressão de que ela achava tudo delicioso. A única vez em que a vi fazer careta foi quando preparei aquele curry horrível… Talvez ela realmente não tivesse favoritos.
“Mas, se fosse a minha última refeição…”, disse Siesta, respondendo à minha pergunta com uma hipótese.
“Acho que eu gostaria de comê-la com a pessoa de quem mais gosto de estar perto.” Sorrindo de leve, deu uma resposta que não combinava exatamente com a pergunta original.
“…Comi demais.” Ainda vestido, desabei sobre a cama do hotel.
“Heh-heh. É, sua barriga está bem saliente.”
Siesta havia comido mais pratos do que eu, mas parecia que tudo simplesmente evaporara. Ela se sentou na cadeira perto da janela, com um sorriso tranquilo. Finalmente havíamos terminado nosso longo jantar e voltado ao hotel.
…Falando em “finalmente”, ainda havia mais uma coisa.
“Ainda assim, aquilo não foi nada parecido com você. Você nunca recua tão facilmente.”
Deitado na cama, encarando o teto, voltei a mencionar o incidente com Arsene. Algumas horas antes, cercados por aqueles homens naquele escritório, Siesta e eu havíamos acabado permitindo que o Ladrão Fantasma escapasse.
“Eu não sabia como Arsene havia feito aqueles homens obedecerem a ele. Eu não podia usar a força.”
…Ah, entendi. Se não tivéssemos recuado, não havia como saber que tipo de ordem ele teria dado a eles. Para garantir a segurança de todos ali presentes, ela precisara fingir que estava impotente.
“Além disso, mesmo que eu tenha perdido, a Ace Detective não perdeu”, afirmou Siesta com firmeza.
“Um dia, Nagisa certamente derrotará o Ladrão Fantasma.”
“…É. Agora temos mais um motivo para despertá-la.” Não havia como ela permitir que um inimigo que tramava controlar o coração das pessoas continuasse livre. Nagisa Natsunagi. Com aquela paixão, eu tinha certeza de que…
“Mas, no seu caso, Kimi, esse não é o maior motivo.” Ouvi o rangido da cama. Montada sobre mim, Siesta encarava meu rosto.
“Você só quer acordar Nagisa porque quer vê-la de novo.”
“…Não saia dizendo os pensamentos das pessoas em voz alta. Pelo menos pergunte antes.”
“Mas eu estou certa, não estou?”
O quarto estava na penumbra. A luz da lua que entrava pelas cortinas tornava o sorriso de Siesta ainda mais sedutor.
“…Não sei.” Eu sabia que não havia necessidade de despistá-la. Ainda assim, era constrangedor ser enxergado tão profundamente, e acabei desviando o olhar.
“Tsunderes masculinos não fazem sucesso, sabia?”
“Cuide da sua vida.” Mas, naquele dia, Siesta não pretendia ceder.
“Então me diga uma coisa de que você gosta nela.”
O que foi esse “então”, hein? Pensando bem, algo parecido já tinha acontecido cerca de três semanas atrás… Nesse caso, não seria justo eu não responder desta vez também.
“…A Natsunagi, né. Bem, você sabe… ela é, ah… fofa, não é?”
“….” Por que ela ficou muda? Será que eu deveria ter falado da personalidade primeiro ou algo assim?
“Ah, é só que ouvir a palavra ‘fofa’ saindo da sua boca me deu um arrepio desagradável.”
“Não vale.” Isso não é motivo para ficar arrepiada. Criei coragem e disse algo que normalmente não diria. Você podia ao menos me elogiar por isso, sabia?
“Heh-heh. Ainda assim, isso está ficando divertido.”
“Não me provoque só para se divertir. Seja lá o que for, está óbvio que não vai ser divertido para mim.”
“Bom, isso significa que, mesmo quando a Nagisa te chamava de nomes feios ou te ignorava, no fundo você pensava: ‘Minha parceira é fofa demais’, certo?”
“Pare de analisar isso com tanta calma! E eu não fiz essa cara de ‘cara legal’!” …Droga, Natsunagi. Por sua causa, estou passando vergonha aqui.
“Isso, exatamente isso. Era essa a expressão que eu quis dizer.”
“Já falei para parar de ler minha mente.”
E você também. Sai de cima de mim logo. Apontei para a cama ao lado da minha, indicando para Siesta se mover. Ainda bem que reservamos um quarto com duas camas.
“…Ah, você está interpretando esse gesto errado.” Por algum motivo, em vez de ir para a outra cama, a Ace Detective se deitou ao meu lado. Ela sempre foi tão lenta para entender assim?
“Oh, claro. Não tinha percebido.” Sei. Ela tinha feito aquilo de propósito, obviamente.
Falando num tom casual e monótono, Siesta observava meu perfil. Seu semblante suavizou.
“O que você quer?”, perguntei.
“Você não parava de falar da Nagisa, então eu fiquei com ciúmes… Isso serve?”
“Se você colocasse mais emoção nisso, eu talvez tivesse te abraçado do nada.”
“Você também não colocou emoção nenhuma nisso, Kimi.” Discutimos um pouco e, depois, rimos.
“Não mudamos nada, não é?”
“Não. Estamos exatamente como éramos um ano atrás.”
As luzes do quarto estavam apagadas. Na cama estreita, Siesta e eu nos encaramos.
“Bom, seu desejo por sono e comida já foi satisfeito, então, sendo sincero, estou preocupado que você venha atrás do último.”
“Eu já te disse que só tenho duas grandes motivações. E o que você quer dizer com ‘preocupado’?” Siesta estreitou os olhos, como se tivesse algo a reclamar.
“Você fala isso agora, mas não foi o que disse antes.”
“Quando?”
Já fazia um mês. Quando enfrentamos o Camaleão naquele cruzeiro, e Siesta havia emprestado o corpo da Natsunagi, ela me disse…
“Você falou: ‘Para dizer a verdade, talvez eu tenha dormido com você uma vez. Pelo menos considerei isso’.”
“….” Por um instante, Siesta pareceu culpada.
“…Bem, você disse que eu devia te contar isso mais cedo, não disse? Sinceramente, soou como se fosse você quem estivesse interessado.” Ela rebateu com uma resposta instantânea e impossível.
Naquela época, eu não fazia ideia de que teria a chance de te ver de novo assim.
“Então, se eu tivesse que dizer, pensei que talvez você não conseguisse controlar suas emoções ao me ver novamente depois de um ano e acabasse me abraçando ou algo do tipo.”
De alguma forma, tendo assumido a vantagem, Siesta me repreendeu.….
“Deixa de ser convencido.” Ela estava deitada ao meu lado, e me preparei para estalar a testa dela com o dedo.
“Bem, quer dizer…” De repente, a expressão de Siesta ficou solitária.
“Você se forçou demais por minha causa.” Ela tocou suavemente minha bochecha. …Ah. Então ela sabia sobre aquela semente, não é?
“Mesmo que a semente tenha sido extraída, ainda é possível que você sofra efeitos colaterais algum dia.” Era impressão minha, ou os olhos de Siesta estavam marejados?
“Você pode perder a capacidade de ver sua querida Nagisa ou de ouvir a Yui cantar. Pode perder a voz; pode não conseguir mais lutar com seu rival, Charlie. Ainda assim, você….”
“Eu não me importo”, respondi, abraçando-a com força.
“Eu sabia que não me importaria. Foi por isso que escolhi um futuro no qual você pudesse estar presente.”
Não importava o que eu perdesse por causa disso, eu só queria vê-la novamente.
“Desculpa. Eu acabei de dizer que não tinha mudado, mas aprendi a ser honesto sobre esse tipo de coisa.” Eu havia falhado duas vezes antes, e me arrependi das duas.
“…Você é idiota, Kimi?”, ouvi a voz fraca de Siesta perto do meu peito.
“Isso quase soa como se você…”
Mas ela não concluiu a frase. Apenas se remexeu um pouco em meus braços… e então soltou um grande suspiro.
“Suspeito que alguém ainda vá te esfaquear um dia.”
“De onde isso saiu?” Mesmo que eu seja um ímã para confusão, definitivamente não quero me meter nesse tipo de problema.
“Escuta.” Siesta ergueu o rosto de dentro do meu abraço. Não havia mais tristeza em sua expressão.
“Pensando bem, eu não te perguntei isso da última vez. Acho que agora você provavelmente me responderia.” Com essa introdução, Siesta perguntou:
“O que você achou daqueles três anos?”
Aquilo era outra coisa que havia acontecido no navio de cruzeiro, um mês atrás. Enquanto me protegia dos ataques do inimigo, Siesta havia me dito:
“Aqueles três anos inesquecíveis que passei com você são as melhores lembranças que tenho.”
Na época, eu não havia conseguido responder. Mas agora que ela perguntava novamente, eu tinha a chance de dizer. Sendo assim…
“Você ainda precisa perguntar?”
Sabendo que estava escuro demais para que ela visse direito, abri o maior sorriso que consegui.
“Eu me diverti tanto que chega a ser frustrante.” Ao ouvir isso, Siesta murmurou:
“Entendo.” Ela soou um pouco aliviada. Então passou os braços ao meu redor, retribuindo o abraço.
“Obrigada.” Sim. Era isso mesmo.
Essa havia sido a promessa que fizemos um ano antes: se sobrevivêssemos e nos reencontrássemos, eu aceitaria aquele abraço.
Agora, um ano depois, esse desejo havia se tornado realidade.
“O que significa esse ‘obrigada’?”, brinquei, como sempre.
Mas, enquanto eu dizia isso, o calor de Siesta me envolvia. Minhas pálpebras ficaram pesadas, e eu não resisti. Afundei em um sono profundo.
Na manhã seguinte… Quando acordei, estava sozinho.
Traduzido por Moonlight Valley
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