LNCrawler

Capítulo Único.

Um Meio-Amargo Que A Agrade — www.spiritfanfiction.com · All chapters

Capítulo Único.

A primeira vez que a olhei com mais atenção foi quando descobri que Asuka Langley trabalhava na esquina de casa. Isto é, a mesma Asuka que era minha colega de classe, extrovertida e altamente explosiva. A mesma Asuka que brigava com os garotos idiotas que davam em cima dela e da representante de turma. A mesma Asuka que sempre pegava no pé do meu irmão por ser tão lerdo com as garotas que gostavam dele. A mesma Asuka rodeada por pessoas por ser tão cativante, sincera e sem papa alguma na língua. Essa mesma Asuka trabalhava como caixa no mercado onde minha mãe dizia sempre ter bons preços, pães quentes e bananas quase maduras. Admito que não esperava por essa situação inusitada, mas, independentemente do que eu esperava ou não daquele mercadinho monótono, lá estava ela! Com um sorriso tão amigável e carismático para as senhorinhas que compravam verduras, que assustaria qualquer pessoa que conhecesse a garota brigava que ela era na sala de aula.

Anos depois, soube através de Asuka que aquele nosso encontro teve sabor de baunilha e que esse tornou-se seu sabor predileto desde então. Ela diz que é por conta da minha voz e do meu cheiro, mas não consigo não atribuir essa conclusão à minha pele alva que sempre sai queimada quando passo mais de trinta minutos no sol.

De qualquer forma, peguei todos os itens solicitados por minha mãe e fui ao caixa. Porém não entendi quando ela fez uma careta de quem chupou limão e virou o rosto contra o chocolate que decidi comprar com o troco das compras. Ela passou o doce pelo escaneador com a cara virada, evitando olhá-lo.

“Algum problema?”

“Esse chocolate.” Tossiu, como se tentando tirar um sabor indesejado de sua garganta. “O cheiro é muito azedo.” Com uma careta confusa, respirei fundo e não senti nada. Ela riu, negando com a cabeça. “Esquece isso... Rei, né?” Foi estranho sentir meu rosto arder quando ela sorriu para mim.

“Isso... Até mais.” Peguei rápido meu chocolate e fui embora, pensando que minha colega de classe era maluca — e Shinji apoiou minha conclusão quando comentei o ocorrido na mesa de jantar. Mas minha mãe, sempre uma perfeita defensora de tudo e todos, nos repreendeu.

“Não falem assim da filha dos Langley. Ela tem uma condição que se chama sinestesia.” Shinji perguntou o que era e minha mãe pensou por alguns segundos antes de responder como uma professora de videoaula. “ É uma confusão neurológica que provoca a percepção de vários sentidos de uma só vez. Essa condição não é considerada uma doença mental, e sim uma forma diferente que o cérebro tem de interpretar os sinais”, ela explicou perfeitamente, mas suspirou vendo a confusão de Shinji. “Rei?”

“Ela vê barulhos, e coisas assim”, resumi, voltando a comer a macarronada da minha mãe, imaginando que cores aquele sabor poderia trazer a Asuka, e me perguntando como foi para ela descobrir que os seus sentidos não eram como os das outras pessoas.

Perguntei isso a ela anos depois. Tinha quinze anos e estava em uma festa quando tocou ' Why'd You Only Call Me When You're High' e ela disse para uma pessoa ao lado dela: “Não é interessante como todas as cores ficam muito secas e amargas ao mesmo tempo no refrão?”

Shinji, de repente, diss: “Ah, então vocês são opostas”, e pude imaginar a bronca de olhares que minha mãe deu nele pelo comentário indelicado, mas não olhei para confirmar. Estava concentrada demais, imaginando os cheiros, as cores e os sabores para Asuka em relação ao meu chocolate. Perguntei-me qual seria o sabor ideal para agradá-la em todos os sentidos.

“Desculpa, Rei”, Shinji disse baixinho.

“ Não tem problema”, disse e fiz sinal de não se importar com aquilo, pois eu sabia que não havia maldade em meu irmão — ele só era sem-noção, mesmo.

Shinji nunca lidou bem com minha condição, mas estava melhorando nos detalhes, como, por exemplo, não se decepcionar com minhas reações vazias. Não o culpo pelas expectativas quebradas quando não reagi como ele esperava nas festas surpresas, pois não deve ser fácil conviver com alguém diagnosticado com alexitimia. Mas como minha mãe sempre diz: "Qu em ama, aprende" , e Shinji estava aprendendo.

Eu cresci em um vácuo emocional por conta da minha condição, que bloqueia as emoções no córtex cerebral, e, por isso, me tornei a criança que afastava todas as outras quando estavam brincando. Não é agradável ser excluída de um grupo de crianças, mas o que eu iria fazer? Ficar brava? Chorar? Eu nem conseguia fazer essas coisas. Então eu me conformava e sentava em uma cadeira afastada, penteando os cabelos de minha boneca.

Gostaria de dizer que ficava chateada, mas não consigo.

Já cheguei a ser admirada quando entrei no banheiro que todos na escola diziam ser amaldiçoado, e também porque eu não demonstrava medo na fila do dentista. Mas a minha real apoteose veio durante o ensino-médio, quando todas as pessoas desabafavam comigo e eu dava conselhos, e então todas elas diziam que me invejavam e que queriam não sofrer com amores, perdas e frustrações, igual a mim.

Naquela época eu não entendia esse desejo deles, pois é extremamente difícil viver sem emoções. Eu não conseguia ser feliz ou ter empatia pelas pessoas, e era angustiante não ser capaz de compartilhar meus segredos e passar tempo com alguém em um cinema ou parque; era difícil fazer isso até com meu irmão.

Eu era uma conselheira, mas não uma amiga.

E, por conta de tudo isso, fiquei mais uma vez surpresa por estar pensando em qual chocolate que agradaria Asuka e todos os seus sentidos embaralhados.

“Ah, oi!” Ela sorriu quando eu apareci no caixa dela no dia seguinte, com uma nota de vinte e diferentes tipos de chocolate com cacau concentrado.

“Oi." A estranha ardência veio mais uma vez, mas a ignorei, entregando os chocolates para ela.

Ela respirou fundo, pegando os chocolates e passando-os. Encarei Asuka, esperando por alguma reação, mas ela apenas segurava as caretas e passava os produtos cada vez mais devagar até que levantou sua mão para o caixa ao lado.

“Kaworu! Pode assumir?” O rapaz albino veio ocupar seu caixa enquanto ela sumia apressada pelos corredores, com uma mão tampando sua boca, parecendo dar pequenos espasmos a cada metro que corria. Meses depois, descobri que aquele chocolate era extremamente rosa e amarelo ao ponto de causar náuseas nela.

“ O que houve?” Juro que tentei soar preocupada, mas senti minha voz indiferente, quase arrogante.

“Ah, ela deve ter tido um enjoo. Tem bastante cacau aqui.” O tal Kaworu era gentil, mas eu não o respondi. Peguei meus chocolates, paguei e fui embora, tentando entender no caminho de casa o porquê de tanta rapidez no meu coração e a razão de meu estômago estar doendo tanto.

Li naquela noite que é assim que o corpo humano responde à raiva.

Raiva?

Raiva de ter feito mal para Asuka enquanto eu só queria encontrar algo que a agradasse. Meu corpo tremeu o resto da noite e eu precisei de semanas para sair do meu quarto novamente, temendo que eu tivesse mais um acesso estranho de batidas fortes em meu peito.

“Nem tão doce e nem tão amargo”, pensei durante semanas.

Quando coloquei um único chocolate meio-amargo no caixa, não tirei os olhos de Asuka, esperando por sua reação.

“E aí! Já faz um tempo, ein?” O ardor estranho veio. Respirei fundo.

“Sim, já faz um tempo... Como vai?” Eu torcia para Asuka não se importar com a indiferença da minha voz quando perguntei como ela ia, pois até meu estômago doeu com aquilo.

“Vou bem, vou bem.” Ela sorriu, pegando meu chocolate e passando-o. “Mais alguma coisa?”

Como assim ‘mais alguma coisa’?

“O que achou?” Minhas mãos tremeram.

“ O quê?”

“O chocolate meio-amargo. O que achou?”

“Ele...” Sorriu constrangida, como uma boa funcionária confusa que só quer agradar a clientela. “Parece uma boa escolha”

“Não, boba.” O albino do caixa de trás chamou nossa atenção. Ele sorriu sugestivo para Asuka. “Ela quer saber o que você sente com o chocolate!"

“ Ah...” Vi nela um rubor parecido com o meu. “ Ele... Ele é morno, bem macio e tem gosto de baunilha.”

“Isso é bom?”

Ela assentiu com um sorriso surgindo.

“Baunilha virou meu sabor preferido há umas semanas atrás. Então para mim é ótimo.”

Sem perceber, eu estava sorrindo naturalmente por causa dela.

“ Então vou levar."